Capítulo III: A mediação com o público escolar: uma experiência
2. Estratégias de medição voltadas para o público escolar
2.1. Programa de Orientação para Professores (POP)
As oficinas de orientação ao professor foram praticamente a primeira
estratégia de mediação colocada em prática pelo SAE. Na verdade, conforme
apontamos o plano diretor de 1990 e o regimento institucional de 1997 já falava
sobre a realização de oficinas para os professores. A partir da criação do SAE em
2001, ela ganhou uma nova reconfiguração, e começou-se a pensar em estratégias
que conseguisse atender as necessidades desse público.
Ramos (2004) relaciona a “pedagogia do dialogo” estabelecida por Paulo
Freire (1987) como um ponto fundamental do desenvolvimento de práticas
educativas em museus, uma vez que a prática educativa é constante e não se
esgota no ser humano. Dessa forma, justifica:
“Para a realização dessa pedagogia do diálogo, não basta
visitar a exposição. É preciso colocar a exposição como parte de um
programa educativo mais amplo, que inclui a questão das visitas
monitoradas e a relação do museu com a sala de aula e outros
espaços. Desse modo, é responsabilidade do museu (...) manter
estratégias de orientação para professores.” (RAMOS, 2004, p.24).
Assim, de acordo com o autor, a necessidade da existência de cursos e
oficinas para professores de forma permanente no museu se faz essencial para
despertar no professor o potencial educativo que os museus podem oferecer, de
forma que, ao apropriar-se desse meio, ele possa inseri-lo como recurso didático em
suas aulas, criando assim a possibilidade de incutir em seus alunos o potencial de
novas leituras e interpretações.
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O programa de orientação
para professores, oferecido pelo
SAE do Museu Paulista consiste
na realização de oficinas de
formação, prioritariamente, para
professores de Educação Infantil,
Ensino Fundamental e Ensino
Médio da rede pública ou privada
de ensino. Atende também
educadores de outras instituições,
estudantes universitários,
profissionais de museus e profissionais de educação em geral.
Oferecido gratuitamente, os atendimentos eram organizados de maneira a
orientar os professores a refletirem sobre as características de cada grupo etário.
Essas especificidades norteavam a escolha dos temas a serem tratados com os
alunos e a forma de abordagem dos mesmos. Além disso, há especial ênfase nas
questões de aprendizagem próprias dos museus e os eixos temáticos tratados pelas
exposições do Museu Paulista, bem como suas linhas de pesquisa, oferecendo ao
educador amplo leque de possibilidades pedagógicas no espaço museológico.
Infelizmente, durante os mais de 10 anos de atuação no SAE no Museu
Paulista, essa estratégia de mediação oferecida aos professores sempre foi motivo
de uma reflexão mais intensa por parte da própria “equipe”. Isso porque, além do
baixo número de participante, nem sempre os professores que estava ali, estavam
abertos as novas possibilidades que o SAE propunha.
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Conforme podemos observar as informações do gráfico acima, o número de
participantes realmente foi diminuindo ao longo do tempo. Nos anos de 2006 e 2008,
que são quando aparece maior número de participantes em relação aos outros anos,
há uma questão importante a ser resaltada: foram os anos que o SAE por meio do
programa de orientação para professores, estabeleceu uma parceria com a Diretoria
Estadual de Ensino e Educação Centro-Sul (2006) atendendo os professores da
rede; e em 2008 o elevado índice de participantes se deu pelo desenvolvimento do
projeto “Cultura é Currículo” em desenvolvimento com a FDE (Fundação para o
Desenvolvimento da Educação) que viabilizou o início de atendimentos de grupos
escolares, inicialmente de 3º e 4º ano, voltando-se posteriormente para o público de
7º e 8º ano do ensino fundamental.
No relatório anual de atividades de 2012, é ressaltada a queda na
participação dos professores nas oficinas, fato que podemos observar que ocorreu a
partir de 2009. Os motivos foram apontados pelos próprios professores: não estão
mais autorizados a se ausentarem das aulas para participarem de treinamentos ou
cursos e que, a carga excessiva de aulas, inviabiliza a participação em outros
horários.
0 200 400 600 800 1000
2004
2005
2006
2007
2008
2009
2010
2011
2012
2013
2004 2005 2006 2007 2008 2009 2010 2011 2012 2013
Particiapantes 124 360 700 294 990 430 241 120 120 27
Oficinas oferecidas 0 10 22 20 22 11 15 6 0 2
Oficinas para Professores
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É claro que essa justificativa é extremamente compreensível. Não devemos
julgar (e nem podemos) o ritmo de trabalho a que nossos professores são
submetidos, mas, diante disso, cabe-nos uma reflexão em forma de indagação: na
estrutura atual das condições de trabalho dos professores, seria possível uma
dedicação a essa proposta de parceria com o museu? A Escola não deveria buscar
proporcionar meios de oferecer essa possibilidade a seus professores?
Essa é uma situação real posta. Agora, da mesma forma que Ramos (2004)
justifica a importância de se manter um “treinamento” contínuo para os professores,
o Serviço de Atividades Educativas do Museu Paulista também considerava
perceptível à importância da realização dessas atividades para os professores
mesmo que o número seja cada vez menor, por isso continuou oferecendo essa
formação independente da quantidade de participantes.
A própria instituição justifica que a falta da procura pelo serviço também se
deve há um grande desconhecimento do tema museu (e no caso do Museu
Paulista), questões básicas acerca de sua história e acervo são completamente
ignoradas. Esse panorama, aliado a uma não compreensão de seu potencial e da
especificidade educativa da instituição, faz com que o professor não se envolva no
processo de aprendizagem e a visita ao museu se torna um mero evento, sem
sentido maior para a vida do educando. Abaixo poder ver o relato da historiadora
Ana Emilia ao ser questionada sobre a receptividade e envolvimento dos
professores nos projetos oferecidos pelo SAE.
“Na prática os professores não tem formação para elaborar
projetos educativos no museu, e de novo é parte do entendimento
que museu também é recurso pedagógico e que não está
consolidado no currículo do professor de história, de artes ou outra
área. Com os educadores da EJA a relação foi de interesse e
entusiasmo, geralmente se mostravam mais abertos e sensíveis a
possibilidade. Com educadores do fundamental era bem variável,
alguns se isentavam de seu papel como agente no processo
educativo de seus alunos e deixavam muito por conta dos
educadores do museu.” (Ana Emilia, 10/11/2016).
Em um relato referente a outro período, também é mencionado que a
participação dos professores:
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“Nem sempre (era) positiva, não raro eram os professores
que queriam uma visita mediada pelo Museu inteiro, o que não era
nossa proposta. Para sanar esse tipo de frustração sempre
deixávamos um tempo no final para que eles explorassem algo que
gostariam de ver – o quadro do Pedro Américo é um bom exemplo,
ou a sala das armas.” (Geórgia Carolina, 01/11/02016).
Ou seja, a resistência apresentada pelos próprios professores também se
configurou em fatores importantes que devemos levar em consideração quando
pensamos na parceria museu-escola, pois para se configurar uma parceria de fato,
esta exige o comprometimento de pessoas. Sem isso, não como dar certo, pelo
menos não em sua totalidade.
Em relação aos materiais desenvolvidos e publicados pelo SAE através de
parcerias e projetos, podemos citar alguns que de fato foram bem significativos para
atuação do departamento nessa frente, e poderemos vê-los nos anexos:
a) Fichas temáticas para professor
b) Roteiro de visitas para professores
c) Série primeiro contato
As fichas temáticas para professor foram desenvolvidas entre os anos de
2003 e 2004 e foram viabilizadas graças a aprovação de projeto junto a Fundação
VITAE. Esse foi considerado um grande êxito para departamento que estava se
estruturando. Poder apresentar e distribuir um material explicativo para os
professores participantes das oficinas era de certa forma algo muito positivo, pois
além de da um subsidio maior para esse professor, também trazia em alguns casos
entusiasmo utilizar esse material.
São nove fichas dentro de uma caixinha que seguem os seguintes assuntos:
planejando ações educativas em museus; como funciona o Museu Paulista; o
parque da independência; o tema da independência do Brasil no Museu Paulista; a
decoração do Museu Paulista; conhecendo a maquete de São Paulo; São Paulo na
virada do século; o Museu Republicano Convenção de Itu; e a ficha de avaliação.
O caderno “Roteiro de visitas para professores”, foi desenvolvido em 2009,
pensando sem ser um subsidio que fornecesse condições para que o professor
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utilizasse no desenvolvimento das atividades pedagógicas na sala de aula, e fosse
capaz de conduzir a própria turma nas exposições do Museu Paulista.
Esse subsídio não foi pensado com uma forma de substituir o mediador do
museu, muito pelo contrario, foi pensado de forma a dar autonomia para o professor
que quisesse desenvolver suas atividades no interior no museu, gerando uma
possibilidade de dar liberdade para o professor, que deseja se envolver, propor,
dentro do contexto de seus alunos, uma experiência educativa num local
diferenciado.
O material propõe sugestões de atividades para serem desenvolvidas com os
alunos antes, durante e depois da visita ao Museu, buscando de fato, ampliar essa
experiência educativa de forma que a mesma adquira um significado para a criança
que participa, pois só é possível apropriar-se do conhecimento, quando este passa a
ter significado para a pessoa.
Embora seja um roteiro bem elaborado e conciso, ele não prende o professor,
de forma que o mesmo pode fazer as adaptações que achar necessário para melhor
se enquadrar no seu grupo e nas expectativas pedagógicas que ele tem ao propor
essa visita.
Contudo, após sua elaboração poucos professores se interessaram nesse
material que era distribuído, sobretudo nas oficias do POP. Dentre os professores
que se interessavam em levar seus alunos ao museu, à maioria preferia a visita com
realizada pelo SAE, do que se pré dispor para a realização desse roteiro “sozinho”,
ou seja, o roteiro acabou não cumprindo as expectativas para qual ele fora
produzido.
Por fim, a série “Primeiro Contato”, elaborada no ano de 2011 foi mais uma
iniciativa do SAE em ajudar o professor a preparar o aluno que vai conhecer o
Museu. Trata-se de um conjunto com cinco sugestões de atividades de
sensibilização (adequado a cada faixa etária) para serem desenvolvidas em sala de
aula pelo professor, antes da visita ao Museu.
Essas atividades estão articuladas aos roteiros propostos pelo PROVO para
cada ciclo dos ensinos fundamental e médio e também tem como referencial os
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Parâmetros Curriculares Nacionais (PCNs). Dessa forma, assim que o professor ou
escola agendava a visita da turma com o SAE do Museu Paulista, era
imediatamente encaminhado via e-mail o roteiro indicado, para que o professor
tivesse tempo hábil de preparar seus alunos.
Contudo, mesmo tendo esse suporte por parte do museu, percebeu-se que o
grande impasse estava que, boa parte das visitas não era agendada pelo próprio
professor, embora no momento do agendamento fosse solicitado que o responsável
pela classe, que planejou a visita e que viria com ela, fosse o interlocutor.
Outro fato identificado pelas pesquisas preenchidas pelos próprios
professores no momento da avaliação no dia da visita, é que a maioria não fez uso
do material enviado, ou sequer teve conhecimento que o mesmo foi enviado. O
mesmo notou-se no processo de agendamento das atividades por parte das escolas
que ofereciam muita resistência no cumprimento das recomendações feitas pelo
Serviço de Atividades Educativas. Isso deixa claro que ainda há um grande equívoco
do sentido do que é de fato a visita ao Museu e qual sua importância no processo
educativo. É contraditório tentar convencer o aluno se a própria escola e seus
professores ainda não estiverem convencidos de tal importância. Assim cabe trazer
a reflexão feita por MICELI (2014), que deposita na figura do professor a
responsabilidade de ser ele o agente de mudança:
“É forçoso concluir que qualquer esforço de renovação do
ensino de história, depende de uma prática corajosa. Sem querer
produzir mandamentos ou regras de conduta recomendável, parece
necessário ter coragem de jogar no lixo a comodidade
emburrecedora de anotações amarelecidas, repetidas dia após dia,
classe após classe, ano após ano. É necessário ter coragem de
transformar em cinzas ou adubos pilhas e pilhas de livros didáticos,
lidos e relidos sem curiosidade ou vontade de qualquer tipo, já que o
famoso exemplar do professor traz respostas a todas as possíveis
dúvidas. É necessário ter coragem de superar e ignorar programas
oficiais, burlar vigilâncias, criar e aceitar novos desafios e
experiências. É necessário ter coragem de lutar de todas as formas
para que, na voz de seus profissionais, a História ganhe respeito e
importância, mesmo quando isso pareça impossível.” (MICELI, 2014,
p.51).
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No documento
SÃO PAULO
(páginas 81-88)