A partir de um histórico encontro entre o Diretor-Geral da OIT e o Ministro do Trabalho da Alemanha, em 1990, foi criado o “International Program on the Elimination of Child Labour”, ou Programa Internacional para a Eliminação do Trabalho Infantil (IPEC).
O Brasil, que chegou ao ápice de sua crise socioeconômica na década de 1980, quando as desigualdades sociais decorrentes de uma péssima distribuição de renda incrementavam os índices de pobreza no país, entrou em 1990 decidido a enfrentar os problemas que o apontavam como um dos países com população mais pobre do mundo, adotando medidas que incluíam a implementação de ações e de políticas públicas voltadas à redução da pobreza, conforme análises da OIT sobre a situação do Brasil, as quais concluíram que:
A década de 80, é bom lembrar, foi marcada por grande instabilidade econômica, fazendo com que o Brasil entrasse nos anos 90 com um dos piores desempenhos entre os países pobres do Terceiro Mundo, no que diz respeito ao enfrentamento da pobreza e à distribuição de renda. E, embora tenha sido também a década da mobilização social pela redemocratização do país, a luta contra o trabalho infantil e a inserção do tema na agenda social nacional só se iniciariam na década seguinte. 339
Assim, a implementação do IPEC, em 1992, no Brasil, ocorreu em razão do grande número de trabalhadores infanto-juvenis identificados, no país: cerca de 10 milhões de crianças e adolescentes, entre 5 e 17 anos de idade, vítimas das péssimas condições econômicas e sociais que o Brasil enfrentava e que, obviamente, refletiam-se diretamente sobre os índices de trabalho infantil, à medida
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OIT, 2004b. 339
que favoreciam, consideravelmente, o aumento dos mesmos. 340 Esta era a situação do Brasil relativamente ao trabalho de crianças e adolescentes, à época da chegada do IPEC:
Até 1992, o trabalho infantil tinha uma determinada configuração. Seu volume, sua intensidade, seus processos chamaram a atenção da comunidade internacional. A situação das crianças e adolescentes trabalhadores do Brasil era tão alarmante que, no final da década de 80, o país tornou-se sinônimo de desigualdade social, concentração de renda, miséria, subdesenvolvimento, corrupção e negligência. O Brasil, que nos anos sessenta tinha proclamado ser “o país do futuro”, nos anos oitenta era o país que negava um futuro às suas próprias crianças e adolescentes. Essa mesma situação era vivida por muitos países do então chamado terceiro mundo. O Brasil, pela configuração de seus fatores históricos, demográficos, institucionais e jurídicos, tornou-se um palco de observação das tendências do mundo em crise.
A situação e a quantidade das crianças e adolescentes que, em 1992, faziam parte do contingente de trabalhadores do país refletia perfeitamente a situação geral da chamada “década perdida”. De fato, dentre todos os segmentos sociais atingidos pela crise da economia mundial, as crianças e adolescentes levaram a pior parte. Possivelmente, mais de 10 milhões de trabalhadores tinham apenas entre 5 e 17 anos no começo da última década do século XX. Deles apenas uma ínfima minoria ganhava o equivalente a um salário mínimo. A maioria recebia pouca ou nenhuma remuneração, o que os colocava entre os mais pobres dos pobres. 341
Quanto ao IPEC e sua atuação no combate ao trabalho infantil é a própria OIT quem esclarece:
Trata-se de um programa mundial de cooperação técnica contra o trabalho infantil, contando com o apoio financeiro de 22 países doadores, cujo objetivo é estimular, orientar e apoiar iniciativas nacionais na formulação de políticas e ações diretas que coíbam a exploração da infância. O IPEC visa a erradicação progressiva do trabalho infantil mediante o fortalecimento das capacidades nacionais e do incentivo à mobilização mundial para o enfrentamento da questão. Promove o desenvolvimento e a aplicação de legislação protetora e apóia organizações parceiras na implementação de medidas destinadas a prevenir o trabalho infantil, a retirar crianças de trabalhos perigosos e a oferecer alternativas imediatas, como medida transitória para a erradicação do trabalho infantil. 342
O Plano de Ação Integrada, implementado pelo IPEC, no inicio de sua chegada ao Brasil, deu origem ao Comitê Nacional do IPEC/Brasil, que seria responsável pela aprovação dos projetos e dos programas a serem instituídos, na seqüência, desenvolvidos para o alcance das seguintes finalidades:
340 OIT, 2003a. 341 Ibid. 342 Id., 2007b.
Fomentar uma ampla aliança entre parceiros para o conhecimento e ação contra o trabalho infantil; Realizar uma análise conjuntural, buscando
encontrar os problemas do trabalho infantil no país; Auxiliar no desenvolvimento e implementação de políticas nacionais voltadas para os problemas do trabalho infantil; Fortalecer as organizações existentes e inaugurar mecanismos institucionais; Conscientizar sobre o problema em todo o país; Promover o desenvolvimento e aplicação de legislação de proteção; Replicar e expandir projetos bem sucedidos; Inserir as discussões sobre trabalho infantil nas políticas e programas de caráter socioeconômicos e nos orçamentos públicos. 343
Na busca da plena realização dos objetivos acima, bem como dos princípios calcados nas Convenções n°. 138 (idade mínima de ad missão no emprego) e n°. 182 (piores formas de trabalho infantil) da OIT, o IPEC já realizou mais de 100 ações voltadas à erradicação do trabalho infanto-juvenil, contribuindo de forma substancial com a redução dos números de trabalhadores infanto-juvenis no Estado Nacional.
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Atualmente o IPEC apóia projetos e ações voltados à erradicação do trabalho infanto-juvenil informal ou de difícil detecção como o trabalho infantil doméstico, o trabalho informal urbano, o trabalho agrícola em regime familiar, as atividades ilícitas e a exploração sexual comercial. 345
Em relação à criança e ao adolescente envolvidos com o tráfico de drogas, o projeto do IPEC conta com o auxílio do Programa de Informações Estatísticas e de Monitoramento sobre Trabalho Infantil (SIMPOC), também da OIT, e responsável pelo fornecimento dos dados sobre crianças no narcotráfico, fornecidos a partir do estudo Diagnóstico Rápido.
Os recursos do IPEC provêm da parceria com países como a Alemanha, Estados Unidos, Noruega e Inglaterra. Os investimentos do IPEC, em projetos nacionais, já ultrapassaram os US$ 7 milhões de dólares. 346
Até 2006 o IPEC já havia realizado ações em 86 países e investido, desde sua criação, em 1990, de cerca de U$ 350 milhões beneficiando, aproximadamente, 5 milhões de crianças em todo o mundo. 347
343 OIT, 2007b. 344 Id., 2007i. 345 Ibid. 346 Id., 2003a. 347 Id., 2006c, p. 31.