III Caracterização do Senac SP e o Programa Redes Sociais
2. Programa Redes Sociais
O Senac - SP tem como objetivo tornar-se referência como uma organização
16Sistema S é o nome pelo qual ficou conhecido o conjunto de onze instituições que, conforme instituido pela
União e estabelecido pela Constituição brasileira, são consideradas contribuições de interesse de categorias profissionais. As receitas arrecadadas pelas contribuições ao Sistema S são repassadas a entidades, na maior parte de direito privado, que devem aplicá-las conforme previsto na respectiva lei de instituição. Em geral, as contribuições incidem sobre a folha de salários das empresas pertencentes à categoria correspondente sendo descontadas regularmente e repassadas às entidades de modo a financiar atividades que visem ao
aperfeiçoamento profissional (educação) e à melhoria do bem estar social dos trabalhadores (saúde e lazer). As entidades em questão são as seguintes: INCRA - Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária; SENAI - Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial; SESI - Serviço Social da Indústria; SENAC - Serviço Nacional de Aprendizagem do Comércio; SESC - Serviço Social do Comércio; DPC - Diretoria de Portos e Costas do Ministério da Marinha; SEBRAE - Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas; Fundo Aeroviário - Fundo Vinculado ao Ministério da Aeronáutica; SENAR - Serviço Nacional de Aprendizagem Rural; SEST - Serviço Social de Transporte; SENAT - Serviço Nacional de Aprendizagem do Transporte; SESCOOP - Serviço Nacional de Aprendizagem do Cooperativismo. Uma vez que a maioria das instituições tem sua sigla iniciada pela letra "S" compreende-se o motivo do nome do Sistema S. Fonte: "http://pt.wikipedia.org/wiki/Sistema_S"
do terceiro setor17 através de ações inovadoras e sua missão é “proporcionar o desenvolvimento de pessoas e organizações para a sociedade do conhecimento, por meio de ações educacionais comprometidas com a responsabilidade social”.
Como visto anteriormente, na década de 1990, o trabalho social desenvolvido pelo Senac ganhou nova configuração com o fortalecimento do Terceiro Setor.
A partir desse momento, a instituição redirecionou seu foco no sentido de promover o fortalecimento das organizações não-governamentais, mais precisamente as de base comunitária, por meio da capacitação, integração e mobilização.
Influenciado pelo novo modelo de gestão em rede, proposto pela globalização contemporânea, o Senac passou a concentrar recursos no desenvolvimento de lideranças, gestores e educadores de organizações sociais, que estão hoje articuladas com a instituição, através do Programa Redes Sociais.
O Senac entende rede social como um “sistema capaz de reunir e organizar pessoas e instituições de forma igualitária e democrática, a fim de construir novos compromissos que beneficiem a vida das comunidades”.
Para Claudio Silva, a rede pode trazer “melhoria das condições econômicas
de uma comunidade solidária e de arranjos produtivos locais que permitam que a cidade ou a região ou o bairro cresçam e abram espaço para emprego das pessoas que moram naquela região (...) o Senac tem como objetivo a proposta desenvolvimento de pessoas e organizações e o desenvolvimento só se da quando existe o desenvolvimento da sociedade daquela comunidade. Desenvolver a sociedade para que ela possa crescer de forma planejada, consciente e madura e isso implica na participação das pessoas e instituições nas discussões dos seus problemas. Essa idéia levou-nos a criar um projeto, uma proposta que é desenvolver redes sociais”.
O Senac São Paulo desenvolve o Programa Rede Social desde 1997 a atua em diversos municípios do Estado.
A missão do Programa Rede Social do Senac é “mobilizar, capacitar e fortalecer as organizações sociais para implementar ações em rede que visam à melhoria da qualidade de vida de suas comunidades e contribuem para o
17 Para o Senac SP, o Primeiro Setor é o Estados, que administra verbas públicas com finalidades públicas, o Segundo Setor é o mercado, que administra verbas privadas com finalidades privadas e o Terceiro Setor são as instituições que administram verbas privadas com finalidade pública, como é o caso do Senac e da maioria das ONGs. Fonte: Material Formatos Brasil – Formação de Atores Sociais, Senac SP, 2004.
desenvolvimento local”.
Para Claudio Silva, gerente de desenvolvimento do Senac SP, este programa
“tem um papel bastante importante (...) que é de criar pontos de inclusão (...) e pontes que permitam que as pessoas cruzem e passem para a parte da sociedade incluída” .
A instituição propõe uma metodologia de trabalho em rede, que tem como objetivo articular pessoas e organizações para propor soluções aos problemas sociais das localidades de forma a otimizar recursos, conjugar esforços e favorecer o intercâmbio de experiências para o crescimento comum.
O Programa Redes Sociais é também um trabalho educativo, no sentido de orientar as pessoas e organizações a atuarem de forma participativa e coletiva para a melhoria de suas comunidades. Para Cláudio Silva “a educação profissional não
se faz só de formação de pessoas ou de técnicos, ela vai muito além e permite que a gente pense numa formação ou num trabalho que desenvolva comunidades também, nesse sentido eu amplio as possibilidades que eu tenho em uma determinada comunidade para o emprego. Se eu tenho uma melhor organização social, as pessoas se juntam para estabelecer um plano diretor da cidade e certamente fazer um plano diretor para crescimento econômico para desenvolvimento econômico dentro da cidade”.
Atualmente no Senac SP são cerca de 700 organizações trabalhando em rede e mais de 70 projetos em andamento nas seguintes localidades do interior de São Paulo: Águas de São Pedro, Araçatuba, Araraquara, Barretos, Bauru, Botucatu, Campos do Jordão, Carapicuíba, Catanduva, Guaratinguetá, Guarulhos, Itirapina, Jaboticabal, Jaú, Jundiaí, Limeira, Marília, Miguelópolis, Osasco, Piracicaba, Presidente Prudente, Rio Claro, Rio Preto, Santos, São Carlos, São João da Boa Vista, São José dos Campos, Sorocaba, Taubaté e Votuporanga e nos seguintes bairros da capital: Bela Vista, Campo Grande, Jabaquara, Itaquera, Lapa, Penha e Vila Prudente.
Em cada uma das localidades onde o Programa está sendo implementado, o Senac investe em um colaborador para articular e mediar a Rede Social. Dentre suas atribuições, este colaborador que é chamado de mediador, deve inicialmente identificar através de pesquisa de campo, os atores sociais da localidade.
Após o diagnóstico inicial, o mediador convida esses atores sociais, que são em geral as lideranças comunitárias, representantes de organizações sociais, de
poder público e moradores representativos da localidade, para um primeiro encontro, onde é feita a proposta de atuação em rede.
Aceita a proposta, os encontros tornam-se periódicos e o mediador incentiva o grupo a identificar objetivos comuns, de forma a estabelecer compromissos, responsabilidades e projetos comuns. O mediador deve assessorar na implementação desses projetos que visam a melhoria da qualidade de vida da comunidade envolvida.
Para Cecília Tavares, técnica de desenvolvimento do Senac SP, “o papel da
instituição é o da mediação e de organizar esse processo de forma democrática para garantir a participação igualitária dos componentes (o Senac) também anima os encontros e faz registros dos principais pontos debatidos e dos novos compromissos que o grupo assume, influencia para a participação cooperativa e descentralizada (...) anima pessoas para que esses novos compromissos se transformem em projetos e cria veículos de comunicação eficientes que mantenham as pessoas informadas e conectadas”.
O Senac utiliza uma metodologia para a formação e a articulação das Redes Sociais, que é uma orientação bastante flexível, uma vez que a participação no processo de formação de redes sociais deve ser livre, portanto a metodologia não pode enrijecer o processo.
O primeiro passo para a formação de uma rede social é realizar um encontro para a criação de um espaço comum. O objetivo neste momento é a formação de elos entre os componentes.
Um segundo momento é o de identificação e conhecimento mútuo, onde os participantes se apresentam e se reconhecem como atores sociais da mesma localidade. Um fato curioso é que se percebe sempre um desconhecimento do trabalho do outro, a falta de conexão entre trabalhos similares numa mesma localidade fica bastante nítida e com isso evidencia-se a necessidade de um trabalho mais integrado entre as pessoas e instituições.
Outra etapa diz respeito à proposição e estabelecimento das visões de mundo dos componentes para efetuação de propostas comuns. Ou seja, depois de se conhecerem e identificarem o trabalho dos outros membros da rede é necessário diagnosticar se o grupo compartilha da mesma visão, dos mesmos objetivos. Mesmo que executem trabalhos com temáticas diversificadas, é preciso que o grupo compartilhe um mesmo objetivo amplo, como o desenvolvimento social da região
onde atuam, por exemplo.
Um quarto passo para formação da rede social é a composição e estabelecimento de parcerias e é neste momento que o grupo começa o processo de troca, que pode ser de informação, serviços ou objetos, por exemplo.
O quinto passo é a definição e execução de um projeto ou ação comum. Após o grupo se conhecer, se conectar, compartilhar uma visão comum e realizar trocas, os projetos surgem naturalmente com as demandas do grupo. Dessa forma eles se organizam para o início de uma experiência participativa, que é a realização de um projeto comum.
Esses passos não precisam seguir uma ordem rígida, apenas precisam acontecer, uma vez que cada rede tem o seu perfil e a sua dinâmica.
A participação na rede é livre, gratuita e aberta a todos os interessados e o Senac acredita que as redes sociais são ambientes democráticos, que prezam as relações horizontais e igualitárias e acredita que as soluções e alternativas para os problemas sociais devem ser construídas em conjunto.
Embora o Senac seja o fomentador dessas redes sociais, é sempre preciso tomar cuidado com a questão da horizontalidade na rede. Como afirma Cecília Tavares, "Pela expertise e pelo nome que o Senac tem no mercado (...) tem um
peso significativo nas decisões e proposição de projetos”.
Como o Senac tem um peso grande dentre as instituições do terceiro setor, muitas vezes percebemos uma acomodação dos seus participantes, que esperam o Senac trazer idéias e soluções.
Com o passar do tempo, e aí o papel do mediador é essencial, é preciso mostrar aos participantes a importância da participação, da co-responsabilidade e da autonomia. E isto não é simples de assimilar, devido ao histórico social já comentado anteriormente, que incentiva o assistencialismo, o clientelismo e a burocratização.
Mas é função do mediador e de todos incentivar transformações não só comunitárias, mas de mudanças de paradigmas individuais.
Para Claudio Silva, os resultados do Programa Redes Sociais tem sido valiosos, em suas palavras: “tudo o que eu tenho lido, acompanhando os relatórios
que me vem das redes, acompanhando o site, tudo o que está acontecendo e acontece e aconteceu dentro das redes, eu percebo como um trabalho que tem uma qualidade um desenvolvimento, uma característica marcante que é o da autonomia, que eu acho muito importante, a preocupação constante de que o Senac não é o
dono da rede, nem é o coordenador e nem é aquele que vai sustentar a rede eternamente e a saída da instituição em algum momento não deve implicar em um encerramento da atividade, é claro que em uma rede que se inicia ela necessita de mais presença e mais apoio institucional, como uma criança que precisa de alguém que possa ajudá-la a alimentá-la, mas a medida em que essa rede avança e ganha maturidade elas passam a se auto gerir e as pessoas passam a entender desse processo dessa discussão e dessa construção concertada. Então o grande mérito da metodologia é fazer com que as pessoas entendam compreendam e aprendam a trabalhar dessa forma ““.