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Em 1973, a Junta de Missões Nacionais da Convenção Batista, propôs e teve aprovada em Assembléia Geral o PROIME.176 Este projeto teria sido criado inicialmente para a coordenação das campanhas integradas de missões e evangelização, mais tarde se transformaria em um programa permanente de ação missionária e evangelística com propósitos e objetivos bem definidos por um Plano de Metas.

Figura 10 Mapa de metas das prioridades missionárias

Fonte: A Pátria para Cristo. Jul-ago, 1975, nº 3, p. 3

Neste plano de metas (figura 10) fica explícita que a prioridade missionária da Convenção Batista nos anos 70 se voltava para a Amazônia, por isso a declaração de que “sem deixar os grandes centros urbanos, a Junta Nacional de Missões Batistas deveria priorizar os campos pioneiros, as cidades recém-criadas, aquelas mais distantes”, pois tais lugares, na concepção batista brasileira, careciam ainda muito mais do auxílio espiritual.

Os seminários, institutos bíblicos e escolas de formação de obreiros,177 destacar- se-iam neste contexto como ponto importante para a expansão da fé batista. Assim, é possível estabelecer, dentro deste Plano de Metas, a importância da cidade de Carolina (sul do Maranhão) como ponto estratégico escolhido para a saída da caravana em direção a Transamazônica. Nesta cidade, ficava o Instituto Teológico Batista, que a partir do projeto de evangelização das cidades no entorno da Transamazônica, passou a ser descrito como o local de treinamento para os prováveis fiéis batistas da região que se sentissem vocacionados ao trabalho missionário e também uma espécie de base para aqueles que estivessem em trânsito pela região a serviço da Missão Batista.

A cidade de Carolina, do ponto de vista geográfico, está estrategicamente situada. A Rodovia Transamazônica, da forma como foi projetada pelo Governo, atravessou em sua extensão, privilegiando o acesso pela estrada daqueles que ali residiam. Neste sentido, Samuel Mitt passa a considerar que o Instituto Bíblico Batista, localizado nesta cidade, exercia uma enorme responsabilidade diante da nova posição que ocupava. A evangelização dos colonos da Rodovia deveria ocupar a direção e os alunos daquela Instituição.

Israel Belo de Azevedo, ao se referir à ação evangelizadora promovida pelos batistas em território nacional, afirma que a escolha de lugares fora dos centros urbanos tem sido eficiente na meta de crescimento deste grupo, posto que outras denominações, como os congregacionais, os presbiterianos e os luteranos têm se concentrado mais nas metrópoles. Assim, a expansão para o interior da Amazônia dar-se-ia, nesta perspectiva, por motivos muito mais estratégicos e, portanto, de motivação interna do que por uma questão externa, a saber, as condições adversas ao Regime Militar de então, contrapondo-se a questão externa levantada por Oliveira.178

No ano seguinte à sua organização, o PROIME teria a primeira demonstração do esforço conjunto da equipe de Missões Nacionais. Uma Campanha Evangelística e Missionária na Transamazônica – a operação TRANSTOTAL, que mobilizaria uma centena

177 Este termo é corrente entre as igrejas batistas e designa aquele que trabalha nos ofícios pastorais, missionários

e evangelísticos, ocupando muitas vezes a função de dirigente da igreja local ou congregação.

de pessoas de diversas instituições batistas de ensino, vários missionários, brasileiros e norte- americanos, estudantes e voluntários de várias partes do Brasil. O objetivo desta campanha era a evangelização dos moradores e habitantes da Rodovia Transamazônica.

A Operação funcionou como uma demonstração da força que os batistas tinham para conquistar a região. Esta conquista, diferente daquela identificada por Paul Freston,179 baseava-se, segundo o discurso do reverendo Samuel Mitt, secretário executivo de Missões naquele ano, em uma ordem divina de que “esta era a hora da Amazônia”, expressa no clamor “passa a Transamazônica e ajuda-nos”. Samuel Mitt acreditava, como muitos de seus pares, que a hora da Amazônia chegara pelo que se podia enxergar nas condições materiais que a região oferecia: abertura de estradas, cidades sendo construídas, a floresta sendo vencida pelo homem, conforme suas próprias palavras no sermão publicado em O Jornal Batista.

Uma outra face deste plano de metas seria mobilizar as igrejas batistas brasileiras que já estavam implantadas na Região desde 1891.180 Esta mobilização integraria em um só trabalho as igrejas dos centros urbanos de Belém e Manaus com as igrejas de cidades do interior. Essa integração missionária e evangelística conforme propõe o nome do projeto – PROIME – evoca o discurso de integração semelhante ao evocado pelo Estado no que dizia respeito à Amazônia.

Na perspectiva batista, a integração centro-interior dar-se-ia pela ação missionária – uma só fé, um só batismo e um só espírito – se quisermos aludir ao discurso Paulino em suas epístolas, enquanto na perspectiva do Estado, ela far-se-ia através da colonização. Porém, tanto a ação missionária, quanto colonizadora tinha como marco inaugural a Transamazônica. Nestes projetos, portanto, a Amazônia destacou-se como sendo a região distante, à margem, que precisava ser integrada à nação brasileira. Esta necessidade teve visibilidade tanto no discurso dos militares de plantão no governo, quanto no dos batistas. Daí subentende-se o apelo de urgência: esta é a hora da Transamazônica. A hora era da Amazônia, a razão e a motivação dos batistas e do governo, mesmo sendo diferentes, tinham objetivos semelhantes:

integrar para não entregar.

Não entregar, para os batistas, significava não entregar às trevas, ao materialismo, ao ateísmo, ao comunismo, aos interesses internacionais, aos inimigos da pátria, aos

179 Paul Freston identificou em suas pesquisas uma província da Índia chamada Nagalândia, uma guerrilha de

inspiração marxista que se autoproclama evangélica, cujo lema é “Naglândia para Cristo”. Cf. Tendências da política evangélica às vésperas das eleições. Texto adaptado de palestra proferida no Congresso Estadual do Movimento Evangélico Progressista, em agosto de 2002, em Campinas-SP.

180 A historiografia aponta existência de batistas na Amazônia desde 19 de novembro de 1891, tendo como

aventureiros. A segurança do país passava pela segurança da Amazônia, a fronteira natural ao oeste. Assim, tanto os militares, quanto os batistas encontraram no discurso da carência desta inserção e da segurança um álibe para correr em direção à floresta. A segurança espiritual no discurso batista tem seu eco nas palavras de Samuel Mitt em visita à Transamazônica e bem ilustra este contexto:Da mesma forma que a Radio Transmundial tem chegado aos rádios dos colonos, assim também a rádio livre de Havana e a rádio livre de Moscou.181 O secretário mostrava-se preocupado com esta situação e considerava um perigo para os que ali estavam, afirmando que tais difusoras contribuíam para semear a incredulidade, o materialismo e o comunismo.

A Rodovia Transamazônica – a estrada do desafio, nas palavras de Samuel Mitt,182 no discurso do Estado, pretendia integrar a Amazônia ao litoral e desta forma ao resto do Brasil, representando a facilidade no transporte, na comunicação e, conseqüentemente, o desenvolvimento para a região, seria o caminho pelo qual os vocacionados viajariam para alcançar os necessitados. Estes necessitados – de terras e de trabalho – para os batistas, também necessitavam de assistência espiritual. É nesta perspectiva que os sermões e artigos sobre missões publicados em O Jornal Batista são escritos.

Neste sentido, para os batistas os colonos eram vistos como pessoas que necessitavam desta assistência e a Igreja deveria aproveitar o tempo de colonização como tempo de evangelização. Cada colono batista, neste sentido, teria como motivação, não apenas a conquista de recursos materiais da Região, mas do mesmo modo, a missão de conquista de outras vidas para Cristo. Daí entende-se o Slogan “Amazônia para Cristo” estampado nos cartazes das campanhas evangelísticas e missionárias desta época e também o apelo para que cada fiel batista se tornasse um missionário em potencial.

Edílson Braga teve seu testemunho publicado em O Jornal Batista, 183 aparecendo como um homem que ao ouvir sobre as necessidades espirituais da Amazônia, deixou tudo para trás e embrenhou-se na Transamazônica para fazer a obra de Deus. Pelos métodos e estratégias utilizados para a evangelização, ele se tornou um ícone para os batistas brasileiros na Transamazônica. Sua vinda para a área da colonização é descrito como uma ação divina. Ele se tornou o homem que Deus enviou para Rurópolis-Presidente Médici, 184 localizada no entroncamento da Transamazônica com a Cuiabá-Santarém, a 150 km de Altamira.

181 MITT, Samuel. O Jornal Batista, 18 ago.1974, p.4. 182 Secretário de Missões da CBB do período indicado. 183 O Jornal Batista, 28 jul.1974, p. 8.

E possível afirmar que no plano de metas dos batistas previstos pelo PROIME, a Amazônia tinha lugar de destaque por representar. Do ponto de vista estratégico, mais uma fronteira a ser conquistada.

Uma outra questão natural apontada nos relatórios missionários publicados em O

Jornal Batista185 é a condição moral das antigas cidades e moradores. Os relatores descrevem esta condição moral como sendo algo imanente às cidades antigas e as contrasta às novas cidades. Os moradores deveriam abandonar os vícios para que a cidade se redimisse do atraso cultural e alcançasse a civilização.

Portanto, a idéia defendida pelos batistas acerca da moral pode ter sido uma das aliadas na construção do discurso de expansão das fronteiras da fé batista. “[...] esta é a hora da Amazônia, passa a Transamazônica e ajuda-nos”. Essa inferência dá-nos a noção de que para os batistas, o tempo do regime militar e sua ação na Amazônia, contribuí para a conquista de novas cidades e de novos seguidores. O tempo dos homens pode ser ou não o tempo de Deus. Contudo, para o missionário da Junta de Missões Nacionais, as condições oferecidas evidenciavam a ação divina em favor da evangelização. “Não havia nuvens escuras no céu denominacional”, declarou José dos Reis Pereira.

Com uma conjuntura favorável à ação integrada de missões e de evangelização dos batistas, o projeto missionário seria um sucesso. Porém, os anais denominacionais indicam que os alvos numéricos não foram alcançados. A pretensão era de chegar à casa de um milhão de batistas até o ano de 1982, ano do centenário dos batistas brasileiros, mas não foi possível. O crescimento foi grande, mas nada semelhante à meta estabelecida pelo PROIME.

Para o avanço dos batistas na década de 70, seria a preparação para se comemorar os cem anos da presença dos batistas no Brasil. A idéia de comemoração do Jubileu que se aproximava, poderia indicar mais uma motivação que os batistas tiveram para investir no crescimento da denominação no Brasil.

Em 1982, quando a Igreja Batista Brasileira comemorasse o seu centenário,186 teria que apresentar um relatório de atividades que fosse motivo de júbilo, isto é, de alegria, qual seja, na perspectiva da igreja, um crescimento numérico que justificasse os investimentos até então despendidos pela Junta de Missões em terras brasileiras.

185 O Jornal Batista, 20 dez. 1970, p. 2. 186 PEREIRA, op. cit, p.365-366.

Em Belém, a PIB – Primeira Igreja Batista se organizou com outras congregações para as comemorações e em todo Estado. As comemorações representavam a confirmação da vocação missionária da denominação em território nacional. Portanto, os dez anos que antecederam ao Centenário seriam marcados pela ação missionária dos batistas em todo o Brasil a fim de intensificar os trabalhos de evangelização. Israel Belo de Azevedo afirma que segundo os especialistas, se fossem mantidas as taxas de expansão, os batistas chegariam a um milhão de membros em 1982, número a que não chegou uma década depois.187

Assim, a Junta de Evangelismo da Convenção Batista Brasileira através de O

Jornal Batista188 convocou a todos os fiéis a se envolverem na missão evangelizadora.189 O PROIME, depois de criado e aprovado na Assembléia Geral Ordinária da Convenção (AGO), propunha as metas e os alvos a serem alcançados e expunha as estratégias e métodos a serem seguidos pelas igrejas locais a fim de se conseguir o desejado, a evangelização do Brasil. Segundo este projeto, até 1982, ano da comemoração do centenário da Igreja Batista Brasileira, os batistas chegariam a um milhão de membros no Brasil.