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Programa funcional e arquitetónico da habitação

II. Casas rurais entre 1900 e 1960

2. Grupos sociais em espaço rural

2.4. Trabalhadores agrícolas e casas rurais

2.4.2. Caracterização formal e estética geral das casas de Ourém

2.4.2.4. Programa funcional e arquitetónico da habitação

Verifica-se a propensão para a diversidade arquitetónica do exterior das casas a sul e centro-norte e para a uniformidade no seu interior, pelo que se apresenta um programa funcional e arquitetónico regional transversal às sub-regiões129. A tendência mais comum assentava no modelo de piso único e planta retangular (com ou sem alpendre), com a cozinha a comunicar com a despensa e a sala e esta com os quartos.

Cozinha

A seguir ao alpendre, a cozinha era o espaço da habitação mais frequentado e que mantinha uma relação mais direta com o campo através da preparação de refeições com produtos agrícolas e do seu consumo pelos respetivos produtores. Eram ainda ali consertadas as roupas e executadas outras tarefas femininas. João de Pina-Cabral (1989: 66) evidenciou a cozinha como espaço nuclear da casa e João Vieira Caldas (2007: 41, 122) realçou-lhe a posição central e polifuncional na habitação e o papel na classificação tipológica da arquitetura vernácula. As narrativas das oureenses que

128 Residente em Urqueira.

as dinamizaram no passado reforçam estas leituras: “A cozinha era o sítio onde passávamos mais tempo, sentadas à lareira no inverno a remendar a roupinha, à luz da candeia de azeite” [Luísa, 78 anos, Fátima].

Algumas casas tinham duas cozinhas: a cozinha do forno (nem sempre no corpo da casa, mais utilizada e rudimentar, onde se cumpriam os trabalhos mais “sujos”) e uma cozinha mais usada para receber convidados. Mas, na maioria das habitações, existia apenas uma cozinha, acessível a partir da rua ou pelo alpendre, que tinha, a um canto, um xote de madeira para arrumos temporários e assento nas conversas de fim de tarde e, na parede, um prego para pendurar as vestes de lavoura. A maior parte dos resíduos da rua ali ficava, mas mesmo assim entravam alguns para a cozinha, tornando-a o sítio menos limpo da casa. Quando entravam em casa, os homens arrastavam palhas e terra que se acumulavam com as cinzas e as fuligens da lareira, quase sempre acesa, espalhando o fumo e enegrecendo as paredes caiadas de branco. Segundo antigos trabalhadores agrícolas, no início do século XX, algumas cozinhas de famílias mais pobres não eram pavimentadas e o solo, a descoberto, era compactado pelo pisoteio das pessoas, uma situação já pouco comum em meados do século. Encontrei um único caso durante o trabalho de campo. O interior era sombrio, sem janelas bem dimensionadas e a cobertura, sem forro, era executada apenas com telhas que arejavam o interior, mas não o protegiam: “Na cozinha não se via nada, nem de noite nem de dia… Chegávamos a lá estar com o chapéu aberto, porque chovia lá dentro… era de telha de canudo, não tinha placa” [Maria Rosa, 80 anos, Fátima].

Encostada à parede, a um canto, a lareira estava rebaixada ou, mais raramente, alteada, a cerca de vinte centímetros do pavimento. O fumo, conduzido por uma chaminé de boca larga amparada por traves de carvalho, fumava os enchidos pendurados em canas dispostas na horizontal. Duas panelas de ferro estavam permanentemente ao lume130. A lareira era o cerne sagrado da casa (cf. Pina-Cabral, 1989: 66), acolhendo a família, sentada num escano ou no chão, que ali orava à noite, comia e passava o tempo nas tardes de inverno. Da mobília faziam parte uma mesa pequena de madeira, encostada à parede, não cabendo nela toda a família, alguns bancos e uma cadeira para o proprietário. Uma cantareira guardava os utensílios de

cozinha, adquiridos nas feiras locais e limitados a uma bilha ou cântaro de barro, tigelas, alguns garfos, facas, colheres de ferro e pratos de lata ou de barro:

Não cabiam todos na mesa… uns comiam sentados num banco, à lareira, outros iam lá para fora para o pátio para o sol [Ilda, 80 anos, Fátima];

A louça da cozinha… eu nem sabia o que era um guarda-louça… fomos à feira dos 24 comprar uma taça com ideias de ser para ele [o marido] e três pratos de sopa e outros três de sobremesa, meia dúzia e não sei quantos garfos de ferro… poucos. Como eram de ferro tínhamos que andar a areá-los com areia e cinza. Mais tarde, comprei garfos de alumínio e umas colheres de lata. Mas sempre os mais baratos. Dinheiro não havia e tinha-se que poupar um bocadinho… Era louça de refugo [Maria Emília Sousa Marques, 88 anos, Olival].

Sala

Com ligação à cozinha, a despensa, quartito ou puxado131 comunicava também com a sala (Oliveira e Galhano, 1994: 213). Este compartimento versátil e polivalente era usado para arrumos e tratamento de roupas, para a família fazer a sua higiene e para a acomodação de um dos pais do casal, quando, em situação de viuvez, passava a residir com os filhos. A sala, propriamente, existia na maioria das casas de trabalhadores agrícolas, ainda que, em situações de precariedade extrema e de famílias muito extensas, servisse como espaço de dormir. Os residentes acediam-lhe pela cozinha, de passagem para os quartos, e os visitantes entravam pela porta principal ou porta das “visitas”, a partir da rua. Era, de resto, o espaço menos frequentado e o mais cerimonial da casa. Em contraponto com a cozinha, onde os residentes geriam o quotidiano, a sala servia para a família (re)afirmar relações na esfera social ao acolher a visita pascal, os velórios de pessoas da casa e outros rituais abertos à comunidade. Ernesto Veiga de Oliveira e Fernando Galhano (1994: 182) salientaram-lhe o papel social nas casas do norte do país, onde era conhecida como “sala do Senhor” numa associação à religiosidade familiar, que também identifiquei em Ourém.

Contrastando com os quartos exíguos e com a cozinha em penumbra e desarrumada, era o espaço mais iluminado, limpo e ornamentado da casa (Oliveira e Galhano, 1994: 223). Um ripado de madeira forrava o teto, o pavimento era revestido com tábuas de pinho e a porta das “visitas” e duas janelas laterais rasgavam o alçado voltado para o caminho público. Nas paredes, caiadas de branco, eram fixados

cabides de madeira para os casacos e junto do remate do teto figuravam registos emoldurados com imagens de santos (Sagrado Coração de Jesus, Santo António, Nossa Senhora dos Remédios) e jarros de vidro comprados na feira local. Ao centro ficava a mesa quadrada, quatro cadeiras e alguns bancos e, junto da parede, um armário exibia louça de um serviço de uso exclusivo em ocasiões festivas; a um canto, o xote acomodava as melhores vestes da família. Estes móveis eram ornamentados com lavores feitos pelas mulheres da casa, que ainda engalanavam as janelas com cortinas bordadas:

A roupa cabia num canto da mala, porque era pouca. Tínhamos uns cabides nas paredes com umas cruzetas onde pendurávamos os casacos atrás da porta [Joaquina, Fátima];

A sala tinha uma mesa, umas cadeiras e uns banquinhos e uma toalha de ajur. Em cada canto era um raminho, uma flor. Fazia-se com gosto, a gente é que fazia. Ainda lá tenho roupinha do meu enxoval… um naperonzinho com umas cerejas bordadas [Ilda, 80 anos, Fátima].

Quartos

Habitualmente dois, os quartos eram espaços exíguos, escuros, pouco arejados e sobrelotados. Com o aumento do agregado familiar, devido às suas poupanças escassas, o casal não ampliava a casa. Distribuía os dois quartos pelo casal e pelas filhas, que dormiam várias na mesma cama. Os filhos rapazes acomodavam-se noutros espaços da habitação ou nos anexos agrícolas, sobre os pastos, enroscados em mantas de lã, de retalhos ou em panos para aparar a azeitona. As suas refeições e a higiene mantinham-se, porém, atividades interiores à casa. Alguns filhos eram ainda encaminhados para familiares ou patrões agrícolas, que os recebiam a troco de trabalho. Os rapazes com seis ou sete anos iam apascentar rebanhos e as raparigas tornavam-se criadas de servir:

E a casinha tinha dois quartos muito pequeninos. Não havia lá nada e o quarto da frente tinha uma janela e o quarto de trás tinha uma guritazinha, para entrar um bocado de ar, mas não podíamos ver, porque logo à frente era uma cisterna [Ilda, Fátima];

Dormíamos quatro numa cama, as cachopas num quarto, em cima, e os rapazes num quarto que o meu pai fez na adega [Celeste, 67 anos, Urqueira];

Dormia algumas das vezes com outra menina numa arca. Uma arca do milho. Porque éramos nove filhos em casa dos meus pais e ainda tínhamos lá uma tia [Maria Rosa, Fátima];

Estive a servir em casa de uma condessa e de um conde, no tempo do fascismo. Tinha-se que mudar a roupa de manhã para servir com a bandeja e à tarde… não gostei de lá estar [Bia, Fátima];

Em casa da minha mãe os filhos saíam muito cedo de casa, por volta dos 10 anos, uns iam servir, outros dormiam em casa de parente. Vínhamos poucas vezes a casa dos meus pais quando estávamos por fora. Quando vivi lá dormia no palheiro com o meu irmão mais velho. Os filhos mais novos é que já não saíram de casa [António, 68 anos, Urqueira].

As paredes dos quartos eram caiadas de branco e o pavimento e o teto forrados com madeira. Encostado à parede, um estrado de madeira assente sobre dois cavaletes servia de cama, que mais tarde passou a ser de ferro. As enxergas, de pano riscado ou estopa, tinham enchimento de palha de centeio e camisas de milho na parte superior, para ficarem mais macias. Os lençóis diários “eram cosidos a meio. Chamava-se-lhe o pano piolhento, era escuro” [Maria Emília Sousa Marques, Olival]. Estes lençóis de pano riscado eram tapados com mantas de retalhos ou de lã de ovelha feitas por tecedeiras locais. Segundo as informantes, nalgumas casas mais antigas, em Fátima, ao fundo da cama era aplicado um rodapé de pano:

A cama tinha mantas de lã de ovelha e de retalhos e uma cobertazinha bonita e um rodapé. Um bocado de pano ao fundo da cama com um franzido… era para tapar o que estava por debaixo da cama… era pregado ao colchão [Joaquina, Fátima];

Eram brancos franzidos, alguns com rendinhas e florinhas e folhozinho por baixo [Rosa, Fátima].

Pela visita pascal e noutras ocasiões de uso social da sala, eram deixadas abertas as portas dos quartos e as camas eram feitas com os adereços oferecidos pelos pais dos proprietários132. Tal como na sala, um naperon bordado pela mulher em solteira enfeitava a mesinha de cabeceira. No quarto do casal, um ou dois cabides de madeira, um crucifixo ou um pequeno nicho com oratório compunham as paredes:

A colcha do meu casamento nunca a lavei. Porque a guardei sempre. Eu só a punha na cama quando o padre ia ao folar. Quando ele saía da porta para fora lá ia eu tirá-la e arrumá-la. Tinha a casa com aquilo que tinha, tinha tudo aberto

132 Os lençóis oferecidos ao noivo eram bordados em azul ou branco e os da noiva em rosa. As colchas,

quando o padre chegava, quando se ia embora arrumava tudo [Mariana Martins Ferraz, 82 anos, Olival];

Havia naperons feitos por a gente, uns brancos, outros rosa com passarinhos em cima da mesinha de cabeceira, a condizer com os lençóis [Rosa, 80 anos, Fátima].