Consumo de Drogas e Outros Estressores
4. MEDIDAS SÓCIO-EDUCATIVAS
4.1. PROGRAMA DE MEDIDAS SÓCIO-EDUCATIVAS EM SÃO CARLOS
Na cidade de São Carlos-SP, na qual o Estudo 1 foi realizado, existe um programa considerado inovador no atendimento aos adolescentes em conflito com a lei (Cortegoso e col., 2004). No ano de 2000, após inúmeras crises e rebeliões na FEBEM, o governo do estado decidiu pela municipalização dos atendimentos, sendo que os Salesianos (instituição filantrópica de caráter religioso) assumiu o acompanhamento dos adolescentes em conflito com a lei na cidade.
Foi firmado um convênio entre os Salesianos, o governo do estado (via FEBEM) e a prefeitura, para o desenvolvimento de um programa de medidas sócio- educativas em meio aberto (liberdade assistida e prestação de serviços à comunidade). No ano de 2001 tal convênio foi ampliado, passando a abranger também a medida de semiliberdade e a criação de unidades de internação provisória. Com essa abrangência do convênio, foi possível a criação de um órgão pioneiro no país, o NAI (Núcleo de Atendimento Integrado).
O NAI é responsável por integrar os serviços estaduais e municipais voltados a crianças e adolescentes. É um órgão do governo do estado, mantido pela FEBEM, via Secretaria Estadual de Educação, com contrapartida do governo municipal. O diferencial do NAI é que todos os serviços ficam concentrados em um único espaço, facilitando e agilizando o atendimento, assim como condições adequadas para seu funcionamento, que inclui as unidades de internação provisória em condições de limpeza e higiene, espaço adequado para todos os jovens, iluminação e ventilação adequadas, tratamento respeitoso, de acordo com as normas propostas pela Comissão de Direitos Humanos do governo federal. Além disso, o serviço social identifica necessidades de acompanhamento médico e/ou psicológico e o solicita à
unidade da Secretaria Municipal de Saúde, no próprio NAI, assim como necessidades de inclusão escolar, solicitadas à Secretaria Municipal de Educação.
Quando um adolescente é autuado pela polícia, seja em flagrante ou após apuração dos fatos, ele é conduzido ao Núcleo de Atendimento Integrado e não para as delegacias de polícia. No NAI, durante a autuação, a Polícia faz o Boletim de Ocorrência ou o Termo Circunstanciado e o adolescente é imediatamente encaminhado para o serviço social, para uma entrevista inicial, que visa o levantamento das suas condições de vida e notifica seus pais ou responsáveis quanto à autuação. A Promotoria avalia se o adolescente deve ser custodiado ou liberado. Se for decidido pela custódia, o jovem é encaminhado para a UAI (Unidade de Atendimento Inicial, cuja custódia máxima é de cinco dias); se for decidido pela liberação, o jovem assina um termo de comparecimento à audiência e é liberado, na presença dos pais ou responsáveis.
O serviço social identifica a necessidade de acompanhamento médico e/ou psicológico e solicita atendimento à Secretaria da Saúde, identificando também, a necessidade de inclusão escolar e solicitando matricula à Secretaria de Educação. Os jovens que permanecem custodiados recebem, da Secretaria de Educação, aulas de reforço escolar. Em casos em que o adolescente já foi julgado e aguarda transferência para uma unidade em outra cidade ou em casos de reincidência, o NAI conta com uma Unidade de Internação Provisória (UIP), de custódia máxima de 45 dias.
As audiências acontecem nas dependências do NAI e após a aplicação da medida sócio-educativa, o adolescente é encaminhado ao Programa de Medidas Sócio-Educativas em Meio Aberto (Salesianos/FEBEM), para cumprimento das medidas de liberdade assistida ou prestação de serviços à comunidade, ou a Casa de Convivência Lucas Perroni Júnior (Salesianos/FEBEM), para cumprimento da
medida de semiliberdade. Nesses dois programas, os profissionais definem uma agenda personalizada de desenvolvimento psicossocial e contam com a colaboração de diferentes órgãos do governo municipal e de profissionais de diversas áreas. Os casos que requerem a medida de internação em estabelecimento educacional são transferidos para Araraquara, principalmente, ou demais municípios que comportam uma unidade de internação (ex. Ribeirão Preto e São Paulo).
Os programas recebem o adolescente e realizam a entrevista inicial junto do familiar ou responsável, para caracterização do caso. Essa entrevista contém informações do tipo: escolaridade, profissão/ocupação, cursos profissionalizantes, uso de drogas, caracterização das pessoas que moram com o jovem, renda, recursos existentes na comunidade que a família conhece e tem acesso, número de cômodos na residência e presença ou ausência de infra-estrutura básica residencial. Após a entrevista inicial, o orientador (o profissional que fará o acompanhamento do adolescente durante a medida) explica as regras para o cumprimento e agenda um horário para iniciar o processo sócio-educativo. O orientador avalia o processo judicial, bem como as informações da entrevista e propõe uma agenda personalizada de desenvolvimento. Essa agenda conta com o objetivo de promover socialmente o adolescente e sua família, assim como as atividades que serão desenvolvidas, como psicoterapia, terapia ocupacional, acompanhamento pedagógico e atividades externas (pinturas, argila, etc.), assim como encaminhamento para serviços externos (cursos, acompanhamento médico, etc.). É esperado que o adolescente passe a interagir adequadamente com sua comunidade, tenha um bom aproveitamento escolar e seja aceito no mercado de trabalho.
Segundo o ECA (Brasil, 1990), incumbe ao orientador a realização de: “promoção social do adolescente e sua família, fornecendo-lhes
orientação e inserindo-os, se necessário, em programas oficiais ou comunitários de auxílio e assistência social; supervisão da freqüência e aproveitamento escolar do adolescente, promovendo inclusive sua matrícula; diligência no sentido da profissionalização do adolescente e sua inserção no mercado de trabalho; apresentação de relatório do caso” (art. 119, incisos 1 a 4).
A partir desses serviços inovadores, foi registrada uma diminuição no número de atos infracionais graves (Cortegoso e col., 2004). Apesar disso, não existem informações sistematizadas a respeito dos programas de medidas sócio- educativas. Isto é, apesar dos bons resultados, uma replicação do programa é dificultada por não existir um modelo de avaliação sistemática de ações. Havia um processo de sistematização das ações do NAI em andamento (Cortegoso e col., 2004), mas por dificuldades operacionais, o trabalho foi suspenso. Segundo a diretora-executiva do Ilanud (Instituto Latino-Americano das Nações Unidas para Prevenção do Delito e Tratamento do Delinqüente), retratada em uma reportagem da revista Época (Azevedo, 2004), “o problema é que a qualidade do atendimento em liberdade assistida é heterogênea”.