Capítulo II – Stress
3. PROGRAMAS DE TREINO PARA GESTÃO DE STRESS
Os programas de treino para lidar com o stress, foram surgindo de uma forma
sistemática, acompanhando o ritmo da investigação e a necessidade de aprender mais
sobre este tema. Por sua vez, este é de natureza complexa, onde é necessário ter em
conta não só os acontecimentos de vida mas também as expectativas e crenças que
motivam as pessoas; assim como as suas avaliações acerca de si próprias e das
situações, das emoções sentidas em cada momento deste processo, e das manifestações
vegetativas, corporais, comportamentais que são o reflexo da sua experiência vivida
espaço de tempo e envolvem o comportamento, emoções, sensações, imagens,
cognições, relações interpessoais e respostas biológicas e psicológicas. O conjunto das
intervenções com o objectivo de melhorar a forma como a pessoa lida com as situações
de stress requerem programas que abordem as várias dimensões do conceito
(Spielberger et al, 1986). Existem na bibliografia numerosos planos de actuação
adequados à sintomatologia dos doentes. No quadro seguinte sistematizamos essas
Quadro 2 – Técnicas de intervenção de acordo com os vários sintomas, Davis, e tal. – Manual de Relaxamento e Redução do Stress, Summus, S. Paulo, 1996
Técnicas
Sintomas
Relaxamento
fisiológico Respiração Meditação Visualização Auto- hipnose Treino autógeno Parar os pensamentos ideias irracionais Treino de habilidades Treino de assertividade Administrando o tempo Técnicas rápidas de combinação
Biofeedback Nutrição Exercício
Ansiedade em situações específicas (testes, prazos, entrevistas,...) X X x X X X X X X Ansiedade nos relacionamentos pessoais (parceiro, pais, filhos,...) X X X X Ansiedade geral (independente da situação ou das pessoas envolvidas) X X X X X X X X X X Depressão, desesperança, impotência, pouca auto-estima X X X X X X x x Hostilidade, raiva, irritabilidade, ressentimento X X X X X x x Fobias, medos X X X X Obsessões, pensamentos indesejáveis X X X Tensão muscular X X X X X X X x Tensão sanguínea elevada X X X X X x x Dores de cabeça, dores no pescoço, dores nas costas
X X X X X x x Indigestão, intestinos irritáveis, úlceras, obstipação crónica X X X X X x x Espasmos musculares X X X X x Fadiga, cansaço constante X X X X X x x Insónia, problemas de sono X X X X X x x Obesidade x x Fraqueza física x Stress no trabalho X X X
3.1. Intervenções Sensoriais
Estes tipos de intervenções englobam as terapias de relaxamento que têm por
objectivo diminuir a actividade do sistema nervoso simpático, aumentada nas situações
de stress. A utilização destas terapias provou ser eficaz nos indivíduos com
personalidade tipo A (que como já foi dito é caracterizada por comportamento
agressivo, muito competitivo, discurso rápido, impaciência e hostilidade), na
diminuição do colesterol e da tensão arterial (Trzcienniecka and Steptoe, 1996). No
campo da Medicina tem havido um investimento que visa a eficácia do tratamento das
doenças originadas pelo stress. São técnicas cujos objectivos são a prevenção da doença
e o desenvolvimento de condições psico-afectivas que contribuem para o bem-estar da
pessoa.
Faremos de seguida a descrição de uma Terapia de Relaxamento.
3.1.1. Terapia de Relaxamento Fisiológico
Consiste num método de relaxamento, o qual parte do princípio que de uma forma
geral as pessoas não conseguem perceber qual o músculo ou grupos musculares que
ficam tensos nas situações de stress. Esta técnica permite a sua identificação,
aprendendo a diferenciar as sensações de tensão e de relaxamento profundo. São
abrangidos os músculos que pertencem ás seguintes zonas corporais:
1. Ombros, braços, antebraços e mãos;
2. Nádegas, coxas pernas pés;
3. Tórax abdómen costas;
A técnica pode ser executada na posição deitada ou sentada. Cada grupo muscular é
contraído durante 7 a 10 segundos e depois relaxado durante 20 a 30 segundos.O autor
defende que existem factores psicológicos que provocam, stress, com consequente
hipertonia e tensão muscular, ansiedade e alteração do ritmo respiratório. A abordagem
é essencialmente fisiológica, mas quando se trabalha o corpo provoca efeitos
psicológicos mais desinibidos.
Na aplicação desta técnica de relaxamento, indivíduo deve estar confortavelmente
deitado ou sentado. Cada sessão tem a duração de 50 minutos, duas ou três vezes por
semana durante um período de tempo adequado onde se pretende que a pessoa aprenda
as técnicas e depois as possa utilizar sozinha sem a ajuda do terapeuta. O método
consiste na utilização de contrastes entre situações de contracção muscular e
descontracção. Numa etapa seguinte, utiliza-se a focalização e concentração no tórax e
sua contracção, usando técnicas respiratórias para melhor percepção do movimento
costal, na última etapa, tenta-se que o sujeito sinta alterações musculares promovidas
pela descontracção que tem como objectivo aprender a relaxar os músculos contraídos.
O objectivo desta aprendizagem é passar toda esta técnica para a vida quotidiana
(Mitchel, 1983). O método consiste na utilização de contrastes entre situações de
contracção muscular e descontracção, com o objectivo de controlar a tensão e substitui-
la voluntariamente por uma sensação agradável de bem-estar. Baseia-se na Inibição
Recíproca, esta é definida como uma organização revezada de actividade muscular
usando diferentes níveis de controlo excitatório e inibitório em que existem músculos
activamente encurtados e outros activamente alongados em simultâneo. A Inibição
Recíproca serve de ponto de referência para o movimento. Como complemento esta
técnica exercita o reconhecimento consciente das posições de relaxamento. Nesse
1. Faça o movimento
2. Pare
3. Registe a nova posição dessa parte do corpo
Como exemplo para a tensão dos ombros temos as seguintes ordens:
1. Estire ou leve os seus ombros na direcção dos pés (ordem positiva, consciente e
voluntária)
2. Pare de estirar ou deixe de fazer força
3. Sinta a articulação
4. Registe a nova posição e as sensações (descrevendo a posição da articulação
dando o máximo de pontos de referência, e as sensações da pele).
3.2 . Saúde e intervenções sobre os estilos de vida
Este conjunto de intervenções visa, essencialmente que o indivíduo adopte um
estilo de vida mais saudável. Considera-se estilo de vida saudável aquele em que a
pessoa se empenha num modelo de actividades positivas, com regularidade diária
(Sands and Wilson, 2003).
Neste grupo de estratégias são incluídos planos educacionais relativos ao
exercício físico, actividade física, nutrição, consumo de álcool e tabaco.
Os problemas relacionados com a nutrição, consumo de álcool e tabaco, surgem
pelo facto dos indivíduos reagirem a situações de stress com comportamentos
desajustados tais como comerem mais açúcares simples de absorção rápida, fumarem,
3.2.1. Exercício físico
Existe na literatura uma diferença precisa entre actividade física (AF) e exercício
físico (EF). A actividade física é definida como qualquer movimento corporal que
resulta da acção dos músculos esqueléticos através de um consumo de energia; e o
exercício físico é um movimento corporal, planeado, estruturado e repetitivo e a sua
execução é feita para traduzir uma manutenção ou melhoramento dos componentes da
boa forma física. Com base no referido existe uma perspectiva de intenção que no
primeiro caso, realça as mudanças físicas e biológicas que ocorrem tanto automática
como intencionalmente, e no segundo, as mudanças físicas e biológicas que ocorrem
são resultado de movimentos intencionais. (Leung, et al, 2007).
Outros autores contextualizam as diferenças estabelecidas entre AF e EF como
uma distinção que reflecte a diferença entre o exercício físico intensivo que serve para
manter a boa forma cardiovascular e a actividade física moderada que resulta em
mudanças no estado de saúde com implicações no estado biológico e psicológico
(Bensimhon et al. 2007).
A maioria dos programas para lidar com o stress inclui a sugestão da prática de algum
tipo de EF, uma vez que os autores são consensuais ao referir que este pode reduzir o
distress, levando aos seguintes benefícios: (Karapolat et al., 2007):
- Redução dos estados ansiosos