4 EDUCAÇÃO AMBIENTAL (EA) PARA A REDUÇÃO DO RISCO DE
4.3 MARCO POLÍTICO-JURÍDICO DA EA NO BRASIL
4.3.3 Objetivos da EA na Lei nº 9.795/1999
4.3.3.2 Programa Nacional de Educação Ambiental – ProNEA
Já o Programa Nacional de Educação Ambiental, criado em 1994, merece maior atenção, ainda mais se tratando de RRD. Isso porque ele é uma compilação de determinações
licenças ambientais emitidas pelo Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis - Ibama.. . Brasília, 2012. IBAMA.
298 BRASIL. Resolução nº 422, de 2010. Estabelece diretrizes para as campanhas, ações e projetos de Educação
Ambiental, conforme Lei no 9.795, de 27 de abril de 1999, e dá outras providências.. . Brasília, 2010. CONAMA.
organizadas por profissionais (pesquisadores e educadores) da área que pensaram e discutiram objetivos, regras e formas de implementação da EA no Brasil299. Diferentemente da PNEA, este foi um documento construído fora do âmbito meramente legislativo, onde a população pode consultar e opinar sobre o conteúdo disposto no documento.
Sobre isso, é importante a observação de Luca et al de que o ProNEA surge em um contexto político favorável a sua criação participativa, pois as versões mais recentes (2003, 2004, 2005) datam da época em que o então presidente Luiz Inácio Lula da Silva assume o cargo e nomeia Marina Silva como Ministra do Meio Ambiente, que trabalhou diretamente com Chico Mendes durante os anos em que viveu no Norte do país. Esse cenário político trazia uma marca de “povo no poder”300.
Talvez a maior contribuição do texto do ProNEA para este trabalho que tem como objeto a RRD seja a contextualização trazida pelo documento, que auxiliou na construção de sentido para as palavras que na PNEA podem ser vistas como abstratas e vagas.
Nesse sentido, sobre o ProNEA os autores destacam
A língua, por sua vez, não é transparente, simples meio de transmissão de sentidos pré-estabelecidos, mas suporte material sobre o qual se realiza a produção dos sentidos. Embora nos seja apresentada como transparente, a língua é opaca e demanda um investimento de leitura para que o modo da formulação, remetido às condições de produção do texto em questão, possa ser compreendido nas possibilidades de interpretação que comporta301.
Tendo isso em vista, logo na apresentação do ProNEA, o documento estabelece que:
No Brasil, a ameaça à biodiversidade está presente em todos os biomas, em decorrência, principalmente, do desenvolvimento desordenado de atividades produtivas. A degradação do solo, a poluição atmosférica e a contaminação dos recursos hídricos são alguns dos efeitos nocivos observados. Na maioria dos centros urbanos, os resíduos sólidos ainda são depositados em lixões, a céu aberto. Associa-se a isso um quadro de exclusão social e elevado nível de pobreza da população. Muitas pessoas vivem em áreas de risco, como encostas, margens de rios e periferias industriais. É preciso também considerar que uma significativa parcela dos brasileiros tem uma percepção “naturalizada” do meio ambiente, ex- cluindo homens, mulheres, cidades e favelas desse conceito.
Reverter esse quadro configura um grande desafio para construção de um Brasil sustentável, entendido como um país socialmente justo e ambientalmen- te seguro.
299 PORTAL DA EDUCAÇÃO (Brasil). Programa nacional de educação ambiental. Disponível em:
<https://www.portaleducacao.com.br/conteudo/artigos/biologia/programa-nacional-de-educacao- ambiental/38795>. Acesso em: 25 nov. 2019.
300 LUCA, Andréa Quirino; LAGAZZI, Suzy Maria; SORRENTINO, Marcos. Um olhar político para a educação
ambiental do programa nacional de educação ambiental (ProNEA). Rua, [s.l.], v. 22, n. 1, p.151-176, 16 jun. 2016. Universidade Estadual de Campinas. http://dx.doi.org/10.20396/rua.v22i1.8646074. Disponível em: <https://www.labeurb.unicamp.br/rua/web/index.php?r=artigo/verpdf&publicacao_id=86>. Acesso em: 11 nov. 2019. p. 152-153.
Nota-se ainda um distanciamento entre a letra das leis e sua efetiva aplicação, sobretudo no que se refere às dificuldades encontradas por políticas institucionais e movimentos sociais voltados à consolidação da cidadania entre segmentos sociais excluídos302.
Já por este trecho é possível constatar a preocupação do documento em se adequar a uma realidade concreta de problemas socioambientais graves e complexos, saindo da abstração da lei e ainda reconhecendo a sua inefetividade. Na sequência, ainda, o Programa assinala que não é possível somente falar em participação social, é necessário garantir essa efetiva participação303.
Se alinhando com a essencialidade do empoderamento e da emancipação da população, propõe “mudanças sociais em direção ao empoderamento dos indivíduos, grupos e sociedades que se encontram em condições de vulnerabilidade em face dos desafios da contemporaneidade”304, que devem repensar modelos de produção e consumo, reconhecer a diversidade cultural e de identidade.
É possível perceber, ainda, a menção clara a necessidade de se direcionar a EAa populações que vivem em áreas de risco e, também, a intersetorialidade em relação às legislações que tratam sobre desastres. Ainda que de maneira vaga, essa simples menção pode representar um certo nível de adequação da ProNEA com as teorias expostas sobre a importância da EA enquanto medida de RRD.
Sem o intuito de fazer uma análise exaustiva, é possível concluir que o ProNEA, talvez por sua construção de “baixo para cima”305, abarca grande parte dos elementos apontados no tópico 4.1.1 deste trabalho. Ainda que possa não ser um documento “ideal” e completo, e sua utilização e revisão dependerem de movimentos políticos, ele serve como base interpretativa para a Lei 9.795/1999 e pode ter maiores implicações na RRD.
Por fim, antes de passar para as notas conclusivas deste capítulo, faz-se importante mencionar, a título exemplificativo, programa de educação para desastres já em desenvolvimento no Brasil pelo Centro Nacional de Monitoramento e Alerta de Desastres Naturais (CEMADEN), no âmbito da Defesa Civil.
302 BRASIL. Lei nº 1, de 2005. Programa Nacional de Educação Ambiental. 5. ed. Brasília, 2005. Ministério da
Educação e Ministério do Meio Ambiente. Disponível em:
<https://www.mma.gov.br/estruturas/educamb/_arquivos/pronea3.pdf>. Acesso em: 22 nov. 2019.
303 BRASIL, 2005. 304 BRASIL, 2005.