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4 O DESRESPEITO AOS DIREITOS TRABALHISTAS NO PROGRAMA

4.1 Programa mais médicos

Em 2013, por meio de uma medida provisória (Nº 621/2013) foi criado o programa Mais Médicos. A medida provisória foi convertida na Lei nº 12.871/2013. A criação deste projeto teve uma finalidade muito nobre: diminuir o impacto da falta de médicos no Sistema Único de Saúde do Brasil.

Os objetivos do programa, como consta na Lei nº 1287/2013, artigo 1º,

são:

Art. 1o É instituído o Programa Mais Médicos, com a finalidade de formar

recursos humanos na área médica para o Sistema Único de Saúde (SUS) e com os seguintes objetivos:

I - diminuir a carência de médicos nas regiões prioritárias para o SUS, a fim de reduzir as desigualdades regionais na área da saúde;

II - fortalecer a prestação de serviços de atenção básica em saúde no País; III - aprimorar a formação médica no País e proporcionar maior experiência no campo de prática médica durante o processo de formação;

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IV - ampliar a inserção do médico em formação nas unidades de atendimento do SUS, desenvolvendo seu conhecimento sobre a realidade da saúde da população brasileira;

V - fortalecer a política de educação permanente com a integração ensino- serviço, por meio da atuação das instituições de educação superior na supervisão acadêmica das atividades desempenhadas pelos médicos; VI - promover a troca de conhecimentos e experiências entre profissionais da saúde brasileiros e médicos formados em instituições estrangeiras; VII - aperfeiçoar médicos para atuação nas políticas públicas de saúde do País e na organização e no funcionamento do SUS; e

VIII - estimular a realização de pesquisas aplicadas ao SUS.

Apesar de todos esses objetivos, o que causou mais expectativa foi a chegada de médicos em lugares onde há muito não havia atendimento desse profissional. Através de diversas notícias veiculadas na mídia é possível entender as mudanças que esses médicos estão provocando nas comunidades em que atuam. Há relatos de maior satisfação da comunidade com a possibilidade de acompanhamento médico e redução na mortalidade infantil e materna, como se pode observar nos exemplos a seguir:

Reportagem do sítio eletrônico da Secretaria de Saúde de Roraima (CARVALHO, 2014, p. 1), “Mais Médicos: Ńmeros mostram impactos do programa em Roraima”:

Comparando o ano de 2013, antes da implantaç̃o do “Mais Médicos”, e o de 2014, quando o programa já estava em andamento, houve um aumento significativo na oferta de atendimentos pelas Unidades Básicas de Saúde, onde estes profissionais atuam. Conforme o apoiador Interfederativo do MS em Roraima, Namis Levino, a disposição de vagas para as consultas médicas quase que dobraram. O impacto foi de 47,8% maior quando comparado janeiro de 2013 e janeiro de 2014. Outro fator de extrema relevância pode ser observado com a chegada dos médicos estrangeiros. A quantidade de encaminhamentos de pacientes atendidos na Atenção Básica para os hospitais teve uma queda de 35,6%. “Isso significa que a populaç̃o tem mais acesso e então inicia um tratamento em tempo adequado, diminuindo assim a necessidade de ser encaminhada para um serviço mais complexo”, esclareceu Levino, reforçando que isto também contribui para que de certa forma, os hospitais concentrem seus atendimentos nos casos mais graves.

Reportagem do Portal RicMais do Estado de Santa Catarina (THOMÉ, 2014, 1), “Semińrio apresenta impactos do Programa Mais Médicos nas cidades catarinenses”:

Dentre algumas melhorias citadas, destaque para a ampliação de 448 médicos atuando na atenção básica de 199 cidades do Estado. Além do número de profissionais, Santa Catarina experimenta crescimento de 63,5% nos atendimentos de pré-natal, 16,2% no atendimento a pessoas com diabetes e ainda redução de 37% na quantidade de encaminhamentos a hospitais - o que demonstra boa resolução de problemas na atenção básica, uma das principais metas do programa.

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É inquestionável a importância dessas medidas emergências, em especial, para as pessoas diretamente atingidas pelo programa, mesmo que o quesito estrutura médica ainda deixe tanto a desejar. Há municípios desprovidos do equipamento mínimo necessário para um bom atendimento. Faltam desde medicamentos, instrumentos para pequenos e grandes procedimentos e condições hospitalares para operações e internamentos. É necessária a cobrança contínua para uma melhoria em todos os aspectos e que a sociedade não seja enganada com a falsa impressão de que o direito a saúde está sendo atendido apenas pela presença de médicos.

O foco do presente estudo são os direitos trabalhistas destes médicos do programa. Segundo a Lei nº 12.871/13 os participantes do Projeto Mais Médicos, como traz o capítulo IV, são bolsistas de um curso de especialização.

Art. 14. O aperfeiçoamento dos médicos participantes ocorrerá mediante oferta de curso de especialização por instituição pública de educação superior e envolverá atividades de ensino, pesquisa e extensão que terão componente assistencial mediante integração ensino-serviço.

(...)

§ 2º A aprovação do médico participante no curso de especialização será condicionada ao cumprimento de todos os requisitos do Projeto Mais Médicos para o Brasil e à sua aprovação nas avaliações periódicas.

(...)

§ 4º As avaliações serão periódicas, realizadas ao final de cada módulo, e compreenderão o conteúdo específico do respectivo módulo, visando a identificar se o médico participante está apto ou não a continuar no Projeto. O 15º artigo determina que o Projeto Mais Médicos é composto por: médico participante (que será submetido ao aperfeiçoamento profissional supervisionado), supervisor (profissional médico responsável pela supervisão profissional contínua e permanente do médico) e tutor acadêmico (docente médico que será responsável pela orientação acadêmica). O mesmo artigo também trata da condição de participação dos médicos:

§ 1º São condições para a participação do médico intercambista no Projeto Mais Médicos para o Brasil, conforme disciplinado em ato conjunto dos Ministros de Estado da Educação e da Saúde:

I - apresentar diploma expedido por instituição de educação superior estrangeira;

II - apresentar habilitação para o exercício da Medicina no país de sua formação; e

III - possuir conhecimento em língua portuguesa, regras de organização do SUS e protocolos e diretrizes clínicas no âmbito da Atenção Básica.

O médico participante do programa não precisará ter seu diploma revalidado no Brasil. Até então não seria possível qualquer médico exercer a

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medicina no Brasil sem ter seu diploma revalidado. Segundo o artigo 48 da Lei nº 9.394/1996:

Art. 48. Os diplomas de cursos superiores reconhecidos, quando registrados, terão validade nacional como prova da formação recebida por seu titular.

(...)

§ 2º Os diplomas de graduação expedidos por universidades estrangeiras serão revalidados por universidades públicas que tenham curso do mesmo nível e área ou equivalente, respeitando-se os acordos internacionais de reciprocidade ou equiparação.

Entretanto, segundo autoriza a Lei nº 12.871/2013, o Ministério da Saúde emite um registro e a carteira de identificação, que o habilitará para o exercício da medicina. Entretanto esse exercício está limitado ao âmbito das atividades de ensino, pesquisa e extensão do Projeto Mais Médicos e está sujeita à fiscalização pelo Conselho Regional de Medicina.

Segundo a lei, as atividades desempenhadas no âmbito do Projeto Mais Médicos não criam vínculo empregatício de qualquer natureza. Assim, os participantes do programa não têm garantidos os direitos básicos da legislação trabalhistas que cobrem os demais médicos, bem como qualquer outro trabalhador brasileiro. E quanto ao visto, o médico participante faz jus ao visto temporário de aperfeiçoamento médico pelo prazo de 3 anos, prorrogável por igual período. Assim, estão autorizados a permanecer no Brasil apenas em função do Projeto Mais Médicos.

O preenchimento das vagas ofertadas pelo programa dá prioridade para médicos formados em instituições de educação superior brasileira ou com diploma revalidado no País, seguidos de médicos brasileiros formados em instituições estrangeiras com habilitação para exercício da Medicina no exterior e, por último, médicos estrangeiros com habilitação para exercício da Medicina no exterior.