II. TRABALHO PRELIMINAR: OBSERVAÇÃO-PARTiCIPANTE DE
II.2. Os projetos
II.2.2. Projeto “A casa vai a casa”
“A Casa vai a casa” é um programa da iniciativa do Serviço Educativo da Casa da Música que permite levar projetos musicais a comunidades institucionalizadas. Uma equipa de formadores do Serviço Educativo desloca-se às sedes das instituições que o solicitam, permitindo que grupos de indivíduos que têm um acesso muito restrito (ou inexistente) à atividade musical desenvolvam um trabalho que “contribui para a reabilitação da auto-estima, promove o combate à exclusão social e incentiva o espírito de comunidade” (Casa da Música 2012a: 165). No âmbito do programa “A Casa vai a casa”, desenvolveu-se entre janeiro e março de 2013 um projeto no Estabelecimento Prisional do Porto (EPP), com a participação de um número flutuante de reclusos do sexo masculino em cada sessão (entre 14 e 36, segundo os meus registos).
Liderado por Jorge Queijo e Maria Mónica, uma equipa de músicos pertencentes ao Factor E!32 do Serviço Educativo da Casa da Música, o projeto teve como objetivo inicial a
construção de instrumentos musicais, mais tarde usados na criação do material musical desenvolvido e apresentando. De notar que este foco na construção de instrumentos foi consequência de um pedido explícito da Direção do EPP no âmbito da solicitação de uma ação do programa “A Casa vai a casa”.
Jorge Queijo é um músico do Porto que se move entre os mundos da percussão africana, bateria, música eletrónica, free jazz, música improvisada e liderança de workshops musicais. É bacharel pela Escola Superior de Música e Artes do Espectáculo do Porto na área de jazz e obteve, mais tarde, o Master da Guildhall School of Music and Drama em Leadership. Como
32 “O Factor E! é a equipa de formadores e criativos do Serviço Educativo, co-autores ou intervenientes activos em todas as
actividades desta agenda [brochura do Serviço Educativo 2012-2013]. É também um ensemble musical que cruza as linguagens dos seus elementos, todos eles músicos profissionais” (Casa da Música 2012:9).
membro da equipa Factor E!, Jorge Queijo participou em vários projetos dentro das prisões portuguesas nos últimos anos.
Maria Mónica é formada em Design de Comunicação pela Faculdade de Belas Artes, no Porto. Ao longo dos anos, complementou esta formação com estudos musicais não superiores, e tem desenvolvido a sua atividade profissional entre estes dois mundos. Como membro do Factor E!, participou em dois projetos dentro da principal prisão masculina no Porto, a mesma onde se desenvolveu o projeto aqui descrito. Como designer, colaborou com reclusos num projeto especial para EGEAC (Empresa Municipal de Lisboa responsável pela gestão de equipamentos e animação cultural) para o Carnaval de 2015.
Devido às restrições impostas pelos dirigentes do EPP relativas ao material que os formadores poderiam trazer do exterior, os instrumentos construídos durante as sessões foram bastante rudimentares, usando material reciclado recolhido pelos reclusos na prisão: garrafões e garrafas de plástico, bidões de detergentes, embalagens de iogurtes líquidos e tampas plásticas de garrafa. Com este material, foram construídos megafones (com garrafões plásticos aos quais se cortou o fundo), “garrafão-ofones” e “garrafofones”33 (garrafões e garrafas às quais se
tira o fundo e se recorta as laterais em tiras para produzir som ao agitar), shakers (embalagens de iogurtes líquidos com arroz dentro) e castanholas (duas tampas plásticas coladas numa base de cartão, que depois se dobra).
Nas oficinas de prisão, sob a vigilância dos professores responsáveis, os reclusos construíram dois cajons, duas pandeiretas, baquetas, uma espécie de guitarra (cuja caixa de ressonância era um bidão de tinta em metal) e um reco-reco tradicional.
Com os instrumentos construídos, a base do trabalho musical assentou maioritariamente em trabalho rítmico, associado a trabalho de percussão corporal. Houve, também, trabalho vocal – criação de duas frases melódicas, apoiadas por guitarra (tocada por Jorge Queijo e dois dos reclusos), que constituíram uma das peças mais trabalhadas e apresentadas no final do projeto. Um conjunto de boomwackers afinados na escala de Dó Maior foi, também, utilizado para sustentar o trabalho das linhas vocais.
Em termos de metodologias de trabalho, os líderes do projeto sempre trabalharam com todo o grupo em simultâneo. No trabalho das secções rítmicas, o processo de construção de uma textura seguiu, sempre, um modelo de atribuição de padrões rítmicos a pequenas partes do grupo, com o uso de sinais e gestos para indicar secções, entradas, saídas e dinâmicas. Os reclusos foram, com frequência, convidados a criar as suas próprias frases rítmicas. No caso
do trabalho de vozes, o tema (estrutura AABB) foi criado por um dos reclusos, desde o primeiro dia identificado por todos os outros participantes como sendo o melhor cantor (era, na altura, vocalista da banda rock/pop que existe dentro do EPP), sobre uma sequência de acordes tocados na guitarra pelo Jorge Queijo. Todo o grupo aprendeu, nas sessões seguintes, esta linha vocal.
Neste projeto, os líderes tiveram que lidar com um número muito instável de reclusos em cada sessão (a participação no projeto era voluntária). Mesmo durante uma mesma sessão (de sensivelmente 1h30), havia vários reclusos a sair sem qualquer explicação ou outros que chegavam 30 ou 40 minutos mais tarde. Esta instabilidade impediu um trabalho musical mais sólido, com uma definição absolutamente clara de tarefas e de estrutura de cada um dos momentos musicais.
Ao contrário do que seria desejável e expectável, o projeto não terminou com uma apresentação pública, tendo em conta as condicionantes atrás referidas. No último dia, os líderes organizaram o grupo no pátio exterior do EP, situado junto ao espaço onde tinham acontecido as sessões anteriores, e trabalharam-se em grupo os dois temas construídos
anteriormente: momento de percussão (com instrumentos construídos e percussão corporal) e a peça vocal (com apoio de boomwackers, guitarra e alguma percussão). Houve, também, espaço para um momento de improvisação com percussão corporal e pequena percussão. Os reclusos que passeavam, nessa hora, pelo pátio foram o público deste último dia de trabalho.