Associado ao PAC, foi lançado o Programa Minha Casa, Minha Vida (PMCMV), Lei Federal nº 11.977, do dia 7 de julho de 2009. O PMCMV figurou como a principal política pública habitacional das últimas décadas (BONDUKI, 2009, n.p.), "essa é a característica mais significativa do PMCMV: ter elevado até um patamar ótimo os recursos orçamentários em habitação" – que, segundo leituras realizadas sobre o tema, era algo que estava tépido nos últimos 20 anos anteriores. Aumentou expressivamente o volume de recursos para a habitação, assumindo assim um importante protagonismo como ferramenta de política social no país até os tempos de hoje. Com isso, através do PMCMV, a temática da habitação também retoma com vitalidade na agenda dos temas da pesquisa acadêmica, agregando-se à discussão sobre habitação precária, direito à moradia digna, normas urbanísticas e afins.
A questão habitacional passou a ser tratada mais uma vez por políticas assistenciais jurídicas, facilitando e desburocratizando os trâmites para a efetivação da compra de uma casa própria. O PMCMV tem a função de auxiliar na compra da casa própria, dando subsídios para a aquisição e facilitando condições de financiamento às famílias de baixa renda. Essas estão divididas atualmente em quatro faixas, sendo considerado para tal divisão a renda total da família: renda até R$1.800,00 (Faixa 1); de R$1.800 até R$2.600,00 (Faixa 1,5); de R$2.600,00 até R$4.000,00 (Faixa 2) e; R$4.000,00 até R$7.000 (Faixa 3) (CEF, 2019).
No ano de 2019, com cerca de 5,5 milhões de unidades habitacionais contratadas, e dessas com mais de 4 milhões já construídas e entregues desde 2009, o Programa Minha Casa, Minha Vida instaurou como principal frente de atuação as populações que recebiam até 4 salários mínimos. O art. 3º, da lei que instituiu o PMCMV, determinava que as construções deveriam atender requisitos importantes como renda, situação de domicílio, famílias chefiadas por mulheres e outros:
Art. 3º Para a indicação dos beneficiários do PMCMV, deverão ser observados os seguintes requisitos: (Redação dada pela Lei nº 12.424, de 2011)
I - Comprovação de que o interessado integra família com renda mensal de até R$ 4.650,00 (quatro mil, seiscentos e cinquenta reais); (Incluído pela Lei nº 12.424, de 2011)
II - Faixas de renda definidas pelo Poder Executivo federal para cada uma das modalidades de operações; (Incluído pela Lei nº 12.424, de 2011)
III - Prioridade de atendimento às famílias residentes em áreas de risco, insalubres, que tenham sido desabrigadas ou que perderam a moradia em razão de enchente, alagamento, transbordamento ou em decorrência de qualquer desastre natural do gênero; (Redação dada pela Lei nº 13.274, de 2016)
IV - Prioridade de atendimento às famílias com mulheres responsáveis pela unidade familiar; e (Incluído pela Lei nº 12.424, de 2011)
V - Prioridade de atendimento às famílias de que façam parte pessoas com deficiência. (Incluído pela Lei nº 12.424, de 2011)
Dada a expressividade desses números e a limitada capacidade do poder público em implementar soluções efetivas, as favelas foram, ao longo do tempo, se estabelecendo cada vez mais como alternativa à ausência de moradias. Enquanto elas cresciam e se espalhavam pelo tecido urbano, o poder público passava a contê- las, justificando, sobretudo, que esses espaços apresentavam características precárias, "necessitando de melhoria estrutural das casas, das vias públicas e implantação de saneamento básico e rede elétrica, além da regularização jurídica da
posse" (DANTAS, 2013, p. 24). Nessa atuação, percebe-se um déficit no que diz respeito ao foco da linha de ação quando o assunto era favela. Os olhares estavam atentos ou para erradicação (majoritariamente) ou para sua urbanização (minoritariamente) – algo percebido nas frentes de atuação das políticas habitacionais. Nessa dicotomia, Perlman (1977), no seu estudo feito no Rio de Janeiro, demonstra que o interesse pela erradicação das favelas esconde um empenho de setores privados estratégicos (imobiliários, construtoras, empreiteiras) para a economia e com grande poder no governo, onde não apenas intermediam as remoções, mas também decidem para onde a população favelada irá, condicionando-a, na maciça das vezes, a sua não participação na dinâmica urbana da cidade.
Contudo, enxerga-se que a construção do projeto do Residencial São Pedro, a ser detalhado mais a frente, é, à primeira vista, um ponto (ou um dos pontos) fora dessa curva. Quando se foca nas localizações que a maioria dos empreendimentos do PMCMV foram/são instalados e na distância que eles possuem em relação às áreas que os moradores antes eram assentados, percebe-se que o Residencial São Pedro possui claro privilégio nestes dois pontos.
Em estudo realizado em Natal/RN por Rocha (2018), o qual fez uma análise das implementações das políticas públicas de habitação de interesse social no município, foi constatado que o Residencial São Pedro foi o único, dentre os empreendimentos do mesmo tipo (Faixa 1 do PMCMV), que obteve mais integralidade com a cidade e com o centro urbano. Segundo fala da técnica da Prefeitura de Natal entrevistada pelo autor, o residencial foi “a exceção da exceção”.
Devido aos valores dos terrenos dos empreendimentos do Programa Minha Casa, Minha Vida serem inseridos no valor global do projeto habitacional, as construtoras responsáveis por toda a concepção (aquisição do terreno e construção civil) buscam por terrenos mais baratos para a obtenção de um maior lucro no negócio. Ademais, devido à conjuntura urbana da cidade, com a falta de grandes terrenos no centro urbano, não é possível a construção de um significativo número de unidades habitacionais. Dessa forma, as duas configurações propiciaram as instalações dos empreendimentos nas bordas da cidade, principalmente na Zona Oeste e Norte da cidade de Natal, o que cultivou o processo de segregação desses com o centro da cidade (ROCHA, 2018).
Sobre esse assunto, os estudos realizados com o Programa Minha Casa, Minha Vida apresentam, em sua maioria, uma forte crítica à falta de inserção urbana desses empreendimentos em diversas áreas metropolitanas14, os quais são inseridos
em localizações periféricas das cidades e distantes das áreas originais que os beneficiários estavam instalados. Assim, essas áreas, que muitas vezes eram escolhidas pelos seus baixos preços, traziam não somente a distância do seu antigo local, mas também o afastamento da oferta de transporte público urbano, de serviços e equipamentos públicos, ou de infraestruturas de conexão com a malha urbana, um dos meios ao acesso aos postos de trabalhos, escolas e universidades, bem como todos os principais estabelecimentos comerciais de uma cidade. Nessa situação, identifica-se um fenômeno comum nesses empreendimentos construídos em áreas distantes: a segregação – algo que deve ser tomado nota por ser um importante fator presente nesses empreendimentos.
O trabalho de Nascimento Neto, Moreira e Schussel (2012) aborda alguns descompassos nas questões referentes às ações habitacionais e como elas causam consequências previsíveis e ignoradas no cotidiano das populações beneficiadas. Então, a exemplo disso, é tomado como foco no trabalho dos autores o Programa Minha Casa, Minha Vida, os quais mostram um aumento da periferização das construções das habitações de interesse social, gerando uma segregação com as outras partes da cidade. Moura (2014), em seu trabalho, traz que segundo os dados levantados do trabalho de Nascimento Neto, Moreira e Schussel (2012, p.91) "apenas 34,6% do total de unidades habitacionais vinculadas ao PMCMV nas regiões metropolitanas se localizam nos municípios-polo", enquanto o restante localiza-se fora da malha urbana.
Nesse sentido, algo que se pode explorar um pouco mais é a falta de acesso à cidade, como diria Henri Lefebvre (1991), o termo de Direito à Cidade, o qual explica as necessidades dos cidadãos por espaços nas cidades, bem como do acesso aos serviços e à utilização de equipamentos, e sobretudo de participar das decisões e do delineamento do futuro delas. O autor, para entender e explicar as necessidades
14 Sobre as análises, ver os estudos realizados nas cidades de Fortaleza/CE (PEQUENO e FREITAS,
2013), do Rio de Janeiro/RJ (CARDOSO et al, 2013), de São Paulo/SP (LOPES e SHIMBO, 2015), de Goiânia/GO (MOYSÉS et al, 2013) e outras (FERREIRA, 2012).
inerentes a cada cidadão dentro da cidade, se utiliza de uma reformulação da ciência da cidade que antes simplificava e direcionava apenas a ela como objeto prático (seja realizar compras, andar pelos seus espaços, etc.), mas que agora, ainda segundo Lefebvre, necessita incorporar mecanismos urbanos para um entendimento mais completo. Por este caminho surge a importância da práxis (prática social) da específica cidade atual, deixando de lado a cidade passada, histórica, incapaz de proporcionar meios para uma ciência que não se limita mais apenas no que é percebido no real, mas também na capacidade de transgressão do pensamento com a ruptura do real, do concreto e de suas contradições (movimento dialético), permitindo o caminho dos “possíveis” o qual localiza o direito à cidade. Este, sendo um apanhado de necessidades essenciais (de sentir, de ouvir, de ver, de conviver, de relacionar) para a vivência e sobrevivência de indivíduos que possuem estas prerrogativas inerentes a eles mesmos (os urbanos), que acabam sendo vetados por uma formação atual (urbana) construída por uma relação entre o Estado e uma classe econômica que transforma não só as paisagens e os espaços de convivência da cidade através de um duplo processo (modernização e urbanização), mas também as relações projetadas territorialmente nas práticas socioespaciais inscritas no espaço durante o tempo.
O ponto no qual se quer chegar com isso, através da perspectiva de Lefebvre (1991), é mostrar que a questão urbana dos moradores reassentados em novas moradias não é a unicamente afetada, mas também o aspecto social deles, no que diz respeito ao acesso ou à dificuldade desses moradores em servir-se da cidade e de todos os seus serviços e equipamentos existentes.
Também nesse raciocínio, outro ponto que afeta as condições de vida mais intrinsecamente são as mudanças das relações e laços estabelecidos no antigo local. As distribuições e reorganizações feitas com os moradores nas moradias do novo empreendimento muitas vezes não são pensadas de forma que eles continuem a ter o mesmo ciclo de vizinhos que tinham anteriormente. Isso permite que sejam distribuídos e alocados por meio de sorteios, por exemplo, modificando todo um convívio já antes estabelecido dentro da sua própria vizinhança em seu local de origem. Importante mostrar também que há a existência de reassentamentos que misturam mais de uma comunidade em um mesmo empreendimento, o que afeta mais
intrinsecamente as relações comunitárias15. Nessa mesma questão de interferências
das relações, a questão da comunidade escolar também é alterada. Como os conjuntos habitacionais são criados em pontos distantes da localidade inicial e do centro urbano, isso acaba possibilitando o afastamento das crianças das suas escolas, centros educacionais, modificando mais ainda os moradores dessa comunidade.
Em resumo, sob a ação do poder público, muitas dessas comunidades alteradas sofrem modificações em suas condições de vida, de trabalho, de escola, etc., com uma justificativa de melhoria habitacional que traz outras implicações. Porém, o que se observa é que a remoção dessas comunidades muitas vezes, como já dito, são realizadas pela forte pressão de matérias econômicas e financeiras exercidas por setores privados e com certa influência e poder no setor público. Sobre isso, evidencia-se algumas pesquisas sobre o assunto (PERLMAN, 1977; VALLADARES, 1978; BRUM, 2012), já ressaltado no capítulo 1, com foco evidente no caso da Comunidade do Maruim.