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Capítulo 2 – Etanol combustível no Brasil em perspectiva histórica: sustentabilidade controversa

2.3 Programa Nacional do Álcool: trajetória oscilante

Em novembro de 1975, sob o governo do general Ernesto Geisel, foi lançado o Proálcool, que deu início a um novo ciclo da cana-de-açúcar no País. O Programa promoveu a intensificação da produção de etanol a partir da cana e não como subproduto do açúcar. Os incentivos governamentais à produção do combustível incluíram financiamentos a juros negativos para a construção ou ampliação das usinas de açúcar que passaram a incorporar unidades anexas para destilação de álcool, destacando-se os produtores do Centro-Sul do país. Podem-se distinguir três fases do Proálcool. Na primeira, que durou até o segundo choque do petróleo (1979), fundamentou-se no uso do etanol anidro como aditivo à gasolina e no fomento a novas destilarias anexas a usinas de açúcar, prevendo uma produção de três bilhões de litros de etanol. O uso do etanol hidratado só teve início em 1979, ano em que a Fiat lançou no mercado nacional o primeiro carro movido a etanol produzido em grande escala, o Fiat 147. De acordo com Bennertz (2009) , foi nessa fase que etanol combustível brasileiro estabeleceu seu espaço como alternativa à gasolina no Brasil, na esteira das controvérsias sobre opções viáveis de combustíveis veiculares e meios de transporte que permearam a década de 1970.

A produção de álcool mais que quintuplicou, passando de 664 mil m3 em 1976/77 para 3,7 milhões de m3 em 1980/81. O processo de mecanização no cultivo canavieiro no Brasil acentuou-se, sendo comum a queima da palha da cana colhida mecanicamente (NYKO et al., 2013). Diante dos incentivos à mecanização, as empresas Dedini e Santal surgiram no mercado de colhedoras de cana com tecnologia nacional desenvolvida a partir dos modelos australianos.

A segunda fase, de 1980 a 1985, visava à substituição da gasolina pelo álcool hidratado como combustível, com uma meta de produção de 10,7 bilhões de litros de etanol, que foi superada ao final do período. Importantes transformações ocorreram nas linhas de produção de motores veiculares, na distribuição de combustíveis e também no comportamento dos consumidores, frente aos estímulos governamentais. O surgimento do mercado de veículos movidos a álcool contou com incentivos fiscais ao consumo. O capital imobilizado

nas usinas tendia a aumentar, tornando-se acessível a alguns grandes usineiros (ALVES, 1991).

Em 1984, os trabalhadores no corte de cana da cidade de Guariba (SP) fizeram uma greve histórica contra a determinação das usinas de aumento do tamanho do eito38 de colheita para sete ruas (em vez de cinco), os baixos salários, as condições desumanas de seu ofício e os preços abusivos da água e de produtos básicos. A greve foi marcada por violência, forte repressão policial e uma morte, com repercussão na mídia, durou 12 dias e chegou a outras regiões e estados brasileiros. Com a greve, os trabalhadores conseguiram um acordo direto com as usinas e a volta do corte em cinco ruas39. Outras greves ocorreram nos anos seguintes, em Guariba e em Leme (SP), se alastrando para outras cidades do Estado.

De acordo com Alves (1991 e 2009), após esse ciclo de greves, as usinas implementaram um vigoroso processo de mecanização do corte de cana queimada. Entretanto, a colheita mecanizada no Estado de São Paulo não se difundiu nos anos 1980 e parte dos anos 1990 em função de fatores como as crises econômicas, a rentabilidade instável do setor sucroalcooleiro, baixos salários e desenvolvimento técnico insatisfatório das máquinas (VEIGA FILHO, 2006).

No início da década de 1980, surgiram variedades de cana melhoradas, que permitiram aumento do número de cortes do canavial. Em meados da década, a necessidade de complementar a colheita manual ante a grande expansão do plantio de cana-de-açúcar impulsionou a colheita mecanizada, que convivia com a prática de queimadas. Entretanto, o corte mecanizado desse período apresentava dificuldades que levavam à redução da longevidade do canavial e perdas excessivas na colheita (BENEDINI; DONZELLI, 2007).

Do ponto de vista da produção, o Proálcool fortaleceu e consolidou uma agricultura energética concentradora. Conforme Bray, Ferreira e Ruas (2000), apesar da proposta de implantação de mini-destilarias, "para atingir a produção almejada em 1985, o Programa Nacional de Álcool só aprovou projetos de destilarias com produção de 60 mil

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No Estado de São Paulo o eito mede 5 ruas (ou linhas), que são as linhas onde a cana é plantada, por um comprimento que depende da resistência do trabalhador. O espaçamento entre uma rua e outra é de 1,5 metros.

39 “As demais cláusulas do acordo, tais como: carteira assinada; pagamento quinzenal; fornecimento de ferramentas e roupas;

fornecimento de equipamentos de proteção individual; caixa de medicamentos de primeiros socorros nos locais de trabalho; transporte das ferramentas em separado; o pagamento da cana pelos valores acordados e pagamento pela diária quando não houver trabalho, por motivo alheio aos trabalhadores só eram cumpridas em parte e, assim mesmo, pelas usinas mais organizadas” (ALVES, 1991, p. 172).

litros-dia para mais, alegando-se que essa é a capacidade econômica mínima" (BRAY; FERREIRA; RUAS, 2000, p. 64).

Durante a segunda fase do Programa, o Estado de São Paulo recebeu incentivos especiais, como o Programa de Expansão da Canavicultura para Produção de Combustível do Estado de São Paulo (Procana), lançado em 1980 no âmbito do Plano de Desenvolvimento do Oeste de São Paulo (Pro-Oeste), e a criação do Conselho Estadual de Energia em 1983.

A partir de 1986, quando o governo federal suspendeu os financiamentos e subsídios para as novas destilarias e as empresas passaram a operar de acordo com as condições existentes, iniciou-se a terceira fase do Programa, que passou a ter perspectivas pouco definidas e problemas institucionais (BRAY; FERREIRA; RUAS, 2000). Essa etapa constituiu-se no auge da produção nacional de álcool, seguida da queda do preço do petróleo (contra-choque) no contexto de uma crise de governança e de confiabilidade do setor sucroalcooleiro.

Em meados dos anos 1980, além do contra-choque do petróleo, houve uma alta dos preços do açúcar no mercado internacional. O financiamento público ao Proálcool reduziu-se a partir de 1987, enquanto era retomada a democracia em contexto de crise econômica no País e se iniciava o processo de liberalização da economia. Assim, a expansão e a renovação dos canaviais foram desestimuladas e os produtores desviaram matéria-prima da produção de etanol para açúcar, visando à exportação.

A produção nacional de etanol estabilizou-se ante uma demanda crescente estimulada pelos preços controlados e pelos subsídios aos carros a álcool. Em consequência, houve uma crise de abastecimento nos postos no final da década de 1980, levando o País, no início dos anos 1990, a importar etanol para atender à demanda interna (FURTADO; SCANDIFFIO, 2007).

Durante o Proálcool, o setor produtor de açúcar e etanol, chamado à época de sucroalcooleiro (hoje sucroenergético), passa por transformações fortemente influenciadas pelas políticas governamentais e pelas inovações. A partir de então, o setor começa a ganhar novas ramificações. Com relação aos progressos tecnológicos nessa fase, destacam-se melhorias genéticas e adaptação de sementes, novas tecnologias empregadas nas usinas e destilarias, intensificação da mecanização e estímulos a inovações na indústria automobilística. As políticas de incentivo negligenciam os produtores menores (BRAY; FERREIRA; RUAS, 2000) e promovem a concentração produtiva.

Os estudos para a produção de etanol celulósico iniciaram-se no Brasil nos primeiros anos do Proálcool, com a utilização de bagaço da cana, eucalipto, capim elefante e outros insumos em diferentes rotas de conversão da biomassa em biocombustível. Todavia, com o fim da crise internacional do petróleo na década de 1980, diminuíram os estímulos ao desenvolvimento das tecnologias de produção do etanol de segunda geração, que só seriam retomadas anos mais tarde.

Em 1987, foi assinado no Brasil o primeiro contrato de venda da energia elétrica de cogeração excedente de uma usina do setor (Usina São Francisco, em Sertãozinho/SP), para a Companhia Paulista de Força e Luz (CPFL). A cogeração de energia (por meio do aproveitamento de bagaço, palha e folhas da cana-de-açúcar) possibilitou a comercialização de bioeletricidade.

No Estado de São Paulo, o Centro de Tecnologia Copersucar (que se tornaria Centro de Tecnologia Canavieira, conservando a sigla CTC) teve importante papel no desenvolvimento de tecnologias para o aprimoramento da produção de cana-de-açúcar e seus derivados. As principais motivações das inovações eram estratégicas e econômicas. Teve papel importante a ação governamental por meio do IAA na condução do Programa Nacional de Melhoramento da Cana-de-Açúcar (Planalsucar).

No balanço do Programa em termos sociais, figuraram como momentos críticos os episódios de greve dos trabalhadores no corte da cana-de-açúcar, com repercussão nos meios de comunicação e em trabalhos acadêmicos. Dessas greves resultaram negociações e algumas mudanças em relação ao estado anterior, mas de intensidade bem menor do que a desejada pelos cortadores de cana. Tais episódios atuaram como sinais da instabilidade das relações de classes no setor, resultando em estímulos à mecanização e confrontando a realidade a preceitos de sustentabilidade que ganhariam força no período subsequente.

De acordo com Waak e Neves (1998), embora o Proálcool tenha gerado resultados econômicos e sociais expressivos, “por fundamentar-se em situação circunstancial da crise do petróleo, não adquiriu a devida sustentabilidade” (WAAK; NEVES, 1998, p. 21). Ademais, note-se que “já na década de 1970, por ocasião da implantação do Programa Nacional do Álcool (Proálcool), dizia-se que a expansão da cana-de-açúcar poderia destruir o meio ambiente e intensificar a fome no País” (SZWARC, 2007).