No 1.° centenário da criação dos liceus (1936), o depoimento de António de Sá Oliveira caracterizava de forma clara a situação da instalação dos liceus portugueses até finais de Oitocentos:
“A n te s d e 1 8 9 5 , não h ouve em Portugal coisa q u e m erecesse o n o m e d e ensino s e c u n d á rio oficial: edifícios condignos, não os havia; m obiliário q u e pudesse c h a m a r-s e escolar, falta v a tam b é m ; m aterial d e ensino, era luxo considerado d e s n e c e s s á rio .” 82
Nesse mesmo texto, Sá Oliveira ia mesmo um pouco mais longe ao reconhecer o erro da aplicação da Reforma de 1894-1895 em edifícios impróprios.
A propósito, acresce dizer que no quadro da preparação da citada Reforma alguns alertas foram feitos no sentido de considerar a "questão do edifício apropriado” para os liceus como essencial.83
Na verdade, a sentida falta de mobilização da parte do poder político para levar a cabo a tarefa de dotar os liceus de edifícios próprios, já reclamados em 1876 por Ramalho Ortigão para cada uma das principais cidades portuguesas84, é manifesta até aos primeiros anos do século XX, como adiantámos no início do nosso estudo. Todavia, sob essa generalizante constatação, detectamos a partir dos anos 80 um maior interesse pelo assunto traduzido em algumas tentativas de construção de edifícios para liceus que merecem ser assinaladas.
“ "Um Depoimento", Labor, n.° 75, Outubro de 1936, p. 58.
“ Cf. Flórido de Vasconcelos, "Alojamento e Material do Ensino dos Lyceus. Salas de Estudo. Bibliothecas. Policia", Revista de Educação e Ensino, n.° 10, Março de 1893, p. 445.
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Precisamente no ano de 1881 iniciam-se as diligências para a construção de um edifício destinado ao liceu de Lisboa.85 Medidas essas aplaudidas dois anos mais tarde por um observador atento como Bernardino Machado, a defender similar tratamento para a cidade do Porto e adaptação dos demais liceus do país, sendo em sua opinião
“in d isp en sável d o ta r o m ais breve possível, a instrução secu nd ária d e casa e m obília e m co ndições d e não estragarem a saúde dos e stu d antes, nem lhes tira re m a alegria da id a d e ." 86
Do projecto inicial para o liceu da capital, firmado pelo arquitecto José Luís Monteiro em 1882, pouco conhecimento temos hoje. No entanto, a sua aprovação nesse mesmo ano pela Junta Consultiva das Obras Públicas não foi isenta de alguns reparos, objectando-se por exemplo em relação à monotonia da fachada principal devido à sua grande extensão 87
Com efeito, desde o primeiro momento houve a intencionalidade de emprestar um carácter de grande monumentalidade ao liceu, o que era também manifesto na distribuição interior, sendo previsto um enorme espaço central com 16 metros de diâmetro destinado a funcionar como anfiteatro para 320 pessoas.88 A referida intenção condicionou toda a evolução do edifício até à sua inauguração (ocorrida cerca de trinta anos mais tarde!), como era reconhecido no parecer emitido pela comissão encarregue de reformular o projecto em
1902:
“ Para uma ideia do atribulado processo que constituiu a edificação deste liceu, que viria ser o futuro Passos Manuel, consultar o Anexo 11.
“ intervenção parlamentar em 1883. Citado por Rogério Fernandes, Bernardino M achado e os Problem as
da Instrução Pública, Livros Horizonte, Lisboa, 1985, p. 129. A propósito das péssimas condições do liceu
de Lisboa no ano lectivo de 1880-1881, consulte-se Visconde de Benalcanfor, op. cit., p. 11 e ss.
87Cf. M estre José Luiz M onteiro na Arquitectura da Transição do Século, Associação dos Arquitectos Portugueses, Lisboa, 1990, p. 57.
“ Cf. Idem, p. 57. Acresce ainda que na planta concebida por José Luís Monteiro surgia revalorizado um espaço rectangular destinado a servir de ginásio, o que não deixa de ser importante se considerarmos que o ensino obrigatório da educação física nos liceus portugueses só foi decretado em 1905.
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“Hoje, sâo menos ostentosas as exigências para edifícios da natureza e fins do que se pretende, e as circunstâncias do país aconselham mais sobriedade nos desejos e mais modéstia nas aspirações.” 69
Todavia, não pensemos que essa ideia de grandiosidade se circunscreve ao universo português, pelo contrário, ela faz parte de um modo de afirmação da escola pública com coincidente tradução do ponto de vista arquitectónico, fundamentalmente nos liceus do período de Oitocentos como o reconhecia o
reputado arquitecto Anatole de Baudot:
“on ne saurait trop combattre le désir trop généralement manifesté par les municipalités de profiter de l’occasion de construire un lycée pour élever un palais monumental. " 90
Também em Inglaterra, onde o estádio de desenvolvimento sobre a forma de planear escolas secundárias era “incipiente” no início da década de 70, a importância de tais premissas era declarada como o referem Malcolm Seaborne e Roy Lowe:
“impressive buildings emphasized the fact that a school stood at the apex of a local educational system.” 91
Idênticas pretensões encontramos num projecto de 1883 destinado ao liceu nacional do Porto. A iniciativa, que partiu da Junta Geral do Distrito do Porto, foi bem acolhida pelo Ministro do Reino embora estabelecesse como condição de partida que a Junta e a Câmara Municipal do Porto contribuíssem com metade
"So/eftro da D irecção Geral de Instrução Pública, Janeiro-Abril de 1903, fases. I-IV, p. 138. No capitulo V dedicaremos particular atenção ao trabalho da referida comissão, cuja incumbência foi a de rever o projecto de Rosendo Carvalheira (1896) que substituiu o anterior de Monteiro.
Etude Théorique sur les Lycées", Revue de l'Architecture e t des Travaux Publics, 1886, vol. 13, col. 77. 91T/ie English School. Its Architecture and Organization..., vol. Il, p. 50.
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dos encargos, sendo também necessário pela parte das corporações a apresentação da planta e orçamento.92
A análise dos alçados e plantas do projecto em questão permite-nos diagnosticar as principais preocupações observadas na sua concepção, bem como o estádio da investigação nesse campo no nosso país.
Genericamente, o projecto revelava uma configuração algo incaracterística pela evidência de um corpo de dois andares recuado em relação a duas alas (de apenas um piso) que se projectavam definindo um extenso pátio interior. O aspecto imponente do edifício era realçado pelo excessivo recurso às cantarias, como forma de valorização do seu exterior, e por um remate central sobrelevado onde se implantava um relógio.
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