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1. DA EXCLUSÃO ESCOLAR À INCLUSÃO EXCLUDENTE

1.2 A exclusão escolar

1.2.3 Progressão Continuada

A questão do acesso à educação está atrelada à questão da qualidade, entretanto o acesso à educação perde totalmente seu sentido, se não houver a qualidade de ensino, e há décadas os educadores lutam concomitantemente por acesso uma educação de qualidade.

A dificuldade para a melhoria da qualidade de ensino é a forma mais “avançada” pela qual o capitalismo consegue imaginar a escola pública de qualidade, pois esta qualidade de ensino está vinculada em colocar especialistas supervisando professores, controle do currículo, avaliação externa e interna e acesso as novas tecnologias entre outros.

Somente na década de 1990, que a falta de qualidade no ensino começou a incomodar as perspectivas de crescimento das taxas de acumulação de riquezas, mas essa preocupação não era somente com a preparação para o mercado de trabalho, era

42 uma forma de reduzir os custos que a qualidade de ensino estava gerando para o Estado. Então os governos, ministros e empresários, acreditavam que a qualidade da escola estava limitada a qualidade de vida dos alunos, e essa qualidade que deveria vir da escola passou a ser vista como geradora de gastos. (FREITAS, 2002)

Para ter-se uma compreensão melhor sobre os sistemas de ensino e sobre a qualidade deste ensino que é oferecido, torna-se necessário compreender dois conceitos.

O primeiro conceito está vinculado a “internalização de custos”, no sentido de que o sistema escolar “toma consciência” dos seus custos econômicos que a repetência e a evasão geram para o estado, para em seguida controlá-los e eventualmente “externalizá-los” em variadas formas de privatização. Para se ter uma compreensão mais abrangente sobre o conceito de internalização de custos Freitas (2002) afirma que;

A ideia de internalização de custos foi introduzida por Niels Steensgaard (1974) para explicar o espantoso sucesso, no século XVII, das companhias de comércio e navegação europeias que operavam nas Índias Orientais. Sendo autônomas e competitivas no uso e no controle da violência, essas companhias produziam sua própria proteção, a custos inferiores e mais fáceis de calcular do que os custos cobrados pelas autoridades locais às caravanas e navios. O que os comerciantes locais tinham que pagar em tributos, taxas e extorsões, as companhias podiam embolsar como lucros ou repassar a seus fregueses, sob a forma de preços de venda mais baixos, e/ou a seus fornecedores, sob a forma de preços de compra mais altos [...], a internalização dos custos de proteção aparece como o fenômeno que permitiu à classe capitalista holandesa levar os processos sistêmicos de acumulação de capital um passo à frente do que fizera a classe capitalista genovesa. (ARRIGLI, 1996 - in apud FREITAS, 2002, p. 304)

E o segundo conceito está vinculado ao primeiro, que é a “exclusão branda”, que se refere a uma estratégia de criação de “trilhas” que são popularmente conhecidas como progressão continuada, diferenciadas no interior da própria escola, alterando o “metabolismo do sistema escolar” como forma de reforçar as práticas de internalização da exclusão.

A exclusão é internalizada no sentido de que o aluno permanece na escola mesmo sem aprendizagem, ao contrário de quando o aluno é eliminado da instituição escolar, e se ganha clareza e controle sobre seus custos econômicos com Programas de Aceleração, Classe de Reforço, etc. E com isso muitos notaram que esse

43 custo pode ser externalizado, via privatização, ou seja, terceirizado. Antes, os custos da repetência e da evasão eram informais, como um “mal necessário”, e faziam parte do próprio metabolismo do sistema escolar, no entanto esses custos foram contabilizados e formalizados, sendo passíveis de maior controle. (FREITAS, 2002)

Portanto percebe-se que a repetência e a evasão geram custos que oneram o Estado, e que não é somente uma questão de qualidade da escola, mas uma questão de fluxo e de custo desse fluxo. Há décadas educadores lutam pelo acesso a uma educação de qualidade, no entanto a questão da qualidade entra como geradora de menores gastos, coerente com a teoria do Estado Mínimo. Dessa maneira, o que está em jogo não é apenas o lado humano da educação, mas o seu lado econômico, ou seja, o seu custo/benefício.

O sistema capitalista não se interessa pelo homem enquanto homem, mas enquanto um conjunto de faculdades a serem trabalhadas para que o sistema econômico possa funcionar como um mecanismo, para isso todas as características humanas que dificultam o funcionamento desse sistema como a reflexão, a ética ou uma educação emancipadora, são indesejáveis e tidas como não científicas. (FREITAS, 2002)

No entanto a atenção está voltada para o ensino de disciplinas como português e matemática, esse é o tipo de qualidade de ensino que as políticas públicas apoiam, há também os sistemas nacionais de avaliação como (Sistema de Avaliação de Educação Basica - Saeb, Exame Nacional do Ensino Médio - Enem e etc.) que visam analisar os resultados das escolas de forma quantitativa e comparativa, para criar a competição e diminuir os gastos.

Esta visão economicista de educação de qualidade faz com que as políticas públicas, não criem uma escola de ensino integral, pois ela prefere criar ciclos de progressão continuada, porque gera menos custos e melhora os índices de evasão e repetência para as agências internacionais. (FREITAS, 2002)

Segundo Freitas (2002), a ênfase no ajuste do fluxo com Programas de Progressão Continuada, Recuperação em ciclos, entre outras medidas em voga, estão propondo fazer uma limpeza no sistema de ensino, como uma forma de correção dos custos econômicos e assim preparar para a privatização. Deste modo vemos que este processo de preparação de um modelo de privatização do ensino está permitindo, por um lado a internalização da exclusão de forma dissimulada quanto aos custos políticos e sociais e, por outro a externalização dos custos econômicos, com aumento do controle sobre o processo educativo.

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A versão mais próxima disso é a transferência da operação de sistemas de ensino para empresas de educação terceirizadas, em que as contratantes ficam responsáveis pelos índices de aprovação e consequentemente internalizam para si os custos de reprovação e evasão. Os custos são, portanto, transferidos para as terceirizadas – não antes de torná-los suportáveis a partir de uma ampla intervenção na forma de funcionamento da escola, de maneira a ajustá-los previamente. Aqui, também, os custos da reprovação e evasão “foram introduzidos no leque de questões ligadas aos cálculos racionais”, em vez de permanecerem na imprevisível esfera dos “atos de Deus ou dos inimigos do Rei”. O que estaria em curso portanto, é um processo de preparação de um modelo de privatização para o ensino no Brasil. (FREITAS, 2002, p. 307)

Em contrapartida algumas pessoas irão defender esse processo de privatização da educação, pois há um grande desperdício de recursos, que a reprovação e a evasão, geram para o estado, e isto revela um descaso com os investimentos públicos. Deste modo, segundo Freitas (2002), o conceito de internalização e externalização apenas demonstra o plano econômico e não dá conta de explicar todo esse processo, para isso torna-se necessário introduzir o conceito de “exclusão branda” para se compreender melhor as finalidades do discurso econômico.

A exclusão branda, conceito utilizado por Freitas (2002), assemelha-se ao termo exclusão adiada, pois a exclusão branda faz com que o aluno permaneça mais tempo na escola, através da criação de trilhas, de progressão continuada, de modo que evite a repetência, para não figurar nas estatísticas como repetências em séries e o aluno vai postergando essa eliminação em níveis mais altos de escolaridade, ou seja, em algum momento da vida escolar, este aluno será excluído seja segundo sua bagagem cultural ou por falta de esforço pessoal.

Conclui-se que esta forma de atuar faz com que a exclusão se faça, segundo a bagagem cultural do aluno, o que permite que a exclusão ocorra dentro da própria escola de forma sutil, ou seja, internalizada e permite também disfarçar a exclusão social já construída fora da escola e agora dentro da escola esta exclusão é legitimada a partir do esforço pessoal de cada aluno.

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