• Nenhum resultado encontrado

CAPÍTULO II AS POLÍTICAS DE SAÚDE E A EDUCAÇÃO EM

2.4 O Programa de Saúde da Família

Em 1991, o Programa de Agentes Comunitários de Saúde (PACS) surgiu com a finalidade de facilitar a comunicação entre a população e a equipe de saúde, através da inserção de um agente de saúde na comunidade. Embora tal iniciativa tenha sido facilitadora, não foi suficiente para integralizar as ações entre serviço de saúde e comunidade (BRASIL, 1996c). A partir disso, verificou-se a necessidade da adoção de uma nova forma de se promover a saúde, oferecendo assistência integralizada, cuidando do indivíduo como um todo, inserido em uma comunidade socioeconômica e cultural, e, dessa forma, abandonando a medicina curativa para iniciar um novo modelo de medicina preventiva: o PSF.

O Programa de Saúde da Família surgiu a partir da implantação do PACS, sendo consolidado em 1995 com a proposta de integração de um conjunto de medidas de reorganização da atenção básica na perspectiva de se constituir uma das estratégias de reorientação do modelo de atenção à saúde da população no âmbito do SUS, pressupondo a reorganização da prática assistencial para responder a uma nova concepção de saúde não mais centrada somente na assistência à doença, mas na promoção da qualidade de vida (BRASIL, 1996c).

57 O Programa Saúde da Família representa tanto uma estratégia para reverter a forma atual de prestação de assistência à saúde como uma proposta de reorganização da atenção básica como eixo de reorientação do modelo assistencial, respondendo a uma nova concepção de saúde não mais centrada somente na assistência à doença mas, sobretudo, na promoção da qualidade de vida e intervenção nos fatores que a colocam em risco ¾ pela incorporação das ações programáticas de uma forma mais abrangente e do desenvolvimento de ações intersetoriais. Caracteriza-se pela sintonia com os princípios da universalidade, equidade da atenção e integralidade das ações. Estrutura-se, assim, na lógica básica de atenção à saúde, gerando novas práticas e afirmando a indissociabilidade entre os trabalhos clínicos e a promoção da saúde. (BRASIL, 2000, p. 316-319).

O PSF priorizou o estabelecimento de vínculo e troca de responsabilidade entre a população e a equipe de saúde, mudando o objeto de atenção, a forma de atuação e organização do serviço, com novas bases e critérios para a prática assistencial. A família passou a ser o foco a partir do ambiente onde vivia, considerando as relações intra e extra-familiares, permitindo que se conhecesse o processo saúde-doença de determinado local, com o objetivo de proporcionar intervenções de maior impacto e significação social.

É importante salientar que, embora receba a denominação de “programa”, o PSF possui especificidades diferenciadas dos demais implantados pelo Ministério da Saúde, pois não possui uma intervenção vertical e paralela aos serviços de saúde. Trata-se de uma estratégia que integra e promove ações para um território definido, buscando o enfrentamento e resolução dos problemas diagnosticados e, desta forma, a partir de 2006, denominou-se de ESF (BRASIL, 1997d).

Para a implantação desse programa foram criadas as Unidades de Saúde da Família (USF):

Uma unidade pública de saúde destinada a realizar a atenção contínua nas especialidades básicas, com uma equipe multiprofissional habilitada para desenvolver as atividades de promoção, proteção e recuperação, características do nível primário de atenção. (BRASIL, 1997d, p.11).

A USF tornou-se uma porta de entrada para o sistema público de saúde local, instalados nos postos de saúde, centros de saúde ou unidades básicas já existentes no município, não havendo necessidade de criação de uma nova estrutura física para esse tipo de atendimento, exceto em locais que ainda não o tinham. Deveriam ter um

58 território definido de abrangência, com uma ou mais equipes de saúde atuantes, ficando sob sua responsabilidade o atendimento da população pertencente à delimitação das áreas. Recomendou-se que uma equipe de saúde ficasse responsável por uma determinada área, onde residissem de 600 a 1.000 famílias, com um limite máximo de 4.500 pessoas (BRASIL, 1997d).

A equipe mínima para atuar em uma USF deveria ser composta por um Médico, um Enfermeiro, um Auxiliar de Enfermagem ou Técnico de Enfermagem e um ACS. Os profissionais de saúde tinham que residir no município em que atuavam, trabalhar em regime integral de 40 horas, sendo responsáveis pelo atendimento da população pertencente à sua área de abrangência. Já o ACS deveria residir em sua área de atuação, garantindo o vínculo e a identidade sociocultural com as famílias que estavam sob sua responsabilidade. Outros profissionais poderiam fazer parte da equipe, dependendo da demanda e da estrutura organizacional do serviço de saúde (BRASIL, 2006c).

É importante ressaltar também que, dentro dessa proposta de reorganização da atenção básica, foi incorporada, além da consulta médica, a consulta de enfermagem e a visita domiciliar, que vem fortalecer o vínculo e facilitando o acesso da equipe de saúde ao contexto social em que o indivíduo está inserido, conhecendo a dinâmica do relacionamento familiar que possa interferir positiva ou negativamente no processo saúde-doença, assim como promovendo a incorporação desse novo paradigma (COSTA; SILVA, 2004).

Foram implantadas no Brasil, até o ano de 2003, 19.000 equipes de Saúde da Família, aumentando para 26.729 em atuação no ano de 2006, com uma cobertura populacional que passou, de 62,3 milhões de habitantes, para 85,7 milhões nos respectivos anos. De acordo com os últimos dados apresentados pelo Ministério da Saúde (MS), no ano de 2012 foram registradas 32.970 equipes implantadas (BRASIL, 2012a).

Diante da medida tomada pelo MS, exigindo a obrigatoriedade do enfermeiro na composição mínima da equipe de saúde para atuação em uma UFS e do aumento do número de equipes de saúde da família no Brasil, o mercado de trabalho para esse profissional foi se expandindo. Dentro do contexto, foram necessárias, também, reflexões para elaboração de novo currículo, com uma formação que moldasse o perfil profissional para atender a esse modelo de saúde.

Muitas tentativas de mudança foram implementadas desde a implantação do SUS, umas mais pontuais, outras mais abrangentes, emergidas das diversas discussões,

59 nas quais se chegou à conclusão que mudanças profundas seriam construídas e solidificadas se houvessem políticas públicas que operassem nesse sentido. Então, passou-se a reivindicar Políticas Públicas de Saúde e de Educação que favorecessem e apoiassem o processo de transformação que a sociedade sofria (FEUERWERKER, 2006).

Diante disso, através do governo federal, surgiu a Política Nacional de Educação Permanente – o Ver SUS, o Aprender SUS; o PROMED e o Programa de Reorientação da Formação Profissional em Saúde (PRÓ-SAÚDE).

O “Aprender SUS” foi lançado em 2004 e teve como proposta a ideia de integralidade como eixo estruturante, através da transformação das práticas profissionais, entendendo que o processo de trabalho e a forma de acolhimento se constituíam através de várias dimensões e necessidades das pessoas, tanto no âmbito individual quanto coletivo, rompendo com o modelo de saúde vigente.

Em 2005, o Ministério da Saúde lançou, em conjunto com o Ministério da Educação através do Instituto de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (INEP), o Pró-Saúde, um programa que visou incentivar a mudança na formação do profissional da área de saúde. A partir da experiência com o PROMED, a reorientação da formação direcionava o conhecimento para atenção básica, tendo a estratégia de saúde da família como sua principal manifestação. No entanto, o PROMED envolvia apenas os cursos de Medicina, enquanto que os do Pró-Saúde faziam parte os cursos de Enfermagem, Medicina e Odontologia, que já estavam inseridos oficialmente na ESF.

O Pró-Saúde foi instituído pela Portaria Interministerial n. 2.101, de 3 de novembro de 2005, com a finalidade de incentivar o processo de formação profissional, gerar conhecimento e prestar serviço de saúde, com uma abordagem integral no processo saúde-doença, no qual os Ministérios da Saúde e Educação reconheceram a necessidade da formação de um profissional com novo perfil, baseado nos princípios constitucionais (VELOSO, 2007).

A partir do Pró-Saúde surgiu o PET- Saúde (2010a), que tinha por objetivo:

[...] fomentar a formação de grupos de aprendizagem tutorial em áreas estratégicas para o Sistema Único de Saúde (SUS), caracterizando-se como instrumento para qualificação em serviço dos profissionais da saúde, bem como de iniciação ao trabalho e vivências dirigidos aos estudantes das graduações em saúde, de acordo com as necessidades do SUS. (BRASIL, 2010a).

60 Esse programa passou a disponibilizar bolsas para tutores, preceptores (profissionais do serviço) e estudantes, com ações direcionadas para o fortalecimento do SUS.

A reestruturação que estava sendo realizada para o cumprimento das Políticas de Saúde vigentes e o redirecionamento das Políticas de Educação Superior desencadearam discussões formais entre as profissões da área de saúde e as IES, na tentativa de reorientar a formação de profissionais para atendimento às novas diretrizes.

Destacamos nos movimentos de discussões das diretrizes curriculares nacionais, nos cursos da Área de Saúde, em sua maioria nos anos de 2001 e 2002, a ruptura do currículo mínimo obrigatório, contemplando uma nova grade curricular que atendesse o modelo de saúde vigente no país, o trabalho em equipe e a atenção integral à saúde.

Veloso (2008) lembra que, dentre os espaços de discussões e a construção coletiva das diretrizes curriculares, em 2004, foi criado o Fórum Nacional de Educação das Profissões na Área de Saúde (FNEPAS), que articulou as transformações das profissões na área. Os cursos que integram o FNEPAS são: medicina, enfermagem, odontologia, fisioterapia, psicologia, serviço social, fonoaudiologia e terapia ocupacional, a Rede Unida, a Associação Brasileira dos Hospitais Universitários e de Ensino e o GT de Recursos Humanos da Associação Brasileira de Pós-Graduação em Saúde Coletiva (ABRASCO).

O FNEPAS vem se comprometendo com a Educação Superior em Saúde no Brasil, com o objetivo de provocar mudança na graduação, através da concepção de integralidade na atenção e formação em saúde.

Com relação à participação dos Ministérios da Saúde e da Educação, Feuerwerker (2006, p. 79) afirma que:

Existe maior discussão dos movimentos de mudança com o Ministério da Saúde do que com o Ministério da Educação, já que o primeiro se mobiliza para apoiar e instigar as mudanças, e o segundo não têm a graduação e sua transformação como uma agenda estabelecida.

Feuerwerker (2006) enfatiza ainda que enquanto não entrar na agenda do MEC as questões relacionadas às mudanças na graduação e implementação das diretrizes curriculares na área de saúde, o potencial de mudança será limitado.

Diante disso, discutiremos sobre a história dos cursos de Enfermagem no Brasil e no estado de Mato Grosso, assim como os movimentos de Educação em Enfermagem

61 que ocorreram no decorrer desta história, contribuindo com a formação de um novo perfil profissional que atendesse as necessidades dos usuários do SUS e a Estratégia de Saúde da Família.