A escola pública brasileira vem experimentando nas últimas décadas um momento de perda de identidade cultural e pedagógica. Tem-se observado um esvaziamento das responsabilidades da escola expresso, entre outros fatores, pelas instalações precárias de seu ambiente físico, pela redução da jornada e multiplicação dos turnos, pela desorientação didático- pedagógica e pela baixa qualidade da formação dos professores. No entanto, em meio a esta realidade, as recentes políticas públicas que buscam garantir a permanência das crianças nas escolas pelo menos até o final do período da obrigatoriedade revelam a percepção, por parte da sociedade, de que existe a necessidade de construção de uma nova identidade para a escola fundamental que integre efetivamente as crianças e adolescentes à vida escolar (CAVALIERI, 2002).
Nos últimos anos o propósito de cumprir o artigo constitucional que garante a educação como direito do cidadão tem proporcionado a adoção de inúmeras e diferentes experiências educacionais, com a promessa de solução à crise imposta ao sistema educacional vigente (SILVA, 1998). Os programas públicos que associam o repasse de recursos às famílias que mantiverem os filhos na escola ("Bolsa-escola", “Bolsa-família”, entre outros), as mudanças nos critérios de organização de turmas e de progressão escolar e a inclusão no currículo oficial de temas transversais ligados à saúde, à ética, e à cultura, são medidas que pretendem conquistar ou
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fortalecer a adesão das crianças e suas famílias à escola (CAVALIERI, 2002; MAINARDI, 2005).
Tem sido retomada, também, nos anos mais recentes, a discussão sobre a proposta pedagógica da escola de tempo integral, cuja primeira experiência no cenário da educação brasileira ocorreu por meio da implementação, na metade da década de 80, dos Centros Integrados de Educação Pública – CIEPs, no Rio de Janeiro, pelo governo de Leonel Brizola sob coordenação, na época, do secretário estadual de educação Darcy Ribeiro (SILVA, 1998; MIGNOT, 2001). A partir de 1990 foi adotado no município de Americana (SP) experiência semelhante à do governo do Rio de Janeiro, implementando-se quatro CIEPs no interior paulista (SILVA, 1998).
Vale registrar, também, a experiência dos Centros de Atenção Integral à Criança – CAIC’s, implementados no governo Collor em 1991, sendo que atualmente expressiva parcela destes centros funciona como escolas convencionais de ensino, não adotando mais a jornada integral.
Cabe mencionar que os CIEPs do Rio de Janeiro contrastavam com a rede de ensino público vigente na época, recebendo elevados investimentos e sendo considerados como as escolas do futuro. Construídos sem criterioso estudo de demanda, os CIEPs revelaram estrutura onerosa, problemas quanto à localização, aspectos pedagógicos e uso partidário (MIGNOT, 2001).
Apesar das dificuldades mencionadas, a implantação dos CIEPs propiciou debates acerca da educação em período integral. A proposta de tempo integral traz para o interior da escola uma série de funções supletivas à função pedagógica institucional que podem ser exemplificadas pelas atividades de curar, proteger, alimentar, entre outras (SILVA, 1998).
Especificamente no que se refere à alimentação, assume particular importância o Programa de Alimentação Escolar, que tem por objetivo manter a criança alimentada durante a jornada de aula, para as unidades de período integral. Cabe destacar que a proposta básica do plano alimentar dos CIEPs de Americana consistia no fornecimento de três refeições diárias, totalizando 2500 quilocalorias. Essas refeições deveriam ser planejadas levando em consideração as principais carências nutricionais do grupo atendido. Não havia, no plano alimentar dos CIEPs, qualquer referência às recomendações nutricionais quanto aos nutrientes (proteína, vitaminas e minerais) preconizadas para os diferentes estágios de vida e gênero dos alunos (SILVA, 1998).
Nos últimos anos projetos envolvendo escolas que funcionam em tempo integral vêm sendo desenvolvidos em várias regiões do país. Estes programas, em sua maioria, referem-se à ampliação da jornada diária de aulas em parcela das escolas públicas por meio da adoção, na grade curricular, de oficinas que incluem esportes, aulas de informática, artes, entre outros. É importante considerar que a implementação destes projetos pelas escolas demanda uma infra- estrutura adequada do ambiente físico (salas de aula disponíveis, refeitórios, etc), materiais (para, serem utilizados nas oficinas, além de materiais de higiene), contratação de professores, reestruturação da alimentação servida nas unidades, entre outros aspectos (GONÇALVES, 2006). Em Santa Catarina o projeto “Escola Pública Integrada” abrange 128 escolas e mais de treze mil crianças. Neste programa as disciplinas básicas curriculares são intercaladas com atividades nas áreas de línguas, esportes, artes, ciências, entre outros, sendo que as atividades diferenciadas recebem o mesmo peso na grade curricular atribuído às disciplinas básicas. Os alunos cumprem uma jornada de oito horas e recebem três refeições diárias no programa (ROSA, 2005).
O projeto “Escola de Tempo Integral”, implementado no Rio Grande do Sul desde 2004, visa atender crianças e adolescentes classificados como pobres. Além das aulas curriculares básicas, os alunos participam, durante o turno inverso, de oficinas pedagógicas. O programa está presente em dezenove municípios gaúchos, atendendo cerca de 6.500 alunos da rede pública estadual de 39 escolas (SECRETARIA DA EDUCAÇÃO DO ESTADO DO RIO GRANDE DO SUL, 2007).
Em 2006 a escola em tempo integral foi adotada em 38 escolas estaduais de Goiás, beneficiando dez mil estudantes. Para a realização das três refeições diárias pelos escolares, o governo do estado destinou cerca de R$ 1,3 milhões durante o segundo semestre de 2006 (SECRETARIA DA EDUCAÇÃO DO ESTADO DE GOIÁS, 2006).
Outras iniciativas de projetos envolvendo a educação em tempo integral têm sido observadas nos estados de Minas Gerais, Paraná, Maranhão, Bahia, Pernambuco e Mato Grosso do Sul.
No Estado de São Paulo, em dezembro de 2005, o então governador Geraldo Alckmin apresentou o projeto “Escola de tempo integral”, que foi implementado no início de 2006. O programa abrange 512 escolas, localizadas em 205 municípios (31,8% do total de cidades
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paulistas) que aderiram voluntariamente ao projeto, da rede de ensino público fundamental (SECRETARIA DA EDUCAÇÃO DO ESTADO DE SÃO PAULO, 2007).
Regulamentado pela Resolução No 89 de 09 de dezembro de 2005, o projeto tem como objetivo principal a promoção da permanência do aluno na unidade de ensino, assistindo-o integralmente em suas necessidades básicas e educacionais (SÃO PAULO, 2007). Nestas escolas, desde o começo do ano letivo de 2006, as atividades iniciam-se às 7:00 horas e terminam às 16:00 horas (jornada de nove horas diárias), compreendendo, no período da manhã, as disciplinas tradicionais do currículo e à tarde ações direcionadas às atividades artístico-culturais, esportivas, de orientação aos estudos, de integração social e de enriquecimento curricular. O projeto didático-pedagógico é desenvolvido pela unidade de ensino.
Cabe destacar que para atender às necessidades dos alunos com a maior jornada diária de aulas foram estipuladas, pelo programa, a distribuição de três refeições diárias (lanche da manhã, almoço e lanche da tarde). Tal situação provavelmente deve ter demandado uma reavaliação da alimentação oferecida nas escolas, com vistas a suprir as necessidades dos alunos durante o maior período em que estes se encontram nas unidades de ensino, tendo conseqüentes alterações no planejamento e execução das refeições para as escolas integrantes do programa.
Em videoconferência, transmitida em 19 de abril de 2006, aos municípios integrantes do referido programa, pelo Departamento de Suprimentos ao Escolar – DSE, do estado de São Paulo, foram apresentados os parâmetros nutricionais previamente definidos e que devem ser adotados nos cardápios das unidades de ensino. As três refeições distribuídas pelo Programa de Alimentação Escolar, para as unidades de ensino integrantes do programa “Escola de Tempo Integral”, devem fornecer 50% das necessidades nutricionais diárias dos estudantes. É importante mencionar que para as escolas que não integram o referido programa o cardápio da alimentação escolar é programado de modo a suprir 15% das necessidades nutricionais diárias dos alunos, conforme já previsto pelo Ministério da Educação (BRASIL, 2006a).
Para o adequado desenvolvimento do programa “Escola de Tempo Integral”, o governo estadual tem destinado recursos adicionais às escolas integrantes do referido projeto, com vistas à realização de reformas da estrutura das unidades de ensino que sediam o programa. Além disso, desde o início do projeto, em 2006, são enviados produtos formulados (bebidas lácteas e enlatados) às escolas, visando-se à complementação dos gêneros alimentícios com a maior jornada de aulas (SECRETARIA DA EDUCAÇÃO DO ESTADO DE SÃO PAULO, 2007).
Neste contexto, a avaliação do desempenho do Programa de Alimentação Escolar, com a ampliação da jornada de aulas, torna-se importante, sobretudo no que diz respeito à adesão dos alunos às refeições e à percepção destes quanto às mudanças ocorridas com a adoção do período integral.
3 METODOLOGIA