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Programa Integrar Desempregado

PROGRAMA INTEGRAR : FORMAÇÃO E QUALIFICAÇÃO DO TRABALHADOR 2.1 Formação sindical e projeto político de formação

2.3. Programa Integrar

2.3.1. Programa Integrar Desempregado

O Programa foi aprovado e implementado nacionalmente em 1996. Os primeiros 23 núcleos começaram a funcionar no estado de São Paulo; sete eram na região metropolitana e funcionaram ininterruptamente de 1996 a 1999. Cada núcleo era formado por um professor, um instrutor, um responsável local e era assessorado por um coordenador pedagógico da região. Oferecia 60 vagas para trabalhadores com idade acima de 25 anos, com primeiro grau incompleto, desempregado ou em risco de perder o emprego.

A estrutura do curso era modular, podendo ser interrompido ao final de qualquer um dos 14 módulos e ser retomado sem prejuízo. Com isso o programa procurava levar em conta as interrupções temporárias que sempre ocorrem quando os desempregados conseguem trabalho. A formação se completava com 700 horas e com previsão de desenvolvimento em 10 meses.

A proposta de formação básica e profissional integrava informática, gestão e planejamento às disciplinas curriculares: português, matemática, historia, ciências e inglês. O certificado de 1o grau era expedido pela Escola Técnica Federal de São Paulo.

“Ao certificar o trabalhador com o diploma de primeiro grau, o Integrar atende a uma das exigências das indústrias, em especial a metalúrgica, para reinserção no mercado. Na nova forma de organização do trabalho que está se instituindo, a escolaridade é fundamental, pois capacita os trabalhadores para superarem os desafios da produção no que se refere a agilidade de raciocínio,

capacidade de abstração, pensamento lógico e organizado. O Integrar ainda capacita tecnicamente por meio de aulas como interpretação de gráficos e desenhos, informática, controle de medidas.” (Programa Integrar 1998)

Embora o Programa justifique a certificação de primeiro grau associada à formação técnica, como requisitos para reinserção no mercado, não acredita que a solução esteja na formação profissional, nem se apresenta como solução para o desemprego que resulta do modelo de desenvolvimento. Há nos textos, nas apostilas e no desenho do Programa [Anexo 2] a certeza de que a proposta foi elaborada para a reinserção do trabalhador no mercado, o que não contradiz a afirmação dos fundamentos do projeto, ou seja, de que a natureza compensatória do Programa não permite interferir nas causas do problema e nem se apresentar como solução. O que é possível, e o Programa se propõe realizar, é “desenvolver entre os desempregados a consciência de que podem e devem lutar pela sua reinserção no mundo do trabalho, descobrindo novas alternativas.”

Trata-se de um programa de custo elevado, que atinge uma minoria e que só poderá se expandir para todos se o Estado fizer do projeto uma política pública. Para isso a coordenação vem discutindo com diversos governos locais para que as administrações municipais o adotem.

A proposta de formação articula as áreas técnicas e de conhecimento geral através da reestruturação produtiva, tratada nas oficinas pedagógicas e na sala de aula, por um professor e um instrutor, geralmente um metalúrgico desempregado.

Professores e instrutores se apoiam nas apostilas que foram elaboradas por área de conhecimento, cabendo à dupla docente descobrir formas e possibilidades interdisciplinares. Eles são os responsáveis pelo aprimoramento metodológico da proposta, mesmo julgando-se despreparados para essa tarefa.9

9 Os professores foram escolhidos na área de humanas, entre licenciados em Historia,

Geografia, Filosofia e Ciências Sociais, com experiência de 2 anos de magistério. Os instrutores foram selecionados entre os que possuíam experiência de 10 anos como operário metalúrgico em

“O Programa tem uma estrutura curricular integrada, de tal modo que o resgate do saber do aluno trabalhador está situado no cenário do mundo do trabalho, das transformações que esse mundo vem sofrendo e das experiências de vida e de escolaridade desse aluno. Portanto, a prática pedagógica se relaciona com o mundo do aluno trabalhador. Essa estrutura curricular, que tem como centro a Reestruturação Produtiva, articula as chamadas áreas técnicas com as de saber geral. A escolha das áreas técnicas está relacionada à realidade do trabalhador e às necessidades do mercado, na perspectiva de formação de um sujeito dotado de novas habilidades, capaz de responder às exigências de polivalência, criatividade e tomada de decisões. Neste sentido, a abordagem das áreas técnicas está calcada na compreensão dos saberes nelas contidos e não no treinamento voltado apenas para o contorno do equipamento”.(Programa Integrar,1998:14)

Nosso foco é a atuação do instrutor que, por sua experiência na fábrica, está particularmente ligado ao desenvolvimento do módulo Trabalho &

Tecnologia, que trata da reestruturação produtiva:

“a idéia básica do conteúdo estava na discussão dos conceitos construídos socialmente .Tecnologia é uma construção social mais do que uma máquina. Importante para o aluno ver como construção social para ele poder intervir, para poder transformar. A expectativa é que o trabalhador consiga enxergar o mundo de uma forma não fatalista, de uma forma construída através de lutas, poder , obediência, concepções, todas elas construídas. Enxergar como algo dado, exterior, impossibilita o aluno se colocar como agente da transformação. O que seria importante

ferramentaria, fresa ou inspetor de qualidade, formação técnica em nível de 2o grau e militancia sindical. (Mascelani, 2000)

para o curso do Integrar Desempregado era a ação que poderia vir da

abordagem da reestruturação produtiva”.10

O Programa se propõe a construir um conjunto de ações que possibilitem ao desempregado buscar alternativas de trabalho e renda. Para isso os conteúdos são tratados de forma que o conhecimento, concebido como teórico- prático, crie condições para que a ação nasça junto com ele. No cotidiano, essa possibilidade depende do entendimento da proposta e das condições de sua realização, assim como qualquer outra iniciativa que dependa da participação dos trabalhadores, como por exemplo, a criação de cooperativas.

A leitura que propomos para a atuação do instrutor envolve a metodologia proposta que, tendo influência de várias matrizes, possibilita diversas leituras sobre os procedimentos e seus significados para a formação tanto do trabalhador quanto do instrutor que também se forma nesse processo.