CAPÍTULO 1 – FORMAÇÃO CONTINUADA DE PROFESSORES NO BRASIL: A
1.4 PROGRAMAS DE FORMAÇÃO CONTINUADA DE PROFESSORES
Segundoo Relatório “Educação para todos no Brasil 2000-2015”, as políticas educacionais constituem-se de ações do governo visando concretizar orientações legais. Para Claudiana Melo (2015)essas políticas, sobretudo as de formação de professores, compõem um campo de conflitos no qual ocorrem avanços e retrocessos. Diante disso, diversas iniciativas governamentais foram tomadas no Brasil, embora algumas vezes, estas tenham apresentado descontinuidades, visto as mudanças ideológicas dos governos. Sempre que ocorrem trocas no poder, há mudanças nas linhas de investimentos, conforme buscaremos expor a seguir de forma breve.
Neste sentido, descreveremos algumas das iniciativas voltadas à formação continuada de professores criadas no Brasil a partir dos anos 2000 (em conformidade com o recorte temporal da pesquisa), a título de compreensão da trajetória vivenciada pelos docentes que se configuram o público alvo desta formação. Apresenta-se a seguir também, um organograma como forma de ilustrar os programas e ações desenvolvidas em nível de governo federal frente à formação continuada de professores da educação básica. Vale ressaltar, que o organograma compreende os programas como um todo, porém, debruçar-nos-emos apenas
nos programas que tiveram alcance ao Ensino Médio, visto que é nesta etapa que os professores de Filosofia atuam.
Figura 1 – Organograma: Programas de formação continuada de professores da Educação Básica
Fonte: Organograma organizado pelo autor, 2019.
A seguir, descreveremos os programas de Formação Continuada voltados para os professores que atuam com o ensino médio, a saber: REDE, Parfor e PNEM.
1.4.1 Rede Nacional de Formação Continuada dos Profissionais do Magistério da Educação Básica Pública
A Rede Nacional de Formação Continuada dos Profissionais do Magistério da Educação Básica Pública(REDE) é um programa que foi criado no ano de 2004, tendo por objetivo contribuir para a melhoria da formação dos professores, sendo que seu público-alvo prioritário são os professores da rede pública de Educação Básica.
A produção de materiais para os cursos de formação promovidos pela REDE fica a cargo das instituições de ensino superior públicas, federais e estaduais que integram a Rede Nacional de Formação de professores. Esse curso tem uma carga horária de 120 horas. Portanto, ao atuarem em rede, elas atendem às necessidades e demandas do Plano de Ações Articuladas (PAR) dos sistemas de ensino, conforme MEC (2004).
Esse curso de formação continuada é ofertado por áreas, a saber: alfabetização e linguagem, educação matemática e científica, ensino de ciências humanas e sociais, artes e educação física. Fica a cargo do Ministério da Educação oferecer suporte técnico e financeiro
e também de coordenar as atividades desenvolvidas pelo programa, que é implementado por adesão, em regime de colaboração, pelos estados, municípios e Distrito Federal.
Dessa forma, compõem a rede o MEC, os Centros de Pesquisa e Desenvolvimento da Educação e os Sistemas de Ensino – estes últimos, alocados nas universidades polos,ficando responsáveis pela oferta de programas de formação continuada. Destaca-se que as formações oferecidas por essa rede buscaram atender todos os professoresda educação básica, principalmente pelas determinações que foram assumidas na Cúpula de Dakar, em 2000. Essa cúpula teve como metas:
1. Expandir e melhorar o cuidado e a educação da criança pequena, especialmente para as crianças mais vulneráveis e em maior desvantagem; 2. Assegurar que todas as crianças, com ênfase especial nas meninas e crianças em circunstâncias difíceis, tenham acesso à educação primária, obrigatória, gratuita e de boa qualidade até o ano 2015; 3. Assegurar que as necessidades de aprendizagem de todos os jovens e adultos sejam atendidas pelo acesso equitativo à aprendizagem apropriada, a habilidades para a vida e a programas de formação para a cidadania. 4. Alcançar uma melhoria de 50% nos níveis de alfabetização de adultos até 2015, especialmente para as mulheres, e acesso equitativo à Educação básica e continuada para todos os adultos 5. Eliminar disparidades de gênero na educação primária e secundária até 2005 e alcançar a igualdade de gênero na educação até 2015, com enfoque na garantia ao acesso e o desempenho pleno e equitativo de meninas na educação básica de boa qualidade. 6. Melhorar todos os aspectos da qualidade da educação e assegurar excelência para todos, de forma a garantir a todos os resultados reconhecidos e mensuráveis, especialmente na alfabetização, matemática e habilidades essenciais à vida. (UNESCO, 2000, p. 8 - 9).
1.4.2 Programa Nacional de Formação de Professores da Educação Básica – Parfor O Programa Nacional de Formação de Professores da Educação Básica (Parfor) é um programa que fora instituído pelo Decreto n. 6.755, de 29 de janeiro de 2009. Este programa tem por objetivo ofertar vagas em cursos de licenciatura ou de segunda licenciatura para os professores da rede de educação básica de ensino que atuam sem uma formação em nível superior na área que lecionam. Buscou-se com este programa atender as normativas da Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (LDB – Lei nº 9.394/96), especificamente o art. 62, § 1º: “A União, o Distrito Federal, os Estados e os Municípios, em regime de colaboração, deverão promover a formação inicial, a continuada e a capacitação dos profissionais de magistério [...]”, a qual busca estabelecer uma formação mínima para os professores da educação básica. Desta forma, “[...] o MEC delegou à Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (CAPES) a responsabilidade pela indução, fomento e avaliação dos cursos no âmbito do Parfor” (BRASIL, 2014, p. 88).
Neste sentido, o programa do PARFOR foi uma medida de urgência adotada pelo governo visto a situação preocupante a qual se encontrava a educação e mais especificamente a formação docente para a educação básica. Essa medida fora adotada diante das pressões exercidas por instituições como aOrganização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura – UNESCO, no qual o governo buscou atenderas seis metas contidas no documento referente à“Educação para Todos” até o ano de 2015, supracitada.
Segundo Valente (2015), quando se lança um olhar para as repercussões referentes ao programa por parte dos docentes participantes percebe-se,
[...] a sede pela formação e a garantia desse direito historicamente almejado pelos nossos professores “leigos”, apresentaram como fator preponderante na avaliação do PARFOR. Para todos os professores entrevistados essa política foi boa e ajudou na transformação da prática pedagógica (VALENTE, 2015, p. 97).
Ainda segundo o autor,
[...] não podemos deixar de reconhecer a importância do PARFOR na vida de nossos professores que há anos vem sonhando com uma formação superior no interior da Amazônia. Especificamente no campus de Cametá-PA o PARFOR, por suas características de seleção, tem chegado a diversos municípios e atingindo centenas de professores que quase esquecidos fazem da precariedade estrutural da educação interiorana um desafio e uma batalha a ser vencida a cada dia (VALENTE, 2015, p. 98).
Portanto, deve-se ressaltar que o PARFOR foi de grande importância na formação de primeira ou segunda licenciatura para professores em algumas regiões do país e que eram “esquecidos” até a criação deste programa.
1.4.3Pacto Nacional pelo Fortalecimento do Ensino Médio – PNEM
O Pacto Nacional pelo Fortalecimento do Ensino Médio (PNEM) foi instituído através da Portaria nº 1.140, de 22 de novembro de 2013, e representa a articulação e a coordenação de ações e estratégias entre a União e os governos estaduais e do Distrito Federal para a formulação e implantação de políticas visando elevar o padrão de qualidade do Ensino Médio brasileiro em suas diferentes modalidades.
O Pacto Nacional pelo Fortalecimento do Ensino Médio é fruto de discussões realizadas nos últimos anos pelo Ministério da Educação - MEC, Secretarias de Estado da Educação, Conselho Nacional dos Secretários Estaduais da Educação (CONSED), Universidades, Conselho Nacional de Educação e Movimentos Sociais, igualmente como as
intensas discussões que foram realizadas no Fórum de Coordenadores Estaduais do Ensino Médio.
O PNEM, assim como outros programas de formação continuada, contribuiu para que os docentes dentre eles os professores participantes desta pesquisa, que atuam no ensino médio estivessem mais motivados para trabalhar com seus estudantes, os professores apontam também que o tempo que era destinado para os professores estudarem permitia uma aproximação, diálogos e consequentemente um fortalecimento do grupo de professores, sendo uma metodologia interessante de trabalho.
Essa formação destinada aos professores do ensino médio teve duas etapas, e supostamente haveria uma terceira etapa. No entanto, o PNEM não teve sequência, devido uma decisão governamental.
Percebe-se que a formação do PNEM,
[...] despertava a motivação nos professores para o trabalho, bem como a necessidade da formação continuada para a ocorrência de mudanças no espaço escolar. A realização do PNEM proporcionava momentos de aproximação entre os professores do ensino médio, discussão, reflexão, planejamento e problematização das dificuldades da escola, ações que confirmam a proposta de formação continuada de Candau (1996). Com o término da formação, os professores não dispõem mais desse tempo de diálogo específico entre si, para planejamento, troca de informações, articulação de um trabalho coletivo bem como para discussão das angústias (MORESCHO, 2017, p. 185).
Com o término do programa,
[...] não [se] interrompeu apenas as atividades com os professores do ensino médio, mas todo um trabalho que era impulsionado pela formação continuada proporcionada nesse período, em que os professores tinham um momento para encontrarem-se, estudar, refletir, dialogar, trocar experiências e executar ações na prática, com o aluno do ensino médio. A partir dos comentários dos orientadores de estudo, observa-se a necessidade da formação permanente, principalmente porque o professor se reconhece na condição de inacabamento e precisa estar em constante construção, necessita refletir criticamente sobre a prática a fim de que esta possa ser melhorada constantemente (MORESCHO, 2017, p. 186).
Essa certeza do fim do PNEM veio com a aprovação Medida Provisória 746, de 22 de setembro de 2016, imposta pelo presidente interino Michel Temer, que fora elaborada sem a participação dos profissionais do ensino. No ano de 2017 a MP 746 foi convertida na Lei13.415/2017, de 16 de fevereiro de 2017, na qual institui a Reforma do Ensino Médio (BRASIL, 2017a).
Diante das mudanças políticas transcorridas, pode-se observar o fim da formação do PNEM, se confirmando o apresentado por Gatti e Barreto (2009), que a formação continuada
fica comprometida com as descontinuidades administrativas, sofrendo sucessivas interrupções. E os professores – público alvo destas formações – como percebem estas descontinuidades, incertezas? Sentem-se desafiados a participar das formações? Como garantir uma educação pública de qualidade diante dessa conjuntura? Quais saídas poderiam sinalizar uma mudança no cenário atual? Diante destas inquietações, buscou-se pesquisas acadêmicas que discutem a temática, para que possamos encontrar alguns indícios de respostas. Convida-se o leitor para nos acompanhar nestas discussões.