AS AÇÕES DO PODER PÚBLICO E SUAS DIFICULDADES NO COMBATE À VIOLÊNCIA DOMÉSTICA
3.2 PROGRAMAS DESENVOLVIDOS NO ESTADO DE GOIÁS
A proposta dos grupos reflexivos, viabilizada pela LMP, é realizada em alguns municípios do estado de Goiás. Em Rio Verde, a Clínica Escola de Psicologia (CLIEP), é um núcleo de extensão da Universidade de Rio Verde que capacita alunos do curso de psicologia na área clínica. Motta et al (2018, p. 02) explica que:
os grupos reflexivos com abordagem responsabilizante “Justiça e Paz em Casa’’ se inscrevem no Projeto de Extensão ‘’Psicologia e Direito: Saúde, Cidadania e Justiça ao Alcance de Todos’’. Trata-se de uma parceria entre a Faculdade de Psicologia da UniRV e o Tribunal de Justiça do Estado de Goiás (TJGO), comarca de Rio Verde, pelo Juizado de Violência Doméstica Contra a Mulher e Defensoria Pública de Rio Verde. O objetivo dos grupos é promover a reflexão sobre as violências praticadas contra mulheres, responsabilizando os autores por tais atos. O público-alvo são homens autores de violência doméstica e/ou familiar encaminhados pelo Juizado e/ou Defensoria Pública. A prática nos grupos pauta-se na metodologia do Instituto Noos, posteriormente comentada (Acosta, Andrade Filho &Bronz, 2004). Deste modo, caracteriza-se como um trabalho social de ampliação do acesso à justiça e à cidadania, considerando-se que os discentes atuam como multiplicadores do conhecimento teórico, apreendido em sala de aula, proporcionando, assim, a participação em situações concretas, e despertando a necessidade de um desenvolvimento contínuo de ações solidárias, humanísticas e éticas
que contribuirão na formação de profissionais justos, éticos e íntegros.
Este dispositivo pedagógico é um compromisso social e possibilita que discentes fomentem uma visão mais crítica e obtenham uma formação científica. Os grupos reflexivos no município de Rio Verde tiveram início em 2017, sendo conduzidos por discentes do curso de psicologia, sob supervisão. Os participantes do projeto “Justiça e Paz em Casa” passaram por todas as fases, desde a triagem psicológica, finalizando com os encontros.
Motta et al (2018, p. 04) esclarece que:
nos grupos haviam autores de violência física, psicológica, patrimonial e moral contra mulheres, parceiras íntimas, genitoras e filhas. Os instrumentais técnicos utilizados para a condução dos grupos foram a observação clínica, a escuta qualificada, as intervenções verbais e as técnicas de dinâmica de grupo. Nos grupos, várias temáticas foram trabalhadas, como as masculinidades, papéis de gênero, relacionamento conjugal, tipos de violência contra a mulher, estratégias de resolução de problemas, consequências do comportamento violento, preconceito de gênero, entre outras. As propostas de temáticas surgem da compreensão diagnóstica, bem como do referencial de programas nacionais.
Foi relatado por facilitadores e co-facilitadores que os homens agressores participantes dos grupos reflexivos em Rio Verde tiveram, inicialmente, dificuldade em se auto-responsabilizariam por seus comportamentos agressivos, por vezes justificando seus conflitos familiares e demonstraram-se inseguros com a participação dos alunos. Para tanto, foram utilizadas estratégias confrontantes para conscientização do grupo, visando seu fortalecimento para que o trabalho de crenças e comportamentos fosse recebido da melhor forma.
Motta et al (2018, p. 06) considera que:
os grupos reflexivos ‘’ Justiça e Paz em Casa’’ mostraram-se como elementos pedagógicos imprescindíveis [...] mediante as demandas do grupo, o discente entra em contato com a realidade social, deparando-se com limitações, o que possibilita a busca de resolução. Assim, a prática extensionista revela-se como oportunidade da construção de um futuro profissional para o Brasil que mediante uma visão crítica busque solução para problemáticas sociais. Trata-se de caminhos iniciais para um modelo de universidade implicada com as demandas sociais emergentes, a considerar o período de início de sua execução. Afinal, ciência é ciência para a sociedade! Trata-se de fomentar práticas que possibilitem tecnologias que visem à promoção da justiça e dos direitos humanos. O projeto pauta-se na ética do
compromisso social, promovendo uma formação científica sólida. Ademais, não podemos desconsiderar a importância dos grupos reflexivos para a comunidade como um todo.
Portanto, esse processo grupal permitiu aos discentes uma formação científica pautada em um bem social e permitiu aos integrantes a possibilidade do contato com suas próprias emoções e comportamentos, além de uma troca de experiências, trabalhando a violência em sua origem, não somente em seu caráter punitivo, mas, essencialmente, em suas vertentes críticas e reflexivas.
Em 2015, foi implementado no estado de Goiás o CREI (Centro de Referência Estadual da Igualdade), integrante da Secretaria de Desenvolvimento Social (Seds), que agora passa por manutenção em seus grupos reflexivos devido à pandemia da Covid-19, realizando os encontros de forma virtual, fato que felizmente não prejudicou o índice de reincidência dos participantes, que continua praticamente zero.
A secretária da Seds, Lúcia Vânia (2020, online) mencionou que “diante da possibilidade de aumento dos casos de agressão, em conseqüência do isolamento social, era necessário dar continuidade aos encontros, mesmo que de forma virtual. E o resultado está, até então, muito acima do esperado”.
As reuniões estão sendo realizadas por videoconferência com 91 participantes e dois encontros semanais. Os participantes são acompanhados por uma equipe de advogados, assistentes sociais e psicólogos, em parceria com o Poder Judiciário, Prefeituras, Pontifícia Universidade Católica de Goiás (PUC-GO), Faculdade Uni - Evangélica e outras Instituições de ensino superior. A equipe técnica relata que os temas estão sendo trabalhados da mesma de quando as reuniões eram presencias, e que ainda há a realização de ligações de acompanhamento para os autores de violência assistidos pelo CREI, mas que não participam dos grupos de reflexão.
É importante salientar que a Seds lançou, recentemente a Central de Vagas dos Grupos Reflexivos para Autores de Violência Doméstica, objetivando reunir todas as informações sobres os grupos existentes no Estado, servindo como referência principalmente ao Judiciário e ao Ministério
Público. Essa central funciona no CREI, sob coordenação da Gerência de Enfrentamento à Violência contra as Mulheres.
A Coordenadoria Estadual da Mulher do Tribunal de Justiça do Estado de Goiás, discutiu, no início deste ano, acerca da implementação de novos grupos reflexivos no Estado de Goiás, em parceria com os Juizados da Mulher, Secretaria de Desenvolvimento Social, Conselho Estadual da Mulher e Defensoria Pública do Estado de Goiás. Os grupos reflexivos serão implementados nas unidades judiciárias da capital, com capacitação de equipes técnicas, regulamentação de portarias, criação de central de recebimento dos autores da violência doméstica, sendo os grupos já existentes e os novos cadastrados junto ao CREI.
Portanto, o intuito da implementação de uma nova centralização das vagas oferecidas pelo programa nos municípios goianos, é trabalhar com os ofensores de forma reflexiva em seus contextos sociais e familiares, disponibilizando o acesso dos dados estatísticos de autores de violência, e com isso, facilitarem a identificação da frequência dos homens no grupo, para a averiguação precisa dos níveis de reincidência.
O Conselho Nacional de Justiça (2015, online) regulamenta que:
o presidente do TJGO frisou que o Poder Judiciário goiano vem buscando várias frentes de atuação para combater esse tipo de crime. Para o titular da Coordenadoria Estadual da Mulher em Situação de Violência Doméstica e Familiar e de Execução Penal, desembargador Luiz Cláudio Veiga Braga, “há uma dívida histórica no tratamento da mulher na sociedade e que a violência doméstica é resultado de uma cultura de desvalorização e subordinação do papel feminino, que precisa ser amplamente combatida”.
A Defensoria Pública do Estado de Goiás realizou, em 2019, a ‘’Campanha do Laço Branco: Em Defesa Delas’’, coordenado pelo Núcleo Especializado de Promoção e Defesa dos Direitos da Mulher (Nudem), realizando, de forma inédita, os grupos reflexivos dentro da instituição. O trabalho coordenado por uma psicóloga levou o grupo a uma identificação e promoveu a troca de experiências e o envolvimento dos participantes, mesmo com as dificuldades em se romper com a cultura do machismo. Uma das
propostas do grupo foi a mudança do nome Grupos Reflexivos para Agressores para, agora, Grupos Reflexivos Sobre Violência Doméstica e Familiar, para que todos tomem consciência de sua parte na solução.
Também em 2019, foi implementado um curso de capacitação para os profissionais facilitadores dos grupos reflexivos no município de Itumbiara. Ministrado por um advogado, o curso teve como objetivo a preparação da equipe que atenderá os homens encaminhados pela Justiça. No mesmo ano, o Ministério Público do Estado de Goiás assinou um protocolo de intenções junto ao Tribunal de Justiça de Goiás, para implementar os grupos reflexivos emSancrelândia, Córrego do Ouro e Buriti de Goiás, componentes da comarca e suas respectivas redes de proteção.
O Ministério Público de Goiás foi uma das instituições que participaram do lançamento do Pacto Goiano pelo Fim da Violência Contra a Mulher, instituído pelo Decreto Estadual nº 9.252/2018 (e alterado pelo Decreto 9.490, de 8 de agosto de 2019), na capital. Para o MP-GO (2019):
O pacto tem como objetivo efetivar as políticas públicasdesenvolvidas por diversas instituições e órgãos governamentais, entidades da sociedade civil e organizações religiosas, com a união de esforços no enfrentamento do feminicídio e da violência doméstica contra a mulher, tendo em vista os altos índices apresentados no Atlas da Violência de 2019.Entre as ações previstas no pacto estão o incentivo para implantação dos Grupos Reflexivos para autores de violência doméstica e familiar, decorrente de parceria firmada entre o Estado de Goiás, por meio da Secretaria de Desenvolvimento Social (SEDS), o Tribunal de Justiça e o Ministério Público. Este projeto foi articulado pelo Núcleo de Gênero da Área de Políticas Públicas e Direitos Humanos do Centro de Apoio Operacional.
Portanto, é imprescindível que o Poder Judiciário em parceria com os estados brasileiros crie e execute programas com práticas educativas e sociais, além da pena privativa de liberdade. O fomento e a realização do projeto dos grupos reflexivos estimulam profissionais, discentes, cidadãos e, principalmente, os agressores a entenderem os contextos sociais em que estão inseridos e a refletirem acerca do ciclo da violência e em como interrompê-lo.
CONCLUSÃO
Ante o exposto, pode-se observar que o trabalho foi desenvolvido com o objetivo de trazer considerações relevantes da violência doméstica no Brasil, abordando o papel da legislação em sua proteção, classificando osdesdobramentos dos tipos de violência e relacionando as políticas públicas estaduais adotadasno combate à violência contra a mulher.
Apesar de serem encontradas algumas dificuldades embasadas em uma cultura patriarcal solidificada, barreiras na produção de dados e na própria aplicação dos grupos reflexivos, foi observado também os avanços alcançados no enfrentamento à violência doméstica, como uma significativa percepção dos autores participantes do projeto, uma mudança de pensamento crítico e até queda nos dados de reincidência.
Como abordado na primeira seção, levou-se em consideraçãoalgumas questões sociais conexas à prática do ato delituoso,como a dependência química, bem como a compreensão do ciclo da violência e como tentar interrompê-lo, não só considerando as mulheres vítimas da violência, mas também os autores, para, além da pena privativa de liberdade, ofertar-lhes tratamento educativo e um ambiente de diálogo, favorecendo o conhecimento e dissipando o costume de práticas agressivas.
É certo que por mais que existam projetos sendo realizados, estes são recentes, carecendo de mais pesquisas e investimentos, como visto na última seção. Portanto, faz-se necessário mais intervenções com os autores da violência para além do âmbito judicial, e políticas sociais que estejam voltadas para a saúde, educação e segurança, com o objetivo de reformular as relações sociais e desestigmatizar um padrão de violência.
Dessa forma, reconhecendo sobretudo os resultados positivos experimentados até aqui, este trabalho pretende ser útil a toda sociedade, contribuindo na reflexão da aplicação dos grupos reflexivos, no entendimento do processo de responsabilização e na desconstrução de padrões de gênero hegemônicos, almejando fomentar novas práticas conscientes, considerando além do caráter punitivo, o reflexivo, educativo e crítico.
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