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4 AS TENTATIVAS FRUSTRADAS DE INCLUSÃO DE UM PROJETO

4.1 Programa Viva Centro

Foi pensado para a reabilitação de um Centro em vias de degradação desde os anos 1970, conforme se desenrolou a transferência da administração do estado para a cidade do Rio de Janeiro combinado a fusão dos estados da Guanabara e Rio de Janeiro, além da expansão urbana desenfreada a partir da inauguração da ponte Rio-Niterói e o consequente fortalecimento da centralidade de outros bairros, como Icaraí (Prefeitura Municipal de Niterói, 2006).

O projeto incluído na Lei 2411/2006 propunha alinhar o desenvolvimento das áreas degradadas com as áreas revitalizadas combinadas à paisagem já existente na cidade com a regulamentação da Área de Especial Interesse Urbanístico (AEIU) do Caminho Niemeyer (Azevedo; Gonçalves, 2010).

Madeira Filho e Terra (2013) lembram a defesa do Caminho Niemeyer por parte do ex-prefeito de Niterói Jorge Roberto Silveira como “essencial para a revitalização do Centro de Niterói” a fim de que a população da cidade voltasse a morar no Centro ainda na divulgação do projeto em 1997. Mas na realidade o Caminho se mostrou pouco funcional aos niteroienses, cujo hábito de visitação dos monumentos é baixo apesar de seu valor artístico e arquitetônico. Além disso, os problemas da região central continuaram a existir com o Caminho e juntaram a eles sua falta de integração ao Centro (e consequente falta de atratividade da área para habitação).

A legislação se fazia necessária para ocupar as várias quadras vazias vizinhas ao Caminho para a viabilização e gestão do Caminho Niemeyer. A legislação urbana que vigorava desde 2002 (Lei 1967/02) havia congelado a área com a proibição de novas edificações e concessão de alvarás para que o poder público pudesse decidir o melhor destino para sua integração ao restante do Centro (Prefeitura de Niterói, 2007).

Os princípios para a elaboração da lei incluíam a ampliação do estoque habitacional na área Central; a integração da AEIU do Caminho Niemeyer à área consolidada do Centro e a captação de recursos provenientes da valorização urbana a serem investidas na área com habitações de interesse social, requalificação do espaço público e preservação do patrimônio arquitetônico.

Em um novo cenário político e social, devido à saída de Jorge Roberto Silveira, o maior entusiasta do projeto, pôde-se notar a saída de alguns dos edifícios inicialmente propostos como a Capela, a Catedral Batista e a Catedral Católica, assim como a inclusão de outros como o Terminal das Barcas de Charitas, já terminado e em operação (Azevedo; Gonçalves, 2010).

A Lei 2411/06 objetivava induzir a implantação de projetos arquitetônicos especiais para que a cidade de Niterói pudesse vivenciar transformações urbanísticas e estruturais integradas para a reabilitação urbana da Sub-região Centro (ou AEIU do Caminho Niemeyer) nos aterrados Norte e Sul, conforme a lei 1967/2 (Plano Urbanístico Regional das Praias da Baía) e estabelecia parâmetros de uso e ocupação do solo (Prefeitura de Niterói, 2007)

O zoneamento fracionou a AEIU do Caminho em quatro partes: conjunto arquitetônico do Caminho Niemeyer no Aterrado Norte; Conjunto arquitetônico do Caminho Niemeyer na Via 100 (delimitado pela Oficina da Cantareira); Fração urbana Orla Mar (delimitada pelo Terminal Rodoviário João Goulart) e Fração urbana Gragoatá/UFF.

Figura 13: Fracionamento da AEIU – Caminho Niemeyer. Disponível em: https://urbanismo.niteroi.rj.gov.br/arquivos_biblioteca/planejamento/vivacentro/vivacentro/Hi storico%20e%20Apresentacao%20Lei%202411.2006.pdf.

O plano de reurbanização das áreas contempladas pela lei 2411/06 resguardava o favorecimento pela acessibilidade física dos pedestres e a integração paisagística com o Caminho Niemeyer. Dentre as soluções apontadas estavam a implantação de ciclovias ao longo da orla, a recuperação dos cais existentes e consequente permanência da Vila de pescadores da Praia Grande (próxima ao Bay market).

Figura 14: Ocupação das quadras vazias proposta pelo Viva Centro. Disponível em: https://urbanismo.niteroi.rj.gov.br/arquivos_biblioteca/planejamento/vivacentro/vivacentro/Hi storico%20e%20Apresentacao%20Lei%202411.2006.pdf.

No ano de 2013 Madeira Filho e Terra dissertaram sobre as consequências do Programa Viva Centro como:

O projeto que tinha estimativa de ser realizado em dois anos até hoje não foi concluído. Além disso, o gasto do projeto também foi muito maior que o estimado em 1997. Em 2011, o gasto previsto com a construção do projeto superava em 85% (R$55 milhões) o investimento inicialmente previsto, de R$65 milhões (...)

(...) Uma das consequências após a implementação do MAC e do Caminho Niemayer (ainda que incompleto) e também do uso destas construções como city marketing, foi o processo de gentrificação. A política municipal de atrair moradores de classe média e alta para o município foi desacompanhada de medidas voltadas a manter uma pluralidade social no espaço, resultando em um acentuamento da segregação espacial (...)

(...) Todavia, diante da cidade projetada, ganha relevo a cidade real, com suas vísceras de alvenaria, seus barracos e desastres. A população de baixa renda, excluída da cidade formal pela carência de políticas habitacionais, busca moradia em assentamentos informais, que

normalmente além de desprovidos de infraestrutura estão normalmente localizados, em terrenos mais frágeis (como áreas de encosta ou propensas a inundação (Madeira Filho; Terra, 2013, p.10-11).

Acrescenta Oliveira (2009) que:

Nesse sentido, o Caminho Niemeyer nasce como um conjunto de obras estranhas ao cotidiano dos moradores de Niterói e à funcionalidade urbana reinante na cidade, só posteriormente, e quase dez anos depois de sua instituição pela prefeitura, é que foi se pensar em sua integração com a área central da cidade, em virtude de suas conseqüências na paisagem, na circulação e na revalorização do espaço urbano na área atinente ao projeto (Oliveira, 2009, p.12)

O Programa Viva Centro tenta reaproximar a área do Caminho ao restante da cidade visto que a totalidade da paisagem constituída pelas formas contemporâneas projetadas por Niemeyer junto às formas pretéritas do Centro que perduram e se mostram decadentes no presente não conseguem se integrar, mantendo-se o lugar de “passagem” que se tornou o Caminho devido ao seu acesso único pelo Terminal João Goulart.

As obras projetadas por Oscar Niemeyer pouco se adaptam a paisagem preexistente da cidade. Apesar do valor técnico disposto pelas formas construídas por si só, há a questão da estrutura onde elas surgem e a falta de encaixe das mesmas pela falta de funcionalidade e integração ao degradado perímetro central de Niterói.

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