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2.5 POLÍTICAS PÚBLICAS E PRODUÇÃO DE ALIMENTOS EM

2.5.1 Programa Nacional de Alimentação Escolar (PNAE) e Programa Nacional de

Para a agricultura familiar e assentamentos da reforma agrária, o Programa Nacional de Alimentação Escolar (PNAE) e o Programa Nacional de Aquisição de Alimentos (PAA) são de relevante importância para a composição da renda dos agricultores, principalmente aqueles mais vulneráveis às adversidades do mercado.

O PAA foi instituído pelo artigo 19 da Lei 10.696 de 02/07/2003 e regulamentado pelo Decreto 4.772 na mesma data (BRASIL, 2003). Possui como interface a demanda de alimentos fomentada pelo Programa Fome Zero, com a produção de alimentos da agricultura familiar e assentamentos da reforma agrária, aliada à garantia de um preço mínimo pago pelo produto ao agricultor.

Para Grisa (2012, p. 185), o PAA é uma política pública diferenciada, na qual se articula a compra de alimentos produzidos pelos agricultores familiares a ações de segurança alimentar e nutricional, resultando no encontro da política agrícola com a política de segurança alimentar e nutricional.

O PNAE faz parte do Fundo Nacional da Educação (FNDE). Foi criado pela Lei 11.947/2009 e tem por objetivo10 contribuir para que os alunos das escolas públicas tenham alimentação saudável promovida pela oferta de refeições durante o período que estão na escola. A gestão é feita pelos estados, municípios e escolas federais com os recursos repassados pelo FNDE.

O artigo quatorze11 da Lei 11.947 estabelece que a quantia mínima de trinta por cento dos recursos do PNAE repassados pelo FNDE deve ser aplicada na aquisição de produtos originários da agricultura familiar, reforma agrária ou de suas organizações (BRASIL, 2009).

Para Darolt et al. (2013), a ação governamental por intermédio do mercado institucional fortalece iniciativas em circuitos curtos de comercialização auxiliando na

10 Segundo o Artigo 4º da Lei 11.947/2009, o PNAE “tem por objetivo contribuir para o crescimento e

o desenvolvimento biopsicossocial, a aprendizagem, o rendimento escolar e a formação de hábitos alimentares saudáveis dos alunos, por meio de ações de educação alimentar e nutricional e da oferta de refeições que cubram as suas necessidades nutricionais durante o período letivo”.

11 O artigo 14º da Lei 11.947/2009 estabelece que “do total dos recursos financeiros repassados pelo

FNDE, no âmbito do PNAE, no mínimo 30% (trinta por cento) deverão ser utilizados na aquisição de gêneros alimentícios diretamente da agricultura familiar e do empreendedor familiar rural ou de suas organizações, priorizando-se os assentamentos da reforma agrária, as comunidades tradicionais indígenas e comunidades quilombolas”.

organização dos agricultores e criando novas perspectivas de mercado para a agricultura familiar.

Em linha com a política pública delineada nos contornos da Lei 11.947/2009, o disposto na Nota Técnica nº 03/2018 do Ministério da Educação (MEC), teve o objetivo de regulamentar a participação das centrais de cooperativas de agricultores familiares no abastecimento da alimentação escolar. A referida nota estabelece a ordem de priorização entre os projetos de renda habilitados para os editais de chamada pública, considerando a contribuição da agricultura familiar para o desenvolvimento econômico e local e, também, “orientar a priorização de projetos de venda dos agricultores familiares e suas organizações concorrentes ao edital de chamada pública local”.

Apesar de a legislação garantir nas compras governamentais dos programas PAA e PNAE a participação de agricultores familiares e assentados da reforma agrária, bem como de suas instituições, é necessário que haja organização entre os agricultores. A falta de capacitação e de condições de manter uma assessoria técnica para auxiliar na organização dos agricultores acaba frustrando as expectativas de comercialização, pois é fundamental o planejamento da propriedade para produzir com constância e qualidade. O PAA e PNAE possibilitam “o fortalecimento da estruturação econômica da agricultura familiar e do apoio à comercialização agrícola” (GRISA; PORTO, 2015, p. 173).

No entanto, os agricultores familiares assentados e suas organizações não devem ficar dependentes somente dos programas institucionais. Pode-se citar, como exemplo, a situação ocorrida com o PAA, operacionalizado pela Companhia Nacional de Abastecimento (CONAB), que a partir de 2012 tem diminuído de forma significativa os recursos destinados a esse programa.

Conforme se observa na Tabela 2, a operacionalização do PAA teve início em 2003 com a descentralização de pouco mais de R$ 17 milhões na região sul. O ápice do programa foi em 2012 com o repasse de cerca de R$ 220 milhões de reais, ou seja, um incremento de doze vezes em relação ao primeiro ano do programa. A partir de 2013, devido à “Operação Agro-Fantasma”, deflagrada pela Polícia Federal, a pedido do Ministério Público, houve forte redução na descentralização dos recursos do PAA. Houve alteração de normas fomentada por órgão de controle, de modo que em 2017 foi operacionalizado somente pouco mais de R$ 26 milhões.

Tabela 2 – Evolução dos recursos aplicados na aquisição do PAA

Evolução dos recursos aplicados na aquisição de produtos do PAA, de 2003 a 2017, no sul do Brasil (SEAD e MDS) Ano 2003 2004 2005 2006 2007 Valor (R$) 17.639.249 24.196.831 85.510.564 85.510.564 102.648.840 Ano 2008 2009 2010 2011 2012 Valor (R$) 93.032.175 153.516.158 128.975.115 124.209.257 220.557.912 Ano 2013 2014 2015 2016 2017 Valor (R$) 43.203.433 60.286.440 54.075.037 22.730.799 26.705.879 Fonte: adaptado de CONAB (2018)

Por conseguinte, devido à situação ocorrida, várias entidades de agricultores familiares e de assentados da reforma agrária que atuavam fortemente com o PAA, desembolsando recursos financeiros para o plantio de culturas para posterior venda ao programa, acabaram por ficar em dificuldades financeiras. Devido ao prejuízo causado aos agricultores ocasionado pela perda da produção na lavoura, algumas dessas organizações até deixaram de funcionar.

Além do PAA e do PNAE, é fundamental que assentados e agricultores familiares e suas entidades representativas (associações e cooperativas) busquem outros canais de comercialização, não ficando dependente apenas do mercado institucional, que pode ser considerado como “uma escola” para as entidades se prepararem para o mercado, em busca de novas formas de comercialização.