3.3. RELAÇÃO COM OUTROS PRINCÍPIOS
3.3.5 Progressividade
337
HORVATH, Estevão. O princípio do não-confisco no direito tributário. São Paulo: Dialética, 2002, p. 91/92.
338
É o que defende Sacha Calmon Navarro Coelho (COÊLHO, Sacha Calmon Navarro. Comentários à Constituição de 1988: Sistema Tributário. Rio de Janeiro: Forense. 2ª edição, 1990, p. 335/336) quando afirma que seria proibido suscitar o confisco nos casos em que o tributo apresenta um objetivo extrafiscal.
117 No seu aspecto eminentemente fiscal339, a progressividade consiste em uma técnica, em um instrumento de tributação que impõe o aumento progressivo das alíquotas, conforme cresce a base de cálculo340 341. Percebe-se, com isso, que a progressividade aumenta o imposto além da simples proporcionalidade.
A doutrina brasileira, em geral342, reconhece que a progressividade é uma técnica de tributação que homenageia a capacidade contributiva343. Nesse sentido, tratando-se de um instrumento de imposição principiológica inexorável, a progressividade deve, sempre que for possível, ser aplicada aos tributos, apresentando a estrutura de uma regra344.
Como destaca Roque Antonio Carrazza345, o nosso regime jurídico exige que a progressividade seja aplicada, a princípio, para todos os impostos, justamente porque sua implementação é a forma de concretizar a capacidade contributiva.
339
Geraldo Ataliba (ATALIBA, Geraldo. Progressividade e Capacidade Contributiva. n. “ Congresso
Brasileiro de Direito Tributário – Princípios Constitucionais Brasileiros”. Edição IDEPE/RT – separata
da Revista de Direito Tributário, 1991, p. 54/55) distingue a progressividade fiscal da progressividade extrafiscal. Segundo ele, a progressividade fiscal é aquela cujo aumento da alíquota está relacionado diretamente a base de cálculo do tributo, visando incrementar a arrecadação. Já a progressividade extrafiscal visa promover outros valores caros ao ordenamento jurídico, de modo que o aumento da alíquota é realizado visando concretizar estes objetivos.
340
QUEIROZ, Mary Elbe. Imposto Sobre a Renda e Proventos de Qualquer Natureza. Baruei/SP, Manole: 2004, p. 39.
341
José Maurício Conti (CONTI, José Maurício. Princípios Tributários da Capacidade Contributiva e da
Progressividade. São Paulo: Dialética, 1997., p. 76/78) destaca que já houve debate acerca da justiça
fiscal da progressividade, mas que a maioria doutrinária reconhece que ela é efetivo instrumento de justiça.
342
A título de exemplo, Misabel Derzi (DERZI, Misabel. Princípio da Igualdade no Direito Tributário e
suas Manifesta es. n “ Congresso Brasileiro de Direito Tributário – Princípios Constitucionais Tributários”. Edição IDEPE/RT – separata da Revista de Direito Tributário, 1991, p. 178) e Geraldo
Ataliba (ATALIBA, Geraldo. Progressividade e Capacidade Contributiva. n. “ Congresso Brasileiro
de Direito Tributário – Princípios Constitucionais Brasileiros”. Edição IDEPE/RT – separata da Revista
de Direito Tributário, 1991, p. 49) reconhecem a progressividade como um instrumento de realização da capacidade contributiva. Ives Gandra Marins (MARTINS, Ives Gandra. Princípios Constitucionais
Tributários. In ―Caderno de Pesquisas Tributárias n. 18‖. Ed. Resenha Tributária e Centro de Estudos de
Extensão Universitária. São Paulo, 1993, p. 5/11) opõe-se à ideia e critica demasiadamente a progressividade.
343
Klaus Tipke (TIPKE, Klaus. Princípio da gualdade e a d ia de iste a no Direito Tributário. In: RAND O MACHADO (coord.). Estudos em Homenagem ao Prof. Ruy arbosa Nogueira. São Paulo: Saraiva, 1984, p. 517-527, p. 527) defende que a progressividade ofende a isonomia, pois concede um tratamento desigual. Para ele, a progressividade somente se justifica com base em uma questão de política social, que somente pode ser realizada por Lei. Esta ideia não se coaduna com as posições firmadas no trabalho, pois, aparentemente, a concepção de isonomia desse autor parece fazer referência à mera posição formal entre os contribuintes. Para ele, a equiparação deve ser proporcional para ser justa. Todavia, este raciocínio não é abraçado neste estudo.
344 Vide sobre o assunto a nota 145.
345
CARRAZA, Roque Antonio. Curso de Direito Constitucional Tributário. 29 Ed. São Paulo: Malheiros, 2013, p. 99/100.
118 Trata-se de uma ferramenta que atende exatamente ao fim por ela proposto: cobra-se mais daquele que apresenta uma maior capacidade de contribuir. A progressividade é embasada na ideia de igualar os sacrifícios suportados pelos contribuintes distribuindo o peso das despesas públicas de maneira mais equitativa346.
Aqueles contribuintes que apresentam maior capacidade contributiva devem contribuir mais, não apenas proporcionalmente, mas progressivamente. Se a alíquota do imposto de renda fosse 10% para todos os rendimentos, a capacidade contributiva não estaria sendo respeitada, pois o pobre sacrificar-se-ia muito mais para pagar os 10% dos seus rendimentos, em comparação aos mais abastados.
Dentro da ideia de mínimo existencial e da inexistência de capacidade contributiva antes da sua superação, também não seria justo que alguém que ultrapasse este mínimo contribua na mesma proporção que aquele que supera e muito estes limites. A progressividade vem justamente tornar esta equação mais justa, para impor que as maiores capacidades de contribuir paguem uma alíquota maior. Mas não é esta a maior polêmica da progressividade.
Muito já se discutiu acerca da aplicação da progressividade para todos os impostos, em especial no tocante a uma classificação doutrinária relacionada a esta espécie tributária, que os distingue em reais e pessoais. Esta classificação defende, em resumo, que os impostos pessoais são aqueles que levam em consideração as condições individuais do contribuinte, na definição do fato gerador, da base de cálculo ou da alíquota. Os impostos reais, por outra via, são aqueles que levam em consideração aspectos não atrelados diretamente ao sujeito passivo, tal como um bem ou um negócio jurídico.
Exemplo clássico de imposto pessoal é o imposto de renda, enquanto exemplos de impostos reais são o imposto sobre a propriedade territorial urbana ou imposto sobre transmissão de bens imóveis.
346
CONTI, José Maurício. Princípios Tributários da Capacidade Contributiva e da Progressividade. São Paulo: Dialética, 1997, p. 80/81.
119 Durante muito tempo, autores defenderam que a progressividade não poderia ser aplicada aos impostos ditos reais, pois, segundo essa corrente, estes impostos não permitiriam a consideração de aspectos pessoais dos contribuintes, o que obstaria, nessa linha de raciocínio, a própria aplicação da capacidade contributiva. Essa doutrina defendia, assim, a impossibilidade de aplicação da capacidade contributiva, na sua feição subjetiva, aos denominados impostos reais.
Esse pensamento contraria, frontalmente, todas as premissas consideradas no estudo, que apontam para a aplicação da capacidade contributiva para todas as espécies tributárias, sendo ainda mais forte no tocante aos impostos. A própria classificação de impostos em reais e pessoais parece ser um grande equívoco, pois confunde e ofusca critérios de mensuração da capacidade.
Geraldo Ataliba347 afirmava que todos os impostos, sem exceção, estão sujeitos à aplicação do princípio da capacidade contributiva, de modo que não poderia ser negada a aplicação da progressividade a eles. Segundo o autor, todos os impostos poderiam ser progressivos, entendimento este que fortalece as conclusões deste trabalho.
A corrente que defende a não aplicabilidade da capacidade da progressividade para impostos ditos ―reais‖ sempre invoca um exemplo de uma senhora cuja renda não poderia fazer frente à crescente despesa com IPTU de um imóvel extremamente caro na Avenida Paulista, no Município de São Paulo/SP; imóvel este no qual ela residira por toda a sua vida, onde os seus filhos cresceram, com o qual ela claramente mantinha um laço afetivo forte. A doutrina que o invocava afirmava que a progressividade/capacidade contributiva atingiria resultado diferente do objetivado, o que não seria admissível.
Esse exemplo não se presta para o fim pretendido e deturpa todos os critérios da capacidade contributiva. A grandeza avaliada pelo imposto é a propriedade de imóvel, que não se relaciona com a renda do indivíduo. Em verdade, a riqueza e capacidade contributiva que deve ser observada é a do imóvel e não a renda anual do proprietário, que é fato totalmente alheio àquele imposto.
347
ATALIBA, Geraldo. Progressividade e Capacidade Contributiva. n. “ Congresso Brasileiro de
Direito Tributário – Princípios Constitucionais Brasileiros”. Edição IDEPE/RT – separata da Revista de
120 É possível considerar sem capacidade contributiva para pagar impostos sobre o patrimônio, uma pessoa que tem um legado de 50 milhões? A resposta é obviamente negativa. Exemplo similar seria o de um cidadão que resolve comprar uma Ferrari e cuja renda sofre uma redução em decorrência de uma crise nos seus negócios, e que, por isso, nega-se a pagar IPVA. São fatos alheios à norma do tributo analisado e que, em decorrência disso, devem ser ignorados para a avaliação jurídica da capacidade contributiva.
Ante tudo o que foi colocado, percebe-se que a progressividade não é propriamente um princípio, mas sim uma técnica. Com isso, no âmbito tributário, a progressividade mostra-se como um instrumento de realização da capacidade contributiva, a qual deve ser aplicada sempre que cabível.