CAPÍTULO 02 – O programa “Brasil urgente: Lula presidente”
2.8 Um programa reformista forte
O ano de 1989 pode ser considerado o “ano do PT”. Aquele no qual o partido reuniu as condições objetivas para o seu amadurecimento organizativo e teórico. Não que alcançasse sua plenitude nas
duas direções: conseguiu ser testado positivamente em ambas. (FERNANDES, 1990: 02)
O “ano do PT”, 1989, de acordo com Florestan Fernandes, destaca um contexto no qual o partido se projetou nacionalmente no cenário eleitoral. Nesse cenário também foi testado no que se refere ao seu amadurecimento organizativo e teórico. Ao apresentar ao país um programa de governo construído de forma democrática e popular com a participação dos núcleos de base e, com esse programa, disputar o segundo turno eleitoral, o Partido dos Trabalhadores cravou sua marca na história republicana brasileira.
Desde sua fundação no Colégio Sion, em 1980, na cidade de São Paulo, o PT apresentava substantivas propostas de mudança na realidade brasileira (vide documentos de fundação do partido). Entretanto, a expressão “reforma” não é, por si só, suficiente para compreender o que o programa do partido apresentou em 1989. É preciso, pois, qualificar o tipo de reforma proposta.
A plataforma de governo apresentada pelo PT em 1989 previa, entre outras medidas: - tributação do patrimônio das grandes fortunas;
- colocar a dívida externa sub judice;
- garantia do trabalho agrícola por meio da distribuição de terras; - diminuição da jornada de trabalho sem corte salarial;
- revisão das privatizações e adoção de um Programa de Garantia de Renda Mínima Esse conjunto de políticas foi definido por André Singer (2012) como “forte reformismo social”:
Devido ao retardo secular do Brasil, havia a expectativa de que um presidente eleito por um partido de orientação socialista tomasse medidas para provocar rápida contração do fosso social, mesmo que ao preço de haver confronto político. Tratar-se ia da adoção do que poderíamos chamar de “reformismo forte”: “intensa redistribuição de renda num país obscenamente desigual”, nas palavras de Francisco de Oliveira. (SINGER, 2012: 186)
Em consonância com os documentos originais do partido, o PT defendeu uma “radicalização da democracia”. Conclamou os trabalhadores a ocuparem um lugar central nas atividades do governo e propugnou uma mudança no papel de Estado orientada pela intenção do partido de consolidar uma cultura política participativa.
Lula, onze anos após aparecer nas greves do ABC, lançava sua candidatura “sem pedir licença”, conforme noticiou a Revista Veja (1989). Foi qualificado por aquela publicação como o “primeiro cidadão brasileiro que saiu daquela fatia da geografia do país onde residem
os milhões de deserdados que formam a maioria da população para concorrer ao cargo máximo da República.” (REVISTA VEJA, 1989: 34). Mais do que isso, surpreendeu nas pesquisas. Conforme destacou Wladimir Pomar, “ao contrário de todas as descrenças, o operário venceu inimigos e aliados bons de voto e mostrou que era irreal o sonho de vê-lo abatido desde o início” (POMAR, 2009: 11).
Em uma campanha protagonizada pelo empresário das comunicações Fernando Collor de Mello (PRN), por quatro engenheiros, Leonel Brizola (PDT), Mário Covas (PSDB), Paulo Maluf (PDS) e Aureliano Chaves (PFL), por vários outros políticos de carreira e bacharéis, além do médico Ronaldo Caiado (PSD), as propostas altamente reformistas do Partido dos Trabalhadores, apesar do desempenho político do candidato Lula, alcançaram um grau de rejeição de 29% no início de novembro de 1989.
Gráfico: Intenção de voto presidente – rejeição (em %)
Fonte: Datafolha (03/11/1989). Disponível em: <http://datafolha.folha.uol.com.br/po/ver_po.php?session=103>.
Ainda, acompanhando a pesquisa sobre intenção de votos, no gráfico Evolução de
intenção e voto para presidente da República, é possível perceber que Lula iniciou a disputa
eleitoral no terceiro lugar, com uma diferença de 1% em relação ao segundo colocado, Leonel Brizola (PDT) e com 2% de diferença do primeiro colocado, Fernando Collor (PRN). A seguir, passou por um período de declínio entre os meses de junho a setembro, com intenções de voto na média de 7%. Contudo, a partir do mês de outubro, o candidato petista cresceu nas
pesquisas, ultrapassou Leonel Brizola nos três primeiros dias de novembro, e chegou a ocupar em 14 de novembro de 1989 o segundo lugar na intenção de votos, com o percentual de 15%, Collor manteve-se em primeiro, com 26% das intenções de votos.
Gráfico: Evolução de intenção e voto para presidente da República (em %)
Fonte: Datafolha (14/11/1989). Disponível em <http://datafolha.folha.uol.com.br/po/ver_po.php?session=100>. O primeiro turno presidencial chegou ao fim com dois projetos de governo distintos entre si. À pergunta “Por que o senhor acha que vai vencer o segundo turno?”, feita pela
Revista Veja e publicada em 29 de novembro de 1989, dezoito dias antes do segundo turno
eleitoral, Collor respondeu que:
É simples. Meu programa de governo está mais adequado à realidade brasileira. É um programa que tem a cara do candidato, um social- democrata. As propostas que fazemos são mais consistentes anos-luz à frente do que prega o PT. Meu programa não foi elaborado com a importação de idéias falidas. O crescimento econômico, por exemplo, estará sempre atrelado à justiça social e ao bem-estar. (REVISTA VEJA, 1989: 04)
O que me dá a certeza de que vamos vencer é o fato de que pela primeira vez vai haver um debate de verdade no país, entre capital e trabalho, entre os que comem e os que não comem, entre os despossuídos e os que possuem muito. Vamos mostrar que é possível criar uma sociedade onde todos possam ter o mínimo para viver. (REVISTA VEJA, 1989: 05)
As respostas dos candidatos relacionam-se com o que Norberto Bobbio compreende por direita e esquerda. De acordo com Bobbio, políticos identificados como de direita, consideram as desigualdades naturais e, portanto, não elimináveis. Assim, a “direita está mais disposta a aceitar aquilo que é natural, ou seja, o habitual, a tradição, a força do passado.” (BOBBIO, 2001: 121). Nesse sentido, embora Collor ressaltasse que seu programa era “o mais adequando à sociedade brasileira”, sendo “social-democrata” e capaz de promover a “justiça social”, pode-se inferir o contrário. Collor apresentava, nos meios de comunicação, propostas79 típicas das direitas, orientadas, conforme destaca Bobbio, pela compreensão de que as desigualdades entre os homens não podem ser eliminadas. Identificando a si e a seu programa como “novos” e “modernos”, ressaltava que o PT apresentava um programa com ideias falidas – referindo-se à crise do socialismo80 – e destacava que o programa de governo do PT de 1989 havia sido elaborado com a “importação de idéias falidas”.
Já Lula, ao salientar que “pela primeira vez haveria um debate de verdade no país, entre capital e trabalho”, demonstrou a linha reformista de suas propostas. Nos cadernos do programa, o PT apresentou suas propostas orientadas pela dicotomia “capital/trabalho”, “possuídos/despossuídos”. Além disso, quando afirmou que “vamos mostrar que é possível criar uma sociedade onde todos possam ter o mínimo para viver”, explicitava uma compreensão que é própria das esquerdas, qual seja, a de não compreender e nem aceitar as desigualdades como naturais e, portanto não passíveis de mudanças. (BOBBIO: 2001)
O PT de 1989 compreendia que as desigualdades não poderiam ser identificadas como parte de uma paisagem natural e caso não pudessem ser extirpadas, deveriam ao menos ser minimizadas. Com propostas que tratavam de fornecer diretrizes para a diminuição das desigualdades no Brasil, o PT essencialmente apresentou um ousado programa de reformas. O que diferenciava o programa do PT das propostas de Collor de Mello é o reconhecimento explícito da desigualdade e o compromisso em combatê-la.
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O acesso às propostas do candidato Fernando Collor se deu exclusivamente pelos meios de comunicação, notadamente , o programa veiculado durante o horário eleitoral gratuito, que se encontra disponível na biblioteca do Tribunal Superior Eleitoral e suas entrevistas à Revista Veja ao longo do ano de 1989 e que se encontram integralmente disponíveis na seção Acervo do sítio <http://veja.abril.com.br/acervodigital/home.aspx>.
80
Em 1985, Mikhail Gorbatchev, à frente da União Soviética, implementou projeto de reestruturação econômica e transparência política, a perestroika e a glasnost. Entretanto, esses projetos não foram capazes de conter a crise soviética que se espalhou pelos países do bloco socialista.
O programa de governo de 1989 dedicou partes específicas à economia e à questão agrária. As propostas para educação e trabalho, ao contrário, estavam inseridas em cadernos que também tratavam de outras temáticas, não havendo um fascículo exclusivo para essas questões.
Essas propostas analisadas evidenciaram um partido que se contrapunha explicitamente ao capital e à economia de base capitalista. Em 1989, portanto, a orientação do PT era bastante radical, sendo definida por André Singer (2012) como “reformismo forte”, coadunava-se com a cultura política petista, com os documentos fundadores do partido e com a “alma do Sion”, expressiva dos ideais petistas na origem do partido. Eram propostas direcionadas para os trabalhadores em sentido amplo. O PT apresentou, em 1989, um programa de governo fortemente vinculado à figura de Lula, brasileiro, nordestino, retirante e saído dos meios sindicais, sem mencionar a autoria das propostas, talvez porque representasse coletividade e porque quisesse aliar a imagem de Lula à imagem que representava o brasileiro “típico”. É possível destacar que os beneficiários diretos das propostas por Lula enunciadas eram aqueles que se encontravam em situação de miséria, pobreza e atingidos pelas desigualdades vivenciadas no país.
Assim, com um programa que explicitamente apresentou propostas a favor dos setores menos favorecidos e com um discurso eleitoral traduzido em uma linguagem simples, o PT chegou perto da vitória no segundo turno com 31.076.364 (44,23%) votos, enquanto Collor obteve 35.089.998 (49,94%) dos votos válidos, em uma diferença de apenas 4.013.634 (5,71%),pois
A onda democrática dos anos 1980 – época em que o reformismo forte se constituiu enquanto perspectiva da classe trabalhadora organizada no país – esbarrou no obstáculo […] a vasta fração subproletária, a metade mais pobre da população brasileira, que desejava (e deseja) integrar-se à ordem capitalista e nela prosperar, e não transformá-la de baixo para cima, até porque isso não está ao seu alcance. (SINGER, 2012: 196)
Originalmente um partido de esquerda, o PT em 1989 não mudou seus objetivos políticos e sociais e também não se furtou a apresentar um programa com fortes proposições de mudanças na realidade brasileira. Também fiel aos seus princípios socialistas, permaneceu alinhado às resoluções do seu 5º Encontro Nacional. O PT de 1989 explicitou que:
A ausência de democracia, do direito à livre organização dos trabalhadores é contraditória com o socialismo pelo qual lutamos. […] O PT rejeita a concepção burocrática de socialismo, a visão do partido único, por considerar incorreta a idéia de que cada classe social é representada por um único partido, e que outros partidos existentes na sociedade que emergirem
de uma revolução serão necessariamente partidos que representarão interesses de classes diferentes dos da classe trabalhadora. (PARTIDO DOS TRABALHADORES, 1998: 316-317)
Portanto, é possível afirmar que em 1989 a marca fundamental do PT era o radicalismo expresso pelo compromisso partidário com os mais pobres, com a diminuição de desigualdade e com enfrentamento ao capital. O programa do PT tratava de um forte reformismo, permeado pela perspectiva de construção do socialismo no Brasil.