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1.3 Desenvolvimento Sociocognitivo

1.3.1 Programas de Desenvolvimento Sociocognitivo

A promoção das habilidades sociocognitivas visa o desenvolvimento, refinamento e aprimoramento da compreensão do mundo social (Flavell et al., 1999). O aperfeiçoamento evolutivo sociocognitivo, por meio de situações que estimulem a criança a observar, pensar e avaliar as possíveis consequências antes de emitir uma resposta comportamental, contribui para o ajustamento social e o desenvolvimento infantil como um todo (Rodrigues & Tavares, 2009; Rodrigues & Ribeiro, 2011). Dentre os programas de desenvolvimento sociocognitivo, encontram-se na literatura aqueles que visam à promoção das habilidades de resolução de problemas (Borges & Marturano 2002, 2009; Rodrigues, Dias & Freitas, 2010), aprimoramento da competência social e redução dos comportamentos desadaptativos (Berlin et al., 2011; Fraser et al., 2005; Webster-Stratton & Reid, 2003), promoção da empatia (Rodrigues & Ribeiro, 2011) dentre outros.

Borges e Marturano (2002) objetivaram promover as Habilidades de Resolução de Problemas Interpessoais (HRPI) a partir de um programa já existente na literatura, proposto por Shure (2006) “Eu posso resolver problemas”. Participaram do estudo 55 crianças, pertencentes à 1ª série do ensino fundamental, das quais 31 foram inseridas no grupo de intervenção e 24 no grupo de comparação. O programa foi conduzido na escola, entre os meses de abril e outubro. As crianças foram avaliadas antes e depois da intervenção por meio

de um instrumento de habilidades de resolução de problemas. O programa foi avaliado, também, por meio de um diário de campo em que a professora registrava os problemas interpessoais ocorridos no dia a dia da sala de aula, do grupo de intervenção. Os resultados encontrados apontaram melhoras nas habilidades cognitivas de solução de problemas nos participantes da intervenção; o programa de HRPI estimula a criança a negociar conflitos levando em consideração o ponto de vista do outro. Encontrou-se, ainda, como dado do estudo, que as crianças que se envolviam em conflitos tiveram sua participação diminuída em ocorrências deste tipo ao longo do programa. No entanto, observou-se um efeito de “rebote” após a interrupção temporária do programa, no recesso de julho.

Sendo assim, visando uma melhor compreensão do resultado advindo do primeiro estudo, as autoras optaram em dar continuidade à proposta. Ampliaram, então, o objetivo para um programa multicomponente incluindo, além do ensino das habilidades de resolução de problemas, o ensino e a discussão dos valores humanos e a promoção do autocontrole emocional para a melhora da convivência em sala de aula (Borges & Marturano, 2009). Para esta segunda investigação, participaram 30 crianças de 1ª série, pertencente ao grupo da intervenção, e 31 crianças, também, de 1ª série compondo o grupo de comparação. As crianças participantes foram avaliadas através de pré e pós-teste investigando o desempenho prossocial e a percepção de estressores. Além disso, no grupo da intervenção, os conflitos interpessoais eram registrados dia a dia pela professora pesquisadora. O programa, conduzido na escola nos meses de abril a outubro, contou com três módulos: (a) o currículo “Eu Posso Resolver Problemas” (EPRP) (Shure, 2006) visando à promoção das habilidades cognitivas de solução de problemas, (b) um módulo de autocontrole emocional, que objetivava a autorregulação das emoções negativas por meio de técnicas de relaxamento; (c) um módulo de iniciação aos valores humanos, que visava a ampliação de respostas prossociais e a motivação prossocial dos alunos por meio de narrativas infantis. Os resultados apontaram efeitos positivos da intervenção, as crianças diminuíram consistentemente sua participação em conflitos interpessoais e melhoraram o desempenho prossocial; identificou-se um aumento na confiança depositada nos colegas quanto a receber ajuda e generosidade; as crianças tornaram-se, também, mais capazes de regular seu estado emocional em relação aos estressores inevitáveis da vida escolar. As autoras concluíram que o programa foi efetivo para a melhora da convivência infantil.

Ainda com base no programa de Shure (2006), “Eu posso resolver problemas”, Rodrigues, Dias e Freitas (2010) realizaram uma intervenção em 30 crianças, de 6-7 anos, com o objetivo de promover as HRPI e contribuir para um desenvolvimento socioemocional mais saudável dos participantes. O estudo envolveu pré e pós-teste para a investigação das habilidades sociais, bem

como incluiu observações não sistemáticas realizadas pelas pesquisadoras e professoras. O programa estruturou-se em 15 sessões, realizadas uma vez por semana, em contexto de sala de aula. Os resultados foram ao encontro daqueles encontrados por Borges e Marturano (2002, 2009); as crianças apresentaram maior capacidade de negociação mais assertiva, tornaram-se mais atenciosas para a escuta do outro e demonstraram mais iniciativa. As autoras concluíram que as crianças participantes tornaram-se mais ajustadas no que tange ao relacionamento interpessoal, mais capacitadas em promover soluções alternativas para problemas reais e fictícios e entender pares de solução-consequência.

Fraser et al. (2005) desenvolveram, em contexto educativo e familiar, um programa de resolução de problemas baseado nos passos do modelo de Dodge e Crick (1994). O programa, denominado Making Choices: Social Problem Solving Skills for Children (MC), reforça as habilidades de resolução de problemas por meio do ensino de como codificar e interpretar as informações sociais e ambientais; como identificar e manejar emoções; como gerar objetivos apropriados e emitir respostas adequadas em sala de aula. Os autores objetivaram a promoção da competência social e a redução do comportamento agressivo. Para os autores a competência social foi operacionalizada como habilidade sociocognitiva e habilidade de regulação emocional. Participaram do estudo três coortes, 548 crianças de 3ª série, em duas escolas. No primeiro ano de investigação, 2000-2001, as crianças não foram submetidas ao programa MC, porém avaliadas; no ano de 2001-2002, outras crianças inseridas na 3ª série participaram do programa visando a promoção de habilidades de resolução de problemas e nos anos de 2002-2003, novas crianças pertencentes à 3ª série participaram do programa, porém em uma versão plus, com orientação aos pais e professores. O programa MC, desenvolvido em sala de aula, conta com 22 sessões; o MC plus conta com atividades realizadas com pais e professores. Os participantes foram avaliados, antes e depois do programa, pelos professores, no que tange ao comportamento agressivo; e por suas próprias respostas a situações hipotéticas. Os resultados encontrados mostraram que depois do programa, as crianças participantes, tanto do MC, quanto do MC plus, tornaram-se mais competentes socialmente, elas passaram a se relacionar mais e melhor; constatou-se, também, diminuição do comportamento agressivo. Ainda como resultado do estudo, tem-se um aprimoramento da concentração cognitiva. Comparando MC e MC plus, os resultados foram melhores quando pais e professores colaboraram com o desenvolvimento infantil. Os resultados em questão corroboram os dados empíricos de outros estudos, apontando que intervenções orientadas para o processamento da informação social melhoram o ajustamento social infantil (Almeida, 2008; Dodge & Crick, 1994; Keil & Price, 2009).

Berlin et al. (2011) implementaram um programa denominado “STAR” a fim de facilitar a transição de crianças da educação infantil para o ensino fundamental. Participaram do estudo 100 crianças juntamente com suas mães, das quais 60 participaram da intervenção e 40 pertenceram ao grupo controle; as crianças participantes eram consideradas de risco para o insucesso escolar e com nível socioeconômico baixo. Segundo os autores, esta fase de transição pode ser facilitada se houver um preparo para as demandas cognitivas, escolares e sociais vividas pelas crianças. Nesta perspectiva, o programa visou a promoção da competência social, incluindo a resolução de problemas, a conscientização das emoções, o autocontrole, habilidades escolares e envolvimento parental. O programa “STAR” foi desenvolvido na escola, durante 5 semanas em subgrupos de 11-13 crianças. As atividades foram desenvolvidas no período de férias. O estudo contou, também, com 4 reuniões de pais e visita domiciliar. As crianças foram avaliadas por suas mães e professores quanto ao comportamento social, acadêmico e adaptação à rotina. Os autores concluíram que o programa mostrou-se benéfico; as crianças participantes do programa tornaram-se mais adaptadas e ajustadas às demandas escolares do ensino fundamental aprimorando, portanto, a competência social infantil

Ainda com o foco promotor de desenvolvimento sociocognitivo, há na literatura um programa de tratamento, porém não implementado na escola e voltado para um público específico, desenvolvido por Webster-Stratton e Reid (2003). Os autores elaboraram um programa de intervenção denominado de “The Dina Dinosaur”, destinado a crianças de 4 a 8 anos com problemas de conduta, problemas de atenção e rejeição. O programa conta com 18 a 22 sessões, de duas horas cada, sua implementação é ideal para ser conduzido simultaneamente com um programa de pais. O programa em questão estrutura-se em 5 componentes; o primeiro volta-se para o ensino de comportamentos esperados em sala de aula (saber ouvir, saber esperar), denominado de como fazer o seu melhor na escola; o outro componente volta-se para a compreensão e identificação de sentimentos; há dois componentes, voltados para o ensino de estratégias de solução de problemas; e por fim o último componente volta-se para como tornar-se amigável. Os procedimentos envolvidos na condução do programa são voltados para o ensino das habilidades sociais e cognitivas. Durante as atividades, desenvolvidas em grupo de no máximo 6 crianças, tem-se, também, uma preocupação com o desenvolvimento individual de cada participante, de modo que uma criança inserida no grupo pode, também, paralelamente às atividades, participar de outra intervenção. O programa, criado em 1990, vem sendo aprimorado e mostrando-se eficaz para o desenvolvimento sociocognitivo infantil, principalmente para aquelas crianças cujos pais

também se inserem em programas de intervenção. As crianças participantes da intervenção desenvolveram e aprimoraram suas estratégias de solução de problemas, estabeleceram mais interações positivas e reduziram a participação em conflitos interpessoais.

Rodrigues e Ribeiro (2011) investigaram a promoção da empatia por meio de um programa de desenvolvimento sociocognitivo, em 40 crianças, de 7 anos, das quais 20 participaram do grupo de intervenção e 20 pertenceram ao grupo controle. O objetivo do programa sociocognitivo era promover a linguagem mental e aprimorar o processamento das informações sociais dos participantes. O programa foi conduzido pela professora, durante oito meses, em contexto escolar e contou com a utilização de 38 livros de histórias infantis. As autoras investigaram os ganhos nas habilidades empáticas nas crianças participantes do programa. A pesquisa envolveu pré e pós-teste, com a utilização de um instrumento de investigação das habilidades empáticas. Os resultados evidenciaram respostas mais empáticas para as crianças participantes do programa. As autoras concluíram que o programa de desenvolvimento sociocognitivo tem impacto positivo sobre as habilidades empáticas.

Os resultados advindos dos programas que visam à promoção do desenvolvimento sociocognitivo são bastante promissores para a área do desenvolvimento. Aprimorar a competência social infantil a fim de contribuir para o ajustamento da criança e a promoção de relacionamentos saudáveis, vem ganhando cada vez mais destaque, tanto na literatura internacional quanto na literatura brasileira. Tem-se, portanto, a abordagem sociocognitiva em status de crescimento.

Neste campo crescente de conhecimento, encontra-se uma ferramenta útil, porém pouca explorada no contexto brasileiro, com o objetivo de promoção das habilidades sociocognitivas: os livros de histórias infantis (Rodrigues & Oliveira, 2009; Witter, 2004). Há na literatura um consenso indicando a viabilidade para o uso da literatura infantil como recurso promotor sociocognitivo e para a prevenção de comportamentos antissociais e agressivos (Almeida, 2008; Kalyva & Agaliotis, 2009; Rhail & Teglasi, 2003; Rodrigues & Tavares, 2009; Rodrigues & Ribeiro, 2011; Sberb & Maluf, 2008; Teglasi & Rhotman, 2001).

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