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3 TRÊS TEMPOS DA RECENTE HISTÓRIA DO BRASIL

3.2 Juscelino Kubistchek: O presidente voador

3.2.2 O Programa de Meta e a Meta-Síntese

O slogan de campanha 50 anos em 50, ou seja, cinqüenta anos de progresso em cinco de governo, deixava claro que JK administraria sob o signo da aceleração do desenvolvimento econômico. Thomas Skidmore (1997, p. 208) salienta que a essência do estilo de JK era a improvisação e o entusiasmo a sua principal arma refletindo uma confiança contagiante no futuro do Brasil como grande potência. Sua estratégia básica era pressionar pela rápida industrialização, tentando convencer a cada grupo do poder que teriam alguma coisa a ganhar ou, então, nada a perder. Isto requereria um equilibrismo

Para viabilizar esse crescimento, apresentou-se um conjunto de 31 propostas, o chamado Programa de Metas. Tal programa visava acelerar o processo de acumulação aumentando a produtividade dos investimentos existentes e aplicando novos investimentos em atividades produtoras (BENEVIDES, 1976, p. 210).

O Programa, ou Plano de Metas, incorporava feições de outros planos anteriores, tais como a Comissão Mista Brasil-Estados Unidos, e a CEPAL-BNDE, planejamento conjunto da Comissão Econômica para a América Latina e Caribe (CEPAL) com o Banco Nacional de Desenvolvimento (BNDE). O Plano de Metas dividia-se em seis grupos, como mostra Benevides:

- de 1 a 5 – energia: energia elétrica, nuclear, carvão, produção de petróleo, refinação de petróleo;

- de 6 a 12 – transporte: reequipamento de estradas de rodagem, construção de estradas de rodagem, portos e barragens, marinha mercante, transportes aéreos; - de 13 a 18 – alimentação: trigo, armazém e silos, frigoríficos, matadouros, mecanização da agricultura, fertilizantes;

- de 19 a 29 – indústrias de base: aço, alumínio, metais não ferrosos, cimento, álcalis, papel e celulose, borracha, exportação de ferro, indústria de veículos motorizados, indústria de construção naval, maquinaria pesada e equipamento elétrico;

- meta 30 – educação e a construção de Brasília, a meta-síntese.

Para garantir a execução das metas, JK necessitaria de recursos vindos de fontes governamentais e de financiamentos externos. Além da resistência udenista, propagada pela imprensa, o presidente encontrou barreiras dentro do

próprio governo para aumentar os gastos públicos, o que proporcionalmente aumentaria a taxa inflacionária. No setor externo, o Fundo Monetário Internacional (FMI) gerava dificuldades às ambições brasileiras já que elas não se enquadravam aos seus parâmetros. Tal intransigência levou ao rompimento do governo com o FMI. Por outro lado, vieram 125 milhões de dólares do Import-Export Bank de Washington, nos Estados Unidos, interessados nas metas de renovação do equipamento viário e reaparelhamento e drenagem de portos. Ocorreram também investimentos de bancos europeus e asiáticos (MARANHÂO, 1984).

Contribuiu para a abertura ao capital estrangeiro a instrução 113 da Superintendência da Moeda e do Crédito (SUMOC). A medida, editada ainda na gestão Café Filho, pelo então Ministro da fazenda, Eugênio Gudin, isentava as firmas estrangeiras da necessidade de providenciar “cobertura” cambial externa para importar maquinaria, desde que estivessem associadas a empresas brasileiras (SKIDMORE, 1997, p. 206). Tal benefício não era concedido às indústrias de capital integralmente nacional.

Era preciso ainda, inviabilizar a interferência direta do Congresso. Para isso, JK criou órgãos diretamente ligados à Presidência, estabelecendo uma espécie de administração paralela (BENEVIDES, 1976). Estes mecanismos consistiam nos Grupos de Trabalho e Grupos Executivos, subordinados ao Conselho de Desenvolvimento. Juntamente com a Carteira de Comércio Exterior (CACEX), ligada ao Banco do Brasil, a SUMOC e o Conselho de Política Aduaneira (CPA), estes Grupos formavam um esquema racional e ágil, sem contestar radicalmente o sistema vigente, atuando como centros de assessoria e gestão, permitindo ao antigos a manutenção de práticas clientelistas.

Ao analisar a política econômico-administrativa em torno da administração paralela e do Programa de Metas, criados por JK, Benevides conclui que a política econômica foi fundamental para a estabilidade do governo.

A substituição de importações ainda era o modelo ideal para sustentar o “pacto de dominação “vigente, com crescente controle do estado sobre a economia, sem que nenhum grupo politicamente significativo se sentisse diretamente ameaçado; ou seja, a capacidade do governo para implementar o Programa de Metas foi essencial para “compensar os momentos de ruptura” entre outras variáveis - os partidos políticos e os militares (BENEVIDES, 1976, p. 244).

Segundo o historiador Boris Fausto, os pressupostos do Plano de Metas evidenciam a definição nacional-desenvolvimentista de política econômica do governo JK.

A expressão, em vez de nacionalismo, sintetiza pois uma política econômica que tratava de combinar Estado, a empresa privada nacional e o capital estrangeiro para promover o desenvolvimento, com ênfase na industrialização. Sob esse aspecto, o governo JK prenunciou os rumos da política econômica realizada, em outro contexto, pelos governos militares após 1964 (FAUSTO, 1999, p. 427).

Dentre os projetos estabelecidos pelo Programa de Metas, o que despertou maior polêmica foi a construção de Brasília. A edificação da nova capital representaria a confirmação e a consagração do empreendedorismo, da eficiência e da capacidade de realização de JK. O Rio de Janeiro era a capital desde 1763, e por várias vezes se pensou na transferência do centro do poder para o interior do país, longe da costa. Muitos estudos foram feios e a mudança já estava determinada desde a Constituição de 1891 (IGLÉSIAS, 1993).

Para a oposição, construir Brasília ainda durante o mandato era impossível. Além disso, a empreitada era vista como demagógica e preocupante, pois traria o aumento da inflação e o isolamento da sede do governo. Entretanto, apesar da resistência, principalmente da UDN, o projeto foi aprovado. Assim, em 19 de setembro de 1956, a Lei no 2.874 foi sancionada, criando a Companhia Urbanizadora da Nova Capital (Novacap). Para coordenar a construção, foi nomeado o engenheiro Israel Pinheiro. Formado pela Escola de Minas de Ouro Preto, era político e amigo de JK. Juntamente com ele, Bernardo Saião e Ernesto Silva faziam parte da direção da Novacap e foram igualmente importantes no processo.

Para o projeto arquitetônico, Juscelino chamou o arquiteto Oscar Niemeyer, reeditando a parceria iniciada em Belo Horizonte. Com a escolha de Niemeyer, o presidente buscava superpor os objetivos de renovação política e arquitetônica: a construção de uma nova estética simbolizava a autonomia técnica brasileira, a sua gestão e um caminho exemplar para o desenvolvimento posterior do país (CAVALCANTI, 2002, p. 92).

A escolha do plano urbanístico se deu através de concurso público. Dos vinte e seis concorrentes, venceu o projeto apresentado pelo arquiteto Lúcio

Costa. Segundo Cavalcanti, o projeto de Lúcio Costa contemplava o desejo do governo em destacar as áreas de atuação do Estado, mas o fazia com equilíbrio estético. O seu plano para Brasília partia de um gesto simples e simbólico: o sinal da cruz feito pelos descobridores para assinalar a posse de terra e o começo de uma nova civilização (2002, p. 95). Adaptando o projeto à topografia do terreno, um dos eixos da cruz foi arqueado dando a feição final de uma aeronave gigantesca.

Brasília, contrariando a expectativa geral, foi erguida em três anos22, no centro geográfico do país, distante 1129 quilômetros do Rio de Janeiro. Em 1958, o palácio da Alvorada tinha sua fachada mostrada na revista Manchete. JK sabia que, se a sede do governo não estivesse pronta na data prevista para sua inauguração, o projeto seria abandonado. Para a edificação da nova capital, feita em condições adversas, devido principalmente à distância dos centros urbanos, houve recrutamento de operários por todo o território nacional, em especial no nordeste. A esses se deu o nome de candangos.

Através de uma campanha, financiada pelo governo, Brasília era vista como a terra das oportunidades para ricos e pobres, fazendo com que a cidade crescesse além das expectativas dos seus idealizadores, e perdesse o ideal igualitário aspirado por eles. Como afirma Francisco Iglésias, contudo, Brasília é um exemplo singular na história do urbanismo e da arquitetura, feita com refinado gosto artístico, tornou-se objeto de atenções do mundo inteiro. Realizando sua promessa, Juscelino provou não só imaginação, inventiva, como capacidade de trabalho (1993, p. 272).