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CAPÍTULO IV. DIREITOS HUMANOS NA POLÍCIA CIVIL DO ESTADO DE SÃO

4. O Programa Estadual de Direitos Humanos

O Estado de São Paulo não possui um Plano Estadual de Segurança Pública, peça basilar para complementar o estudo aqui apresentado, uma vez que o governo federal o possui e a temática dos Direitos Humanos o permeia de forma integral, contudo, é portador de um Programa Estadual de Direitos Humanos, criado pelo Decreto nº 42.209 de 14 de setembro de 1997.

Como programa, afirma o compromisso do Estado de São Paulo em lutar para resolver os principais problemas na seara dos Direitos Humanos, tais como a impunidade, a violência e a discriminação. O programa define princípios, estabelece prioridades e apresenta algumas propostas.

Os princípios básicos que orientam o Programa Estadual de Direitos Humanos são informados pelas seguintes proposições135: 1ª) a consolidação da democracia exige a garantia dos direitos humanos de todas as pessoas, independente de origem, idade, sexo, etnia, raça, condição econômica e social, orientação ou identidade sexual, credo religioso e convicção política; 2ª) os direitos civis e políticos, econômicos, sociais e culturais são direitos indissociáveis; 3ª) as violações dos direitos humanos têm muitas causas, de ordem internacional, política, econômica, social, cultural e psicológica; 4ª) o estudo e a pesquisa da natureza e das causas das violações de direitos humanos são indispensáveis para a formulação e implementação de políticas e programas de combate à violência e discriminação e de proteção e promoção dos direitos humanos; e 5ª) a proteção dos direitos humanos e a consolidação da democracia dependem da cooperação de todos, entre governo federal e o governo estadual, com os governos municipais e a sociedade civil, tanto na fase da formulação quanto na fase de implementação, monitoramento e avaliação das políticas e programas de direitos humanos.

O Programa Estadual de Direitos Humanos reconhece a indissociabilidade dos direitos civis, políticos, econômicos, culturais, individuais e coletivos e, nessa linha, procura definir propostas para a proteção de todos os direitos humanos.

O Plano reconhece ainda as dificuldades a serem enfrentadas, a partir da grave desigualdade social e de renda que nos permeia, como exemplo aponta o desemprego, a dificuldade de acesso à terra, à educação, à saúde, ao meio ambiente e a outros objetos dos direitos humanos.

A assunção desses direitos humanos somente poderá ser assumida pela população quando o Estado, diretamente ou por meio de parcerias com a sociedade civil organizada, puder garanti-los.

Na construção desse instrumento, a polícia judiciária não foi sequer referenciada, o que nos leva a inferir que sua participação, se ocorreu, foi insignificante. De acordo com o relatório do Plano136, sua elaboração, ocorrida entre 1996 e 1998, teve início no 1º Fórum Estadual de Minorias, organizado pela Secretaria da Justiça e da Defesa da Cidadania e pelo Conselho Estadual de Defesa

135

Programa Estadual de Direitos Humanos. Governo do Estado de São Paulo, 1998, p. 9 e seguintes.

dos Direitos da Pessoa Humana, além de encontros setoriais e seminários regionais, organizados pela Universidade de São Paulo, por intermédio do Núcleo de Estudos da Violência. A partir deste evento seguiram-se seminários regionais em Campinas, Santos, Sorocaba, São José dos Campos, Ribeirão Preto, São José do Rio Preto, Bauru e Presidente Prudente. Ao todo, foram 167 entidades envolvidas, representadas por representantes e integrantes de entidades governamentais e da sociedade civil, de todos os grupos sociais e regiões do Estado. A construção do instrumento também contou com uma audiência pública realizada na FEBEM do Tatuapé. O Programa conta ainda com uma Comissão Especial de Acompanhamento do Programa.

Este programa é subdividido em quatro grupos temáticos, dotados de um total de 303 propostas, que apontam ações a serem promovidas diretamente no âmbito da segurança pública e de seus organismos buscando efetivar os Direitos Humanos.

No primeiro tópico, intitulado Construção da Democracia e Promoção dos Direitos Humanos, estão relacionadas 16 propostas, sendo de interesse do presente estudo os seguintes:

“3. Desenvolver programas de informação e formação para profissionais do direito, policiais civis e militares, agentes penitenciários e lideranças comunitárias, orientados pela concepção dos direitos humanos segundo a qual o respeito à igualdade supõe também reconhecimento e valorização das diferenças entre indivíduos e coletividades.”

Neste aspecto, a formação em Direitos Humanos apresentada pela Academia de Polícia representa muito bem o cumprimento desta proposta.

No segundo tópico, denominado Direitos Econômicos, Sociais, Culturais e Ambientais, estão relacionadas 82 propostas, destacando-se a seguinte:

“81. Reativar convênio entre a Secretaria da Segurança Pública e Secretaria da Criança, Família e Bem Estar Social com o objetivo de oferecer atendimento nas delegacias de polícia, por assistentes sociais.”

É importante a preocupação com a ambiência da Delegacia de Polícia. Com relação à presença importante de assistente social, em algumas Delegacias de Polícia este profissional se faz presente, notadamente naquelas mais acessíveis à mídia. Nesse aspecto, a proposta não se encontra completamente implementada. Pelo fato de inexistir também nos quadros da Polícia tal profissional, a dependência de convênio fragiliza sua efetividade.

No tópico seguinte, denominado Direitos Políticos, estão relacionadas mais 190 propostas, nelas destacando-se as seguintes:

“104. Consolidar e fortalecer o controle externo da atividade policial pelo Ministério Público, e acordo com o artigo 127, VII da Constituição Federal.”

O Ministério Público ganhou contornos importantíssimos de proteção e tutela da cidadania, e o controle externo da atividade pública, em especial da atividade policial, não poderia receber tratamento diverso. Infelizmente, esse controle externo encontra-se desfocado e pífio. É desfocado, pois atua apenas na ação da polícia judiciária de forma repressiva, ou seja, age reativamente e não preventivamente, como deveria ser. O Ministério Público não tem dado importância às ações de política policial. Distritos policiais são instalados em imóveis residenciais, no mais das vezes despreparados para o recebimento de uma repartição pública que lida com a tutela de bens tão importantes como a vida, liberdade, patrimônio, dignidade humana, entre outros. Pior, porque na criação e instalação de tais unidades policiais não se respeita o número mínimo de policiais a integrar uma equipe de uma unidade policial. É pífio, por sua vez, pois atinge apenas a polícia judiciária, quando a polícia militar também realiza atos de polícia que necessitam do controle externo. Por controle externo devemos compreender o papel do Ministério Público no sentido de fazer valer as leis e o respeito à Constituição. Desde a Constituição Federal de 1988 o Ministério Público em São Paulo tem sido completamente tímido no exercício do controle externo da atividade policial. Primeiro porque controla exclusivamente a atividade da Polícia Civil, descurando-se da fiscalização dos atos da Polícia Militar.

O Ato Normativo nº 324-PGJ/CGMP/CPJ, de 29 de agosto de 2003, que regulamenta o controle externo da atividade policial, refere-se exclusivamente ao controle dos atos da polícia judiciária. Da mesma forma, é comum se ver a atuação do Ministério Público focada apenas nos resultados das operações policiais. É papel do fiscal da lei fazer com que todas as leis e normas sejam observadas, mormente aquelas que apontam para o serviço público, para as normas de higiene e saúde dos policiais, as normas constitucionais que apontam para a jornada semanal máxima, para o pagamento de direitos que os policiais possuem. Pífia a atuação. Age-se como se o policial também não fosse um ser humano. Essa postura prescinde de modificação.

“109. Estimular a solução pacífica de conflitos, criando e fortalecendo, na periferia das grandes cidades, centros de integração da cidadania, com a participação do Poder Judiciário, Ministério Público, Procuradoria de Assistência Judiciária, Polícia Civil, Polícia Militar, Procon, outros órgãos governamentais de atendimento social, de geração de renda, de prevenção de doenças e com ampla participação da sociedade civil.”

A tutela da Dignidade Humana seria mais bem exercida se esta proposta pudesse sair do papel. Sabemos que a intervenção rápida do Estado culmina com uma solução mais adequada das demandas sociais. Tivemos até notícias de algumas atividades de ação integrada dos órgãos do poder, mas infelizmente funcionaram por força e determinação de poucos juízes, promotores, delegados, advogados, procuradores e não por determinação de uma política de atendimento público.

“135. Aperfeiçoar critérios para seleção e promoção de policiais de forma a valorizar e incentivar o respeito à lei, o uso limitado da força, a defesa dos direitos dos cidadãos e da dignidade humana no exercício da atividade policial.”

O Policial precisa ser mais bem selecionado para ser mais bem preparado. Selecionamos policiais hoje como fazíamos há vinte ou trinta anos. Os modelos de concursos públicos passam longe das modernas técnicas de seleção de pessoal. Não se busca uma formação em nível superior. Na maioria dos casos, o nível superior é relegado às funções principais das carreiras públicas. Faz-se necessária uma mudança de paradigma nesse sentido. Um aspecto importante, e até mesmo um exemplo a ser seguido pelas demais carreiras jurídicas, é a exigência para o ingresso na carreira de Delegado de Polícia do conhecimento de Direitos Humanos. Tanto na primeira fase do certame como no exame oral, respectivamente primeira e últimas fases do concurso de ingresso na carreira a disciplina de Direitos Humanos é exigida.

“136. Apoiar programas de aperfeiçoamento profissional de policiais militares e civis por meio da concessão de bolsas de estudo e intercâmbio com polícias de outros países para fortalecer estratégias de policiamento condizentes com o respeito à lei, uso limitado da força, defesa dos direitos dos cidadãos e da dignidade humana.”

Outra diretriz meramente decorativa. O apoio à realização de cursos de direitos humanos para policiais em todos os níveis da hierarquia policial é inclusive regulamentado na seara da Academia de Polícia de São Paulo137. Contudo

137 A bolsa de estudos para o desenvolvimento da presente tese foi negada pela Academia de Polícia

de São Paulo, mesmo tendo sido submetida a dois pedidos de reconsideração. O Regulamento da Academia de Polícia prevê para tanto: “Artigo 59 – A pesquisa será orientada para o aprimoramento do exercício das funções policiais, mediante: I – desenvolvimento do comportamento científico; II – criação de novos métodos e técnicas; III – divulgação de novos métodos e técnicas. Artigo 62 – A concessão de bolsas de estudo é sujeita a processo seletivo por comissão escolhida pela Congregação. § 1o. – O beneficiário de bolsa de estudo é obrigado a apresentar relatório pormenorizado do estudo realizado, instruído com comprovante de freqüência e aproveitamento, para avaliação do emprego regular do tempo e da bolsa, no prazo de 30 (trinta) dias, a contar do retorno. § 2o. – A concessão de nova bolsa de estudo ao mesmo beneficiário somente poderá ser feita após o transcurso de 5 anos da concessão da bolsa de estudos anterior”. E também no Fundo de Incentivo a Segurança Pública, criado pela Lei 10.328, de 15 de julho de 1999, se dispõe textualmente: “Artigo 2º - Sem prejuízo das dotações consignadas no orçamento, o Fundo a que se refere o artigo anterior tem por finalidade assegurar meios para a expansão e aperfeiçoamento das ações e programas de modernização e aprimoramento na área da Segurança Pública, provendo recursos que serão utilizados consoante diretrizes fixadas pelo Secretário da Segurança Pública, nas seguintes atividades (...) VI – participação de policiais civis e militares em cursos e eventos de intercâmbio, especialização e aperfeiçoamento das respectivas qualificações profissionais”.

desconhecemos até o presente momento tenha sido concedida. O discurso novamente se afasta da prática.

“146. Organizar seminário estadual para policiais sobre educação em direitos humanos.”

Não temos notícias da realização de uma dupla de seminários sobre educação em direitos humanos para policiais.

Pontofinalizando, a impressão que se tem é que as linhas mestras do Programa Estadual de Direitos Humanos lançado pelo governo do Estado de São Paulo em 1998 renderam frutos em alguns aspectos importantes, contudo, ele não foi revisitado constantemente como deveria, em especial pela existência da previsão de uma Comissão Especial de Acompanhamento do Programa Estadual de Direitos Humanos.

Essa comissão deveria estar mais presente, cobrando ações efetivas e endereçando aos órgãos públicos responsáveis pela sua efetividade, as demandas necessárias a aplicação do plano.

Ressente-se ainda o Programa de Direitos Humanos de um Programa de Segurança Pública, a exemplo do que faz o Governo Federal, ambos atuando de forma complementar. Esse planejamento primeiro da segurança pública deveria existir para sustentar as linhas de atuação dos organismos policiais, sempre permeadas por cortes transversais de temática afeta à Dignidade Humana e aos Direitos Humanos. A Polícia precisa ser considerada a guardiã da Dignidade Humana.