2. HISTÓRICO DA EDUCAÇÃO INTEGRAL
2.3. Programa Mais Educação nas Escolas do Campo
Em 2012, com a proposta de expansão do PME para as Escolas do Campo foi necessária a elaboração de uma proposta específica, dialogando com as singularidades da vida no campo. Importante salientar que essas orientações gerais elaboradas em 2012 se mantiveram inalteradas no Manual Operacional de Educação Integral até 2014.
Na perspectiva de construir uma proposta singular de educação integral para as Escolas do Campo, foram elaboradas orientações gerais e inseridas atividades específicas, reunidas nas seguintes áreas, denominadas pelo Programa de Macrocampos: Acompanhamento Pedagógico, Agroecologia, Esporte e Lazer, Iniciação Científica; Cultura, Artes e Educação Patrimonial; Direitos humanos; e Memórias e História das Comunidades Tradicionais.6
As atividades escolhidas pelas Escolas do Campo constituem seu plano de atendimento para a construção da educação integral, considerando o diferente modo de viver no campo e suas particularidades. Nesse contexto, foram elaboradas algumas orientações gerais e as ementas específicas de cada macrocampo e atividade para constituir uma proposta diferenciada de educação integral nas Escolas do Campo na perspectiva de dialogar com as especificidades da vida no campo. Seguem as orientações gerais:
Considerando a expansão do Programa Mais Educação nos diversos territórios brasileiros, vemos a necessidade de definição de estratégias que contribuam para a
6 De acordo com o Manual Operacional de Educação Integral 2014, no item 7. são elencados cada um
dos Macrocampos, suas respectivas atividades e ementas específicas, para a implantação do PME nas escolas do campo, são eles: 7.1.1. Acompanhamento Pedagógico (Campos do conhecimento - atividade obrigatória, incluindo as diferentes áreas do conhecimento: ciências humanas, ciências e saúde, etnolinguagem, leitura e produção textual, matemática); 7.1.2. Agroecologia (Canteiros sustentáveis, COM-VIDA – Comissão de meio ambiente e qualidade de vida, Conservação do solo e composteira/ou minhocário, Cuidado com animais, Uso eficiente de água e energia); 7.1.3. Iniciação Científica (Iniciação Ciêntífica); 7.1.4. Educação em Direitos Humanos (Arte audiovisual e corporal, Arte corporal e som, Arte corporal e jogos, Arte gráfica e literatura, Arte gráfica e mídias); 7.1.5. Cultura, Artes e Educação Patrimonial (Brinquedos e Artesanato Regional, Canto coral, Capoeira, Cineclube, Contos, Danças, Desenho, Escultura, Etnojogos, Literatura de cordel, Mosaico, Música, Percussão, Pintura, Práticas circenses e Teatro); 7.1.6. Esporte e Lazer (Atletismo/basquete/futebol/ futsal/handebol/tênis de mesa/voleibol/xadrez tradicional, Ciclismo, Corrida de orientação, Etnojogos, Judô e Recreação e lazer/brinquedoteca) e 7.1.7. Memórias e História das Comunidades Tradicionais (Brinquedos e Artesanato Regional, Canto coral, Capoeira, Cineclube, Contos, Danças, Desenho, Escultura, Etnojogos, Literatura de cordel, Mosaico, Música, Percussão, Pintura, Práticas circenses e Teatro) (BRASIL, 2014, p. 21- 28).
oferta de uma educação de qualidade, adequada ao modo de viver, pensar e produzir das populações identificadas com o campo – agricultores, criadores, extrativistas, pescadores, ribeirinhos, caiçaras, quilombolas, seringueiros, assentados e acampados da reforma agrária, trabalhadores assalariados rurais, povos da floresta, caboclos, dentre outros. Uma educação que afirme o campo como o lugar onde vivem sujeitos de direitos, com diferentes dinâmicas de trabalho, de cultura, de relações sociais, e não apenas como um espaço que meramente reproduz os valores do desenvolvimento urbano. (Conforme documento produzido por GT em 2009 tratando sobre Educação Integral do Campo). Sendo assim, as atividades do Programa Mais Educação dentro desta proposta, não poderão descaracterizar a realidade do campo, as concepções pedagógicas deverão considerar a realidade local, suas especificidades ambientais e particularidades étnicas, devendo embasar seus eixos nas categorias TERRA, CULTURA E TRABALHO, sendo estas fundamentais na matriz formadora humana. As orientações que este documento apresenta, tratam dos
procedimentos específicos na implantação do Programa Mais Educação nas Escolas do Campo (BRASIL, 2014, p. 21. Grifos do autor).
Evidencia-se que, nessa proposta, se encontram presentes os eixos estruturantes da Educação do Campo, como orientadores na construção da educação integral nas Escolas do Campo: “terra, cultura e trabalho como fundamentais na matriz formadora humana”, ainda que de forma simples e sem aprofundamentos teóricos e pedagógicos, como será analisado de forma mais aprofundada no capítulo dois desta dissertação.
O PME para Escolas do Campo se insere como uma das ações do Programa Nacional de Educação do Campo (Pronacampo), “que consiste em um conjunto articulado de ações de apoio aos sistemas de ensino para a implementação da política de educação do campo, conforme disposto no Decreto nº 7.352, de 4 de novembro de 2010” (BRASIL, Portaria n. 86 de 1/02/2013, Art. 1º). O Pronacampo tem como objetivo:
apoiar técnico e financeiramente os Estados, Distrito Federal e Municípios para a implementação da política de educação do campo, visando à ampliação do acesso e a qualificação da oferta da educação básica e superior, por meio de ações para a melhoria da infraestrutura das redes públicas de ensino, a formação inicial e continuada de professores, a produção e a disponibilização de material específico aos estudantes do campo e quilombola, em todas as etapas e modalidades de ensino.7
O Pronacampo possui ações voltadas ao acesso e à permanência na escola, à aprendizagem e à valorização do universo cultural das populações do campo, sendo
7 Disponível em:
<http://portal.mec.gov.br/index.php?option=com_content&view=article&id=18720:pronacampo&catid=194:se cad-educacao-continuada>. Acesso em: 28 jul. 2015.
estruturado em quatro eixos: Eixo I, Gestão e Práticas Pedagógicas; Eixo II, Formação Inicial e Continuada de Professores; Eixo III, Educação de Jovens e Adultos e Educação Profissional; Eixo IV, Infraestrutura Física e Tecnológica.
Nesse sentido, o PME para as Escolas do Campo insere-se no eixo I, no que concerne à “educação integral com atividades estruturantes e complementares à formação do estudante”, sendo suas orientações gerais elaboradas para a implementação do respectivo Programa, de acordo com o Art. 2º do Decreto nº 7.352/2010, que define os princípios da educação do campo:
I - respeito à diversidade do campo em seus aspectos sociais, culturais, ambientais, políticos, econômicos, de gênero, geracional e de raça e etnia; II - incentivo à formulação de projetos políticos pedagógicos específicos para as escolas do campo, estimulando o desenvolvimento das unidades escolares como espaços públicos de investigação e articulação de experiências e estudos direcionados para o desenvolvimento social, economicamente justo e ambientalmente sustentável, em articulação com o mundo do trabalho; III - desenvolvimento de políticas de formação de profissionais da educação para o atendimento da especificidade das escolas do campo, considerando-se as condições concretas da produção e reprodução social da vida no campo; IV - valorização da identidade da escola do campo por meio de projetos pedagógicos com conteúdos curriculares e metodologias adequadas às reais necessidades dos alunos do campo, bem como flexibilidade na organização escolar, incluindo adequação do calendário escolar às fases do ciclo agrícola e às condições climáticas; e V - controle social da qualidade da educação escolar, mediante a efetiva participação da comunidade e dos movimentos sociais do campo.
Importante salientar que os critérios estabelecidos para atendimento das Escolas do Campo, priorizando inserir as pequenas Escolas do Campo com maior número de população residente no campo, com altos índices de pobreza, com problemas relacionados à formação de docentes e analfabetismo, situadas em áreas de maior vulnerabilidade social, estão de acordo com o Art. 3º do Decreto nº 7.352/2010.
Art. 3o Caberá à União criar e implementar mecanismos que garantam a
manutenção e o desenvolvimento da educação do campo nas políticas públicas educacionais, com o objetivo de superar as defasagens históricas de acesso à educação escolar pelas populações do campo, visando em especial: I - reduzir os indicadores de analfabetismo com a oferta de políticas de educação de jovens e adultos, nas localidades onde vivem e trabalham, respeitando suas especificidades quanto aos horários e calendário escolar; II - fomentar educação básica na modalidade Educação de Jovens e Adultos, integrando qualificação social e profissional ao ensino fundamental; III - garantir o fornecimento de energia elétrica, água potável e saneamento básico, bem como outras condições necessárias ao funcionamento das escolas do campo; e IV - contribuir para a
inclusão digital por meio da ampliação do acesso a computadores, à conexão à rede mundial de computadores e a outras tecnologias digitais, beneficiando a comunidade escolar e a população próxima às escolas do campo. Parágrafo único. Aos Estados, Distrito Federal e Municípios que desenvolverem a educação do campo em regime de colaboração com a União caberá criar e implementar mecanismos que garantam sua manutenção e seu desenvolvimento nas respectivas esferas, de acordo com o disposto neste Decreto.
Ou seja, nesse contexto, é necessário reconhecer que o PME para as Escolas do Campo procura atender as populações do campo que estavam historicamente à margem do processo de universalização das políticas públicas de educação e, também, enquanto programa indutor da política de educação integral, busca traçar diretrizes alinhadas às especificidades das populações identificadas com o campo, dialogando diretamente com os princípios da política de Educação do Campo.
Assim, com o aprofundamento dos referenciais teóricos da Educação do Campo no Capítulo 2, esta pesquisa pretende investigar como estão sendo desenvolvidos os princípios da Educação do Campo a partir das atividades do PME, em diálogo com a proposta pedagógica da Escola do Campo.
3. EDUCAÇÃO DO CAMPO E A PROPOSTA DE EDUCAÇÃO INTEGRAL DO