A legitimação do gauchismo, nesta perspectiva bourdiesiana, também ocorre no ambiente escolar em Passo Fundo. Na escola, um dos campos da cultura,, onde se consagram versões históricas, o gauchismo garante ampla representação ao ter os livros de memorialistas como fonte para o Ensino Fundamental e ao se transformar em referência local para atividades festivas e culturais.
Como ilustração da dinâmica decorrente do processo de legitimação do gauchismo na educação passo-fundense, analiso o Projeto de Lei Nº 092/92, que “cria o programa permanente de fomento à tradição e folclore junto à Secretaria Municipal de Educação”, de 11 de setembro de 1992, encaminhado pelo poder executivo, na primeira gestão de Airton Dipp.
No artigo primeiro, consta que o objetivo do programa é “despertar nos alunos o gosto pelo folclore, conhecendo, valorizando e vivenciando o folclore rio-grandense, nas suas diversas manifestações”. A lei previa que o programa seria desenvolvido em todas as escolas municipais, através de “danças folclóricas, fandango gaúcho, interpretação de poesias e de declamações, iniciação ao movimento tradicionalista gaúcho com embasamento literário, formação de invernadas artísticas e cursos anuais com premiação” (p.04). O programa seria acompanhado sistematicamente, “visando avaliar o crescimento
cultural do alunado” e as despesas decorrentes seriam por conta da Secretaria Municipal de Educação.
O projeto não continha uma programação descrita, deixando vaga a compreensão das atividades a serem realizadas. Mas é significativo que a motivação deste se deu em função da Lei Orgânica de 1990, pois no artigo 221, inciso 2, consta que “O Município, através da Secretária de Educação, proporcionará meios para fomentar a tradição e o folclore” (PASSO FUNDO, 1990).
Listam-se 15 escolas onde atividades com o mesmo objetivo já estariam sendo realizadas, de, entre outros, “divulgar as fontes multiformes das raízes culturais do nosso povo e as maneiras de expressão regional”. Ao mesmo tempo, o projeto da Secretaria de Educação aponta “necessidade de participação de alunos no Movimento Tradicionalista nas Escolas e nos Centros de Tradições Gaúchas”, o que pode ser interpretado como uma imposição político-cultural, dentro das lutas simbólicas compartimentadas no município.
Em todas as instâncias de análise na Câmara de Vereadores, o projeto obteve parecer favorável. Na Comissão de Educação e Bem Estar Social, sugeriu-se duas emendas. Em uma delas, previa-se convênio com a Universidade de Passo Fundo, para treinamento dos professores que iriam desenvolver as atividades nas escolas. A lei foi aprovada pela Câmara com as emendas.
Os desdobramentos deste projeto de lei podem ser medidos pela repercussão que têm no início do século XXI as atividades gauchescas promovidas em escolas de Passo Fundo. O Programa Tradição e Folclore nas Escolas foi um marco legitimador desse tipo de prática pedagógica, autorizando os professores a promoverem anualmente, durante a Semana Farroupilha, o gauchismo como cultura representativa regional.
Na Semana Farroupilha de 2006, o Colégio Marista Conceição (privado) promoveu atividades relacionadas ao tradicionalismo para seus alunos, “no intuito de preservar o folclore do Rio Grande do Sul” (O NACIONAL, 16 e 17 set. 2006, p.02). Durante aquela semana, os estudantes foram incentivados a usar indumentária gaúcha a participar de tertúlias e cafés de chaleira. Em reportagem sobre as festividades, escreveu-se que “as crianças do Ensino Fundamental aprendem os verdadeiros valores da cultura do Rio Grande do Sul”.
O Instituto Estadual Cecy Leite Costa (estadual) também promoveu celebração gauchesca e teve repercussão na mídia. No jornal Diário da Manhã do dia 19 de setembro de 2006, na página 02, foi publicada uma fotografia dos professores que organizaram uma programação em um galpão dentro da escola.
Nestes exemplos percebe-se a conjugação entre escola e mídia, sugerindo que o gauchismo tenha obtido um grau elevado de consagração nos campos culturais de Passo Fundo.
2 A POLÍTICA CULTURAL DE UMA CIDADE ARTIFICIAL
Entre 1988 e 1992, Passo Fundo perdeu mais de 60% das áreas produtivas no setor primário, com as emancipações de Ernestina, Pontão, Coxilha, Mato Castelhano e parte de Gentil. Ao mesmo tempo, perdeu população na zona rural e ganhou na zona urbana. Este foi o quadro geo-político em que o governo do Partido do Movimento Democrático Brasileiro (PMDB), com Osvaldo Gomes e Júlio Teixeira, atuou a partir de 1992. Foi investido “em infra-estrutura, pavimentação e canalização de ruas e bairros, além do apoio à cultura e à educação, através, especialmente, da Jornada Nacional de Literatura e do Festival Internacional do Folclore”, evento, este último, caracterizado por promover o gauchismo (CANTÚ; AMBROS; SIQUEIRA, 1998, p.132). Nessa gestão a promoção do Rodeio Internacional foi fortalecida e pela primeira vez realizou-se a Mostra da Cultura Gaúcha, um desfile gauchesco adaptado das escolas de samba. Em maio de 1995, realizou- se o I Fórum de Municipalização do Turismo, quando se voltaram as atenções e os discursos para o gauchismo, como forma de desenvolver a cidade.
Esse processo de divisão territorial, com emancipação de municípios no Rio Grande do Sul a partir de 1988, resultou em maior responsabilidade político-administrativa. Os governantes tiveram que repensar as cidades, com suas novas dimensões e recortes de populações, ao mesmo tempo em que o mundo se “abria” com a globalização e “invadia” o cotidiano das pessoas através da tecnologia, principalmente de comunicação.
No final da década de 1980, com a redemocratização da política brasileira, após longo período de ditadura militar, houve uma redefinição do papel institucional dos diversos níveis de poder, o que inclui o dos municípios. A promulgação da Constituição Federal de 1988 atribuiu aos estados a competência de legislar sobre as emancipações, concedendo maior autonomia local. Analisando esse evento, pesquisadoras da Universidade de Passo Fundo concluíram que “foi com esta legislação que se consolidou a
descentralização fiscal assegurando transferências fiscais aos municípios, estimulando o processo emancipacionista” (FIOREZE, BITENCOURT, JORGE, 2007, p.114).
O Rio Grande do Sul foi o estado brasileiro que teve maior número de emancipações. Entre 1988 e 2000, foram criados 253 novos municípios. A dinâmica sofrida pelo território passo-fundense foi radical. A partir de 1950, com a introdução da cultura da soja no campo, o êxodo rural se acentuou. É nesse período que ocorreu uma primeira fase de formação de novos municípios no estado em um ritmo acelerado, para uma posterior estagnação do processo durante o militarismo. Passo Fundo teve seu território inalterado durante 23 anos, até que em 1992, ocorreram as últimas emancipações, supracitadas.
Neste contexto, a questão da identidade local foi reposta. Com a redução da arrecadação advinda da agricultura, Passo Fundo obrigou-se a se voltar a suas outras vocações, como o comércio e os serviços. Neste processo de enfraquecimento político- econômico, a questão cultural ficou latente, como demonstra o fenômeno dos novos eventos gauchescos. O surgimento da Mostra da Cultura Gaúcha, do Festival Internacional de Folclore e também o retorno do Festival Chamamento do Pampa coincidem com este enxugamento territorial, ao mesmo tempo em que o poder público começou a destinar verbas a suas promoções, em uma dinâmica de fortalecimento da identidade gauchesca introduzida e recriada como local.
Analisando o movimento populacional na região de Passo Fundo de 1950 a 1991, um grupo de pesquisadores da Universidade de Passo Fundo percebeu uma crescente urbanização, análoga ao que aconteceu em todo o Estado no mesmo período (DAL MORO; KALIL; TEDESCO, 1998, p.61). Conforme dados do IBGE, no ano de 1950 havia 101.887 habitantes, sendo apenas 31.229 residentes em área urbana. Em 1980, a mudança foi radical. Em uma população de 121.156 habitantes, 105.468 passaram a habitar a área urbana. Este é o quadro social-demográfico da época em que foi aprovado o projeto “Passo Fundo, Tchê!”, quando havia sete CTGs na cidade.
Já em 1991, dos 147.239 habitantes, 137.216 viviam na zona urbana. É um quadro de abandono crescente do campo, que teve em 1995 mais uma ação no sentido de desenvolver a cidade a partir, paradoxalmente, da exploração turística de uma questão cultural transplantada de inspiração rural, o gauchismo.