2. ENQUADRAMENTO TEÓRICO
2.2 Contexto Nacional
2.2.5 Programas Estratégicos de Ordenamento do Litoral
Face aos problemas que se têm verificado na faixa costeira, o Governo Português tem elaborado alguns documentos com linhas de orientação para a gestão do litoral, os quais se apresentam de seguida.
Em 1993, pela primeira vez, foi elaborada pela Divisão de Ordenamento e Protecção da Direcção de Serviços de Utilizações do Domínio Hídrico uma ‘Proposta de Estratégia
para a Gestão do Litoral’ (MARN, 1993), na qual foi apresentado um conjunto de objectivos
subjacentes ao sucesso da mesma (Tabela 2.3).
Tabela 2.3 - Proposta de Estratégia para a Gestão do Litoral (1993)
OBJECTIVOS GERAIS OBJECTIVOS ESPECÍFICOS
Clarificar a estrutura Administrativa e Jurídica do Litoral
- Organização interna do INAG
- Coordenação funcional entre organismos do MARN e outros
- Promover a elaboração de uma Lei do DPM ou do Litoral
Identificar e gerir as utilizações do Litoral -
Utilizar medidas preventivas - Delimitar o DPM/corrigir situações
- Definir critérios e normas para utilização do Litoral
Estudar e programar as intervenções no Litoral - Promover estudos de base técnico-científicos - Identificar áreas de risco
- Intervir no Litoral
Melhorar a qualidade ambiental do Litoral - Melhorar a qualidade das águas - Requalificação de espaços degradados - Recuperar e preservar os ecossistemas
naturais Fonte: MARN, 1993.
Em 1992, a passagem da jurisdição da REN (das Comissões de Coordenação Regional) e da jurisdição dos terrenos do Domínio Público Marítimo (da Direcção-Geral de Portos) para a responsabilidade do MARN, respectivamente para o ICN e para o INAG, levou a um quadro confuso e indefinido nesta entidade, verificando-se que era prioritário a organização interna do INAG e a coordenação funcional entre os organismos do MARN e outros, como se pode verificar na tabela anterior (Cabral, 1995).
Refira-se que relativamente às áreas de Domínio Público Marítimo, enquadradas no objectivo específico ‘Delimitar o DPM/ corrigir situações’ nesta proposta foram definidas como acções e medidas:
? introduzir em SIG as delimitações do Domínio Público Marítimo e de todas as ocupações nele existentes;
? inventariar e demarcar rigorosamente, no terreno, as áreas delimitadas;
? divulgar o princípio de não utilização ou ocupação privada do litoral, com carácter definitivo;
? aferir demarcações com as entidades portuárias;
? promover reuniões com entidades ligadas ao planeamento de forma a salvaguardar o uso público do Domínio Público Marítimo;
? negociar com autarquias e privados no sentido do eventual recuo de certas
ocupações com o estudo de alternativas viáveis;
? prever protocolos de cedências com as Autarquias em áreas nitidamente urbanas (MARN, 1993).
Denota-se, aqui uma grande preocupação com a gestão das áreas de Domínio Público Marítimo, propondo-se medidas muito concretas e realmente necessárias, medidas essas que ainda não se concretizaram e que deveriam continuar a fazer parte dos objectivos das entidades responsáveis.
Ainda antes da publicação do Decreto-Lei n.º 309/93, de 2 de Setembro, já tinham sido elaborados, pela Direcção Geral de Portos, os POOC para os troços Sines - Sagres e Sagres - Vilamoura, cuja principal área de intervenção eram os terrenos de Domínio Público Marítimo.
A elaboração dos POOC seguiu-se a um período de intervenção da Direcção Geral de Portos na administração do Domínio Público Marítimo, a qual se deparou com algumas dificuldades em definir e concretizar uma política geral de intervenção na costa, apesar dos inúmeros estudos elaborados no sentido de um melhor conhecimento da hidrodinâmica e fisiografia costeiras (Cabral, 1995).
Constata-se que os POOC foram elaborados com o intuito principalmente de responder às situações com que a entidade responsável se deparava, nomeadamente erosão costeira, delimitação de parcelas de Domínio Público Marítimo e legalização e construção de usos e actividades na orla marítima. Surgiu, então, outro grande objectivo desta proposta - a elaboração de POOC para os restantes troços da costa (Cabral, 1995).
Em 1997, a Divisão de Ordenamento e Protecção da Direcção de Serviços de Utilizações do Domínio Hídrico elaborou um novo documento designado ‘Plano Estratégico de
Gestão do Litoral’ (INAG, 1997), para o período de 1997 ao ano 2000.
Neste documento o instrumento POOC é definido e caracterizado de uma forma bastante exaustiva. Aquando da sua elaboração, dos nove POOC propostos para a costa portuguesa, cinco já se encontravam em fase final (consulta pública), três estavam em elaboração e um em adjudicação. Neste Plano de Gestão do Litoral concluiu-se que para cada POOC deverão ser definidos objectivos e estratégias diferentes, visto que cada troço tem características próprias. Assim, foram descritos, de forma muito sucinta, quatro dos POOC elaborados sob a tutela do INAG: Caminha – Espinho, Cidadela – S. Julião da Barra, Sado – Sines, Burgau – Vilamoura.
Em 1998 o Ministério do Ambiente elaborou outro programa, designado por ‘Litoral 98 –
Uma Estratégia – Um Programa de Acção’, com o objectivo de defesa, requalificação e
aproveitamento sustentável dos recursos naturais da orla costeira, e caracterizado pelas seguintes linhas de orientação:
? promoção da localização de actividades compatíveis com a utilização sustentável de recursos neste espaço;
? definição clara das regras e princípios para as diferentes utilizações; ? salvaguarda eficaz de pessoas e bens;
? gestão integrada e coordenada da orla costeira; ? protecção dos valores naturais e patrimoniais;
? combate aos factores antropogénicos que alteram a configuração da linha de costa; ? aprofundamento e divulgação do conhecimento de base técnico-científico; e
? clarificação da estrutura jurídico-administrativa.
Uma das prioridades identificadas neste programa é a ‘Observação contínua dos fenómenos de evolução da orla costeira e consequente delimitação do Domínio Público Hídrico e das zonas de risco’. Pretende-se aqui que estas prioridades se concretizem através da promoção de estudos da dinâmica costeira e de uma rede de monitorização,
áreas de Domínio Público Hídrico e de risco e da aplicação da figura de ‘zona adjacente’, tendo por base as áreas com risco de inundação.
No último programa elaborado pelo Ministério do Ambiente, designado por ‘PROGRAM A
LITORAL1999’, são apresentados o esforço de requalificação do litoral na sequência do
programa anterior e também as novas propostas de actuação que, de uma forma geral, são um reforço das intervenções ao nível da preservação e defesa dos valores ambientais, e da requalificação de espaços sujeitos à degradação das suas características ecológicas e naturais.
Destacam -se neste programa, como medidas de actuação continuadas, a remodelação das estruturas de apoio localizadas em áreas de Domínio Público Marítimo e a continuação da organização da informação relativa aos autos de delimitação com incidência no Domínio Público Marítimo e à definição da linha de costa e do Domínio Público Marítimo.
Apesar dos programas elaborados, com a definição de linhas orientadoras, verificam-se fragilidades na gestão das áreas costeiras a nível nacional, o que se reflecte na forma como os POOC foram elaborados e do sucesso que estão a ter. Nem todos os princípios subjacentes a uma gestão integrada das áreas costeiras foram tidos em conta na elaboração destes planos e, além disso, verifica-se que algumas das acções propostas não estão a ser concretizadas, nomeadamente a elaboração dos planos de pormenor e de urbanização para as unidades operativas definidas.
Assim, para o desenvolvimento sustentável de Portugal, o Conselho Nacional do Ambiente e do Desenvolvimento Sustentável (CNADS)1 concluiu, na sua reflexão sobre a zona costeira, em Maio de 2001, que é determinante a concretização do princípio constitucional de que o espaço territorial engloba não só o meio terrestre como o meio marinho, implicando a necessidade das seguintes medidas para a gestão integrada da zona costeira:
? Elaborar uma Estratégia Nacional de Gestão Integrada da Zona Costeira com as grandes linhas de actuação para o desenvolvimento sustentável desta área, apoiando-se numa ampla e diversificada participação pública.
? Criar um Conselho Nacional para a Gestão Integrada da Zona Costeira de forma a simplificar a actuação do quadro institucional com intervenção na área em questão.
1
O CNADS é um órgão independente que funciona junto ao Ministério das Cidades, Ordenamento do Território e Ambiente, surgindo da postura de Portugal relativamente à ‘Agenda 21’, ao qual compete emitir pareceres e recomendações sobre todas as questões relativas à política de ambiente e de desenvolvimento sustentável.
? A articulação e simplificação do quadro legal aplicável à faixa costeira, compatível com a nova Directiva-Quadro da Água2, de forma a potenciar o Domínio Público Marítimo e a articular e agilizar as figuras de planeamento e ordenamento, eliminado áreas de sobreposição ou de indefinição.
? A adopção de medidas administrativas que permitam prevenir, em toda a zona costeira nacional, os riscos para as pessoas e bens decorrentes de diversos factores, quer naturais, quer antropogénicos, nomeadamente a subida do nível médio das águas do mar e a ocupação desordenada da faixa litoral, entre outros.
Constata-se, portanto, que no nosso país não existe, ainda, uma gestão integrada das áreas costeiras.