FASE DE EXECUÇÃO PENAL
1) PROGRESSÃO DE REGIME
Levando em conta a finalidade reeducativa (ressocializadora) da pena, a progres-são de regime consiste na execução da reprimenda privativa de liberdade de forma a permitir a transferência do reeducando para regime menos rigoroso (mutação de regime), desde que cumpridos determinados requisitos.
O incidente pode ser iniciado por determinação do juiz (ex officio) ou mediante requerimento do Ministério Público, do advogado ou defensor público ou do próprio sentenciado.
Na progressão do regime fechado para o semiaberto, deve ser observado o se-guinte:
a) condenação (ainda que pendente recurso sem efeito suspensivo);
b) cumprimento das seguintes porcentagens de pena:
Condenação Parcela a ser cumprida Condenado primário por crime
come-tido sem violência à pessoa ou grave ameaça.
16% (dezesseis por cento) da pena.
Condenado reincidente em crime come-tido sem violência à pessoa ou grave ameaça.
20% (vinte por cento) da pena.
Condenado primário por crime come-tido com violência à pessoa ou grave ameaça.
25% (vinte e cinco por cento da pena.
Condenado reincidente em crime come-tido com violência à pessoa ou grave ameaça.
30% (trinta por cento) da pena.
Condenado primário pela prática de
cri-me hediondo ou equiparado. 40% (quarenta por cento) da pena.
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Condenação Parcela a ser cumprida Condenado por:
a) crime hediondo ou equiparado, com resultado morte, se for primário, vedado o livramento condicional;
b) exercer o comando, individual ou co-letivo, de organização criminosa estru-turada para a prática de crime hediondo ou equiparado;
c) crime de constituição de milícia pri-vada.
50% (cinquenta por cento) da pena.
Condenado reincidente na prática de crime
hediondo ou equiparado.
60% (sessenta por cento) da pena.
Segundo o STJ, esta porcentagem se aplica apenas no caso de reincidên-cia específica em crime hediondo ou equiparado. Se a condenação anterior consistir em outra espécie de crime, aplica-se a porcentagem de 40%: “É reconhecida a retroatividade do pata-mar estabelecido no art. 112, V, da Lei n. 13.964/2019, àqueles apenados que, embora tenham cometido crime hedion-do ou equiparahedion-do sem resultahedion-do morte, não sejam reincidentes em delito de na-tureza semelhante” (REsp 1.910.240/
MG, j. 26/05/2021).
Condenado reincidente em crime he-diondo ou equiparado com resultado morte, vedado o livramento condicional.
70% (setenta por cento) da pena. Em-bora esta situação não tenha sido objeto da decisão destacada no item anterior, a mesma controvérsia se repete aqui:
discute-se se o dispositivo abrange so-mente a reincidência específica em cri-me hediondo ou equiparado com resul-tado morte.
Condenada gestante, mãe ou respon-sável por criança ou pessoa com defi-ciência, desde que não tenha cometido crime com violência ou grave ameaça a pessoa, não tenha cometido o crime contra seu filho ou dependente, seja primária, tenha bom comportamento carcerário e não tenha integrado orga-nização criminosa.
1/8 da pena, mesmo que se trate de cri-me hediondo ou equiparado.
c) bom comportamento carcerário durante a execução;
d) oitiva do Ministério Público (e da defesa);
e) dependendo das peculiaridades do caso, ou se se tratar de crime hediondo, o juiz poderá, fundamentadamente, requisitar o exame criminológico. Nesse sentido, temos a súmula vinculante nº 26 e a súmula nº 439 do Superior Tri-bunal de Justiça;
f) o condenado por crime contra a administração pública terá a progressão de regime do cumprimento da pena condicionada à reparação do dano que cau-sou, ou à devolução do produto do ilícito praticado, com os acréscimos legais (art. 33, § 4º do CP);
g) O art. 2º, § 9º, da Lei 12.850/13 dispõe que “O condenado expressamente em sentença por integrar organização criminosa [ainda que não exerça o comando] ou por crime praticado por meio de organização criminosa não poderá progredir de regime de cumprimento de pena ou obter livramento condicional ou outros benefícios prisionais se houver elementos probató-rios que indiquem a manutenção do vínculo associativo”. O indivíduo que, mesmo encarcerado, mantém seus vínculos com a organização crimino-sa cuja atividade o levou à condenação demonstra inaptidão para o retor-no ao convívio social, razão pela qual este dispositivo – inserido pela Lei 13.964/19 (Pacote Anticrime) – limita a concessão de benefícios próprios do sistema progressivo.
No caso de progressão do semiaberto para o aberto, além dos requisitos subje-tivos e objesubje-tivos genéricos, a Lei de Execução Penal exige que sejam observadas as condições e os pressupostos previstos nos arts. 113, 114 e 115:
a) o ingresso do condenado em regime aberto supõe a aceitação de seu progra-ma e das condições impostas pelo juiz;
b) somente poderá ingressar no regime aberto o condenado que:
1) estiver trabalhando ou comprovar a possibilidade de fazê-lo imedia-tamente. Podem ser dispensados desta obrigação o condenado maior de setenta anos, o acometido de doença grave, a condenada com filho menor ou deficiente físico ou mental e a condenada gestante. O STJ tem decisões admitindo a progressão de regime sem a comprovação prévia de trabalho lícito, sob o argumento de que essa regra deve ser interpretada conforme a realidade social para que não torne inviável o objetivo de ressocialização desejado na execução penal (HC 285115/
SP, j. 24/03/2015).
2) apresentar, pelos seus antecedentes ou pelo resultado dos exames a que foi submetido, fundados indícios de que irá ajustar-se, com auto-disciplina e senso de responsabilidade, ao novo regime. Este requisito é
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normalmente extraído dos exames de personalidade realizados durante a execução da pena;
c) o juiz poderá estabelecer condições especiais para a concessão de regime aberto, sem prejuízo das seguintes condições gerais e obrigatórias: permane-cer no local que for designado durante o repouso e nos dias de folga, sair para o trabalho e retornar nos horários fixados, não se ausentar da cidade onde re-side sem autorização judicial e, por fim, comparecer em juízo para informar e justificar as suas atividades quando for determinado.
Tema não menos importante diz respeito aos efeitos da falta grave no direito de progressão. De acordo com o §6º do art. 112, o cometimento de falta grave durante a execução da pena privativa de liberdade interrompe o prazo para a obtenção da progressão no regime, caso em que o reinício da contagem tem como base a pena remanescente. Antes da Lei 13.964/19, a LEP não fazia qualquer referência à inter-rupção do lapso temporal para a progressão. Ainda assim, a sanção era aceita pela jurisprudência, mas criticada por parte da doutrina devido à falta de previsão legal.
Agora, o desdobramento da falta disciplinar está expressamente previsto em lei.
Para lograr nova progressão, o condenado deve se reabilitar. De acordo com o § 7º do art. 112 da Lei de Execução Penal, que havia sido vetado e foi exumado pela Casa de Leis, essa reabilitação depende do decurso do prazo de um ano, salvo se, an-tes, o preso cumprir o requisito temporal para a progressão. Essa postura legislativa contraria o que se percebe de ordinário no regimento interno padrão das unidades prisionais, que acabam estipulando um prazo de reabilitação independente do requi-sito temporal da progressão. Ou seja, mesmo que cumprido o requirequi-sito temporal, o condenado só será considerado portador de bom comportamento depois do prazo da reabilitação.
1.1) Parecer favorável em pedido de progressão de regime Promotoriade Justiçade _________
Pedidode Progressãode regime PareCerdo ministério PúbliCo ProC. nº
mm. Juiz:
Postula a defesa técnica de “A”, condenado a quarenta e oito anos de reclusão pela prática de quatro crimes de homicídio qualificado em con-curso material, a concessão da progressão ao regime semiaberto em virtude do cumprimento de um sexto da pena.
Eis a síntese do pedido.
Os crimes em razão dos quais foi condenado o reeducando foram co-metidos em 23 de janeiro de 2005, quando ainda vigorava a redação original do art. 2º, § 1º, da Lei nº 8.072/90, que impunha, para os conde-nados por crimes hediondos e equiparados, o cumprimento da pena em regime integralmente fechado.
Questionada a compatibilidade dessa regra com o ordenamento cons-titucional, em 2006 o Supremo Tribunal Federal a declarou incidental-mente inconstitucional e determinou que se aplicasse o sistema pro-gressivo de cumprimento da pena inclusive para os delitos integrantes do rol do art. 1º da Lei nº 8.072/90 (HC 82.959/SP). No ano seguinte, a Lei nº 8.072/90 foi alterada e passou a dispor, no art. 2º, § 2º, sobre regras específicas para a progressão de regime nos crimes hediondos e equiparados (cumprimento de 2/5 da pena para condenados primários e de 3/5 para reincidentes). Em 2019, o § 2º do art. 2º foi revogado pela Lei 13.964/19, que concentrou no art. 112 da LEP toda a disciplina da progressão de regime.
Ocorre, no entanto, que, até o momento em que houve a primeira alteração legal (em 2007), os órgãos judiciais de execução penal, à falta de dispositivo específico, tiveram de aplicar a regra geral da progressão de regime, ou seja, o cumprimento de 1/6 da pena de que dispunha o art. 112 da Lei nº 7.210/84. Essa providência se consoli-dou e foi adotada como regra para todos os condenados cujos delitos haviam sido cometidos antes da modificação introduzida na Lei nº 8.072/90 (súmula vinculante nº 26), modificação considerada lex gra-vior, pois introduziu requisitos restritivos em comparação à regra que vinha sendo aplicada nas execuções penais (cumprimento de 2/5 ou 3/5 ante 1/6 da Lei nº 7.210/84). O mesmo, obviamente, se dá com as alterações promovidas no próprio art. 112 da Lei de Execução Penal pela Lei 13.964/19.
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“A” cumpre pena, como já mencionado, por delitos cometidos em 2005, razão pela qual a avaliação da progressão de regime deverá se dar com fundamento no art. 112 da Lei nº 7.210/84 na redação anterior à Lei 13.964/19, que pressupunha o cumprimento de ao menos 1/6 da pena.
O cumprimento da pena foi iniciado em 20 de fevereiro de 2012 e, em 19 de fevereiro de 2020, completaram-se oito anos de execução em regime fechado. No documento de fls..., o diretor do estabelecimento prisional atesta o bom comportamento carcerário e aponta que, nos últi-mos meses, o sentenciado frequentou curso profissionalizante instalado naquela unidade penitenciária.
Vê-se, portanto, que o sentenciado cumpriu a fração mínima de pena para obter o benefício, tem seguido as regras da boa conduta carcerá-ria e vem se dedicando à ressocialização pelo estudo (que, aliás, pelo tempo até o momento frequentado, rende-lhe remição de trinta e quatro dias), o que sinaliza a adequação da medida progressiva no cumprimen-to da pena.
Desse modo, manifesta-se o ministério PúbliCo favoravelmente ao pedi-do ora formulapedi-do, com as consequências de lei e estilo.
Local, data Promotor de Justiça
1.2) Parecer contrário em pedido de progressão de regime Promotoriade Justiçade _________
Pedidode Progressãode regime PareCerdo ministério PúbliCo ProC. nº
mm. Juiz:
Postula a defesa técnica de “A”, condenado a seis anos de reclusão em regime inicial semiaberto pela prática do crime de roubo, a progressão ao regime aberto em virtude do cumprimento de parcela da pena.
É a síntese do pedido.
A pena se iniciou no dia 20 de fevereiro de 2019 e, em 19 de fevereiro de 2020, completou-se um ano de execução em regime semiaberto, o que, em tese, autorizaria a progressão se apenas o lapso temporal devesse ser considerado. (Ressalte-se que esta execução não está sujeita às di-retrizes introduzidas pela Lei 13.964/19 no art. 112 da LEP – que atual-mente impõe maior tempo de cumprimento da pena para a progressão – porque o crime foi cometido em 2017).
Ocorre, no entanto, que o art. 112, § 1º, da Lei nº 7.210/84 submete a progressão de regime à boa conduta carcerária do condenado. Pois o diretor da penitenciária informa a fls... que o sentenciado foi punido, há três meses, por cometer falta grave consistente em possuir um ins-trumento cortante capaz de ofender a integridade física dos demais encarcerados e dos funcionários do estabelecimento. Nesse caso, in-terrompe-se o prazo para a progressão de regime: “A prática de falta grave interrompe a contagem do prazo para a progressão de regime de cumprimento de pena, o qual se reinicia a partir do cometimento dessa infração” (Súmula 534 do STJ). A orientação jurisprudencial foi adotada no § 6º do art. 112 da LEP.
Não fosse o bastante, extrai-se da certidão de fls... que o sentenciado foi definitivamente condenado, há menos de um mês, a cinco anos e quatro meses de reclusão por outro crime de roubo cometido meses depois daquele que culminou na presente execução penal. Com isso, a nova pena deve ser somada ao restante da anterior para que se es-tabeleça o regime adequado. É o que se extrai do art. 111 da Lei nº 7.210/84: “Quando houver condenação por mais de um crime, no mes-mo processo ou em processos distintos, a determinação do regime de cumprimento será feita pelo resultado da soma ou unificação das penas, observada, quando for o caso, a detração ou remição”.
Vê-se, portanto, que, embora o sentenciado tenha cumprido a fração de um sexto da pena executada nestes autos, o cometimento de falta grave