No final de 2009 (21 de dezembro) foi aprovado o decreto nº 7.037, denominado de Programa Nacional de Direitos Humanos 3 (PNDH – 3) com o escopo de estabelecer as diretrizes e objetivos na esfera dos direitos humanos que orientarão o Poder Público para uma sociedade mais adequada aos preceitos inerentes aos estabelecidos pelos direitos humanos, lastreado pela dignidade da pessoa humana e buscando fomentar um Estado Democrático de Direito.
Precedido pelo “Plano nacional de promoção da cidadania e direitos humanos de lésbicas, gays, bissexuais, travestis e transexuais” de 2008, o programa mostra- se alicerçado em seis eixos orientadores básicos, contando com 25 diretrizes, 82 objetivos estratégicos e 521 ações programáticas, tratando da interação entre Estado e sociedade civil; desenvolvimento e direitos humanos; universalização de direitos e desigualdade; segurança pública, acesso à justiça e combate à violência; educação e cultura em direitos humanos; e direito à memória e verdade. Pela própria natureza do programa, é cristalino que de uma maneira ou de outra, ainda que de forma reflexa, os temas ali tratados apresentam alguma vinculação com a questão da identidade de gênero.
Desta maneira há de se ressaltar que no eixo orientador III, denominado de “universalizar direitos em um contexto de desigualdades”, que tem por escopo definir “medidas e políticas que devem ser efetivadas para reconhecer e proteger os
indivíduos como iguais na diferença, ou seja, valorizar a diversidade presente na população brasileira para estabelecer acesso igualitários aos direitos fundamentais” podem ser localizados elementos bastante afeitos à questão da identidade de gênero.
A Diretriz 7 deste eixo estabelece a “garantia dos direitos humanos de forma universal, indivisível e interdependente, assegurando a cidadania plena” e traz questões atreladas à sexualidade e a identidade de gênero no objetivo estratégico IV que se conduz para a “ampliação do acesso universal a sistema de saúde e qualidade” e estabelece entre suas ações programáticas “expandir e consolidar programas de serviços básicos de saúde e de atendimento domiciliar”, firmando um apoio diferenciado, entre outros, para lésbicas, gays, bissexuais, travestis e transexuais, entre outros (a); “aperfeiçoar programas de saúde para adolescentes, especificamente quanto à saúde de gênero, à educação sexual e reprodutiva e à saúde mental” (e); “criar campanhas e material técnico, instrucional e educativo sobre planejamento reprodutivo que respeito os direitos sexuais e direitos reprodutivos” (f); “estimular programas de atenção integral à saúde da mulher”, considerando entre outros critérios sua orientação sexual (g); “garantir o acompanhamento multiprofissional a pessoas transexuais que fazem parte do processo transexualizador no Sistema Único de Saúde e de suas famílias” (p).
O objetivo estratégico VI da mesma diretriz se ocupa da “garantia do trabalho decente, adequadamente remunerado, exercido em condições de equidade e segurança” e pontua entre as ações programáticas o combate às “desigualdades salariais baseadas em diferenças de gênero” (g).
Na diretriz 8, vinculada à “promoção dos direitos de crianças e adolescentes para o seu desenvolvimento integral, de forma não discriminatória, assegurando seu
direito de opinião e participação”, o objetivo estratégico III (“proteger e defender os direitos de crianças e adolescentes com maior vulnerabilidade”) traz entre suas ações programáticas a exigência de que “em todos os projetos financiados pelo Governo Federal” haja “a adoção de estratégias de não discriminação de crianças e adolescentes” por inúmeros motivos, entre eles, gênero, orientação sexual e identidade de gênero (l).
Em seguida surge a Diretriz 10 que traz como foco a “garantia da igualdade na diversidade”, o que se mostra como o ponto mais específico do Programa Nacional de Direitos Humanos 3 (PNDH – 3) atrelado à questão da identidade de gênero. Como objetivo estratégico I estabelece a “afirmação da diversidade para a construção de uma sociedade igualitária”, e entre as ações programáticas previstas se vislumbra a realização de “campanhas e ações educativas para desconstrução de estereótipos” como os de identidade e orientação sexual (a).
O objetivo estratégico V é o mais direto com relação ao tema, vez que traz a “garantia do respeito à livre orientação sexual e identidade de gênero” como título, ao qual se vinculam oito ações programáticas, quais sejam, “desenvolver políticas afirmativas e de promoção de cultura de respeito à livre orientação sexual e identidade de gênero, favorecendo a visibilidade e o reconhecimento social“ (a); “apoiar projeto de lei que disponha sobre a união civil entre pessoas do mesmo sexo“ (b); “promover ações voltadas à garantia do direito de adoção por casais homoafetivos“ (c); “reconhecer e incluir nos sistemas de informação do serviço público todas as configurações familiares constituídas por lésbicas, gays, bissexuais, travestis e transexuais, com base na desconstrução da heteronormatividade“ (d); “desenvolver meios para garantir o uso do nome social de travestis e transexuais“ (e); “acrescentar campo para informações sobre a identidade de gênero dos
pacientes nos prontuários do sistema de saúde“ (f); “fomentar a criação de redes de proteção dos Direitos Humanos de Lésbicas, Gays, Bissexuais, Travestis e Transexuais (LGBT), principalmente a partir do apoio à implementação de Centros de Referência em Direitos Humanos de Prevenção e Combate à Homofobia e de núcleos de pesquisa e promoção da cidadania daquele segmento em universidades públicas“ (g); e “realizar relatório periódico de acompanhamento das políticas contra discriminação à população LGBT, que contenha, entre outras, informações sobre inclusão no mercado de trabalho, assistência à saúde integral, número de violações registradas e apuradas, recorrências de violações, dados populacionais, de renda e conjugais“ (h).
Há ainda conteúdo relevante ao tema no eixo orientador IV que desenvolve a questão da segurança pública, acesso à justiça e combate à violência, vez que na diretriz 13 trata da “prevenção da violência e da criminalidade e profissionalização da investigação de atos criminosos” e que apresenta como objetivo estratégico V a “redução da violência” motivada por diferenças de gênero e orientação sexual, entre outros motivos, fixando como ações programáticas o fortalecimento da “Polícia Federal no combate e apuração de crimes contra os direitos humanos” (a); a garantia do conhecimento sobre ‘serviços de atendimento, atividades desenvolvidas pelos órgãos e instituições de segurança e mecanismos de denuncia, bem como forma de acioná-los” (b); promoção de “campanhas educativas e pesquisas voltadas à prevenção da violência” contra lésbicas, gays, bissexuais, transexuais e travestis, entre outros (d); e “implementar ações de promoção da cidadania e direitos humanos das lésbicas, gays, bissexuais, transexuais, travestis (LGBT) com foco na prevenção à violência, garantindo redes integradas de atenção” (o).
Já no objetivo estratégico VI que discorre sobre o “enfrentamento ao tráfico de pessoas” a ação programática b trata especificamente de transexuais e travestis ao estabelecer a estruturação, a partir de serviços existentes, de um “sistema nacional de atendimento às vítimas do tráfico de pessoas, de reintegração e diminuição da vulnerabilidade”.
Em seguida, na diretriz 16 estabelece a “modernização da política de execução penal, priorizando a aplicação de penas e medidas alternativas à privação de liberdade e melhoria do sistema penitenciário” e, ao tratar da reestruturação do sistema carcerário, no objetivo estratégico I, fixa entre as ações programáticas a elaboração de projeto de reforma da Lei de Execução Penal (a) com o propósito de “assegurar e regulamentar as visitas íntimas para a população carcerária LGBT”, recomendando ainda que os estados e o Distrito Federal assegurem o direito à visita íntima e regulares dos apenados, com espaço adequado nos estabelecimentos prisionais que levem em conta as diferentes orientações sexuais; e “debater, por meio de grupos de trabalho interministerial, ações e estratégias que visem assegurar o encaminhamento para o presídio feminino de mulheres transexuais e travestis que estejam em regime de reclusão”.
O eixo orientador V está vinculado à “Educação e Cultura em direitos humanos” e, em específico, na diretriz 19, que fixa o “fortalecimento dos princípios da democracia e dos direitos humanos nos sistemas de educação básica, nas instituições de ensino superior e nas instituições formadoras” se trabalha a “inclusão da temática de Educação e Cultura em direitos humanos nas escolas de educação básica e em instituições formadoras” no objetivo estratégico I e firma entre suas ações programáticas “estabelecer diretrizes curriculares para todos os níveis e modalidades de ensino da educação básica para a inclusão da temática de
educação e cultura em direitos humanos, promovendo o reconhecimento e o respeito das diversidades de gênero, orientação sexual, identidade de gênero, geracional, étnico-racial, religiosa, com educação igualitária, não discriminatória e democrática”, trazendo ainda no objetivo estratégico II que tem por base o “resgate da memória por meio da reconstrução da historia dos movimentos sociais”, como ação programática a promoção de “campanhas e pesquisas sobre a história dos movimentos de grupos historicamente vulnerabilizados”, colocados entre estes os seguimentos LGBT (a).
As perspectivas fixadas pelo Programa Nacional de Direitos Humanos 3 (PNDH – 3) se mostram bastante importantes e de suma relevância para se efetivar a atenção aos direitos humanos em um Estado Democrático de Direito, sendo necessário, porém, que estas diretrizes e ações programáticas deixem de ser meras intenções e passem a ter alguma efetividade prática.
Importante se consignar também que outras questões afeitas à sexualidade também são tratadas pelo Programa Nacional de Direitos Humanos 3 (PNDH – 3), como pode se verificar no que consta do eixo orientador III (Universalizar direitos em um contexto de desigualdade) que trata da questão das profissionais do sexo na diretriz 7 (objetivo estruturante IV, ação programática n e objetivo estruturante VI, ação programática q) e na diretriz 9 (objetivo estruturante III, ação programática h), determinando acesso a programas de saúde preventiva e de proteção a sua saúde, garantia de direitos trabalhistas e previdenciários por meio da regulamentação de sua profissão e ações educativas para eliminar o estereótipos.
A diretriz 9 também do eixo orientador III que trata do “combate às desigualdades estruturais”, tendo a “garantia dos direitos das mulheres para o estabelecimento das condições necessárias para a sua plena cidadania”, também
cuida da figura da sexualidade, não sob uma perspectiva de identidade de gênero ou orientação sexual, mas que está afeita à sexualidade como um todo.
O Programa Nacional de Direitos Humanos 3 (PNDH – 3) mais do que toda esta perspectiva programática evidencia a leniência do Estado com transexuais e intersexuais, pois é límpido que o Poder Público tem ciência das necessidades e agruras suportadas por tais pessoas e não efetiva as políticas públicas imprescindíveis a atender aos seus fins precípuos. Ressalta-se aqui, ainda, que a questão já vem sendo tratada desde 2004 com o lançamento do programa Brasil sem homofobia, seguido da 1ª conferencia nacional “Direitos humanos e políticas públicas: o caminho para garantir a cidadania LGBT” de junho de 2008 que resultou no “Plano nacional de promoção da cidadania e direitos humanos de lésbicas, gays, bissexuais, travestis e transexuais”.