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5. ENERGIA NO BRASIL: APROXIMANDO A GERAÇÃO NUCLEAR

5.2 O P ROGRAMA N UCLEAR B RASILEIRO

5.2.1 O Programa Nuclear Paralelo

A insatisfação com as políticas neocolonialistas presentes no programa nuclear brasileiro aliado ao desejo de melhorar a tecnologia alemã de enriquecimento de urânio, sobretudo limitada pelas salvaguardas internacionais, fez com que em 1979 o Brasil desse início a um programa nuclear militar, também conhecido como Programa Nuclear Paralelo (Jesus, 2012a). Segundo o autor, um dos objetivos centrais do programa paralelo era substituir as importações pelo desenvolvimento de instalações no próprio país, em escala semi-industrial, visando ao domínio tecnológico. De acordo com Oliveira (1998, p.8), o programa foi “[...]

conduzido secretamente pelas Forças Armadas e evoluiu com destacado sucesso no domínio da tecnologia do urânio enriquecido e de outros desdobramentos [...]”. Apesar dos defensáveis esforços em prol da nacionalização da tecnologia e a consequente descolonização do setor, é preciso atenção ao viés nacionalista. Grosfoguel (2008, p.137), alerta para a reprodução da imposição colonial eurocêntrica por meio do nacionalismo, que “[...] reproduz uma colonialidade interna de poder dentro de cada Estado nação e reifica o Estado-nação enquanto lugar privilegiado de mudança social.” Nesses termos, o rompimento radical, por meio do nacionalismo exacerbado apenas reproduz a lógica eurocêntrica, ao passo que a transmodernidade, sem perder o referencial do lócus de enunciação, permite o estabelecimento de diálogos, sobretudo pelo caráter “trans”.

Dois lados de um mesmo fenômeno podem ser vistos nesse desenvolvimento paralelo. O primeiro deles, refere-se aos propósitos centrais desse programa. É bastante disseminada a ideia de que o programa nuclear paralelo tenha surgido com o único objetivo de produzir combustível nuclear, por meio do enriquecimento de urânio nacionalmente, destinado à propulsão do submarino nuclear, a ser construído no Brasil. O fenômeno, por si só, ajuda a ilustrar a tese que defendo, de que o processo de proteção social em territórios historicamente subalternizados e sub-socializados ocorra de forma difusa e não necessariamente estruturada, por meio de estratégias sociais que emanam de múltiplos atores, inclusive ambivalentes e hegemônicos. É peculiar ressaltar que a aparente ação de proteção da sociedade brasileira, também estivesse mobilizando esforços secretamente em prol do desenvolvimento de armamento bélico nuclear. Nesses termos, a construção de uma usina geradora de energia funcionaria como uma interessante maneira de moldar o ambiente, convencendo a opinião pública, por meio de soft power (Nie, 2004; Barley, 2010). As narrativas desenvolvidas pelos entrevistados 3 e 4 ilustram as afirmações:

“É uma questão, é, eu acho que houve mudanças no cenário da geopolítica

extremamente significativos, agora, não resta dúvidas que a suas construções atenderam a interesses bélicos, sabe. Você tem uma França, que não tem recursos hídricos, ela é extremamente dependente das usinas nucleares pra sua produção e a Alemanha hoje, que abre mão das usinas nucleares, compra energia nuclear da França. E acho que as barreiras pra produção de energia deveriam ser derrubadas para que ninguém tivesse obrigado, na falta de recursos, ser obrigado a empregar uma tecnologia tão suja. Na década de 70, que você tinha ainda uma, apesar do milagre econômico, o período de crescimento, mas era injustificada a construção das usinas para a questão energética. E a, e a própria forma como ela foi construída, em relação a tanto segredo e tanta imposição, confirma a, a, o que eu tô dizendo aqui, aos interesses que eram extremamente escusos à sociedade. Eram interesses bélicos, era enriquecimento de urânio, era obtenção de carga pra obtenção da construção de bombas nucleares. E parece que hoje as coisas não são muito diferentes, quer dizer,

mudou a geopolítica, redemocratização, mas existe ainda muita fumaça entre as

atividades nucleares e os interesses sociais”. (Entrevistado 3).

“[...] o motivo não é nobre né! O motivo para construção das usinas

nucleares não é nobre! Não foi feita pra gerar energia. Ela teve muito mais uma disputa belicista do que pensamento de país, né! É lógico que teve mudanças, mas assim, a origem de, vários departamentos técnicos e científicos, que há uma dívida

sobre as informações que paira sobre as indústrias nucleares brasileiras”. (Entrevistado 4).

Mesmo sob a Constituição Federal de 1988, que prevê o exclusivo uso de tecnologia nuclear para fins pacíficos, “[...] o Ministério da Aeronáutica edificou, no Campo de Provas Militares da Serra do Cachimbo (PA), diversas perfurações subterrâneas, uma delas com 320 metros de profundidade por um metro de diâmetro [...]” (Oliveira, 1998, p.8), destinadas a testes de artefatos bélicos nucleares. As construções foram desenvolvidas e mantidas sob caráter de sigilo de Estado, sugerindo que as ações secretas fossem ocultadas por uma sofisticada estrutura de Estratégias Sociais, mobilizadas a partir da produção de energia elétrica, moldando a opinião pública, por meio de soft power (Nie, 2004; Barley, 2010). O quadro de ilustra, ao menos três importantes questões: (i) o resgate à teorização de Fligstein (1996; 2001), que desafia a concepção de mercados sob a égide econômica, sugerindo que os mesmos sejam concebidos a partir de forças sociopolíticas (eu diria ainda que sócio-geo-políticas); (ii) ilustra que o setor nuclear, em termos globais, sobretudo no norte, dependa intensamente da produção de bens e tecnologias do tipo dual, como forma de moldar a percepção social ao seu favor (Barley, 2010; Techsystems et al., 2013; Fleming & Spicer, 2014); (iii) é possível ainda sugerir que diversos outros setores, sobretudo sensíveis, a exemplo da indústria química, façam uso de Estratégias Sociais com o intuito de moldar seus respectivos ambientes institucionais, especialmente após a deflagração da guerra ao terror, no pós 11 de setembro estadunidense.

No dia 18 de setembro de 1990, o ex-presidente da república Fernando Collor de Mello, alinhado ao liberalismo hegemônico ocidental, fechou simbolicamente uma das perfurações destinadas aos testes de armamentos nucleares, sugerindo com isso, o encerramento do programa nuclear paralelo e o cumprimento da legislação constitucional (figura 12). Possivelmente a ação fora resultante de inúmeras pressões, sob a forma de estratégias sociais, contra movimentadas a partir do centro global, não apenas por Estados hegemônicos, mas também pelas sociedades de centro, sob formas de mobilizações organizadas, como o Greenpeace, assegurando a manutenção da diferença colonial. Em virtude das pressões internacionais, impostas por organismos legitimamente institucionalizados como a IAEA e o

Conselho de Segurança da ONU, além do próprio alinhamento das políticas energéticas nacionais, o Brasil tem trilhado um caminho tecnológico nuclear pacífico, embora as Forças Armadas ainda mantenham forte influência no Programa Nuclear Brasileiro, sobretudo pelo histórico de contribuições tecnológicas.

Figura 12. Fechamento simbólico da perfuração de testes nucleares

Fonte: Andrade, A. M. R. de. (2006). A Opção Nuclear: 50 Anos Rumo à Autonomia. Rio de Janeiro: MAST. P.161.

O segundo lado do desenvolvimento nuclear paralelo concentra-se justamente nas contribuições desenvolvidas pelo programa, que abriu um amplo caminho tecnológico no país (Oliveira, 1998). O entrevistado 15 destaca a relevância e o mérito alcançado pelo desenvolvimento:

“Então hoje nós temos, usina, tecnologia e urânio. Só três países têm isso.

Só três, no mundo (Estados Unidos, Rússia e Brasil)! O resto tem uma coisa ou tem a outra. A França tem usina, tem tecnologia mas não tem urânio nenhum. Zero! Aliás, a França em combustível é um fracasso, não tem é nada né! [...]Então tem que

comprar! Tem que comprar, não tem jeito”.

Entretanto, o domínio do ciclo combustível de urânio, pela falta de políticas públicas de Estado (e não de governo), no que tange à geração de energia nucleoelétrica, permanece em níveis acadêmicos e semi-industriais, não alcançando escala que traga vantagens reais ao país. O entrevistado 20 elucida:

“[...] isso é uma vantagem que a gente desperdiça. A gente investiu no

domínio tecnológico do ciclo e não conseguiu produzir em escala industrial, por que você não se sustenta, pra você fazer, a INB, você tem que começar explorando o concentrado, pra gerar recurso, a partir daí você gera recurso pra poder investir na etapa seguinte. Porque você tem o domínio tecnológico, mas o que que adianta você ter o domínio tecnológico? Você não usa em escala industrial, o domínio tecnológico

vira um, só pra dizer que, vira um motivo só de vaidade: ‘não, eu tenho o domínio tecnológico’, e daí!”.

Ainda assim, naturalmente esse domínio tecnológico é visto com desconfiança por nações hegemônicas (em especial pelos membros do Conselho de Segurança da ONU) e por pares do Sul (especialmente pela Argentina), conforme destaca o entrevistado 14, ao mencionar que “[...] com certeza nenhum país desses hegemônicos, tem interesse num programa que seja totalmente independente, autônomo e que possa, vamos dizer, é de repente, ter condições tecnológicas para descambar para uma área, vamos dizer, bélica.”. Apesar da declaração constitucional de uso exclusivo de energia nuclear para fins pacíficos, a quase autonomia do programa brasileiro estimula forte vigilância por parte de organismos internacionais, como o caso da IAEA, que sob a alegação de impedir a proliferação de armamentos nucleares, esconde intenções de descobrir segredos tecnológicos do modelo de enriquecimento brasileiro, único no mundo, como forma de manutenção do atual estado das coisas, onde nações poderosas, sobretudo Estados Unidos, detêm maior dominância tecnológica. A narrativa do entrevistado

15 demonstra que, além da forte tentativa de desapropriação tecnológica pela hegemonia sobre a ‘periferia’, legitimada por organismos internacionais, sob artifícios de soft power, há também extremo uso de hard power (Nie, 2004) pela hegemonia sobre nações invisibilizadas pela globalização neoliberal, por meio de guerras por energia (Harvey, 2013a).

“Enquanto isso a Marinha desenvolveu seu projeto paralelo, e conseguiu

criar uma tecnologia autóctone, própria, né, de enriquecimento de urânio. É uma tecnologia dela, desenvolvida no Brasil, não tem igual no mundo. Com uma especificação muito boa. No mundo todo, enriquecimento de urânio gasta muita energia, no Brasil gasta pouquíssima. Essa é a diferença que todos os estrangeiros dos outros países querem. Eles querem saber como fazemos. Mas a gente não conta, porque isso é segredo industrial. Aí eles ficam fazendo uma pressão louca, de não proliferação, disso e daquilo. Não é nada disso. A pressão que eles fazem é que eles querem saber como é que a gente faz. É só isso! E a gente não conta! Esse é o pulo do gato! Para você ter uma ideia, na França, a usina de Tricastin, né, de enriquecimento, tem três reatores nucleares funcionando do lado dela só para fazer combustível. Tricastin, só faz energia para a fábrica de combustível das usinas da França. E a França não pode se dar ao luxo de não ter combustível, porque oitenta, de setenta, mais de setenta por cento da energia da França é nuclear, e lembre-se de que ela não tem urânio. Então ela minera urânio na África. É, Mali, e outras guerrinhas que você encontrar, serão fomentadas por isso. Não se iluda, nenhuma

outra guerra, é por outra coisa que não seja combustível.”

O desenvolvimento nuclear brasileiro também impõe uma vigilância de pares. O caso mais notório, refere-se à vizinha Argentina, que desde 1980, mantém acordos bilaterais com o Brasil visando à cooperação e especialmente o controle de materiais nucleares59. A relação fomentou a criação da ABACC (Agência Brasileiro-Argentina de Contabilidade e Controle de Materiais Nucleares) em 1991, impondo ao Brasil um modelo de dupla vigilância internacional (pela IAEA e pela ABACC), no que se refere ao controle nuclear, assegurando o cumprimento da Constituição Federal de 1988, os tratados de não proliferação e uma espécie de colonialidade horizontal (quase interna), que reproduz o modelo eurocêntrico de dominância, no entanto é exercida entre pares, de modo que o subalterno se ocupe de vigiar o subalterno, alusivo a uma espécie de dupla vigilância panóptica (Foucault, 1987).

59“Uma das primeiras iniciativas data de 1980: a assinatura do Acordo de Cooperação para o Desenvolvimento