CAPÍTULO III – METODOLOGIA EMPÍRICA
5. Programa de intervenção : ‘Educar para os afetos’ (PIEA)
Com a pretensão de elaborar e aplicar o PIEA seguimos a metodologia da investigação- ação, que nos permitiu por um lado indagar a própria prática pedagógica, o seu entendimento e reflexão no contexto das atividades constantes do Programa e em sala de aula do 1.º CEB.
Coutinho et al. (2009, p. 360) defendem que
A investigação-ação é um estudo de uma situação social que
tem como objetivo melhorar a qualidade de ação dentro da mesma.” Segundo os mesmos autores, “a investigação – ação é um processo em que os participantes analisam as suas próprias práticas educativas de uma forma sistemática e aprofundada usando técnicas de investigação.
Para Quivy e Campenhoudt (1992,159) “cada investigação é um caso único que o investigador só pode resolver recorrendo à sua própria reflexão e ao seu bom senso”.
Por conseguinte, ao especificarmos as perguntas e/ou objetivos da investigação, que nos propusemos desenvolver, pretendemos implementar um Plano de Intervenção para que os professores atuem nessas situações/atos de afetos, fundamentalmente em contexto de sala de aula. Foi perante esta situação/problema da “importância da afetividade em sala de aula”, que optámos pela investigação-ação, que segundo Ernesto C. Martins (1996, p. 61-62):
A investigação na ação abandona o mensurável e o observável pretendendo melhorar a realidade social e a educação, enquanto atividade humana. Efetivamente, ela não se opõe à objetividade e à verificabilidade do positivismo lógico, mas salienta os aspetos humanos específicos no mundo educativo e social.
Por isso, a investigação ação incidirá sobre a maneira de pensar da turma do 1ºCEB, no contexto de sala de aula. A modalidade de investigação do paradigma sociocrítico, no nosso entender, é a que melhor se enquadra neste tipo de estudo, uma vez que, considera o processo de investigação em espiral (planificação, ação, observação e reflexão), interativo e focado num problema (Kemmis & McTaggart, 2008). A investigação-ação diferencia-se de outros tipos de metodologias, identificando-se, devido à sua necessidade de dar resolução a problemas reais (Simões, 1990). Algumas das suas caraterísticas são: investigação participativa e investigação colaborativa (implica todos os intervenientes no processo); investigação prática e interventiva (não descreve somente a realidade, intervém nela); investigação cíclica (envolve uma espiral de ciclos); investigação crítica; investigação
(auto) - avaliativa (as modificações são continuamente avaliadas) (Esteves, 2008, p. 86-101).
Por este motivo recorremos à investigação-ação para dar solução ao ‘fenómeno’ ou situação problemática que é a importância da afetividade em contexto escolar, propondo um Plano Estratégico de Intervenção. Esta metodologia contribui para uma reflexão sistemática sobre a prática educativa com o objetivo de a transformar, após reflexão-ação, e melhorando-a gradualmente (Zuber-Skerritt, 1996).
Os dados recolhidos nas sessões do programa foram, maioritariamente, de caráter descritivo e analítico, pois o que mais interessa é o processo/atitudes dos alunos e as suas escolhas (tomada de decisão) e, acima de tudo, compreender o significado que os alunos atribuem às mesmas atividades realizadas.
Já referimos que é importante o desenvolvimento afetivo na criança, que acompanha o desenvolvimento cognitivo e moral dela neste período do seu desenvolvimento, pois a afetividade e a inteligência são aspetos inseparáveis, irredutíveis e complementares da conduta humana (Piaget, 1985). Através do desenvolvimento afetivo e da competência emocional (inteligência emocional), as crianças aprendem a regular as emoções, desenvolvem habilidades (sociais) e adquirem comportamentos para poderem relacionar-se corretamente com os outros seus pares e com os adultos.
Elaborámos o PIEA norteados pelos seguintes propósitos:
*-Aprofundar na prática pedagógica a reflexão (investigação-ação) sobre o tema da educação para a afetividade, o seu impacto na relação pedagógica, no clima educativo e processo de aprendizagem dos alunos do 1.º ano do 1.ºCEB, em contexto de sala de aula.
*-Desenvolver na prática pedagógica a intervenção da dimensão afetivo- emocional, desde a aplicação do programa (sessões).
*- Adquirir competências de intervenção na área afetivo-emocional em contexto escolar.
*-Refletir sobre as reações dos alunos e grupo/turma em relação ao PIEA, ao nível da relação pedagógica, clima educativo e aprendizagem.
Estes propósitos integram os seguintes objetivos gerais a promover com os alunos do grupo/turma.
O primeiro é o de promover uma educação para a afetividade, de modo que se desenvolva a par da dimensão cognitiva. Ou seja levar os alunos a conhecerem as emoções, o seu estado de ânimo em termos afetivos, o significado dos afetos nas relações, em especial a relação pedagógica e criar um bom clima educativo para a aprendizagem.
Outro objetivo, não menos importante, será o de envolver o(s) professora(s) e a família/pais neste processo de educação parental educando para os afetos. De facto,
professora e pais contribuem em grande escala para o desenvolvimento da motivação e para a autorrealização das crianças/alunos, proporcionando-lhes interesse no seu trabalho escolar, encorajando e recompensando os seus sucessos, estimulando e apoiando os seus esforços e mantendo sempre as expectativas em níveis adequados e, fundamentalmente criando relações interpessoais.
Um terceiro objetivo será o de desenvolver e fortalecer nos (futuros) professores a aquisição de competências neste domínio da afetividade e das emoções, já que são responsáveis pela intervenção e mediação educativa; pelo conhecimento e aplicação de estratégias de aprendizagem adequadas aos alunos, tendo em conta as suas problemáticas e/ou diferenças.
De facto, ao falarmos de desenvolvimento afetivo, tornou-se importante para o conhecimento das emoções e por isso elaborámos e aplicámos o PIEA. A implementação do programa consta de 3 sessões que terão a duração aproximada de 90 minutos cada. É também um programa dirigido à professora cooperante do grupo/turma, já que contem aspetos relacionados com o desenvolvimento afetivo.
Optámos metodologicamente por trabalhar através da leitura de uma história em formato digital (elemento integrador), para assim, as crianças partirem de um exemplo pois quando a criança ouve uma história e/ou vê o vídeo, desencadeando uma reação que permite ser capaz de comentar, indagar, duvidar ou discutir sobre o tema, e realizar uma interação verbal (Bakhtin, 1992). Além disso, realizámos o visionamento de um pequeno filme ‘Aprender a aprender’ para as crianças poderem visualizar e contextualizar melhor as sentimentos/emoções. Como forma de contextualizar as suas aprendizagens utilizamos o desenho pois não se pode esquecer que o desenho é uma forma de expressão plástica que não pode ser banalizada, servindo apenas para ocupar o tempo.
5.1 Estrutura metodológica do PIEA
Tendo como base diferentes tipos de sentimentos/emoções relacionados com o desenvolvimento afetivo, foram realizadas 3 sessões, cada uma destas com a duração aproximada de 90 minutos. Estas sessões, que tiveram todas elas o elemento integrador os afetos (pelo conto, o vídeo ou imagens), que decorreram dentro do período letivo (entre setembro de 2015 a janeiro de 2016), e acordo com a disponibilidade curricular do mesmo. Estas sessões incutidas no PIEA tiveram como objetivos específicos a desenvolver nas crianças do grupo-turma, os seguintes: compreender o autoconhecimento dos sentimentos, emoções, estados de ânimo, sensações e pensamentos que as crianças apresentam diante de determinadas situações e pessoas (contexto escolar); desenvolver conceções adequadas a uma boa relação pedagógica e a um clima educativo de sala de aula favorável à aprendizagem dos alunos.
Durante a implementação do programa PIEA, as atividades serão desenvolvidas sempre em grupo, pois assim as crianças estarão sempre ao mesmo nível. Durante as implementações vai ser dada a oportunidade a todas as crianças para falar e a sua opinião vai ser sempre tida em conta.
O tema da primeira sessão centrou-se na relação pedagógica. Procedeu-se ao visionamento do vídeo “Aprender a aprender” com o objetivo de fazer uma ponte com o tema “Afetividade e aprendizagem na relação pedagógica”
Na segunda sessão, remeteu-se à importância dos sentimentos procedendo-se assim à leitura da história “Mania da explicação” . O objetivo desta história foi o de identificar sentimentos, sensações e pensamentos que a criança apresenta diante de determinadas situações e/ou pessoas.
A terceira sessão baseia-se nas emoções. Foram utilizados cartões que se encontram dentro de um saco, com o objetivo da criança construir uma frase que integre esta emoção/sentimento. Esta sessão veio a fundamentar/aprofundar a sessão anterior.
5.2 A nossa ação de implementação: a investigação ação
De acordo com os objetivos e o contexto de realização, considerámos que a metodologia mais adequada era a investigação-ação porque, como afirmam Lourenço, Oliveira e Monteiro (2004/2005, p.1), “combina o diagnóstico com a reflexão, focando- se em problemas reais que foram identificados pelos participantes como problemáticos, mas passíveis de serem alterados” e “implica o envolvimento do investigador (…) numa aprendizagem conjunta”. Segundo Coutinho et al (2009, p.360) citando Dick (1999), “a investigação-ação, sendo um leque de metodologias que incluem a ação (ou mudança) e a investigação (ou compreensão) utilizam “(…) um processo cíclico ou em espiral, que alterna entre a ação e a reflexão crítica. Nos ciclos posteriores, são aperfeiçoados, de modo contínuo, os métodos (…) obtidos no ciclo anterior”.
Este processo metodológico permitiu incluir a ‘reflexão’ sobre as nossas ações, quer ao nível da prática supervisionada, quer na implementação do PIEA. Simultaneamente a investigação e a ação constitui um processo cíclico ou em espiral, que alterna entre a ação e a reflexão crítica. O seu objetivo é o de obter respostas aplicáveis à prática diária dos intervenientes. O que diferencia os diferentes modelos de investigação-ação são os objetivos do estudo, o envolvimento do investigador com os sujeitos, o tipo de conhecimento que gera e as formas de ação/intervenção, assim como o nível de participação dos destinatários. No nosso caso a investigação-ação foi participativa (alunos da turma, professora cooperante, supervisor de prática e par pedagógico) e nós como investigadora/estagiária desempenhámos um papel ativo no desenrolar das ações que foram avaliadas em conjunto com o público-alvo (grupo/turma) e seus parceiros (professora, supervisor).
Neste sentido coincidimos com Kemmis e McTaggart, citados por Fernandes (2008, 3) que o processo de “investigação-ação” constitui uma forma de questionamento reflexivo e coletivo de situações sociais, realizado pelos participantes, com vista a “melhorar a racionalidade e a justiça das suas próprias práticas sociais ou educacionais bem como a compreensão dessas práticas e as situações nas quais aquelas práticas são desenvolvidas (...)”. Por isso, é importante reconhecer que a investigação-ação é desenvolvida através da ação (analisada criticamente) dos membros do grupo.
Em relação às estratégias de intervenção, o PIEA atua a dois níveis de exploração – interno, de otimização do self-insight, e externo, de otimização da experiência de prática pedagógica. Ao nível interno, a promoção da autoexploração e do autoconhecimento dos afetos e das emoções que foi conseguida através de situações propostas (conto, vídeo, imagens). Ao nível externo, pretende-se que professor proporcione aos alunos experiências no âmbito afetivo-emocional, possibilitando- lhes autoconhecimento, desenvolvimento de habilidades (emocionais, sociais). O PIEA promoveu em nós como futuros professores ferramentas (estratégias) para trabalharmos a dimensão afetivo-emocional com os alunos.