4 A POLÍTICA EDUCACIONAL DO GOVERNO LUIZ INÁCIO LULA DA SILVA DEMOCRATIZAÇÃO DO ACESSO
4.3 O DISCURSO E A PRÁTICA GOVERNAMENTAL
4.3.6 Programa Universidade para Todos (Prouni)
Em 10 de setembro de 2004 foi publicada a Medida Provisória nº 213, instituindo o Programa Universidade para Todos (Prouni) e regulando a atuação de entidades beneficentes de assistência social no ensino superior, depois transformada na Lei nº 10.891 de 9 de julho de 2004, que foi alterada pela Lei nº 11.096 de 13 de janeiro de 2005.
A Lei nº 11.096/05 concede às instituições de ensino superior privado que aderirem ao Prouni isenção dos seguintes impostos e contribuições: imposto de renda pessoa jurídica, contribuição social sobre o lucro líquido, contribuição social para financiamento de seguridade social e contribuição para o programa de integração social.
O Prouni é um programa de caráter compensatório que tem seu objetivo definido no artigo 1º da Lei nº 11.096/05, que esclarece: o Prouni se destina a conceder bolsas de estudos integrais ou parciais em instituições privadas de ensino superior com ou sem fins lucrativos, com percentuais de 50% ou 25% em
34 35 37 404 485 680 18.226 22.857 29.811 40.935 54.733 68.572 0 10000 20000 30000 40000 50000 60000 70000 80000 2008 2009 2010
cursos de graduação ou sequenciais de formação específica, para estudantes não portadores de diploma de curso superior. Os beneficiários do programa não podem ter renda per capta superior a um salário mínimo e meio para terem direito à bolsa integral.
Para as bolsas parciais os critérios são: não ser portador de diploma de curso superior e uma renda familiar per capta não superior a três salários mínimos.
O programa beneficia o estudante que tenha realizado todo o ensino médio em escolas da rede pública ou em instituições privadas como bolsista integral; estudante portador de deficiência; professor da rede pública de ensino, para os cursos de licenciatura, normal superior ou pedagogia, que tenham o objetivo de formar profissionais para o magistério da educação básica, independente de renda.
O artigo 3º define que os alunos serão pré-selecionados pelo perfil socioeconômico e pelo resultado do Exame Nacional do Ensino Médio, podendo ainda passar por outra seleção realizada pela instituição para a qual foi direcionado.
Podem aderir ao Programa instituições de ensino superior com ou sem fins lucrativos não beneficentes, mediante a assinatura do termo de adesão. Ao aderir ao programa a instituição deve oferecer uma bolsa de estudos para cada 10,7 alunos pagantes e regularmente matriculados ao final do período letivo anterior, excluindo-se todos os alunos que tenham bolsa integral pelo PROUNI ou pela própria instituição.
A outra opção para as instituições que participam do programa é oferecer uma bolsa integral para cada vinte e dois estudantes pagantes e regularmente matriculados e bolsas de 50% ou 25% na quantidade necessária para que a soma das bolsas atinja 8,5% da receita anual dos períodos letivos em que já têm bolsistas do PROUNI.
Para as Instituições de ensino superior beneficentes a adesão é compulsória. Elas têm por obrigação oferecer bolsas de estudo. O artigo 10º da Lei nº 11.096/05 determina que somente será considerada entidade beneficente
de assistência social aquela que ofertar, no mínimo, uma bolsa de estudo integral para estudante de graduação ou de curso sequencial de formação específica, para cada nove estudantes pagantes matriculados em cursos efetivamente instalados na instituição
No discurso oficial o objetivo do Prouni era dar uma resposta imediata à sociedade na demanda por ensino superior, visando a democratização do acesso a esse nível de ensino. Uma estratégia de resultado imediato e baixo custo seria alugar ou comprar as vagas ociosas das instituições particulares de ensino superior. Para os críticos é a confirmação da tendência à privatização do ensino superior e um programa de financiamento indireto que com a justificativa de otimizar custos para o Estado, acaba por atender aos interesses dos empresários da educação realizando uma espécie de parceria público-privada, seguindo a orientação do Banco Mundial e da Organização Mundial do Comércio.
Com o discurso da inclusão social dos excluídos, o governo atende às pressões do setor privado e, em troca de bolsas para estudantes pobres, renunciou a mais de um bilhão em apenas mais de quatro anos de implantação desse programa (2006 a 2009), oferecendo a essa população uma educação de qualidade questionável, pois a maioria das instituições beneficiadas pelo programa (instituições isoladas) não desenvolvem o ensino associado à pesquisa e à extensão. (GEMAQUE; CHAVES, 2010, p. 82)
O processo de privatização, segundo Valle (2006), também se dá pela permissão à iniciativa privada em oferecer serviços públicos que originalmente deveriam estar sendo ofertados pelo Estado. Pode ocorrer a ampliação das vantagens para o setor privado explorar a atividade e isso vir a representar a diminuição de investimentos no setor público. Consequentemente ocorre a diminuição do serviço público com o setor privado ocupando o espaço. Sousa (2010, p. 07) afirma que “[...] a privatização do público ocorre quando a esfera privada ocupa o espaço público e os interesses privados ficam sobrepostos aos do coletivo.”
A solução a partir da aquisição de vagas em instituições de ensino superior privado, muitas delas de baixa qualidade, voltadas para o lucro e para as
demandas imediatas do mercado, também é questionada por se entender que não se está cumprindo o direito do estudante de baixa renda proveniente de escola pública, que não teve uma boa formação durante sua vida escolar no ensino básico e não terá compensação no ensino superior. Perpetua-se, desta forma, uma formação precária e de qualidade questionável, dificilmente levando-o a cargos e funções que exijam uma formação mais qualificada. “O Prouni e o Fies constituem-se programas fundamentados na lógica economicista sob o discurso da democratização do acesso que, na prática, nega à população brasileira o direito à educação pública de qualidade.” (GEMAQUE; CHAVES, 2010, p.82)
Assim, iniciou-se o fenômeno que Martins (2006, p. 98) chama de “estatização das vagas” nas instituições particulares. Ele afirma que esse procedimento é admissível constitucionalmente, atendendo à necessidade do Estado em garantir o direito de acesso ao ensino superior, porém observando alguns critérios (p. 122):
a) Dar-se-á o financiamento público em carácter extremos de falta de vagas no ensino superior público, que deve vincular-se a critérios objetivos pré-definidos;
b) A proteção e o fomento por parte do Estado assumirão caráter meramente compensatório, cujo escopo máximo é evitar o esvaziamento do direito fundamental de acesso ao ensino superior (mínimo existencial), sendo asseguradas às universidades particulares condições mínimas de manutenção dos universitários em cursos que ofereçam prestação de serviço com padrão de qualidade.
Martins (2006) questiona o uso de Medida Provisória7 para regular matéria
de direito fundamental, como é o direito à educação. Defende que o interesse em
7 Medidas Provisórias - O artigo 62 da CF/88 dispõe que em caso de relevância e urgência, o Presidente da
República poderá adotar medidas provisórias, com força de lei, devendo submetê-las de imediato ao Congresso Nacional. As medidas provisórias vieram a substituir os decretos-lei da época da ditadura e desde então vêm sendo usadas sem parcimônia pelos governantes brasileiros. A Emenda Constitucional nº 32 de 2001 deu um freio no uso da reedição das medidas provisórias, determinando que elas perderão a eficácia se não forem convertidas em lei n prazo de sessenta dias. Concede a prorrogação uma única vez por igual período caso ainda não tenha sido encerrada sua votação nas duas casas legislativas.
apressar a implantação do programa seria para garantir a sobrevida das instituições particulares de ensino superior, pois em contrapartida à oferta das bolsas de estudo pelas instituições particulares, o Estado ofereceria renúncia fiscal8. Para o autor o papel constitucional do Estado seria fomentar o ensino
superior público e não salvar da falência instituições particulares através de financiamento indireto.
Coloca-se a hipótese de que a urgência e relevância9 seria de atender aos
interesses dessas instituições e de não dar o tempo necessário para o posicionamento da sociedade em relação ao programa.
No período dos governos dos dois presidentes analisados neste trabalho, percebe-se que as políticas para a educação superior vêm sendo implantadas através de medidas provisórias que só depois são convertidas em leis, subvertendo a ordem natural do processo legislativo, com objetivos, segundo Martins de “[...] atender os interesses mercadológicos das instituições de ensino superior particular.” (2006, p.127) Dessa forma, com a situação já posta, dificilmente ocorrem mudanças significativas no programa quando o mesmo é transformado em lei.
O Prouni é uma política pública focalizada, que não pretende resolver a problemática do ensino superior, apenas atender a uma parte da população definida. Assim, focalizando o público para o qual o programa foi criado, qualifica e aperfeiçoa os seus resultados. Moraes apud Valle (2006) sinaliza que a vantagem de políticas dirigidas e focalizadas é o fato de não correrem o risco de serem confundidas com direitos universais ou bens públicos. Mantêm nas mãos do governo o poder de distribuição dos recursos, pois a seletividade existente
8 Renúncia fiscal é o instrumento utilizado pelo governo federal para estabelecer uma parceria com a
iniciativa privada no intuito de reverter o benefício para a sociedade.
9 A Constituição de 1 à oàdeli itaàoà [...]àjuízoàdis i io ioàdeàopo tu idadeàeàdeàvalo àdoàP eside teà
daà‘epú li a à Má‘TIN“,à ,àp.à ,àpoisà oàh àu aàdefi iç oàdoà ueàseja àsituaçõesà eleva tesàouà urgentes, passíveis de medidas provisórias, apenas elenca o que não pode ser matéria das mesmas.
Osà e uisitosà deà elev iaà eà deà u g iaà pa aà aà ediç oà deà edidaà p ovisó iaà à s oà deà ap e iaç oà discricionária do Chefe do Poder Executivo, não cabendo, salvo os casos de excesso de poder, seu exame peloàPode àJudi i io. à(STF-Pleno-Adin o.2.150-8 / DF- Medida Liminar- Rel. Ilmar Galvão, Diário de Justiça, Seção I, 28, abr.2000, p.17)
nessas políticas lhes dá o direito de impor condições à concessão do benefício gerando, ainda, a gratidão do beneficiado.
A renúncia fiscal é considerada uma espécie de financiamento indireto, pois custa ao governo por não estar recebendo os valores aos quais está renunciando. Em 2005 os valores da renúncia fiscal em função do Prouni chegaram a 190 milhões de reais; em 2006 ultrapassaram os 210 milhões de reais; em 2007 cerca de 350 milhões de reais; em 2008 mais de 430 milhões de reais; no ano de 2009 cerca de 520 milhões de reais; e em 2010 580 milhões de reais. Portanto, em seis anos o Estado deixou de arrecadar das instituições privadas de ensino superior participantes do Prouni mais de dois bilhões de reais.
Gráfico 12 - Evolução da oferta de bolsas do Prouni 2005-2010
Fonte: Sesu - Disponível em: < http://portal.mec.gov.br/index.php?option=com_docman& view=download&alias=16762-balanco-social-sesu-2003-2014&category_slug=dez embro-2014-pdf&Itemid=30192>
Os números do Prouni demostram que já na sua origem atendeu a um grande número de estudantes e em três anos dobrou a quantidade de estudantes atendidos. Nos últimos dois anos do governo Lula demonstrou uma estabilidade em seus números, possivelmente por ter chegado no patamar limite para a necessidade de isenção fiscal das instituições participantes.
112.275 138.668 163.854 225.005 247.643 241.273 0 50.000 100.000 150.000 200.000 250.000 300.000 2005 2006 2007 2008 2009 2010
BOLSAS
BOLSASO Prouni possui um sistema informatizado, o Sisprouni, cujas operações somente são realizadas mediante a utilização de certificado digital que otimiza, dá segurança e confiabilidade ao processo.
Gráfico 13 - Número de bolsistas do Prouni por tipo de bolsa
Fonte: Sesu - Disponível em: <http://portal.mec.gov.br/index.php?option =com _docman&view=download&alias=16762-balanco-social-sesu-2003-201 4&cat egory_slug=dezembro-2014-pdf&Itemid=30192>
A maioria dos beneficiados pelo PROUNI possuem uma bolsa integral, ou seja, realizarão sua formação sem qualquer custo com as mensalidades ou prestações referentes ao mesmo. Esse dado significa que a maioria das instituições de ensino participantes do programa optou pela modalidade de bolsa integral.
Quando são analisados os números de beneficiários em relação à modalidade de ensino chega-se à informação de que 85% deles estão matriculados em cursos presenciais e apenas 15% em cursos de educação à distância.
Quanto ao turno de estudo o resultado revela uma reprodução do que já acontece no ensino médio em menor escala, além de manter a coerência com o perfil da maioria do alunado das instituições privadas - alunos de baixa renda ou fora da idade regular para cursar o ensino superior e que trabalham durante o dia. Setenta e quarto por cento dos estudantes estão matriculados no curso noturno, 19% no matutino, 4% no integral e apenas 3% no vespertino.
70% 30%