CAPÍTULO II ENQUADRAMENTO TEÓRICO
4. Programas de mediação de conflitos escolares
A indisciplina e violência são preocupantes porque deterioram o ambiente escolar, dificultam a relação educativa de toda a comunidade, dificultam o processo de aprendizagem, geram tensão e problemas e favorecem o fracasso escolar.
Os programas de resolução de conflitos e de mediação no contexto escolar estendem-se por todo o mundo e, actualmente, existem experiências maduras na Argentina, Brasil, Nova Zelândia, Austrália, Canadá, França, Grã-Bretanha, Suíça,
Investigações realizadas demonstram que a mediação é uma forma alternativa para resolver os conflitos, que não se limita a procurar resolvê-los. Esta técnica, integrada num programa de mediação prevê e permite o desenvolvimento de habilidades sociais e de autonomia, que melhoram a sua capacidade comunicativa e auto-estima dos participantes. Aumentam, assim, a capacidade de auto-regulação antes dos conflitos e, consequentemente, reduzem o tempo que os professores e direcção têm para resolver conflitos.
A transferência para o universo escolar dos programas de resolução de conflito partiu do pressuposto de que o conflito é parte integrante da vida social. Como tal, constitui uma oportunidade de aprendizagem e de crescimento pessoal tanto para a sociedade no geral como para a comunidade escolar em particular.
Segundo Martín Peréz (2003: 76) os programas de gestão de conflitos têm por objectivo ―promover uma cultura escolar que, assumindo o conflito como um fenómeno normal, o integra como uma oportunidade de crescimento dentro da comunidade escolar (e não como um elemento de ruptura) ‖.
Para o autor, os motivos que justificam a promoção destes projectos são:
O conflito é uma realidade nas escolas e para as pessoas. É melhor abordá-los com naturalidade do que evitá-los;
Hoje, o sistema escolar não oferece sistemas efectivos e apropriados para abordá-los. Por isso, precisam de sistemas mais efectivos;
A aplicação destas técnicas pode melhor a comunicação entre toda a comunidade educativa;
Trabalhar estas técnicas ajuda os alunos e professores a entenderem-se melhor;
O uso da mediação ajuda a reduzir a violência, o absentismo escolar, etc;
Este método move a responsabilidade, dos adultos para os alunos, de solucionar problemas na escola, permitindo que os professores dediquem os seus esforços mais no ensinamento que na disciplina;
Aceitar que os alunos são capazes de gerir os seus próprios problemas ajuda ao seu crescimento pessoal e dota-os de um conjunto de qualidades básicas para a convivência;
Treinar estas competências prepara os alunos para o mundo multicultural e para a diversidade.
O conteúdo dos programas de mediação escolar devem abarcar aspectos que ajudem os alunos a gerir os conflitos, daí que o desenvolvimento e aplicação destes programas procurem trabalhar a sua realização pessoal, promovendo atitudes tolerantes, respeitadoras, responsáveis, cumpridoras, críticas, reflexivas, colaboradoras, comunicativas e participativas.
Os conteúdos destes programas podem ser variados, no entanto, existem conteúdos essenciais. São eles:
Tabela 10
Conteúdos essenciais de um programa de mediação de conflitos (Martin Perez, 2003)
1. Compreender o conflito
a. Conhecer a sua natureza; b. Analisar as suas dimensões;
c. Descobrir os indicadores de agravamento do conflito; d. Identificar os estilos de soluções de conflitos.
2. Reduzir o conflito
a. Manter a calma; b. Escutar activamente;
c. Expressar-se de forma respeitosa; d. Clarificar a situação pessoal; e. Expor os pontos de vista; f. Compartilhar o poder;
g. Conciliar as obrigações e as necessidades. 3. Resolver o
conflito
a. Abordar o conflito de forma colaborativa;
b. Tratar o conflito mediante a solução de problema; c. Avaliar o processo de gestão de conflito.
Segundo Martín Peréz (2003) os objectivos gerais dos programas de mediação são:
a) Sensibilizar professores, pais, alunos e pessoal não-docente sobre a importância de resolver os conflitos positivamente;
Os objectivos específicos são apresentados da Tabela 10:
Tabela 11
Objectivos específicos de um programa de mediação (Martin Pérez, 2003)
Dimensão cognitiva Dimensão afectiva Dimensão comportamental
Identificar o conflito como uma parte da realidade e como algo positivo; Analisar os conflitos, explorando as diferentes forma de actuar; Reconhecer a mediação como método de gestão de conflitos;
Estar abertos a alterar as próprias opiniões em contraste com outras propostas educativas, racionais e positivas. Respeitar e valorizar os companheiros; Apreciar o valor da cooperação; Valorizar a importância das aptidões comunicativas e as técnicas de gestão de conflitos, especialmente a mediação. Actuar assertivamente com as pessoas da escola; Realizar trabalhos e jogos cooperativos; Exercitar-se na gestão de conflitos através da mediação e outras técnicas.
Os programas de mediação de conflitos têm como característica principal o envolvimento de toda a comunidade educativa – professores, alunos, pais e não- docentes – com a finalidade de aprender a resolvê-los e a criar um ambiente de participação e convivência.
Deste modo pretendem criar um clima democrático e participativo entre toda a comunidade educativa, dar oportunidade aos alunos de se sentirem responsáveis para colaborar na gestão dos conflitos escolares, permitindo que os professores e a direcção da escola se ocupem mais do educativo que do disciplinar, favorecer uma atitude positiva de todos os membros da comunidade educativa sobre a gestão de conflitos escolares e prevenir e gerir adequadamente os conflitos
A oportunidade de criar e desenvolver um programa numa escola permite, assim, a construção de um espírito mediativo (Corbo Zabatel, 1999), que implica uma cultura institucional onde a escuta é possível, tal como o questionamento das práticas tradicionais.
Este espírito implica reconhecer o potencial da aprendizagem social e experiencial inato da mediação, aproveitar as oportunidades que a aula e a escola dão para, em vez de silenciar, poder pensar o conflito como uma oportunidade de crescimento pessoal e social, promover a cidadania e reconhecer o paradigma da responsabilidade inclusiva.
A prática da mediação não é apenas uma forma de resolver conflitos. Integrada num programa de mediação é ainda ―uma forma de gestão da vida social e, também, é uma transformação social‖ (Corbo Zabatel, 1999:148), e o seu sucesso depende do envolvimento de toda a comunidade.
O programa de mediação de conflito numa escola ―de pouco servirá que as crianças e os jovens estudantes sejam sensibilizados e treinados para uma cultura de diálogo, de escuta e de pacificação das relações interpessoais, se o discurso de educadores e docentes for incoerente com esta postura.‖ (Morgado & Oliveira, 2009: 50).
Para Mateus (2013) não basta apenas implementar um programa de mediação que promova a resolução cooperativa dos conflitos, mas sim uma ―mudança paradigmática do sistema educativo, considerando como princípio orientador da educação, para além de qualquer contexto socioeconómico ou político, o primado do desenvolvimento integral do ser humano.‖ (p.273).
Em tom de conclusão deste capítulo refiro Veríssimo & Lamas (2013) que evidenciam e valorizam o trabalho empírico que tem vindo a ser desenvolvimento através da investigação e trabalhos empíricos sobre a mediação, enfatizando os procedimentos e modelos construídos que procuram promovem uma vivência positiva da cidadania, nomeadamente no campo socioeducativo.