3 O PROGRAMA MAIS MÉDICOS ANTE O CONVÊNIO OPAS
4 O PAPEL DO MPT NA DEFESA DOS DIREITOS TRABALHISTAS E A RECLAMAÇÃO TRABALHISTA PROTOCOLADA NO TRT DA 8º REGIÃO POR
4.2 A Reclamação Trabalhista proposta no TRT da 8º Região pela médica cubana
4.2.1 Programa Mais Médicos e os direitos trabalhistas
A ação protocolada na Justiça do Trabalho pela médica cubana demonstra que o assunto é relevante e que merece ser analisado com bastante cautela, pois ignorar o tema seria uma forma flagrante de colocar em risco direitos humanos e trabalhistas de responsabilidade do Estado.
A médica, após 4 meses atuando no Programa Mais Médicos, não conseguiu concluir o período do contrato por não suportar as diferenças que era
submetida, bem como a disparidade de valores recebidos pelos médicos cubanos em relação aos médicos de outras nacionalidades.
O trabalhador estrangeiro, no Brasil, enfrenta diversas dificuldades, principalmente quando o assunto é a legislação que regula o trabalho no território nacional.
É necessário que sejam tomadas medidas que busquem a solução desse tratamento diferenciado que é dispensado aos participantes do Programa Mais Médicos. Direitos trabalhistas estão sendo afetados e é preocupante a ameaça que algumas medidas podem provocar na preservação de princípios basilares do ordenamento jurídico brasileiro.
O caput do artigo 5º da Constituição Federal de 1988 esboça o princípio da isonomia. Esse dispositivo é dirigido não apenas para nivelar a sociedade, mas principalmente é direcionado ao legislador, nesses termos, é o entendimento de Celso Antônio Bandeira de Mello (2000, p. 9),
Rezam as constituições – e a brasileira no art. 5º, caput – que todos são iguais perante a lei. Entende-se, em concorde unanimidade, que o alcance do princípio não se restringe a nivelar os cidadãos diante da norma legal posta, mas que a própria lei não pode ser editada em desconformidade com a isonomia.
O preceito magno da igualdade, como já tem sido assinalado, é norma voltada quer para o aplicador da lei quer para o próprio legislador. Deveras, não só perante a norma posta se nivelam os indivíduos, mas a própria edição dela assujeita-se ao dever de dispensar tratamento equânime as pessoas.
A lei precisa ser fonte de igualdade e não uma forma de impor privilégios e perseguições. Logo, não resta dúvida que na aplicação da lei todos por ela afetados precisam receber tratamento isonômico.
Nesse sentido, analisando a Lei nº 12.871/13 e o convênio firmado entre o Governo Federal e o Governo de Cuba, intermediado pela Organização Pan- Americana da Saúde (OPAS) , que regula a situação dos médicos cubanos, não se vê a presença do princípio da isonomia, pois em diversas ocasiões o tratamento desigual é aplicado com relação aos profissionais cubanos participantes do Programas.
A médica, Romana Matos Rodriguez, que ingressou com a reclamatória trabalhista no Pará teve por motivação principal esse tratamento diferenciado. Dessa forma, não é admissível que pessoas que vivam nas mesmas condições e prestem os mesmos serviços não gozem dos mesmos direitos.
Nesse sentido, surge a indagação: qual a diferença entre um médico de outra nacionalidade e o cubano? A resposta seria o convênio firmado entre Brasil e Cuba. No entanto, outra indagação surge: por que o Governo Federal, bastante conhecedor da legislação trabalhista brasileira e da Constituição Federal celebra um pacto capaz de ferir direitos humanos e princípios fundamentais?
A resposta não é possível ser dada, mas inevitável é não pensar no escopo político que essa ação pode ter.
A situação da saúde no Brasil é preocupante e o Programa Mais Médicos foi criado com a proposta de amenizar os problemas e levar o acesso à saúde à população que vive nas áreas mais afastadas do país.
A saúde é direito garantido constitucionalmente e todos devem ter acesso a um serviço de qualidade. Dessa forma, o Governo usa o argumento da urgência em atender à necessidade da população como uma forma de sobrepor os direitos trabalhistas dos profissionais médicos.
Os direitos trabalhistas e o direito à saúde podem coexistir plenamente, pois um não anula o outro. No primeiro momento, é aceitável que o direito ao aceso à saúde seja priorizado, até mesmo porque é a vida da população que, consequentemente, estará sendo afetada. Mas essa situação poderá ser balanceada à medida que as circunstâncias de urgência vão apaziguando. No entanto, essa medida não ocorreu no caso do Programa Mais Médicos para o Brasil e o que continua a ser visto é o desrespeito ao aspecto protetor do direito do trabalho.
O Programa Mais Médicos foi uma ideia muito importante do Governo Federal para que a população brasileira mais carente passasse a ter acesso à saúde. No entanto, usar esse motivo como justificativa para relativizar garantias trabalhistas é inaceitável.
As garantias trabalhistas do ordenamento jurídico brasileiro devem ser aplicadas a todos que prestem serviço em território nacional, independente de qual país seja nacional, pois não existe colisão entre o princípio da isonomia e o direito do acesso à saúde.
Dessa forma, o Governo Federal, como uma maneira de manter coerência na preservação dos princípios constitucionais, deve reconhecer a atividade desenvolvida pelos médicos participantes do Programa como uma prestação de serviço e com isso garantir os direitos previstos na legislação trabalhista brasileira.
Vale ressaltar ainda, a necessidade de ser utilizado tratamento igual entre os médicos sem distinção por motivo de nacionalidade ou de convênio firmado com outro país, pois não é aceitável que acordos internacionais se sobreponham a princípios fundamentais do ordenamento jurídico pátrio.
Indagações são inevitáveis com relação a saber o motivo que levou o Governo Federal à acordar essas medidas que preveem condições tão diferenciadas entre os participantes do Programa Mais Médicos.
Nos ensinamentos de José Afonso da Silva (2005, p.192),
O estrangeiro residente não tem só direitos arrolados no art, 5º, apesar de somente ali aparecer como destinatário de direitos constitucionais. Cabem- lhes os direitos sociais, especialmente os trabalhistas. Ao outorgar direitos aos trabalhadores urbanos e rurais por certo que aí a Constituição alberga também o trabalhador estrangeiro residente no país, e assim se há de entender em relação aos outros direitos sociais; seria contrário aos direitos fundamentais do homem negá-los aos estrangeiros residentes aqui.
O princípio da isonomia não é respeitado a partir do momento que é acordado condições diferenciadas aos médicos participantes do Programa em função da nacionalidade que pertencem. Por exemplo, o pagamento da “bolsa- formação” é realizado diretamente ao participante, exceto se ele estiver vinculado ao Governo de Cuba, pois nesse caso, o valor será passado para o Organização Pan- Americana da Saúde (OPAS), que repassará ao Governo de Cuba e este pagará ao médico apenas parte do valor da bolsa.