5.7 CARACTERIZAÇÃO DOS PARTICIPANTES
6.2.3 Programa Tempo Integral
Spica, técnica da SEMAS, rememorou a sua experiência profissional e destacou a descontinuidade por que passaram alguns Programas propulsores da escolarização
de crianças vindas das camadas sociais mais pobres da população, a exemplo do Projeto Brincarte, que teve origem na assistência social com ações centradas na família:
Vejo, assim, o Brincarte44 ele trabalha com a família e o Tempo Integral somente com as crianças. Então aquelas discussões que tínhamos lá no passado a respeito da educação, da creche ser depósito de criança, não ser uma educação infantil, eu remonto o Tempo Integral e o Brincarte. Tô sendo muito dura, tô sendo leviana talvez e vulgar, mas me dá esta sensação. Tem que dar conta de alguma coisa, então vamos criar e não é um processo contínuo, né? Eles desmantelaram os Brincarte que tinham uma inserção muito forte com os CRAS, especialmente no programa que a gente tinha que hoje é serviço de convivência e fortalecimento de vínculo para as famílias com crianças de 0 a 6, que a gente denomina de FAM, Família Multiplicadora, e hoje o Tempo Integral a gente não dá conta (Spica, técnica da SEMAS, em grupo focal realizado no dia 9/11/12).
Percebemos que a crítica feita ao Projeto Brincarte por Spica decorreu da mudança de enfoque, formato e configuração, portanto de gestão, uma vez que esse projeto que, antes, era ligado ao setor da assistência social, foi encampado, posteriormente, pelo setor da educação infantil.
Embora haja questionamentos de várias naturezas acerca dos programas de transferência de renda, que objetivam, entre outras prioridades, a permanência da criança na escola, o Relatório Vitória em Foco – PMV/ SEGES (2012, p. 91) define que a Educação Integral
[...] não se refere só à ideia de uma educação oferecida em um período maior que as quatro horas de ensino, atualmente ofertadas pela maioria das instituições escolares do pais. A palavra integral tem uma dupla função, não sendo apenas caracterizada como um período maior de permanência do aluno no ambiente escolar, mas também definida a partir da formação do aluno de uma forma integral, completa. O foco é trabalhar as múltiplas linguagens educacionais: artes plásticas, artes cênicas, musica, dança, literatura, brinquedos, brincadeiras e outros (VITÓRIA, 2012, p. 91).
Outra técnica da SEME, Algieba, abordou questões pertinentes ao Programa Tempo Integral:
[...] esse programa é uma das maiores provas de trabalho articulado, de políticas articuladas, porque ele se articula com a secretaria de esporte, meio ambiente, direitos humanos, saúde, enfim. E aí com relação à inclusão das crianças portadoras de necessidades especiais [colegas a corrigem:
44 “Os núcleos Brincartes são espaços voltados ao atendimento integral das crianças de quatro a seis
anos. Ali são realizadas ações socioeducativas, recreativas, esportivas e culturais complementares às atividades escolares desenvolvidas nos [...] CMEIs”. Os núcleos Brincartes estão localizados nos bairros de São Pedro, Goiabeiras, São Benedito, Resistência e Consolação. Estão ligados à Secretaria Municipal de Educação de Vitória. Disponível em: <http://www.vitoria.es.gov. br/seme.php?pagina=nucleosbrincarte>. Acesso em: 15 fev. 2014.
pessoas ou crianças com deficiência], [...]. A gente vem fazendo diálogo no programa porque no horário regular há essa garantia do atendimento e há toda uma estrutura que a Secretaria de Educação oferece, com estagiários, com profissionais especializados para fazer esse atendimento à criança e aí no contraturno é outra equipe de trabalho, mas que a gente vem dialogando também, da necessidade de se garantir esse direito a essa criança também, desse atendimento em horário integral na escola (Algieba, técnica da SEME, em grupo focal realizado no dia 6/11/12).
O Relatório Vitória em Foco – PMV/ SEGES (2012, p. 92) registra, ainda acerca do programa Tempo Integral:
Quando analisamos a evolução do projeto, somente no ensino infantil, é possível observar o significativo crescimento. Ao todo, 40 CMEI contam com a modalidade de ensino em tempo integral, o que representa 86,99% da rede. O número de alunos cresceu 350,57% em nove anos [...] (VITÓRIA, 2012, p. 92).
Como ficariam os atendimentos em Salas de Recursos Multifuncionais (SRMs) ou em atividades do Atendimento Educacional especializado (AEE) no contraturno? E os atendimentos com especialistas em instituições especializadas (filantrópicas ou não?). Durante o grupo focal com técnicos da SEME, os colegas de Rasalas lhe informaram que “tem criança com deficiência no Programa Tempo Integral que faz todo esse movimento”. Denebola, técnica da SEME reforçou: “Como Algieba falou, precisa ampliar a oferta do Programa Integral para essa clientela”. E Algieba concluiu: “A gente está dialogando sobre isso. Há necessidade de ampliação”.
Tanto Spica quanto Syrma, que são técnicas da SEMAS, defenderam o Programa Tempo Integral ao assim se expressarem:
Criaram o Tempo Integral, que era para dar conta dessas outras questões [referindo-se às questões extramuros da escola e que se presentificam dentro delas]. E ai assim, pode ter, pode não, o Tempo Integral é para toda e qualquer criança e adolescente que tenha ou não deficiência (Spica, técnica da SEMAS, em grupo focal realizado no dia 9/11/12).
Syrma contrapôs Spica, ao dizer que o Tempo Integral não foi criado especificamente para atender criança com deficiência. Afirmou que: “[...] aquela família que necessitava da mãe trabalhar o dia inteiro foi o foco da educação no momento de se estabelecer esse novo programa de educação ampliada, que já existia há muito tempo”.
Syrma ainda relatou sua experiência com o Programa Tempo Integral: “A minha intervenção no Cadastro Único, para a educação, quando eu sugeri o Cadastro Único foi para alfabetização, não foi para Tempo Integral, tá? Foi dito ao Projeto Terra, junto à Educação, para a alfabetização, não para o Tempo Integral”. E informou sobre a operacionalidade: “Há o Projeto Presença, que é da sala. Esse é específico do Suas, Sistema de Condicionalidade [...] que é um sistema que a gente desenvolve”. Seguiu informando que os usuários dos programas, uma vez não cumprindo as condicionalidades, procuram a SEMAS:
Então a mãe vem aqui, ela não concorda com a ausência do filho, porque muitas vezes ela alega isso que você fala, o professor não entende que quando aquele especialista está dentro da sala no turno normal da criança, [...] fazendo atendimento, ela não considera presença da criança na escola. [...] Então o que que acontece? A criança cai na malha fina por descumprimento das condicionalidades. A família cai. Ai vem aqui, a gente preenche um recurso, justifica para o governo federal e aí esse bloqueio é desfeito, né. Essa criança passa a receber normalmente. [Refere-se a receber o benefício] (Syrma, técnica da SEMAS, em grupo focal realizado no dia 9/11/12).
Com relação a esse programa e à temática e objetivos de investigação desta pesquisa, ressaltamos que os serviços de apoio social junto com o projeto presença, novamente articulando ações profissionais, consideram a territorialização enquanto um princípio na gestão e a vulnerabilidade social de crianças e adolescentes, com vistas à proteção social.