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2.4 O ENSINO SUPERIOR E OS POVOS INDÍGENAS

2.4.2 Programas de Ações Afirmativas para Indígenas

Paralelo às Licenciaturas Indígenas, também vêm sendo discutidos e implementados em IES públicas Programas de Ações Afirmativas que visam ao estabelecimento de vagas para os povos indígenas nestes centros de Ensino Superior. Estas propostas caminham na esteira da discussão sobre as cotas sociais e étnico-raciais que vêm acontecendo no Brasil desde o início deste século.

cresce anualmente. Com o processo de contato com a sociedade regional e a prática de integracionismo por muito tempo presente nos órgãos de assistência (SPI e Funai), tornou-se necessário para os indígenas ter acesso aos diferentes conhecimentos encontrados na sociedade envolvente, objetivando dominar valores e códigos sociais necessários ao diálogo pela demarcação de terras de ocupação tradicional. Esta demanda busca também orientar processos educativos para a valorização dos conhecimentos tradicionais indígenas, a partir do registro de saberes e práticas necessários à sua sobrevivência cultural. Para alguns dos 227 povos74 indígenas existentes no Brasil, a escola assimilacionista imposta pelos órgãos de

assistência por décadas passou a ser pacificada pelos índios e apropriada como meio de recuperar e revitalizar aspectos tradicionais necessários à sua sobrevivência física e cultural, como a língua indígena, os mitos, os ritos, os conhecimentos sobre o uso das ervas medicinais, etc. Nesse sentido, a busca pelos conhecimentos científicos nas universidades públicas e privadas constitui um instrumental necessário para o fortalecimento cultural e político destes povos. Porém, o acesso à rede pública de Ensino Superior por muito tempo apresentou-se distante da realidade indígena, devido à sua formação escolar ter sido por muito tempo embasada no currículo de escolas públicas. Hoje, diferentes instituições de Ensino Superior públicas federais e estaduais vêm discutindo esta situação e promovendo a construção de políticas internas de acesso socioeconômico e étnico-racial. Algumas experiências serão apresentadas na seqüência.

O Programa Ações Afirmativas na Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) vem provendo seminários para o debate sobre as Ações Afirmativas desde o ano de 2002, com o objetivo de mapear experiências de inclusão promovidas por instituições de Ensino Superior públicas brasileiras, nas quais vêm sendo desenvolvidos programas que visam a atender às demandas sociais, principalmente, aquelas que dizem respeito à democratização do acesso ao conhecimento. Em 2006, os membros do Programa de Ações Afirmativas apresentavam uma proposta de acesso aos cursos regulares da UFMG, para ser discutida com os oito povos indígenas do Estado (Pataxó, Maxacali, Xacriabá, Crenaque, Aranã, Caxixó, Xucuru-Cariri e Pancararu), como forma de atender às necessidades de formação superior destes povos. No entanto, a instituição não se pronunciou até o momento sobre a

74 Hoje, o Estado brasileiro reconhece a diversidade de povos indígenas que habitam o território nacional e que

somam entre 600 mil indivíduos, compreendendo 227 povos falantes de pelo menos 180 línguas específicas. Destes, 480.000 mil índios estão localizados em TIs, e os outros 120.000 mil indígenas vivem em diferentes centros urbanos. Calcula-se que, no momento da chegada dos colonizadores portugueses, existiam mais de 1.000 povos indígenas, perfazendo cerca de 2 a 4 milhões de pessoas. Dado capturado no site do Instituto Socioambiental http://www.institutosocioambiental.org.br/pib/portugues/quonqua/qoqindex.shtm, 4 de setembro de 2007.

implementação de um programa de ações afirmativas tanto para indígenas quanto para os negros, justamente quando as universidades públicas têm sido chamadas pelos movimentos sociais a discutir processos de democratização do acesso como combate às desigualdades raciais e sociais (MAD, 2007)75.

A UFMG também possui outro programa de acesso aos cursos de graduação em parceria com a Funasa, através do programa VigiSus, para o apoio de estudantes indígenas no Curso de Enfermagem da UFMG. Em 2006, duas estudantes do povo Umutina e um estudante do povo Karajá foram os primeiros a ingressar através de concurso vestibular neste curso em vagas específicas deste convênio. A intenção do programa é promover a formação de indígenas na área de Enfermagem para atuarem diretamente em suas comunidades, onde estarão avaliando as condições sociais e de saúde, propondo também melhorias na qualidade de vida dessa população indígena. (BRASIL, 2007c).

Outro programa de acesso ao Ensino Superior foi implementado na Universidade de Brasília (UnB) através de convênio estabelecido com a Funai. A universidade oferece dez vagas para candidatos indígenas nos cursos de Ciências Biológicas, Ciências Farmacêuticas, Enfermagem e Obstetrícia, Nutrição e Medicina. O primeiro vestibular contendo este programa de cotas foi realizado em 2006, com a participação de 1.176 candidatos indígenas que prestaram as provas em 19 pólos regionais da Funai (Belém/PA; Boa Vista/RO; Brasília/DF; Campo Grande/MS; Manaus/AM; Porto Seguro/BA; Recife/PE; São Gabriel da Cachoeira/AM e Tabatinga/AM). Este convênio foi assinado em 2004, porém, o acesso aos cursos da UnB até o primeiro processo seletivo76 direcionado especificamente para aos

indígenas em 2006 dava-se através de transferência de IES privadas (BRASIL, 2007c).

O Conselho Universitário da Universidade Federal do Paraná (UFPR) aprovou, em 2005, um Plano de Metas de Inclusão Racial e Social para esta instituição a ser implementado ao longo de dez anos. Em relação aos índios, foi definido que nos vestibulares de 2005 e 2006 seriam concedidas cinco vagas em caráter de extensão, sendo acrescidas duas vagas nos vestibulares de 2007 e 2008, e mais três vagas a partir de 2009, totalizando dez vagas preenchidas pelos indígenas através de convênios formalizados entre a UFPR e a Funai (BRASIL, 2007c).

A Universidade do Centro-Oeste (Unicentro/PR) possui um sistema de reserva de vagas desde o ano 2002, e cada uma das universidades públicas do Estado do Paraná

75 “Carta à Reitoria – Pela implementação de uma política de ações afirmativas na UFMG”. Capturado no site

http://madufmg.blogspot.com/, em 27 de agosto de 2007. (MOVIMENTO AFIRMANDO DIREITOS NA UFMG, 2007).

76 Para concorrer às dez vagas oferecidas pela UnB, os candidatos devem apresentar a auto-declaração de

destinava inicialmente três vagas para estudantes indígenas. Em 2006, uma lei estadual ampliou para seis o número de vagas em cada instituição. Ao todo, são oferecidas 43 vagas, sendo sete para a Universidade Federal do Paraná (UFPR) e seis para cada uma das instituições estaduais: Universidades Estaduais de Ponta Grossa (UEPG), Londrina (UEL), Maringá (UEM), Oeste do Paraná (Unioeste), Centro-Oeste (Unicentro) e Norte do Paraná (Uenp). Para a UFPR, concorrem candidatos de todo o País, e para as estaduais, candidatos de TIs e aldeias do Paraná. Como política de permanência, os estudantes indígenas recebem uma bolsa de R$ 350,00 oferecida pela Secretaria de Estado da Ciência, Tecnologia e Ensino Superior77 (GRUPO EDUCAÇÃO INDÍGENA 2, 2007).

A Universidade Federal do Estado de São Paulo (Unifesp) incorporou em seu processo vestibular de 2006 o sistema de cotas étnico-raciais para os candidatos negros, pardos e indígenas que cursaram todo o Ensino Fundamental e Médio em escola pública. Neste vestibular, foram concedidas 46 vagas distribuídas nos Campus de São Paulo e Baixada Santista. No edital para o vestibular de 2007, foram ampliadas as vagas para 107, divididas entre os Campus de São Paulo, Baixada Santista, Diadema e Guarulhos.

Outras universidades federais e estaduais oferecem atualmente vagas para os indígenas em seus sistemas de cotas: como o Tocantins, com um sistema destinado apenas aos indígenas com um total de 5% das vagas gerais disponíveis nos cursos de graduação; Bahia, com uma reserva de 2% no total de vagas destinadas às cotas para negros e egressos do ensino público; Maranhão; ABC Paulista, com duas vagas do total de 750 destinadas ao sistema de cotas; Mato Grosso do Sul, com 10% das vagas para os indígenas, somadas às vagas concedidas nas universidades estaduais, como: Minas Gerais (UEMG), com 5% das vagas; Amazonas; Goiás com 5% para índios e portadores de necessidades especiais78; e, Norte

Fluminense (UENF), com vagas para os indígenas desde 2003.

Na Universidade Federal de Santa Catarina, a discussão pela implementação de uma política de cotas para negros, indígenas e egressos do ensino público se iniciou no primeiro semestre de 2006 com a criação da Comissão para Ampliação do Acesso com Diversidade Socioeconômica e Étnico-Racial da UFSC, resultando na aprovação, pelo Conselho Universitário, em julho de 2007, de uma proposta que traz a seguinte divisão de vagas: 1) 20% (vinte por cento) são destinadas aos candidatos que tenham cursado integralmente o Ensino Fundamental e Médio em instituições públicas de ensino; 2) 10% (dez por cento) aos

77 Cada ano, uma das instituições é responsável pela elaboração e aplicação do concurso vestibular.

(EDUCAÇÃO INDÍGENA II, 2007).

78 A UFG implementou pela primeira vez o sistema de cotas no edital para o vestibular 2005/2, oferecendo 2%

das vagas para os indígenas e os portadores de necessidades especiais. No vestibular para 2006/1, o número de vagas passou para 3%, e em 2007/2, para 5% (UFG, 2007).

candidatos autodeclarados negros, que tenham cursado integralmente o Ensino Fundamental e Médio em instituições públicas de ensino; e 3) cinco vagas suplementares para candidatos indígenas. A proposta de ações afirmativas apresentada ao Conselho Universitário ainda prevê a implementação de uma política de permanência para estes estudantes durante a realização dos cursos de graduação, utilizando os recursos públicos “[...] para diminuir os efeitos das desigualdades e discriminações socioeconômica e étnico-racial no Ensino Superior, oportunizando o acesso e a permanência na Universidade de segmentos historicamente excluídos e discriminados” (UFSC, 2007).79

As experiências acima relatadas estão acontecendo impulsionadas pelas mudanças legislativas no Brasil desde a década de 1990 e pela construção de políticas de educação escolar específicas para os povos indígenas. No entanto, no que se refere às políticas de acesso ao Ensino Superior, muito há que caminhar no sentido de ampliar o acesso, bem como de viabilizar a permanência destes estudantes indígenas nos cursos de graduação em IES públicas.

Embora a Constituição Federal de 1988 (BRASIL, 1996) tenha assegurado o direito a uma educação escolar diferenciada, específica, intercultural e bilíngüe para os povos indígenas, e o seu artigo 231 refira-se aos indígenas como membros pertencentes a grupos étnicos diferenciados, portadores do direito de manter sua “organização social, costumes, línguas, crenças e tradições”, e não mais como uma categoria social fadada à extinção; como também garanta nos artigos 210 e 215 o uso da língua indígena e dos processos próprios de aprendizagem, não assegura o acesso dos indígenas aos cursos de graduação e pós-graduação dando continuidade em sua formação profissional.

O MEC, as Secretarias Estaduais de Educação, ONGs, IES públicas e organizações

79 Outras IES públicas apresentam programas de ações afirmativas, porém não foi possível trazer para este texto

no momento. Assim, apresentamos apenas uma listagem complementar contendo as universidades federais estaduais identificadas até o momento. Entre as Federais tem-se a de São Paulo (Unifesp), do Tocantins (UFTO), da Bahia (UFBA), do Maranhão (UFMA) e a do ABC Paulista (UFABC). Entre as universidades estaduais, tem-se: do Mato Grosso do Sul (UEMS), do Amazonas (UEA), de Goiás (UEG) e do Norte Fluminense (UENF). Outras universidades da rede pública com sistema de cotas para egressos do ensino público e afro-descendentes são: Escola Superior de Ciências da Saúde/Distrito Federal, Universidade Federal do Pará (UFPA), Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF), Universidade Federal de Alagoas (UFAL), Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN), Universidade Federal do Piauí (UFPI), Universidade Federal do Recôncavo da Bahia (UFRB), Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), Universidade Estadual da Bahia (UEBA), Universidade Estadual do Rio de Janeiro (UFRJ), Universidade Estadual do Norte Fluminense (UFNF), Universidade Estadual da Zona Oeste do Rio de Janeiro (Uezorj), Faetec do Rio de Janeiro, Universidade Estadual do Oeste do Paraná (UNIOESTE/PR), Universidade Estadual do Maranhão (UEMA), Universidade do Estado do Mato Grosso (UEMT), Universidade Estadual de Montes Claros/MG (UEMC/MG), Universidade Estadual de Feira de Santana (UEFS), Universidade Estadual do Rio Grande do Norte (UERN), Universidade Estadual de Pernambuco (UEPE), Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), Universidade do Estado de São Paulo (UESP), Fatec/SP e Universidade Estadual do Rio Grande do Sul (Uergs).

indígenas vêm desenvolvendo projetos para o ensino e a formação de professores índios, tomando como meta o respeito à interculturalidade, ao multilingüismo e à etnicidade, e também vêm investindo na produção de material didático-pedagógico específico para as escolas indígenas. Porém, é preciso pensar e desenvolver políticas públicas para a educação escolar e superior indígenas como forma de possibilitar o desenvolvimento dos conhecimentos científicos ocidentais com respeito às especificidades culturais e étnicas destes povos.80