• Nenhum resultado encontrado

2. Políticas de Transferência de Renda e Ganhos eleitorais 29

2.6 Programa de Transferência de Renda e Ganhos Eleitorais 59

Os autores Manacorda, Miguel e Vigorito (2009) desenvolveram um estudo inédito no Uruguai ao usar dados individuais juntamente com técnicas de econometria para testar empiricamente a hipótese de que programas de transferência de renda levam ao aumento do apoio político.

Eles reiteram a dinâmica da perspectiva dos modelos de comportamento individual do voto aliado a programas de transferência de renda afirmando que a transferência de renda leva a um aumento no apoio político e governamental principalmente entre os mais pobres que são o público alvo desse tipo de política.

Fazendo uma contextualização histórica da vida política do Uruguai os autores relatam que no ano de 2004, um governo de centro-esquerda – a Frente Ampla – assume o poder no Uruguai e dão início a um programa de transferência de renda chamado Panes (Plan de Atención Nacional a la Emergencia Social).

O Panes foi desenhado para ser um programa de caráter emergencial que deveria funcionar de abril de 2005 a dezembro de 2007. Os principais objetivos do programa eram de prestar auxílio às famílias que sofreram perdas na crise de 2001-2002 e tiveram seu padrão de vida deteriorado. Além de possibilitar a construção de uma maneira coletiva e participativa de saída da indigência e pobreza dessa parcela da população. Por meio da criação tanto de condições quanto de oportunidades factíveis que garantam um processo genuíno de inclusão social das pessoas que participaram do programa (http://www.mides.gub.uy).

O estudo desenvolvido por Manacorda et alli (2009) teve como subsídio um survey realizado 18 meses depois do início do programa. A pesquisa teve inúmeros achados empíricos principalmente o fato dos beneficiários do programa tenderem a avaliar melhor o governo do que os não beneficiários. Ao fim do programa entre fevereiro e março de 2008 outro survey foi feito abrangendo 92% das pessoas que foram entrevistadas no início da pesquisa que corroborou os achados do primeiro.

Os autores relacionam então o custo do programa em relação ao Produto Interno Bruto do País com os ganhos de apoio ao governo como mostra a citação a baixo.

“The result is largely unchanged across a variety of specifications and with the inclusion of a wide set of household controls. Back-of-the envelope calculations suggest that securing one extra supporter costs the government on the order of US$2,000 per year, or one third of national GDP per capita (though this estimate is an upper bound cost if political impacts persist after the program has ended). This implies that a government seeking to increase its vote share by 1 percentage point would need to increase spending by around 0.9% of total annual government social expenditures. Uruguay has highly developed democratic political institutions for a middle-income country, suggesting that some of the political findings could also be relevant for wealthier countries”. (Manacorda et

alli 2009, p.3)

Além disso, os autores afirmam que os efeitos das transferências de renda no apoio político é significamente maior nos agregados mais pobres e entre pessoas que se encontram no centro do espectro político do que em outras parcelas da população. Os dados da pesquisa mostram que as famílias que recebem o apoio do Panes tendem a ser pró-governo, cerca de 81%, enquanto que entre as famílias que não são inscritas no programa apenas 55% são a favor do governo.

“The estimated discontinuity implies that program eligibility is associated with a 25 percentage point increase in support for the government over the opposition coalition. This figure provides evidence that households’ political views are extremely responsive to the receipt of government transfers”. (Manacorda et alli 2009, p.3)

O estudo avança numa análise bastante audaciosa ao relacionar os gastos do programa com os votos a serem obtidos. O custo do programa com cada família seria algo em torno de US$ 880,00 por ano. Esse valor é calculado a partir do maior valor de transferência que uma família pode receber incluindo custos administrativos de gestão e custos de alguns pequenos projetos que acabam por beneficiar pessoas participantes do programa. O número médio de pessoas que votam ou estão em idade de votar por domicílio na amostra é de 1,78. Assim Manacorda et alli (2009) afirmam que a taxa anual de custo por eleitor é de US$880,00/1,78= US$495,00 (p.13).

Assim, se 102.353 famílias são admitidas no programa, com 1.78 adultos que votam por casa, e usando um efeito estimado de 0.21, o partido ganharia 38.260 votos como mostra a explicação dos autores.

“Because 102,353 households were eventually admitted to the program (with 1.78 voting age adults per household), and using the conservative treatment effect estimate of 0.21, this gives a gain of 38,260 votes for the Frente Amplio relative to the opposition, implying that perhaps 19,130 voters would shift from supporting the opposition to supporting the FA. In the 2004 Uruguayan general the FA received 1,124,761 votes, so this shift would be equivalent to an increase in the votes for the FA coalition of 1.7% (=19,130/1,124,761). Since the program cost was roughly 1.95% of total government social expenditures, increasing support for the government by 1 percentage point would cost roughly 0.9% of government social expenditures. (Manacorda et alli 2009, p.14)

O estudo então conclui que:

“The PANES cash transfer program we study thus had persistent impacts on political support for the government, suggesting that lagged transfers also factor meaningfully into voters’ decision-making. These voting effects of lagged transfers could greatly reduce the cost per vote gained through a government program if they persist through several election cycles, although we cannot accurately assess the degree of persistence given our single postprogram follow- up survey (Manacorda et alli 2009, p.23)”.

No Brasil, alguns autores discutem essa temática como Soares e Terron (2007) que analisam a última eleição de Luiz Inácio Lula da Silva. Eles mostram nos resultados da eleição de 2006 a existência de um novo padrão na distribuição especial dos votos se comparado ao ano de 2002. Segundo eles, “os blocos regionais de municípios de alta votação em 2002 perderam a coesão em 2006, tornando-se mais vulneráveis” e o impacto sobre a renda do programa Bolsa Família foi um fator de peso na explicação do voto dos municípios.

O primeiro passo da realização do trabalho de Soares e Terron (2007) foi a identificação de regiões consideradas homogêneas no critério da escolha eleitoral nos anos de 2002 e 2006. O estudo mostra que os padrões espaciais são completamente diferentes entre as duas eleições.

Então, para verificar a hipótese do estudo de que o Bolsa Família teve importante papel nas eleições de 2006 Soares e Terron (2007) analisam padrões geográficos da votação municipal, mapeando as diferenças entre as datas e averiguaram a participação do Bolsa Família no crescimento de Lula nos municípios mais pobres do norte e nordeste do país. Os autores afirmam que há um consenso quanto à mudança geográfica em direção ao norte e nordeste e um movimento no sentido inverso do desenvolvimento social de estados e municípios.

Em conformidade com o estudo de Soares e Terron (2007) outros autores como Marques et alli (2007), Carraro et alli (2007) e Zucco (2008) mostram as mudanças das bases eleitorais de Lula. Segundo eles na última eleição o presidente Lula teria sido mais votado nos municípios menos desenvolvidos. Com exceção de Carraro et alli (2007) que não concordam que a influência do Bolsa Família tenha sido significativo na vitória eleitoral.

Um ponto importante que é salientado por Soares (2000) é a diferença que eventualmente existe num pleito de eleição e reeleição, segundo ele na reeleição uma série de variáveis passam a ser relevantes principalmente no que tange ao desempenho no mandato anterior.

Um importante estudo que objetiva nortear as percepções da população brasileira em relação ao Bolsa Família é de Castro et alli (2008), um survey com uma amostra de 6.00122 entrevistas feita sob demanda da Secretaria de Comunicação da Presidência da República e operacionalizada pelo DATAUnB – Pesquisas Sociais Aplicadas.

O estudo mostra o amplo conhecimento do Programa Bolsa Família pela sociedade. Dentre as indagações feitas, a primeira foi se o PBF fazia diferença para a o Brasil e se trazia mais coisas boas ou coisas ruins. Dos respondentes de cada quatro três (72%) consideram que o Bolsa Família traz mais coisas boas para o país, posição que variou, entretanto, nas diversas regiões do país. Com exceção do Nordeste em que o percentual de entrevistados que afirmaram que o Programa não faz diferença apenas 10%, nas outras regiões esse percentual ficou na faixa de 13% a 16%. Quanto ao percentual de trazer coisas ruins, o maior percentual encontrado foi na região sul (17%) e no Centro-Oeste (13%) como mostra a figura a seguir:

22 A amostra totalizou 6001 entrevistas domiciliares em 214 municípios de 25 unidades da federação, com esquema

amostral por conglomerados com o principal objetivo de avaliar quanto os programas eram conhecidos pelo nome ou por funções e em que medida a população considerava que os respectivos objetivos estariam sendo atingidos.

Gráfico 6 – Percepção geral sobre o Programa Bolsa Família por região, Brasil, 2008 (em percentuais) 16,5 10,1 13,1 13,1 16,3 74,7 81,6 72,2 65,9 67,6 6,4 6,3 9,9 16,9 12,7

Norte Nordeste Sudeste Sul Centro-Oeste

Traz mais coisas ruins para o Brasil

Traz mais coisas boas para o Brasil

Não faz diferença para o Brasil

Fonte: DATAUnB

Gráfico retirado do artigo Percepções sobre o Programa Bolsa Família na Sociedade

O estudo procurou também explorar se a população concordava se os objetivos do programa estavam sendo alcançados, se havia efeitos positivos na melhora de vida das pessoas, famílias e comunidades assim como a forma que os recursos estavam sendo utilizados pelos beneficiários. No que refere aos objetivos do programa o que a população mais percebeu foi a concordância da manutenção das crianças na escola (83%), seguido da melhora da educação das crianças (74%), combate ao trabalho infantil (73%), por último a melhora da saúde das gestantes (64%) como mostra a tabela.

Tabela 6 - Percepção sobre a consecução dos objetivos do Programa Bolsa Família, Brasil, 2008

Concordância com o consecução dos objetivos do Bolsa Família

Sim/ Tende a concordar

1. Ajuda a combater a pobreza no Brasil 65% 2. Ajuda a manter as crianças na escola 83% 3. Ajuda a melhorar a educação das crianças 74% 4. Ajuda a combater o trabalho infantil 73% 5. Ajuda a melhorar a saúde das gestantes 64% 6. Ajuda a melhorar a saúde das crianças 72% Fonte: DATAUnB

Figura retirada do artigo Percepções sobre o Programa Bolsa Família na Sociedade

Ao longo de todo o estudo o fato do entrevistado conhecer uma pessoa que recebe o benefício foi fundamental para uma avaliação mais positiva do programa. E conclui que a população reconhece o Programa e entende que ele está sendo bem utilizado, mesmo considerando problemas na sua execução. O estudo mostra ainda a legitimidade política do

Programa junto à sociedade devido o nível de conhecimento da política e o apoio à sua existência. Além disso, indica a necessidade em considerar a opinião da sociedade na avaliação de políticas públicas contribuindo para compreender a efetividade da mesma.

Assim o que os estudos mostram, como o de Soares & Terron (2007) uma mudança geográfica no apoio a Lula segundo as regiões do Brasil assim como das bases eleitorais do presidente evidenciado nos estudos de Zucco (2008) e Carraro et alli (2007). No estudo feito no Uruguai se conclui que a população que recebeu o benefício do programa tende a aprovar melhor o governo. Neste momento, passamos a estudos de caráter mais quantitativo que relacionam, com o uso de métodos estatísticos, o percentual de votos recebidos e o porcentual de população beneficiada.