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Programas de Residência Multiprofissional em Saúde

4 ESTUDO DO CASO

4.1 Programas de Residência Multiprofissional em Saúde

Os Programas de Residência Multiprofissionais em Saúde estão entre as estratégias governamentais para abrir caminho para um modelo preventivo com implantação de ações promotoras de saúde e, participação multidisciplinar das diferentes profissões que compõem este campo de atuação (CECCIN; FERLA, 2009).

Considerada uma modalidade de ensino de pós-graduação lato sensu os programas de residência visam à formação de profissionais para a assistência, gestão e ensino. Destinam-se às profissões que se relacionam com a área da saúde, sob a forma de curso de especialização, caracterizado por ensino em serviço, com carga horária de sessenta horas semanais (BRASIL, 2006).

A primeira categoria de residência foi com a medicina no final do século XIX nos Estados Unidos (EUA) com os professores Osler e Hausted, do John Hopkins Hospital (SILVEIRA, 2005). No Brasil esta prática teve início em 1940, influência do modelo americano, centrado no modelo biomédico de clínica tradicional nas organizações hospitalares, com maior ênfase após a publicação do Relatório Flexner3.

Juntamente com a expansão da residência médica, em 1960 ocorreu o início da Residência de Enfermagem, em São Paulo, no Hospital Infantil do Morumbi, com o objetivo implícito de complementar a formação do enfermeiro recém-graduado, observando as necessidades do mercado de trabalho.

Em 1977 foi criado o Conselho Nacional de Residência Médica (CNRM) e definidos os requisitos mínimos para algumas especialidades médicas. Outras residências apenas em 1983 tiveram seus critérios de admissão regulamentados (BRASIL, 2008).

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O relatório de Flexner: Publicado em 1910, centraliza o trabalho da medicina no modelo hegemônico, tradicional, no cuidado intra-hospitalar com práticas medicamentosas, com influência em todo o mundo ocidental, seguida da formação das demais.

Em 1976, surgiu a primeira Residência em Saúde Coletiva no Centro de Saúde Escola Murialdo da ESP/RS (CECCIN; ARMANI; 2001). No ano de 1977, na Escola de Saúde Pública do Rio Grande do Sul (ESP/RS), surgiu a residência médica junto à residência de enfermagem compondo a então denominada Residência Multiprofissional em Saúde (RMS), sendo o primeiro programa com inclusão de mais de uma categoria profissional em atuação.

Concomitante a isso, a Declaração da Alma-Ata4, foi tida como marco histórico do início das discussões relacionadas à atenção primária da saúde, proporcionando o enfoque de visão integrada, valorizando o trabalho da área da saúde de forma a contemplar a integralidade do indivíduo.

Os primeiros itens da declaração reafirmaram a definição de saúde defendida pela OMS, como o completo bem-estar físico, mental e social, e não simplesmente a ausência de doença ou enfermidade, e a defendem como direito fundamental e como a principal meta social de todos os governos (MENDES, 2004).

No ano de 2003 o Ministério da Saúde propôs a RMS como um projeto nacional (BRASIL, 2010). Entendendo a necessidade de uma estratégia transformadora das práticas de formação dos trabalhadores de saúde, algumas instituições que vinham com a implantação da residência médica em desenvolvimento, lançaram o desafio de implantar as Residências Integradas em Saúde (RIS) ou Residências Multiprofissionais em Saúde (RMS).

As RIS são programas de formação de profissionais para o SUS através da inclusão das residências multiprofissionais e médicas em um único programa, enquanto que as RMS são programas independentes das residências médicas. A construção entre Ministério da Saúde e Ministério da Educação, por intermédio da Portaria nº 45, legitimou a criação da Comissão Nacional de Residências Multiprofissionais em Saúde (CNRMS).

A RMS foi criada pela Lei Federal nº 11.129, de junho de 2005, orientada pelos princípios e diretrizes do SUS, conforme as necessidades regionais e locais da implantação do serviço. Abrange as seguintes áreas das profissões de saúde: Biomedicina, Ciências Biológicas, Educação Física, Enfermagem, Farmácia, Fisioterapia, Fonoaudiologia, Medicina Veterinária, Nutrição, Odontologia, Psicologia, Serviço Social e Terapia Ocupacional (BRASIL, 1998).

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A Declaração de Alma-Ata: Formulada por ocasião da Conferência Internacional sobre Cuidados Primários de Saúde, reunida em Alma-Ata, no Cazaquistão, entre 6 e 12 de setembro de 1978, dirigindo-se a todos os governos, na busca da promoção de saúde a todos os povos do mundo.

O Ministério da Saúde elaborou, por meio do Departamento de Gestão da Educação na Saúde (DEGES/SGTES), as portarias que regulamentam a lei e subsidiam o financiamento das RMS: Portaria nº 1.111, de 5 de julho de 2005, Portaria nº 1.143, de 7 de julho de 2005 e Portaria Interministerial nº 2.117, de 3 de novembro de 2005.

Foi a partir do Movimento da Reforma Sanitária que o processo de construção e implantação do SUS no Brasil teve origem, como um amplo projeto de saúde coletiva. Sua consolidação foi a partir da VIII Conferência Nacional de Saúde que, em 1986, delineou os princípios que seriam a base para o SUS, proposto pela Constituição de 1988 (BRASIL, 1990).

Frente a isso, a evolução sociocultural das organizações da saúde teve mudanças estruturais em todas as instâncias do controle social, fazendo com que os serviços de saúde redirecionassem seu modo de atuação a fim de operacionalizarem os processos de trabalho (FRANCO; MERHY, 2012; MERHY, 1995; VISEU et al., 2012).

Na visão de Ceccim e Feuerwerker (2004, p. 43) a formação dos profissionais da saúde não deve se limitar apenas à busca eficiente de evidências ao diagnóstico, cuidado, tratamento, prognóstico, etiologia e profilaxia das doenças e agravos. Para os autores é necessário ir além desse paradigma, buscando condições que consigam suprir as “necessidades de saúde das pessoas e das populações, da gestão setorial e do controle social em saúde, redimensionando o desenvolvimento da autonomia das pessoas até a condição de influência na formulação de políticas do cuidado”.

O PRMS da UFSM/RS está embasado pelos pressupostos do Ministério da Saúde e Ministério da Educação. Possui como característica a integração entre os três níveis de atenção, ou seja, primário, secundário e terciário dispondo sobre dispositivos necessários à sua implantação, tendo como unidade administrativa o CCS da UFSM.

Possui como objetivo qualificar os profissionais atendendo às exigências dos pressupostos do sistema de saúde brasileiro, formando sujeitos atuantes, críticos com potenciais de inovar nas decisões sócio-políticas da sociedade (BRASIL, 2010; UFSM, 2010).

O PRMS da UFSM constitui-se de uma modalidade de ensino de Pós- graduação Lato Sensu para profissões da área da saúde, com duração de 24

meses, equivalendo a uma carga horária mínima de 5.760 horas para cada Programa, sendo que, 1.152 horas (20%) são destinadas às atividades teóricas e teórico-práticas e 4.608 horas (80%) às atividades práticas, distribuídas em 60 horas semanais, devendo ser cumpridas em regime de tempo integral e de dedicação exclusiva, com direito a uma folga semanal.

A proposta principal do Projeto Pedagógico visa a ensino-serviço, desenvolvidos por intermédio de parcerias dos três programas com os gestores, trabalhadores e usuários das instituições parceiras: hospital de ensino da UFSM (HUSM), 4ª Coordenadoria Regional de Saúde (4ªCRS/RS) e Secretaria do Município de Saúde de Santa Maria/RS.

Esta iniciativa tem a perspectiva de potencializar a capacidade dos profissionais com vistas a novos modelos de formação, agregando valores no contexto da saúde, formando indivíduos com perfis dinâmicos, integrados e fundamentados nas premissas do SUS.

O PRMS da UFSM possui como diretrizes político-pedagógicas estratégias metodológicas a formação de profissionais com competências para atuarem no Sistema Público de Saúde, tendo a atenção primária (rede básica), intermediária (atendimentos ambulatoriais e especialidades clínicas) e terciária (rede hospitalar) como cenário orientador e balizador do processo de formação (UFSM, 2010).

Como já citado, existem três programas de residência multiprofissional em saúde, demonstrados na Figura 8, os quais integram as três instâncias do cuidado, subordinados a uma coordenação geral.

Figura 8 – Programas de Residência – CCS/UFSM

Fonte: Adaptado de Cecílio (1997).

Norteado pelos Princípios e Diretrizes do SUS o PRMS da UFSM possui como meta formar profissionais com capacidades para atuarem de modo interdisciplinar, intersetorial e interinstitucional, constituindo a lógica da tríplice integração5 (UFSM, 2010).

A lógica da tríplice integração não foca apenas uma transmissão do conhecimento, mas sim, como este conhecimento é compartilhado entre os indivíduos que fazem parte dos programas, contribuindo para melhorar os processos de trabalho nas três instâncias da assistência à saúde.

Diante do exposto, os resultados esperados com a implantação do PRMS da UFSM, na região centro-oeste do Estado do Rio Grande do Sul, inclui os seguintes objetivos, com base no Projeto Político Pedagógico (UFSM, 2010):

Impacto no Sistema Público de Saúde;

Produção de novas tecnologias de ensino-gestão-atenção com transformação das modalidades de produção de saberes e práticas de saúde, integrando o sistema de saúde loco-regional;

Fomento de novas metodologias de gestão;

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A tríplice integração do PRMS da UFSM, esta fundamentada nas ações integradas dos três níveis de atenção: primário, secundário e terciário.

PRM em Sistema Público de Saúde PRM em Saúde Mental PRM em Gestão e Atenção Hospitalar Tríplice Integração

Implementação de novos sistemas e mecanismos de comunicação e informação que promovam desenvolvimento, autonomia e protagonismo das equipes e população;

Desencadeamento de mudanças em torno dos saberes e práticas vigentes no campo da formação e atenção à saúde;

Exploração de novas diretrizes didático-metodológico-pedagógicas que mobilizem ações teórico-práticas, balizadas pelos princípios de campo e núcleo;

Incentivar e capacitar para o desenvolvimento e utilização da pesquisa como ferramenta para planejamento, programação, implementação e avaliação das ações de gestão e atenção em saúde.

Nessa perspectiva, entende-se que as diretrizes das políticas públicas de saúde representem a base para a formação profissional, consequentemente, um articulador nos processos de tomada de decisões, bem como, na criação de alternativas estratégicas no campo de gestão e atenção, imprescindíveis para as mudanças necessárias à sua consolidação.

Diante do exposto, potencializar a integração das ações de saúde, conforme proposta dos programas de residência em pauta proporciona um espaço de troca de saberes e experiências que possibilitam aproximar a formação do aprendizado alinhada às necessidades do sistema de saúde (MEHRY, 1997).