• Nenhum resultado encontrado

Programa de Orientação para Professores (POP)

No documento SÃO PAULO (páginas 81-88)

Capítulo III: A mediação com o público escolar: uma experiência

2. Estratégias de medição voltadas para o público escolar

2.1. Programa de Orientação para Professores (POP)

As oficinas de orientação ao professor foram praticamente a primeira

estratégia de mediação colocada em prática pelo SAE. Na verdade, conforme

apontamos o plano diretor de 1990 e o regimento institucional de 1997 já falava

sobre a realização de oficinas para os professores. A partir da criação do SAE em

2001, ela ganhou uma nova reconfiguração, e começou-se a pensar em estratégias

que conseguisse atender as necessidades desse público.

Ramos (2004) relaciona a “pedagogia do dialogo” estabelecida por Paulo

Freire (1987) como um ponto fundamental do desenvolvimento de práticas

educativas em museus, uma vez que a prática educativa é constante e não se

esgota no ser humano. Dessa forma, justifica:

“Para a realização dessa pedagogia do diálogo, não basta

visitar a exposição. É preciso colocar a exposição como parte de um

programa educativo mais amplo, que inclui a questão das visitas

monitoradas e a relação do museu com a sala de aula e outros

espaços. Desse modo, é responsabilidade do museu (...) manter

estratégias de orientação para professores.” (RAMOS, 2004, p.24).

Assim, de acordo com o autor, a necessidade da existência de cursos e

oficinas para professores de forma permanente no museu se faz essencial para

despertar no professor o potencial educativo que os museus podem oferecer, de

forma que, ao apropriar-se desse meio, ele possa inseri-lo como recurso didático em

suas aulas, criando assim a possibilidade de incutir em seus alunos o potencial de

novas leituras e interpretações.

81

O programa de orientação

para professores, oferecido pelo

SAE do Museu Paulista consiste

na realização de oficinas de

formação, prioritariamente, para

professores de Educação Infantil,

Ensino Fundamental e Ensino

Médio da rede pública ou privada

de ensino. Atende também

educadores de outras instituições,

estudantes universitários,

profissionais de museus e profissionais de educação em geral.

Oferecido gratuitamente, os atendimentos eram organizados de maneira a

orientar os professores a refletirem sobre as características de cada grupo etário.

Essas especificidades norteavam a escolha dos temas a serem tratados com os

alunos e a forma de abordagem dos mesmos. Além disso, há especial ênfase nas

questões de aprendizagem próprias dos museus e os eixos temáticos tratados pelas

exposições do Museu Paulista, bem como suas linhas de pesquisa, oferecendo ao

educador amplo leque de possibilidades pedagógicas no espaço museológico.

Infelizmente, durante os mais de 10 anos de atuação no SAE no Museu

Paulista, essa estratégia de mediação oferecida aos professores sempre foi motivo

de uma reflexão mais intensa por parte da própria “equipe”. Isso porque, além do

baixo número de participante, nem sempre os professores que estava ali, estavam

abertos as novas possibilidades que o SAE propunha.

82

Conforme podemos observar as informações do gráfico acima, o número de

participantes realmente foi diminuindo ao longo do tempo. Nos anos de 2006 e 2008,

que são quando aparece maior número de participantes em relação aos outros anos,

há uma questão importante a ser resaltada: foram os anos que o SAE por meio do

programa de orientação para professores, estabeleceu uma parceria com a Diretoria

Estadual de Ensino e Educação Centro-Sul (2006) atendendo os professores da

rede; e em 2008 o elevado índice de participantes se deu pelo desenvolvimento do

projeto “Cultura é Currículo” em desenvolvimento com a FDE (Fundação para o

Desenvolvimento da Educação) que viabilizou o início de atendimentos de grupos

escolares, inicialmente de 3º e 4º ano, voltando-se posteriormente para o público de

7º e 8º ano do ensino fundamental.

No relatório anual de atividades de 2012, é ressaltada a queda na

participação dos professores nas oficinas, fato que podemos observar que ocorreu a

partir de 2009. Os motivos foram apontados pelos próprios professores: não estão

mais autorizados a se ausentarem das aulas para participarem de treinamentos ou

cursos e que, a carga excessiva de aulas, inviabiliza a participação em outros

horários.

0 200 400 600 800 1000

2004

2005

2006

2007

2008

2009

2010

2011

2012

2013

2004 2005 2006 2007 2008 2009 2010 2011 2012 2013

Particiapantes 124 360 700 294 990 430 241 120 120 27

Oficinas oferecidas 0 10 22 20 22 11 15 6 0 2

Oficinas para Professores

83

É claro que essa justificativa é extremamente compreensível. Não devemos

julgar (e nem podemos) o ritmo de trabalho a que nossos professores são

submetidos, mas, diante disso, cabe-nos uma reflexão em forma de indagação: na

estrutura atual das condições de trabalho dos professores, seria possível uma

dedicação a essa proposta de parceria com o museu? A Escola não deveria buscar

proporcionar meios de oferecer essa possibilidade a seus professores?

Essa é uma situação real posta. Agora, da mesma forma que Ramos (2004)

justifica a importância de se manter um “treinamento” contínuo para os professores,

o Serviço de Atividades Educativas do Museu Paulista também considerava

perceptível à importância da realização dessas atividades para os professores

mesmo que o número seja cada vez menor, por isso continuou oferecendo essa

formação independente da quantidade de participantes.

A própria instituição justifica que a falta da procura pelo serviço também se

deve há um grande desconhecimento do tema museu (e no caso do Museu

Paulista), questões básicas acerca de sua história e acervo são completamente

ignoradas. Esse panorama, aliado a uma não compreensão de seu potencial e da

especificidade educativa da instituição, faz com que o professor não se envolva no

processo de aprendizagem e a visita ao museu se torna um mero evento, sem

sentido maior para a vida do educando. Abaixo poder ver o relato da historiadora

Ana Emilia ao ser questionada sobre a receptividade e envolvimento dos

professores nos projetos oferecidos pelo SAE.

“Na prática os professores não tem formação para elaborar

projetos educativos no museu, e de novo é parte do entendimento

que museu também é recurso pedagógico e que não está

consolidado no currículo do professor de história, de artes ou outra

área. Com os educadores da EJA a relação foi de interesse e

entusiasmo, geralmente se mostravam mais abertos e sensíveis a

possibilidade. Com educadores do fundamental era bem variável,

alguns se isentavam de seu papel como agente no processo

educativo de seus alunos e deixavam muito por conta dos

educadores do museu.” (Ana Emilia, 10/11/2016).

Em um relato referente a outro período, também é mencionado que a

participação dos professores:

84

“Nem sempre (era) positiva, não raro eram os professores

que queriam uma visita mediada pelo Museu inteiro, o que não era

nossa proposta. Para sanar esse tipo de frustração sempre

deixávamos um tempo no final para que eles explorassem algo que

gostariam de ver – o quadro do Pedro Américo é um bom exemplo,

ou a sala das armas.” (Geórgia Carolina, 01/11/02016).

Ou seja, a resistência apresentada pelos próprios professores também se

configurou em fatores importantes que devemos levar em consideração quando

pensamos na parceria museu-escola, pois para se configurar uma parceria de fato,

esta exige o comprometimento de pessoas. Sem isso, não como dar certo, pelo

menos não em sua totalidade.

Em relação aos materiais desenvolvidos e publicados pelo SAE através de

parcerias e projetos, podemos citar alguns que de fato foram bem significativos para

atuação do departamento nessa frente, e poderemos vê-los nos anexos:

a) Fichas temáticas para professor

b) Roteiro de visitas para professores

c) Série primeiro contato

As fichas temáticas para professor foram desenvolvidas entre os anos de

2003 e 2004 e foram viabilizadas graças a aprovação de projeto junto a Fundação

VITAE. Esse foi considerado um grande êxito para departamento que estava se

estruturando. Poder apresentar e distribuir um material explicativo para os

professores participantes das oficinas era de certa forma algo muito positivo, pois

além de da um subsidio maior para esse professor, também trazia em alguns casos

entusiasmo utilizar esse material.

São nove fichas dentro de uma caixinha que seguem os seguintes assuntos:

planejando ações educativas em museus; como funciona o Museu Paulista; o

parque da independência; o tema da independência do Brasil no Museu Paulista; a

decoração do Museu Paulista; conhecendo a maquete de São Paulo; São Paulo na

virada do século; o Museu Republicano Convenção de Itu; e a ficha de avaliação.

O caderno “Roteiro de visitas para professores”, foi desenvolvido em 2009,

pensando sem ser um subsidio que fornecesse condições para que o professor

85

utilizasse no desenvolvimento das atividades pedagógicas na sala de aula, e fosse

capaz de conduzir a própria turma nas exposições do Museu Paulista.

Esse subsídio não foi pensado com uma forma de substituir o mediador do

museu, muito pelo contrario, foi pensado de forma a dar autonomia para o professor

que quisesse desenvolver suas atividades no interior no museu, gerando uma

possibilidade de dar liberdade para o professor, que deseja se envolver, propor,

dentro do contexto de seus alunos, uma experiência educativa num local

diferenciado.

O material propõe sugestões de atividades para serem desenvolvidas com os

alunos antes, durante e depois da visita ao Museu, buscando de fato, ampliar essa

experiência educativa de forma que a mesma adquira um significado para a criança

que participa, pois só é possível apropriar-se do conhecimento, quando este passa a

ter significado para a pessoa.

Embora seja um roteiro bem elaborado e conciso, ele não prende o professor,

de forma que o mesmo pode fazer as adaptações que achar necessário para melhor

se enquadrar no seu grupo e nas expectativas pedagógicas que ele tem ao propor

essa visita.

Contudo, após sua elaboração poucos professores se interessaram nesse

material que era distribuído, sobretudo nas oficias do POP. Dentre os professores

que se interessavam em levar seus alunos ao museu, à maioria preferia a visita com

realizada pelo SAE, do que se pré dispor para a realização desse roteiro “sozinho”,

ou seja, o roteiro acabou não cumprindo as expectativas para qual ele fora

produzido.

Por fim, a série “Primeiro Contato”, elaborada no ano de 2011 foi mais uma

iniciativa do SAE em ajudar o professor a preparar o aluno que vai conhecer o

Museu. Trata-se de um conjunto com cinco sugestões de atividades de

sensibilização (adequado a cada faixa etária) para serem desenvolvidas em sala de

aula pelo professor, antes da visita ao Museu.

Essas atividades estão articuladas aos roteiros propostos pelo PROVO para

cada ciclo dos ensinos fundamental e médio e também tem como referencial os

86

Parâmetros Curriculares Nacionais (PCNs). Dessa forma, assim que o professor ou

escola agendava a visita da turma com o SAE do Museu Paulista, era

imediatamente encaminhado via e-mail o roteiro indicado, para que o professor

tivesse tempo hábil de preparar seus alunos.

Contudo, mesmo tendo esse suporte por parte do museu, percebeu-se que o

grande impasse estava que, boa parte das visitas não era agendada pelo próprio

professor, embora no momento do agendamento fosse solicitado que o responsável

pela classe, que planejou a visita e que viria com ela, fosse o interlocutor.

Outro fato identificado pelas pesquisas preenchidas pelos próprios

professores no momento da avaliação no dia da visita, é que a maioria não fez uso

do material enviado, ou sequer teve conhecimento que o mesmo foi enviado. O

mesmo notou-se no processo de agendamento das atividades por parte das escolas

que ofereciam muita resistência no cumprimento das recomendações feitas pelo

Serviço de Atividades Educativas. Isso deixa claro que ainda há um grande equívoco

do sentido do que é de fato a visita ao Museu e qual sua importância no processo

educativo. É contraditório tentar convencer o aluno se a própria escola e seus

professores ainda não estiverem convencidos de tal importância. Assim cabe trazer

a reflexão feita por MICELI (2014), que deposita na figura do professor a

responsabilidade de ser ele o agente de mudança:

“É forçoso concluir que qualquer esforço de renovação do

ensino de história, depende de uma prática corajosa. Sem querer

produzir mandamentos ou regras de conduta recomendável, parece

necessário ter coragem de jogar no lixo a comodidade

emburrecedora de anotações amarelecidas, repetidas dia após dia,

classe após classe, ano após ano. É necessário ter coragem de

transformar em cinzas ou adubos pilhas e pilhas de livros didáticos,

lidos e relidos sem curiosidade ou vontade de qualquer tipo, já que o

famoso exemplar do professor traz respostas a todas as possíveis

dúvidas. É necessário ter coragem de superar e ignorar programas

oficiais, burlar vigilâncias, criar e aceitar novos desafios e

experiências. É necessário ter coragem de lutar de todas as formas

para que, na voz de seus profissionais, a História ganhe respeito e

importância, mesmo quando isso pareça impossível.” (MICELI, 2014,

p.51).

87

No documento SÃO PAULO (páginas 81-88)