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5.1. – Análise da Convenção de Palermo

A Convenção das Nações Unidas contra a Criminalidade Organizada Transnacional268 tem como objetivo estabelecer normas de prevenção e combate à criminalidade organizada transnacional (art.º 1º da Convenção de Palermo). O Estado português ratificou esta Convenção.

A Convenção tem como fim a promoção da cooperação e prevenção e combate ao crime organizado numa vertente transnacional. Esta Convenção não se dedica, exclusivamente, ao combate à corrupção, no entanto, prevê a corrupção como fenómeno que pode estar ligado à criminalidade organizada269.

Esta Convenção remonta ao ano de 2000 e foi elaborada em Palermo, Itália e no seu art.º 2º, alínea a) define aquilo que é uma organização criminosa. Segundo a Convenção uma organização criminosa ou um “grupo criminoso organizado” é um grupo constituído por três ou mais pessoas e mantido por algum tempo e atuando concertadamente com o objetivo de praticar um ou mais crimes ou infrações previstas na Convenção de modo a obterem um benefício económico ou outro benefício material. Salienta-se aqui o facto de um grupo criminoso organizado poder ser constituído por apenas três pessoas. A par do

267 Ibid.

268 ONU – Convenção das Nações Unidas contra a Criminalidade Organizada Transnacional. Disponível

em http://gddc.ministeriopublico.pt/si-

tes/default/files/documentos/instrumentos/convencao_nu_criminalidade_organizada_transnacional.pdf.

número de pessoas que constitui um grupo criminoso organizado, existe aqui um conceito temporal e de atuação conjunta e um requisito de obtenção de benefício.

Esta Convenção foi motivada pela realidade que se vivia no fim do século passado relativamente ao crime organizado que cada vez tinha maiores contornos e contornos esses internacionais pelo que houve a necessidade dos Estados adotarem medidas que conseguissem responder à evolução da criminalidade organizada. Um dos instrumentos internacionais mais importantes para fazer frente a esta nova realidade foi, precisamente, a Convenção em análise que contou com a participação de 179 Estados270.

Nos arts.º 8º e 9º da Convenção em análise estipulam medidas que os Estados Partes da Convenção deverão adotar de modo a combater a corrupção. O art.º 18º prevê o auxílio judiciário entre Estados Partes, o qual os Estados terão de, reciprocamente, prestar auxílio judiciário, nomeadamente, nas investigações, nos processos e nos procedimentos judicias relativas as infrações previstas na Convenção. No n.º 3, alínea a) do artigo anteriormente referido menciona que no âmbito do auxílio judiciário pode ser solicitado por parte de um Estado Parte a outro Estado Parte a recolha de testemunhos ou depoimentos.

Posteriormente, e a respeito do presente capítulo, o art.º 24º da presente Convenção em estudo refere que cada Estado parte deve adotar medidas de proteção de testemunhas, e quando necessário, aos seus familiares e outras pessoas próximas.

Consequentemente, o art.º 26º da Convenção de Palermo enuncia o dever de cada Estado Parte adotar medidas adequadas de modo a encorajar os agentes, que tenham participado ou participem num grupo criminoso organizado, a fornecerem informações úteis para a investigação, identificarem os grupos criminosos e ligações entre outros grupos a nível internacional, informação sobre crimes que os grupos praticaram ou que praticarão e a colaborarem com as autoridades de modo a privar os grupos criminosos dos seus recursos e frutos do crime. O n.º 2 e n.º 3 do artigo em estudo estipulam mesmo a redução da pena ou a isenção da perseguição criminal de modo a que o “arguido coopere de forma substancial na investigação ou no julgamento dos autores de uma infração prevista na presente Convenção”. O art.º 26º, n.º 2 vemos a figura da colaboração processual. Ainda, no art.º 26º, n.º 4 estipula que o arguido colaborador pode ter proteção assim como está previsto para as testemunhas no art.º 24º271.

270 MEDINA, Mauricio de Oliveira – op. cit., p. 66. 271 Ibid., p. 67.

Cumpre apreciar que nos n.ºs 2 e 3 do art.º 26 da Convenção em análise enunciam que “Cada Estado Parte poderá considerar a possibilidade” de reduzir a pena ou deixar de perseguir criminalmente o arguido que coopere com a investigação, estamos aqui presentes num incentivo por parte de um instrumento internacional para a colaboração processual. No entanto, apenas é um incentivo ou uma possibilidade, nada obriga aos Estados Partes a adotarem este mecanismo. Por isto, estas normas terão de ser apreciadas de acordo com princípios inerentes aos ordenamentos jurídicos dos Estados. A Convenção de Palermo ao incentivar a colaboração processual pretende, caso os Estados assim o queiram, inserir mecanismos eficazes de combate à criminalidade organizada, sendo que, este mecanismo da colaboração processual, é um mecanismo que tem de facto alguma margem de sucesso no combate a esta realidade272.

Relativamente ao art.º 26, n.º 4 da Convenção o mesmo prevê proteção para os arguidos que colaborem, nos mesmo trâmites que a proteção conferida para testemunhas. Isto se sucede por reconhecido perigo de vida que os delatores costumam ter quando colaboram com a justiça, assim como os seus familiares, por isso o Direito tem de conseguir tutelar os seus direitos, nomeadamente, o direito à vida e à integridade física273. Por vezes os

arguidos que colaboram com a justiça correm mais perigo de vida por pertencerem ao meio do crime onde existem “(des)valores” de silêncio e de que “quem falar morre”, pelo que se justifica plenamente a equiparação ao regime da proteção de testemunhas.

É útil acrescentar que no nosso Direito interno, na Lei n.º 93/99, de 14 de julho (Lei de Proteção de Testemunhas), nomeadamente, no art.º 2º, alínea a) estabelece a definição de testemunha enunciando que “qualquer pessoa que, independentemente do seu estatuto face à lei processual” tenha informação ou conhecimentos relativos à “revelação, perceção ou apreciação dos factos” que façam parte do processo e que com isso resulte perigo para si ou para outra pessoa. Neste preceito legal, conseguimos perceber que o arguido arrependido e colaborador tem, efetivamente, na Lei de Proteção de Testemunhas, a denominação de testemunha. Insere-se nesta lei não apenas o arguido colaborador e arrependido, mas todos aqueles que tenham, ainda que exclusivamente isso, informação ou conhecimento dos factos, não existe a necessidade de, efetivamente, contribuir probatoriamente. Para proteção do arguido poderá ser necessária a sua ocultação (art.º 4º da Lei de Proteção de Testemunhas), audição por teleconferência (art.º

272 Ibid. 273 Ibid.

5º da mesma lei), reserva do conhecimento da identidade do arguido (art.º 16º e seguintes da mencionada lei), medidas de segurança (art.º 20º da supra mencionada lei) e integração do arguido em programas especiais de segurança (art.º 21º da mesma lei). Ainda, em caso de arrependido preso estabelece no DL n.º 190/2003, de 22 de agosto o isolamento do mesmo de outros reclusos (art.º 10 do referido DL)274.

5.2. – Análise da Convenção de Mérida

Posteriormente à análise da Convenção de Palermo, cumpre nos agora uma breve análise à Convenção de Mérida, mais propriamente, Convenção das Nações Unidas Contra a Corrupção275.

A Convenção de Mérida foi firmada em 2003 com o intuito de combater a corrupção devido à preocupação que insurgia na altura relativamente “à gravidade dos problemas e com as ameaças decorrentes da corrupção, para estabilidade e a segurança das sociedades, ao enfraquecer as instituições e valores de democracia, da ética e da justiça e ao comprometer o desenvolvimento sustentável e o Estado de Direito”276.

Os objetivos da Convenção de Mérida passam pela promoção e fortalecimento das medidas de combate à corrupção de uma forma mais eficiente e eficaz, a promoção, facilitação e apoio a nível da cooperação internacional assim como a promoção da integridade e da obrigação de prestar contas e da devida gestão dos bens e assuntos públicos (art.º 1º da Convenção de Mérida).

Esta Convenção tem disposições legais semelhantes às presentes na Convenção de Palermo no que diz respeito à colaboração processual, nomeadamente, nos arts.º 33º e 37º da Convenção de Mérida.

O art.º 37º da Convenção em análise, mais especificamente os n.ºs 2 e 3, enuncia que deve “Cada Estado Parte considerar a possibilidade de prever” a atenuação da pena ou a isenção de perseguição criminal para os acusados que cooperem substancialmente para a investigação. No n.º 4 do presente artigo em estudo prevê a proteção dos acusados que colaborem com a justiça nos mesmo trâmites da proteção prevista para as testemunhas,

274 LEITE, Inês Ferreira – Arrependido: A colaboração do co-arguido na investigação criminal, pp. 342-

343.

275 ONU – Convenção das Nações Unidas Contra a Corrupção. Disponível em

https://www.unodc.org/documents/lpo-brazil/Topics_corruption/Publicacoes/2007_UNCAC_Port.pdf.

peritos e vítimas como estipulado no art.º 32º. Este artigo é muito semelhante ao art.º 26º da Convenção de Palermo, aliás acabam os dois artigos destas duas Convenções ter interpretações similares. Na Convenção de Mérida mantém-se também a recomendação de uma recompensa para o arguido que colabora processualmente com as autoridades. Neste sentido não existe uma obrigatoriedade, mas nas mesmas circunstâncias que já foram enunciadas aquando da análise da Convenção de Palermo, existe uma recomendação. Porém, o n.º 1 do art.º 37º da Convenção de Mérida expõe que os Estados devem adotar medidas que estipulem o conhecimento probatório das pessoas que participaram ou que participam na prática das infrações estabelecidas pela Convenção. Estes instrumentos de direito premiado vão de encontro à “opacidade dos factos” e nas dificuldades inerentes à investigação277.

Por isto, é notório o incentivo, por instrumentos internacionais, para a delação e a obrigatoriedade dos Estados adotarem medidas que estipulem o conhecimento probatório das pessoas que participaram nos crimes. Realmente é verdade que o conhecimento probatório do accomplice é bastante útil para as investigações face ao combate aos crimes de corrupção e afins como para o desmantelamento de associações criminosas, mas também notámos ao longo deste trabalho que esse conhecimento por muitas vezes pode estar “viciado” e é de extrema fragilidade para não falar de todos os princípios constitucionais que poderão ser lesados. Existe de facto uma necessidade urgente de combate à criminalidade económico-financeira, no entanto, terão de ser tomadas medidas coincidentes com os princípios estruturantes do nosso processo penal e a opção pelo conhecimento probatório do coarguido em troca de um “prémio” ou benefício tem, de pelo menos, ser bem pensada e sobretudo bem legislada.

Capítulo VI – Programa “denuncie aqui” no combate à

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