4.1 Panorama nacional do setor sucroalcooleiro
4.1.2 O Programa Nacional do Álcool PROALCOOL
Com o boicote árabe às exportações de petróleo4, o Brasil cria em 14 de Novembro de 1975 pelo Decreto n° 76.593O, o Programa Nacional do Álcool – PROALCOOL, com o objetivo de substituição da gasolina, por álcool etílico ou etanol, como combustível dos veículos automotivos. Em paralelo, retoma os investimentos em pesquisa de novas jazidas petrolíferas, e obtém junto à Comissão das Nações Unidas sobre o Direito do Mar (CNUDM), em 1982, o direito à expansão e exploração econômica da plataforma continental brasileira para 200 milhas náuticas.5
4Em 14/9/1960: Os cinco principais produtores de petróleo (Arábia Saudita, Irã, Iraque, Kwait e Venezuela) fundam, em Bagdá, a Organização dos Países Exportadores de Petróleo (OPEP). A criação da OPEP foi um movimento reivindicativo em reação a uma política de achatamento de preços praticada pelo cartel das grandes empresas petroleiras ocidentais – as chamadas «sete irmãs» (Standard Oil, Royal Dutch Shell, Mobil, Gulf, BP e Standard Oil da California). 16/10/1973: Primeira crise de petróleo. Durante a guerra do Yom Kipur, a OPEP aumenta o preço do óleo de 70 a 100%. Os produtores árabes declaram um embargo aos países considerados pró‐Israel (Estados Unidos e Holanda). O preço do óleo sobe 400% em cinco meses (17/10/1973 – 18/3/1974). Le Monde Diplomatique – Energia II – Cronologia da OPEP. Maio, 2006.
5 Ministério da Defesa.Revista Passadiço: Amazônia Azul: a fronteira brasileira no mar. O artigo nos relata os
resultados da Comissão das Nações Unidas sobre o Direito do Mar (CNUDM), concluída em 10 de dezembro de 1982, que estabelece entre outros zoneamentos, a zona econômica exclusiva de 200 milhas náuticas, na costa
Com efeito, entre 1977 e 1979, o Brasil logrou expandir a produção de álcool a partir da cana-de-açúcar. O domínio da tecnologia da fabricação do álcool, a grande extensão territorial e o clima propício para a cultura canavieira, foram fatores determinantes para a consolidação do PROALCOOL, que, em sua primeira fase, visava produzir álcool com o objetivo de adicioná-lo à gasolina, propiciando a economia do petróleo importado. A esta se seguiu a segunda fase, em que se produziu álcool suficiente para abastecer os veículos movidos a álcool hidratado, cuja indústria, em grande escala, se favorecia com a queda nas vendas dos veículos a gasolina, provocada pelos aumentos de preço daquele combustível fóssil.
A decisão da OPEP em elevar substancialmente os preços do petróleo, a partir de 1973, veio por trazer conseqüências muito positivas à indústria automobilística brasileira. Na segunda metade da década de 70, os brasileiros já adquiriam, em larga escala, automóveis movidos a álcool. Este fato promoveu grande avanço na tecnologia industrial alcooleira, bem como nos motores movidos a álcool. Entretanto, estes ainda apresentavam problemas mecânicos, como a dificuldade de partida a frio e corrosão de motores, razões que influenciaram em resultados tímidos das exportações desses automóveis para o hemisfério norte, em função do clima frio daqueles países.
Contudo, o consumo interno aumentava significativamente. Em 1979 o Brasil chegou a ter cerca de cinco milhões de veículos movidos a álcool, de acordo com as informações da União da Agroindústria Canavieira de São Paulo - UNICA (2003). Em 1982, medidas governamentais buscavam aumentar as vendas do carro a álcool. Criaram-se facilidades de crédito, como a distensão no prazo de financiamento, a redução dos impostos, e, em paralelo, o governo controlava o abastecimento (fechando os postos de abastecimento para gasolina às sextas-feiras à noite, e só reabrindo nas segundas-feiras pela manhã, contudo, permitindo o abastecimento de álcool aos sábados).
Tais medidas fizeram valer a “lei da oferta e da procura.” 6 Do lado dos usineiros era o momento de produzir álcool e cobrar alto pelo produto, em contrapartida, a oferta de veículos não era suficiente para atender à demanda. Este brasileira. Referido artigo apresenta, ainda, a proposta do Brasil de extensão da plataforma brasileira, entregue à ONU em 17 de maio de 2004.Rio de Janeiro, 2005. 6 SMITH, Adam. A Riqueza das Nações. O preço de mercado de qualquer mercadoria particular é determinado pela proporção entre a quantidade dessa mercadoria, que de fato é levada ao mercado, e a demanda dos que estão dispostos a arcar com o preço natural da mercadoria.” Vol.I, p.69.1.ed.São Paulo: Martins Fontes,2003
cenário, em conseqüência, elevava os preços dos veículos e do álcool, pelo excesso de demanda.
É interessante observar que no período entre 1982/83 e 1986/87 a indústria da região Norte/Nordeste superou a produção do Centro/Sul, pelos reflexos dos investimentos havidos no PROALCOOL e pelo esforço concentrado na produção de açúcar, face aos altos preços praticados no mercado externo, que se refletia internamente. Assim, em Estudos Infosucro Nº 4, LIMA e SICSÚ nos oferecem um relato daquele contexto, em que a região ampliou a produção acima da média do Centro/Sul, com o crescimento de 9,1% ao ano e 7,7% respectivamente. Este desempenho, porém não se manteve. Entre 1888/89 e 1994/95 a produção da região Norte/Nordeste cai para (-) 2,1%, em contrapartida à do centro/sul, de 2,6% ao ano (UFRJ, 2001, pg.4). Os autores atribuem a disparidade dos resultados a fatores de caráter relevante na região Centro/Sul, dispondo de melhores condições físicas, com solos planos e férteis aliados ao clima propício. O ambiente econômico foi igualmente relevante pelo dinamismo que impulsionou as mudanças tecnológicas, e estímulou as pesquisas em variedades de cana mais produtivas. A lucratividade em si, encorajava os gestores na busca por maior eficiência, o que levou ao crescimento.
Em contrapartida, os solos declivosos e a as condições insatisfatórias de pluviosidade da região Norte/Nordeste, vieram a se aliar ao conservadorismo local e a lentidão nas transformações tecnológicas e gerenciais. Nesse sentido, melhor estrutura administrativa-gerencial poderia contribuir para a redução de custos operacionais, ênfase nas pesquisas, e revisão na base tecnológica das empresas. Segundo os mesmos autores, esse quadro ainda hoje é, em boa parte, resultante do paternalismo e protecionismo da política oficial que, durante décadas de intervencionismo, tem mantido a postura de produtores e trabalhadores da região. Esses fatores só vieram a reforçar a concentração econômica, a ampliação do endividamento, e a redução da competitividade, o que resultou no encolhimento do setor, notadamente nordestino.
O declínio do PROALCOOL iniciou-se em meados da década de 80, na medida que o preço internacional do petróleo baixava, tornando o álcool combustível pouco vantajoso tanto para o consumidor quanto para o produtor. Para agravar o problema, o preço do açúcar mantinha-se alto no mercado internacional na mesma
ocasião em que o preço do petróleo baixava, tornando muito mais interessante, economicamente para os usineiros, produzir açúcar no lugar do álcool.
Ao cenário de mercado internacional somaram-se as medidas institucionais internas, com o fim da tutela do Estado, que na década de 90 desregulamentou o setor sucroalcooleiro, não mais definindo o preço da cana-de-açúcar, do açúcar e do álcool, levando ao desmonte do Instituto do Açúcar e do Álcool –IAA.
Questões institucionais como a extinção do IAA, que tinha em seu bojo o Programa Nacional de Melhoramento da Cana-de-Açúcar - PLANALSUCAR7 vieram a afetar a indústria canavieira, visto que o referido Programa tinha a incumbência de atender os produtores de cana-de-açúcar nas suas necessidades básicas de tecnologia de produção agrícola, em especial quanto à escolha de variedades e controle fitossanitário. De âmbito nacional, o Programa havia criado quatro estações experimentais, em Carpina (PE), Rio Largo (AL), Campos (RJ) e Araras (SP), que, em conjunto, desenvolviam projetos tecnológicos para o setor, com novas variedades de cana.8
As dificuldades eram ainda maiores devido à ausência de conhecimento técnico por parte dos produtores, o que os limitava a expansão em novas áreas de plantio de cana-de-açúcar, particularmente na região do noroeste paulista, cujos projetos de montagem de destilarias já estavam aprovados pelo governo. Ainda assim, os grupos paulistas se reuniram e as pesquisas prosseguiram, conforme nos elucida Marcos Sanches Vieira, pesquisador e professor do Departamento de Biotecnologia Vegetal do Centro de Ciências Agrárias da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar) e diretor-executivo da Rede Interuniversitária de Desenvolvimento do Setor Sucroalcooleiro - RIDESA:
“Após muitas negociações, o governo decidiu transferir as quatro fazendas do PLANALSUCAR para as universidades. As Universidades Federais de Pernambuco, de Alagoas, Rural do Rio de Janeiro e de São Carlos absorveram a estrutura física e o pessoal das coordenadorias Norte, Nordeste, Leste e Sul do PLANALSUCAR. Em janeiro de 2001, fomos incorporados pela UFSCar, em São Paulo, com o compromisso de criar cursos de graduação. Posteriormente, outras universidades e Estados que têm
7 LEI Nº 8.029, de 12 de abril de 1990, extingue o IAA (Art.1º) e transfere o acervo técnico, físico, material e
patrimonial do Programa Nacional de Melhoramento da Cana‐de‐Açúcar para a EMBRAPA (Art.7).
8 O PLANALSUCAR permitiu formar grupos de pesquisadores em cada uma das estações, em fazendas
experimentais, e criou‐se também o banco de germoplasma, em Alagoas. Surgiram grupos nas áreas de solos, herbicidas e de controle biológico de pragas da cana. Ao final de 1974, surgiu o PROALCOOL. (UNICAMP, 2007).
importância no setor canavieiro aderiram à rede: as Universidades Federais do Paraná, de Viçosa, em Minas Gerais, e de Goiás.” (RIDESA 2008).
A Lei dos Cultivares9 veio a assegurar a propriedade intelectual na reprodução e multiplicação de espécies de cana pesquisadas no Brasil, ao criar a concessão de Certificado de Proteção de Cultivar. Esta medida institucional já se fazia indispensável, dado o avanço nas pesquisas e alto custo de análise de desempenho das espécies. Ainda de acordo com Vieira, o Brasil depende da ajuda governamental, pois um programa de melhoramento genético custa cerca de R$ 10 milhões ao ano, e para atuar em padrões competitivos e ser espelho para o resto do mundo, há que manter as pesquisas em ciência e tecnologia na área.