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programas conjuntos e suas ações

EXISTEM RESULTADOS E IMPACTOS?

Os 18 programas conjuntos e suas ações

A totalidade dos programas realizados teve como eixos estruturais e transversais os direitos culturais, a inclusão social, o im-pulso do patrimônio cultural e o potencial turístico dos países, com o objetivo claro de reduzir a pobreza e aumentar o emprego de qualidade vinculado à cultura. Buscava-se melhorar as oportunidades dos segmentos mais frágeis e marginalizados da sociedade.7 Além disso, procurou-se fortalecer processos

de interculturalidade e de paz por meio da educação, em que participaram, sempre de forma interagencial, atores governamen-tais, sociedade civil e setor privado, entre outros. Os programas conjuntos reafirma-ram a importância da cultura como agente de desenvolvimento, promovendo a inclusão e a coesão social, a criação de emprego e a melhoria de vida dos coletivos mais vulneráveis da sociedade.

Os 18 programas conjun-tos estão listados a seguir.8

Na África: aproveitamento da diversidade para promover o desenvolvimento sustentável e a mudança social na Etiópia;

legado, tradição e criatividade para o desenvolvimento sus-tentável na Mauritânia; forta-lecimento das indústrias culturais e criativas e das políticas inclusivas em Moçambique; turismo cultural sustentável na Namíbia; promoção de iniciativas e indústrias culturais no Senegal.

Na América Latina: políticas inter-culturais para a inclusão e a geração de oportunidades na Costa Rica; de-senvolvimento e diversidade cultural para a redução da pobreza e a inclu-são social no Equador; criatividade e identidade cultural para o desenvol-vimento local em Honduras; revita-lização cultural e desenvolvimento produtivo criativo na Costa Caribe da Nicarágua; fortalecimento das indústrias culturais e melhoria do Os programas

conjuntos reafirmaram a importância da cultura como agente de desenvolvimento, promovendo a inclusão e a coesão social, a criação de emprego e a melhoria de vida dos coletivos mais vulneráveis da sociedade.

acesso aos bens e serviços culturais no Uruguai.

Na Ásia: programa de apoio às indús-trias criativas no Camboja; marco de associação para a cultura e o desen-volvimento na China.

Nos Estados Árabes: mobilização do patrimônio mundial Dahshur para a cultura e o desenvolvimento da comunidade no Egito; patrimônio cultural e indústrias criativas como instrumentos de desenvolvimento no Marrocos; cultura e desenvolvimen-to no território palestino ocupado.

Leste Europeu: transformação cultu-ral na Albânia, do isolamento à partici-pação; melhoria da compreensão cul-tural na Bósnia-Herzegovina; alianças para o turismo cultural na Região da Anatólia Oriental, na Turquia.

Como se pode observar, os programas con-juntos têm por objeto, majoritariamente, patrimônio, legado tradicional, criativida-de, indústria cultural, aspectos da cultura para o desenvolvimento, interculturali-dade/diversidade, participação e acesso à cultura, e transversalidade da cultura com outros setores. Os campos de atuação le-varam em conta as realidades locais para que houvesse um desenvolvimento cultural mais abrangente.

Ao analisar os documentos oficiais de todos os programas, pudemos ordenar algu-mas das atividades realizadas, com o objetivo de obter um resumo das ações produzidas nessa janela, assim como para observar ten-dências na maneira de intervir e gerenciar a cultura e o desenvolvimento. Foram elas:

apoio à preparação de estratégias e aos quadros jurídicos que facilitam a harmonização com as convenções internacionais existentes;

assistência técnica para a elaboração de planos de sustentabilidade eco-nômico-financeiros para pequenas empresas culturais;

formação e capacitação em diversas áreas temáticas para servidores pú-blicos e líderes comunitários na in-terculturalidade e em ciências etno-gráficas; workshops (grupos focais);

criação de laboratórios de formação para a alfabetização em novos meios tecnológicos e audiovisuais;

desenho e elaboração de um sistema de indicadores culturais;

diagnóstico de oferta e demanda do turismo cultural;

elaboração de análises de marcos regulatórios vigentes, de estudos sobre capacidades de produtos cul-turais locais para a mercantiliza-ção nacional e internacional, assim como de programas que recuperam e difundem o patrimônio cultural, de seminários sobre temáticas culturais importantes para os setores e de pla-nos estratégicos;

estudos, sistematização e difusão da cultura popular e urbana;

mapeamento do setor cultural e das indústrias relacionadas para identifi-car potenciais econômicos e sociais;

mapeamento e inventariado de patri-mônio material e imaterial;

produção e publicação de documentos que permitam visualizar a situação

de grupos minoritários e contribuam na tomada de decisões com base em evidências;

realização de mesas de diálogo inter-culturais;

renovação e planos de ação para mu-seus nacionais;

revisão de políticas em cultura, edu-cação, saúde e agricultura a partir da interculturalidade; atualização de legislações existentes em áreas que afetam a cultura; suporte nacional às autoridades locais para a imple-mentação das convenções da Unesco (2003 e 2005).

As ações realizadas em diferentes campos nos mostram o quão complexas elas podem ser. Demonstram também como a Janela de Cultura e Desenvolvimento tende a ser am-pla e diversificada. E mostram, ainda, quais foram as linhas de ação na primeira década do século XXI. Essas linhas propõem pro-jetos que são a expressão da especificidade que a cultura está adquirindo nas políticas de desenvolvimento, adaptando-se aos con-textos contemporâneos.

Resultados e lições para o futuro As atividades realizadas nos programas conjuntos da janela temática renderam resultados importantes para o futuro so-bre o modo de incorporar a cultura no de-senvolvimento. Alguns desses resultados estão diretamente relacionados com os ODM (redução da pobreza, educação, saú-de e meio ambiente) e outros indicam saú-de que maneira alcançá-los (desenvolvimento e fortalecimento da capacidade cultural,

contribuição para a governança e a criação de políticas culturais).

De forma resumida, os resultados mais imediatos e quantitativos da janela temática foram: 2,3 milhões de pessoas beneficiadas por novas e/ou renovadas infraestruturas culturais; 12,3 mil empreendedores culturais que aumentaram sua renda; 50 inventários criados para proteger o patrimônio cultural e natural, com adição de novos lugares à lista de Patrimônio Mundial da Unesco; e 1,4 mil instituições públicas e 14,2 mil funcionários que ampliaram suas capacidades por meio dos programas do F-ODM,9 reforçando a governabilidade e a institucionalidade da cultura em defesa do papel do Estado como garantia do interesse geral.

Entre os resultados mais relevantes está a capacitação para o desenvolvimen-to, assim como recursos que possibilitaram a produção, a distribuição e o consumo de produtos culturais. Na esfera do patrimônio cultural, os programas conjuntos contribuí-ram para o mapeamento, a identificação e a valorização do patrimônio material e ima-terial, assim como para o desenho de planos de administração com a intenção de preser-var o patrimônio e atrair o turismo cultu-ral. Nesse âmbito, é importante destacar a inclusão do patrimônio cultural do Senegal na lista da Unesco.

A educação esteve presente, prin-cipalmente, na promoção e na sensibili-zação da compreensão intercultural no contexto educativo; também no desenho de estratégias educativas com conteúdo cultural para integrar grupos desfavore-cidos e minorias no sistema educativo, as-sim como fomentar respeito e tolerância

intercultural. Assistimos, ainda, a resul-tados significativos no desenvolvimento e no fortalecimento da capacidade cultural;

muitas das atividades visavam adotar e implementar novas leis, políticas e mode-los de governança com o objetivo de criar infraestruturas culturais (legais e físicas).

Criaram-se também novos sistemas de in-formação cultural, base de dados especia-lizada e estudos de base que são pontos de partida para gerir e promover o patrimônio cultural local.

Além de resultados objetivos e empíri-cos, a janela nos deixou uma série de lições na hora de desenhar novos programas, como demonstrou o Informe de Avaliação Específi-co da Janela de Cultura e Desenvolvimento:10

ficou patente a importância de re-duzir a ambição e a complexidade dos programas;

é fundamental integrar uma aborda-gem intercultural para a conscienti-zação e a construção de políticas em países com diversidade étnica, lin-guística e religiosa muito marcada;

é evidente a necessidade de se con-centrar em noções de cultura menos politizadas, sobretudo em países que sofrem com conflitos culturais. Tam-bém é melhor trabalhar as indústrias culturais em vez de identidade, etnia e religião;

destacou-se que a principal contri-buição da janela foi a prestação de serviços de capacitação, assistência técnica e assessoria empresarial, que permitiram que os beneficiários ge-rassem novas fontes de renda;

mostrou-se necessário apoiar formas e expressões culturais que não visam ao mercado, mas contribuem para a preservação e a transmissão de va-lores, a inclusão social e o fortaleci-mento das identidades individuais e coletivas;

foram mais bem-sucedidas as inter-venções em que houve cooperação entre diferentes atores, o que de-monstra a importância da colabo-ração entre eles e em todos os níveis possíveis;

mostrou-se que os programas cultu-rais alcançam resultados respeitá-veis nas áreas de desenvolvimento humano e sustentável, o que eviden-cia a importâneviden-cia de as autoridades públicas encarregadas de assuntos culturais estarem em pé de igualdade com outros departamentos, para que haja uma integração ampla;

ficou evidente que é preciso ter maior conscientização sobre os conceitos culturais e sua relevância para que os objetivos do programa possam ser atingidos;

devem ser consideradas, em avalia-ções futuras, as dificuldades de me-dir certos impactos qualitativos (e outros que só são visíveis em médio e longo prazo).

Conclusões

Analisados os Termos de Referência da Janela juntamente com as ações e os re-sultados apresentados no marco dos 18 programas conjuntos, podemos apontar algumas conclusões:

o campo de trabalho em cultura e de-senvolvimento é muito amplo, como bem nos demonstrou o documento Termos de Referência;

o conceito de cultura e desenvolvimen-to é interpretável contextualmente;

a proposta da janela é feita com o intuito de inovação e, portanto, não parte de um conhecimento consoli-dado sobre cultura e desenvolvimen-to dos ODM. O objetivo era abrir esse campo à cooperação cultural inter-nacional e torná-lo um dos progra-mas mais importantes da história do desenvolvimento dedicado à cultura;

quando se trabalha com tantos atores e de níveis diferentes, as ações tor-nam-se muito complexas, mas, ao mesmo tempo, obtém-se um banco de provas que fomenta um modo de trabalho mais amplo e transversal;

na formulação dos projetos, ob-servam-se diferentes interpreta-ções de cultura, evidenciando um tema pendente para a cooperação;

e a grande variedade de propostas demonstra que o setor cultural é bastante diverso;

apesar de existirem boas intenções, observa-se uma incapacidade de encontrar ferramentas específicas para alcançar os objetivos dos pro-jetos. Isso é resultado da falta de sis-tematização da cultura no âmbito do desenvolvimento;

a prática desses projetos, suas refle-xões e sua gestão do conhecimento evidenciam que a janela gerou um processo de sensibilização, como se

pôde observar na mobilização que houve quando da incorporação de um objetivo cultural para os Obje-tivos de Desenvolvimento Susten-tável (ODS).11

A experiência mostra, em razão de sua amplitude e extensão continental, que a incorporação cultural para o desenvolvi-mento contribui com novos e importantes resultados e impactos na perspectiva das propostas dos ODS na Agenda 2030. Em ou-tras palavras, o desenvolvimento sustentá-vel será alcançado fornecendo-se todas as dimensões possíveis e abrindo-se a alianças amplas com setores que não são usuais na cooperação internacional para o desenvol-vimento. Esses projetos mostram que, se existe uma vontade política e uma definição conceitual, processos inovadores podem ser gerados na dinâmica do desenvolvimento em diferentes contextos.

Essa janela é um dos projetos internacio-nais mais extensos já realizados no enfoque da dimensão cultural para o desenvolvimento. Os resultados e os impactos mostram sua alta efi-ciência e abrem outras dimensões para a dinâ-mica clássica do desenvolvimento – uma das valiosas lições aprendidas com essa experiên-cia. A cultura não é um luxo ou algo dispensá-vel, mas sim algo que pode estar integrado a estratégias globais de desenvolvimento sus-tentável. É importante destacar que um dos programas internacionais mais importantes em cultura e desenvolvimento começou na década do desenvolvimento mundial, sendo notabilizado entre 1986 e 1996, com múltiplas conferências e declarações que se refletiram em nível internacional.

Essa experiência mostra que, quando existe uma abordagem política e conceitual bem definida, há resultados que superam o uso tradicional da cultura no desenvol-vimento, desde posições muito retóricas e pouco aplicadas até o tratamento da cultura como elemento identitário e populista, que emergem em muitos entornos. A cultura, quando combinada com a abordagem de direitos humanos e liberdades políticas, é uma ferramenta essencial para o desenvol-vimento sustentável.

Paulo H. Duarte-Feitoza

Doutor em ciências humanas e cultura pela Universidade de Girona (2017), mestre em comu-nicação e estudos culturais (2012) e licenciado em história da arte (2010) pela mesma universidade.

É ex-diretor da Cátedra Unesco de Políticas Cul-turais e Cooperação da Universidade de Girona.

Atualmente é professor-colaborador no mestrado interuniversitário em gestão cultural da Universitat Oberta de Catalunya (UOC-UdG). Tem experiência na área de gestão cultural e artes, com ênfase na época contemporânea.

Notas

1 Disponível em: <http://www.br.undp.org/content/brazil/pt/home/library/ods/

declaracao-do-milenio.html>. Acesso em: 17 dez. 2018.

2 Disponível em: <https://www.un.org/millenniumgoals/>. Acesso em: 17 dez. 2018.

3 Recursos sobre cultura e desenvolvimento. Disponível em: <http://www.unesco.

org/new/es/culture/achieving-the-millennium-development-goals/resources/

culture-and-development-resources/>. Acesso em: 17 dez. 2018.

4 Disponível em: <http://www.mdgfund.org/>. Acesso em: 17 dez. 2018.

5 Disponível em: <http://www.mdgfund.org/>. Acesso em: 17 dez. 2018.

6 O documento completo está disponível em: <http://www.mdgfund.org/sites/default/

files/MDGFTOR_Culture_FinalVersion%2017May%20200>. Acesso em: 17 dez. 2018.

7 A recém-aprovada Convenção sobre a Proteção e Promoção da Diversidade das Expressões Culturais, da Unesco, em 2005, havia reconhecido a importância do setor criativo na cooperação para o desenvolvimento. Disponível em: <https://

unesdoc.unesco.org/ark:/48223/pf0000150224>. Acesso em: 17 dez. 2018.

8 Disponível em: <http://www.mdgfund.org/es/content/cultureanddevelopment>.

Acesso em: 17 dez. 2018.

9 Os resultados podem ser encontrados na página do F-ODM: <http://www.

mdgfund.org>. No entanto, é preciso destacar três documentos importantes:

Resumo Executivo da Janela de Cultura e Desenvolvimento (<http://www.

mdgfund.org/sites/all/themes/custom/undp_2/docs/thematic_studies/

Spanish/Cultura_y_Desarrollo_Estudio_Tematico_5-pager_Link.pdf>), Informe de Avaliação Específico da Janela de Cultura e Desenvolvimento (<http://www.

mdgfund.org/sites/all/themes/custom/undp_2/docs/thematic_studies/English/

full/Culture_Thematic%20Study.pdf>) e Informe de Avaliação Final, Global e Temática do F-ODM (<http://www.mdgfund.org/sites/default/files/Fondo_

ODM_Evaluacion.pdf>).

10 Disponível em: <http://www.mdgfund.org/sites/all/themes/custom/undp_2/

docs/thematic_studies/English/full/Culture_Thematic%20Study.pdf>. Acesso em: 17 dez. 2018.

11 MARTINELL, Alfons S. ¿Por qué los ODS No Incorporan la Cultura?, 2015. Disponível em: <http://www.alfonsmartinell.com/?p=326>. Acesso em: 5 nov. 2019.

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