3. Programas de prevenção primária da violência baseados em evidências:
3.5 A efetividade de programas de prevenção da violência no desenvolvimento
3.5.4 Os programas ACT e Conte Comigo
O Estudo Piá vai avaliar a implementação de dois programas de prevenção do comportamento agressivo nas crianças de famílias de menor renda pertencentes à Coorte de Nascimentos de 2015 de Pelotas, a saber: Programa ACT para Educar
Crianças em Ambientes Seguros e o Programa Conte Comigo de compartilhamento de livros (MURRAY et al., 2019).
A importância do Estudo se dá pela necessidade de implementação e de avaliação de programas parentais que atuem na prevenção de comportamento agressivo nas crianças e, futuramente, de violência, em países de baixa e média renda, cujos índices de violência crescem de forma alarmante (MURRAY et al., 2019).
3.5.4.1 Programa ACT para Educar Crianças em Ambientes Seguros
O Programa ACT para Educar Crianças em Ambientes Seguros é uma intervenção desenvolvida pela Associação Americana de Psicologia (APA) que se baseia nos seguintes pressupostos: a violência resulta, em parte, da falta de habilidades sociais das pessoas para resolver conflitos; crianças aprendem observando e imitando os adultos; se as crianças aprenderem habilidades sociais, elas podem aumentar sua capacidade de evitar seu envolvimento em situações violentas, e adultos podem aprender a modelar e ensinar habilidades sociais que vão ajudar as crianças a estabelecerem relações sociais de maneira não agressiva. Dessa forma, o conteúdo do programa aborda três tópicos: elementos básicos do desenvolvimento infantil, raízes e consequências da violência na vida das crianças e habilidades precoces de prevenção da violência (SILVA e RANDALL, 2005).
O programa ACT foi indicado pela OMS como um dos três programas efetivos para ser usados na prevenção de violência contra crianças. No Brasil existem poucos programas parentais universais de viés preventivo e com manual sistemático e estruturado. A maioria dos estudos relativos ao ACT foram realizados nos EUA e os achados confirmaram que após a participação no programa por pais e cuidadores houve uma redução na agressão física e psicológica por parte dos pais sobre as crianças (PEDRO, ALTAFIM e LINHARES, 2017).
Estudo preliminar realizado no Brasil confirmou a hipótese de que o programa é efetivo para melhorar as práticas parentais e o comportamento das crianças, independentemente do status socioeconômico das famílias e o tipo de escola frequentada pelas crianças, pública ou privada (PEDRO, ALTAFIM e LINHARES, 2017).
O programa é implementado em oito encontros semanais de uma hora e meia, além de uma sessão introdutória em que uma entrevista motivacional é realizada, visando à formação de pais, mães e cuidadores de crianças por meio de técnicas interativas, com o conteúdo focado em disciplina não-violenta, desenvolvimento infantil, controle da raiva, habilidades para resolver problemas e métodos para proteger a criança da exposição à violência, inclusive aquela proposta pela mídia. O programa estimula ainda a participação dos pais na vida escolar e comunitária, com o objetivo de proteger as crianças (KNOX, BURKHART e HOWE, 2011).
No âmbito do Estudo Piá as mães das crianças integrantes da Coorte de Nascimentos de Pelotas 2015 receberam a intervenção em grupos de até 10 mães facilitados pelas Coordenadoras Pedagógicas das Escolas Municipais de Educação Infantil.
3.5.4.2 Programa Conte Comigo de compartilhamento de livros
Programa desenvolvido pela Mikhulu Trust, uma organização sem fins lucrativos sediada na África do Sul, que tem como objetivo ajudar pais a se instrumentalizarem para garantir um melhor desenvolvimento sóciocognitivo e emocional para seus filhos.
O compartilhamento de livros dialógico consiste numa prática interativa de leitura compartilhada de livros entre pais e filhos. Em países de alta e média renda essa prática demonstrou oferecer um significativo benefício para o desenvolvimento cognitivo infantil. Já a evidência quanto à sua aplicação em países de baixa e média renda é escassa (VALLY et al., 2015).
O primeiro experimento randomizado controlado sobre os efeitos do compartilhamento de livros realizado num país de baixa renda ocorreu no vilarejo de Khayelitsha, África do Sul, caracterizado por pobreza endêmica, desemprego generalizado e altos índices de criminalidade. Participaram do estudo 91 cuidadores, em sua maioria mães, mas também algumas avós, tias, pais e vizinhas de bebês entre 14 e 16 meses de idade. As crianças foram avaliadas antes e depois da intervenção, que consistiu em uma sessão semanal de 90 minutos de duração durante 8 semanas consecutivas nas quais seus cuidadores foram treinados a praticar o
compartilhamento de livros com as crianças. Dois quesitos foram avaliados: habilidades de linguagem das crianças e atenção sustentada (VALLY et al., 2015).
Quanto às habilidades de linguagem das crianças, comparados às crianças no grupo de controle, os cuidadores que receberam o treinamento relataram que seus bebês conseguiam entender e vocalizar um número significativamente maior de palavras. Em relação ao segundo quesito, as crianças do grupo de tratamento mostraram um aumento substancial quanto à atenção sustentada, sendo que o grupo de controle não mostrou qualquer mudança após transcorridas as 8 semanas (VALLY et al., 2015).
No mesmo experimento as práticas de interação dos cuidadores com as crianças foram avaliadas durante o compartilhamento de livros e na realização de brincadeiras. Os cuidadores que receberam o treinamento melhoraram nos quesitos sensibilidade, profundidade da sua elaboração e reciprocidade durante o compartilhamento e, em menor grau, quanto à sensibilidade durante brincadeiras. Bebês do grupo de tratamento tiveram uma taxa significativamente mais alta de comportamento pró-social em relação aos do grupo controle e mostraram uma imitação mais frequente da interação pessoal com o seu cuidador (MURRAY et al., 2016b).
O estudo concluiu que o treinamento no compartilhamento de livros, que se trata de uma intervenção simples e barata que demonstrou beneficiar o desenvolvimento infantil em um país de baixa renda, também é promissora para melhorar os resultados socioemocionais de crianças na tenra idade nesse contexto. Os benefícios da intervenção são mediados por melhorias nas interações entre cuidadores e bebês, particularmente durante o compartilhamento de livros (MURRAY et al., 2016b).
4. A percepção de gestores, implementadores, pesquisador e mães sobre a