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6.1 Introdução

Para que se tenha uma eficiente e sustentável gestão integrada de recursos hídricos, esta deve ser feita ao nível da fonte de captação, independentemente de se tratar de um pequeno rio terciário afluente ou se este for um grande rio multinacional. As acções para implementar a GIRH são contudo, em termos práticos, muito diferentes entre as de grande e de pequena escala.

Como descrito nos capítulos anteriores, seriam necessárias médias ou grandes barragens num rio principal para assegurar o abastecimento de água para grandes desenvolvimentos agro-industriais ou metropolitanos urbanos e através deste desenvolvimento melhorar as condições sócio-económicas da população quer urbana quer semi-urbana. Contudo, as acções a considerar que sejam de pequena escala, iriam basear-se em actividades de subsistência, já que a população vive mais espalhada e em condições sócio-económicas precárias. O melhoramento dos meios de vida destas pessoas requer um abastecimento de água segura para as áreas com populações dispersas, bem como de garantir a sobrevivência em períodos de baixa pluviosidade. Assim, as acções a nível local dariam prioridade sobre a criação de condições para a acumulação de pequenos volumes de água em muitos locais, em vez de grandes volumes em poucos locais.

Normalmente, a responsabilidade pelo desenvolvimento rural é dos governos locais e não das autoridades de águas. Contudo, se o desenvolvimento fosse suficientemente importante e tivesse um impacto considerável sobre os recursos hídricos regionais, seria obrigatória uma autorização das autoridades de águas. A definição de ser suficientemente importante não está muito clara e as Leis Nacionais de Águas em ambos os países, nomeadamente Moçambique e Zimbabwe, especificam que o consumo de água para uso comum é grátis.

Em Moçambique, as “Águas comuns” são definidas como sendo a água consumida por uma família, para fins domésticos, criação de gado e irrigação de pequena escala sem qualquer uso de mecanização. No Zimbabwe são permitidos armazenamento de até 5,000 m3 sem autorização e a “água primária” para uso doméstico em quantidades razoáveis, é grátis.

Contudo, o conhecimento profissional sobre o desenvolvimento de recursos hídricos, ambos de água subterrânea e superficial, dentro das autoridades de águas é um bem valioso para assegurar que os projectos de pequena escala também sejam apropriados e sustentáveis.

Os projectos de desenvolvimento de pequena escala não devem ser impulsionados pelas autoridades regionais de águas na Bacia do Rio Pungoé, mas pelos Governos Locais ou pelos próprios utentes da água. Contudo, a ARA-Centro e ZINWA Save devem ter um papel no desenvolvimento de projectos de pequena escala, ambos como autoridades de licenciamento e como assessoras especializadas.

A seguir são apresentadas as áreas principais de desenvolvimento de pequena escala em cujas actividades devem estar envolvidas as autoridades de águas.

Página 6-2 6.2 Maior Fiabilidade para a Agricultura e Irrigação de Pequena Escala

Alimentadas pelas Águas das Chuvas

Com a excepção das plantações comerciais de chá e florestas de grande escala no Zimbabwe, e em Mafambisse Sugar Estate, no Estuário do Pungoé em Moçambique, a maioria da população da bacia depende de agricultura sustentada pelas águas das chuvas para o seu sustento. Isso significa que a água dos rios só é usada de forma muito limitada.

Por esse motivo, as colheitas só são feitas durante a estação das chuvas.

Sob condições normais, a agricultura de subsistência é suficiente para providenciar um meio de vida básico, especialmente nas áreas montanhosas mais elevadas da bacia do rio onde as chuvas ocorrem com muita frequência. Contudo, o problema crucial é que a actividade de subsistência não é suficiente para aumentar o armazenamento de produtos alimentares para que as populações possam garantir a sua subsistência nos períodos de seca excepcional, dado que a pluviosidade não é suficiente para uma produção de produtos agrícolas satisfatória.

Em termos da procura média de água a longo prazo, o volume necessário para também garantir colheitas para os agricultores de subsistência durante os anos de seca, é muito pequeno e normalmente seriam suficientes soluções de pequena escala.

O aumento das quantidades de produtos agrícolas provenientes da prática de uma agricultura sustentada e que passa pela rega não só a partir das águas da chuva mas fazendo-se recurso também quer à água superficial quer subterrânea, pode levar a que as actividades de subsistência desenvolvam negócios de pequena escala visto que a eficiência de cultivo melhorará e o excedente pode ser vendido nos mercados locais.

O mesmo princípio pode ser aplicado à irrigação de pequena escala sem facilidades de armazenamento, especialmente nas áreas mais elevadas do Rio Pungoé, onde muitos pequenos sistemas de irrigação só usam canais de desvio. Os pequenos armazenamentos a nível de propriedade agrícola aumentariam a segurança do abastecimento de água durante os períodos de seca.

6.2.1 Infra-estrutura da pequena escala para abstracção de água

A possibilidade de aumentar a fiabilidade das plantações alimentadas pela água das chuvas sem o envolvimento de muitos custos pode ser constado a partir da experiência do vale de Honde, nas áreas mais elevadas do Pungoé no Zimbabwe.

No ano de 2000, o Conselho da STABEX Coffee Research and Training Trust (SCORITT) aprovou e atribui uma concessão de aproximadamente 26.1 milhões de dólares zimbabweanos para a implementação de sete sistemas de irrigação através de financiamento da União Europeia. Os esquemas seleccionados foram Buwu, Chiteme A, Duri, Masara Heights, Rupinda A e C, Samanga e Dumba, todos na área do Vale de Honde da bacia do Rio Pungoé. As obras foram iniciadas no mesmo ano com um sistema piloto em Duri, estendendo-se aos restantes locais pouco tempo depois.

O projecto procedeu à concessão de parcelas de irrigação de um hectare por família. A água foi desviada dos rios das montanhas por meio de represas feitas em alvenaria para armazenamento durante o período da noite. O Trust financiou os materiais para o canal de desvio, condutas e o armazenamento principal que consiste num tanque de alvenaria. O apoio técnico para o projecto e construção foi providenciado através de peritos externos. Os

Página 6-3 consumidores foram responsáveis pela provisão de todo o desenvolvimento de mão-de-obra e no campo.

O sistema piloto em Duru já foi concluído e está a operar com sucesso plantando uma variedade de culturas que incluem o café, feijão, tomate e milho forrageiro. Os restantes os sistemas ainda não foram concluídos devido a problemas de financiamento.

O exemplo do vale de Honde mostra que, com um apoio muito pequeno, a segurança alimentar dos agricultores de pequena escala pode ser aumentada. As soluções técnicas podem ser variáveis, desde canais de desvio ou represas em rios, pequenos tanques de armazenagem, captação de água subterrânea de pequena ou grande profundidade, etc. A gravidade é a força principal para transportar a água o que significa que as partes montanhosas das bacias do Rio Pungoé são favoráveis a este tipo de desenvolvimento de pequena escala.

Os factores comuns para todas estas medidas são que os agricultores individuais necessitam de assessoria técnica sobre soluções viáveis e ajuda para investimento. No caso do Vale de Honde, os agricultores podem levar a cabo a maioria das obras da construção de desenvolvimento no campo.

O papel das autoridades regionais de águas para este tipo de desenvolvimento de pequena escala impulsionado pela procura, seria o de providenciar apoio técnico, bem como aprovação e fazer cumprir os regulamentos de águas. Também deviam, em conjunto com os órgãos governamentais locais ou rurais, promover este tipo de desenvolvimento através de informação e educação. Isto podia, por exemplo ser feito através de foros de intervenientes estabelecidos no Zimbabwe e em Moçambique. Contudo, não é recomendado que as facilidades de investimento de pequena escala devam ser da responsabilidade da ARA-Centro ou da ZINWA Save. Esta responsabilidade deve recair sobre os Governos ou ONGs locais.

6.2.2 Pequenas barragens e facilidades de irrigação

Antes da independência de Moçambique, existia um grande número de pequenas barragens na bacia do Rio Pungoé. Nos últimos cinco anos, tem havido um aumento significativo de pedidos de títulos de terra para produção agrícola comercial, em especial na Província de Manica. Alguns dos agricultores também têm solicitado a construção de pequenas barragens para armazenamento e abastecimento de água.

No sector agrícola da Província de Sofala, existe um projecto contínuo para aumentar as áreas de irrigação de pequena escala. Este é uma iniciativa da Direcção Nacional de Hidráulica Agrícola e dos Governos da Província de Sofala financiada pelo Banco Africano de Desenvolvimento. O Projecto construirá pequenos esquemas de irrigação nos distritos de Chibabava, Gorongosa, Nhamatanda e Dondo, com os três últimos distritos a estarem localizados na bacia do Rio Pungoé. Ao todo, o projecto contemplará 674 hectares de terras para irrigação. Para assegurar o abastecimento de água a estes sistemas a partir do rio, foi constatado que são necessários pequenos armazenamentos de água.

É importante promover a construção de pequenas barragens e encontrar apoio financeiro.

Estes exemplos mencionados referem-se a Moçambique mas também existe uma necessidade semelhante no Zimbabwe. Estas pequenas barragens seriam todas impulsionadas pela procura e seriam essencialmente construídas e operadas pelos próprios utentes da água. A ARA-Centro e ZINWA Save devem estar envolvidas na aprovação das barragens e correspondente utilização de água a partir delas. Devem igualmente promover a

Página 6-4 reabilitação de antigas obras de armazenamento e a construção de novas pequenas barragens. A este respeito, as seguintes responsabilidades podiam ser tomadas pelas autoridades de águas:

• As necessidades de pequenas barragens na bacia devem ser inventariadas e avaliadas pelo Comité da bacia do Pungoé e Conselhos de Sub-bacia;

• Em conjunto com as autoridades e ONGs locais, identificar fontes de financiamento para a construção e reabilitação de pequenas barragens em que o interveniente deve apoiar parte do investimento;

• A pedido dos utentes, devem ser conduzidos estudos preliminares para seleccionar os melhores locais para as barragens e serem discutidos com os utentes da água de forma a estabelecer prioridades. Para as barragens prioritárias, devem ser levados a cabo levantamentos técnicos, estudos de projecto e documentos de construção;

• A supervisão da construção e das obras de reabilitação e, a pedido, apoio à gestão e operação das barragens.

6.3 Abastecimento Rural de Água Subterrânea

As pequenas vilas que estão normalmente rodeadas por comunidades e aldeias tradicionais são muitas vezes abastecidas por pequenos sistemas de abastecimento de água que são alimentados por furos, poços de grande ou pequena profundidade, e em alguns casos, a partir do escoamento natural de rios ou nascentes. Em Moçambique, os distritos de Nhamatanda, Muanza e Macossa dependem unicamente de água subterrânea para o seu abastecimento doméstico de água.

De igual modo, os poços instalados pelos Governos ou ONGs locais contribuem significativamente para o abastecimento de água às comunidades rurais espalhadas em Moçambique. No Zimbabwe, apesar da natureza perene da maioria dos afluentes na bacia superior do Rio Pungoé, a água de superfície é contudo a fonte principal de abastecimento das comunidades das aldeias.

A maioria dos sistemas de abastecimento de água em Moçambique estão inoperacionais ou a operar com enormes deficiências devido à sua idade, falta de manutenção e cortes de energia. A água subterrânea em muitas áreas, não tem a qualidade suficiente, por ser salobra. O desenvolvimento de pequenos sistemas urbanos e rurais de abastecimento de água é fundamental para melhorar as condições de vida das populações a nível local.

Os governos locais têm a responsabilidade de abastecer de água os aglomerados populacionais que vivem no meio rural, isto é fora dos centros urbanos sendo por isso indispensável que impulsionem o desenvolvimento destas áreas. As autoridades de águas regionais, especialmente, a ARA-Centro em Moçambique, podem contudo ter um papel importante no desenvolvimento de recursos da água subterrânea para pequenos abastecimentos urbanos ou rurais. Os papéis da ARA-Centro e ZINWA Save podem ser definidos como sendo:

• Providenciar o apoio técnico aos Governos e ONGs Locais;

• Facilitar o fluxo de dados entre a ARA-Centro/ZINWA Save e as autoridades nacionais e as organizações locais.

O primeiro passo seria de coordenar um levantamento e inventariação dos principais problemas que dizem respeito ao fornecimento de água rural. As autoridades regionais de

Página 6-5 águas devem planear e conduzir este trabalho em conjunto com os governos locais. Depois do levantamento, deverá ser feita uma avaliação em detalhe através de:

• Campanhas de amostragem;

• Inquéritos e entrevistas com a população local.

Nas áreas prioritárias, é possível que sejam necessárias campanhas no terreno. Estas devem incluir inventário de poços, amostragem de água e levantamentos geológicos. Será necessário que, nestas questões, os governos locais tenham o apoio das autoridades de águas regionais.

Para se conhecer a possibilidade de aproveitamento de águas subterrâneas para o abastecimento às populações, dever-se-á recorrer a à secção de águas subterrâneas da DNA em Maputo, que tem um sistema de base de dados que contém muita informação referente a poços e qualidade da água subterrânea a nível nacional. Infelizmente, há já alguns anos que a base de dados não funciona bem. É necessário que a capacidade seja aumentada a ambos os níveis, quer nacional quer regional para permitir o uso desta base de dados que é extremamente valiosa para desenvolver os recursos de água subterrânea.

Depois do levantamento pormenorizado efectuado, deve-se fazer uma análise e estudo das áreas em que a água subterrânea é a fonte principal de abastecimento e onde os problemas prevalecem. A mesma atenção se deve ter em relação às áreas situadas longe das fontes de água de superfície (rios, lagos, represas). Em áreas seleccionadas, é provável que exista a necessidade de investigações geofísicas pormenorizadas, que envolvam levantamento da resistividade, WLF e por vezes furos de teste. Por outro lado, em locais específicos e identificados, é provável que exista necessidade de investigações hidrogeológicas abrangentes, tais como bombagem de prova ou modelação da água subterrânea. Até certo ponto, as autoridades nacionais de águas têm este conhecimento mas terão que ter capacidade para apoiar as autoridades locais relevantes nestas questões.

A partir dos resultados das investigações acima descritas, é provável que seja necessário abrir novos furos. Por esse motivo, as autoridades locais responsáveis pelos abastecimentos de água rural tenham a capacidade apropriada para promover concursos para a realização destas obras.

Esta lista de actividades mostra que será necessário promover um projecto de capacitação que envolva as autoridades de águas regionais para trabalhar em cooperação estreita com os governos e ONGs locais e em diálogo contínuo com as autoridades de águas centrais.

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7 PROJECTOS DE GESTÃO AMBIENTAL E DE CHEIAS

7.1 Controlo de Cheias

É frequente ocorrem cheias nas partes baixas da bacia do Rio Pungoé. Durante o período entre 1999 e 2001, a Estrada Nacional entre a Beira e Maputo em Moçambique bem como pequenas aldeias locais, localizadas nas planícies de inundação das partes baixas da bacia, sofreram danos muito avultados.

É provável que as potenciais barragens que venham a ser construídas no futuro na bacia do Rio Pungoé mitiguem, até certo ponto, os efeitos de cheias nas partes baixas da bacia. A barragem pode ser utilizada para armazenar temporariamente um grande caudal de pico de cheia enquanto o descarregador liberta o volume da de uma forma controlada. Até que nível de magnitude de inundação pode ser usado este método, depende do tamanho da barragem (especialmente da área da albufeira ao nível de abastecimento total) e da altura do descarregador de superfície.

Durante a Fase do Cenário de Desenvolvimento, foram feitos cálculos para avaliar até que ponto as barragens propostas (ver Capítulo 4) podiam mitigar as cheias. Foram investigadas ambas as barragens de Pavua e Bué Maria. Visto que a barragem de Bué Maria é uma barragem de terra, foi pressuposto que 3 metros de comprimento para o descarregador de superfície eram razoáveis enquanto que para a estrutura de betão da Barragem de Pavua foi aplicada um comprimento de 5 metros.

Os resultados (Figura 7.1 e 7.2) indicam que o tamanho de uma barragem projectada para satisfazer a procura média de água em 2025 proporcionaria menos do que 20% de redução no pico de cheias para um período de retorno de 500 anos (o período de retorno das cheias em 2001 foram aproximadamente nessa ordem de grandeza). A Barragem de Bué Maria provocaria uma área inundada pela albufeira mais elevada em relação à de Pavua.

A conclusão a que se chega é que as barragens propostas têm muito poucas possibilidades de mitigar as cheias com magnitudes tais como a que ocorreu em 2001.

Para que o controlo das cheias seja mais eficiente, têm que ser construídas barragens no Rio Pungoé com uma capacidade de reserva maior, que seja regulada para cumprir com este objectivo (isto é, serem feitas descargas para manter a barragem a níveis baixos durante a estação das chuvas). Contudo, os custos destas barragens seriam demasiado elevados e os benefícios na redução dos danos causados por cheias têm que, portanto, ser significativos para as tornar viáveis.

Para cheias mais frequentes, de menores magnitudes, uma barragem no Rio Pungoé tem uma probabilidade mais elevada de suprimir uma inundação. Os cálculos mostram que até um período de retorno de 20 anos, a inundação pode ser reduzida em 50% ou mais. A necessidade de mitigação destas cheias de menor importância não está, contudo, muito clara. As pessoas que vivem nas áreas mais baixas, próximas da bacia do deste rio, estão acostumadas aos níveis normais de inundação e, até certo ponto, dependem delas para a agricultura de inundação.

A necessidade e benefícios de controlo de cheias têm que, portanto, ser completamente avaliados antes de serem tomadas medidas.

Página 7-2 Recomenda-se, portanto, que seja feita uma avaliação económica dos danos de cheias para a bacia do Rio Pungoé. Esta avaliação constitui um input importante para o estudo de viabilidade para a construção de futuras barragens e define as condições para o cálculo do potencial de mitigação de cheias para diferentes magnitudes e para formas de operação de diferentes barragens.

O passo mais importante de uma avaliação económica de danos de cheias é a cartografia de inundações que também é de grande valor para propósitos de aviso de cheias, (ver capítulo a seguir).

0 1000 2000 3000 4000 5000 6000

1 25 49 73 97 121 145 169 193 217 241

Time (h)

Flow (m3/s)

Inflow to dam Dam discharge

81 82 83 84 85 86 87

1 25 49 73 97 121 145 169 193 217 241

Reservoir level (m)

Reservoir level