3 MEDIDAS DE COMBATE AO TRABALHO INFANTIL: DA FORMULAÇÃO AOS RESULTADOS
3.2 PROJETO “BEM EDUCAR” DO MPGO E PROJETO “AMPARANDO FILHOS” DO TJGO
O primeiro projeto a ser analisado teve início com a constatação do alto índice de evasão escolar, o baixo rendimento dos estudantes e a reiteração de condutas configuradoras de bulling no município goiano de Taquaral. Assim, o promotor de Justiça do município, José Antônio Corrêa Trevisan, iniciou a idealização do projeto com o objetivo de aproximar o Ministério Público e a comunidade escolar, de modo a
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A íntegra do Projeto está disponível em:
<http://portal.mpt.mp.br/wps/portal/portal_mpt/mpt/ompt/projetosnacionais>. Acesso em: 15 set. 2015.
auxiliar no diagnóstico de carências e subsidiar ações e eventuais políticas públicas na área da infância e da juventude. Prioritariamente, devia haver colaboração e integração entre as pastas da assistência social, saúde e educação da municipalidade, sob pena de inocuidade na execução das ações do projeto capitaneado, no caso, pelo Ministério Público.
Diagnosticou-se, de início, que a maior parte dos adolescentes que começaram a trabalhar de forma precoce não frequentava a escola. A cidade de Taquaral, que dista noventa e dois quilômetros da capital do estado, constitui uma referência no setor de confecção de lingerie em Goiás, havendo, pois, carência de mão de obra. Fato que desperta interesse, ainda que precoce, dos adolescentes. Adicione-se a isto o fato de que as escolas do município se encontravam em mau estado de conservação e o ensino oferecido estava bastante díspar da realidade e necessidade daqueles jovens.
Nesse contexto, o aludido promotor iniciou estudos sobre alternativas para que o mencionado interesse de ingresso no mercado de trabalho fosse feito, pelo menos, em conformidade com os ditames legais e constitucionais, assegurando o vínculo escolar e os direitos trabalhistas e previdenciários para os jovens trabalhadores. Portanto, após diligências idealizadas no projeto Bem Educar, constatou-se que, de fato, regularizar a situação dos jovens poderia ser uma possibilidade real de inserção deles no mundo do trabalho, isto após a necessária e pertinente capacitação profissional.
Como visto anteriormente, a transformação de um labor ilegal para aquele trabalho realizado de acordo com a lei da aprendizagem deve ser estimulada, incentivando-se, ainda, a regularização das empresas para o correto oferecimento das vagas. Desse modo, em agosto de 2012, após o estabelecimento de parecerias, com base no projeto que, posteriormente, foi nomeado como “Bem Educar”, entre o poder público, a comunidade, as entidades paraestatais e privadas do munícipio, teve início a primeira turma de capacitação para a formação dos estudantes como costureiros industriais, beneficiando vinte e sete adolescentes.
Também na conjuntura do projeto, a comunidade foi sensibilizada e se mobilizou na busca de melhorias para seara educacional desses jovens. Como um dos resultados das parcerias efetivadas, uma escola, a Escola Estadual Princesa Isabel, foi totalmente reformada e passou a contar com laboratórios de física, química e informática. Tudo feito a partir de trabalho voluntário e levando em
consideração a ideia dos próprios alunos – que também participaram efetivamente da reforma de sua escola – sobre o que seria um bom ambiente escolar. Posteriormente, o projeto Bem Educar passou a se vincular ao Centro de Apoio Operacional102 da Educação do MPGO. Isto porque cabe a estes tipos de centros, conforme o artigo 33, inciso I, da Lei nº 8.625/1993, “[...] estimular a integração e o intercâmbio entre órgãos de execução que atuem na mesma área de atividade e que tenham atribuições comuns”.
Com efeito, no ano de 2015, o projeto foi lançado noutro município goiano, Mossâmedes, onde se estabeleceram eixos de trabalho, priorizando o esporte, as questões de lazer e cultura, a carência de projetos voltados aos jovens ociosos do município, a exemplo da desativação do ginásio de esportes municipal da cidade. A promotora responsável pela execução do projeto em Mossâmedes, Liana Tormin, priorizou o envolvimento das famílias no meio escolar e conseguiu resultados como a baixa substancial de situações de indisciplina estudantil.103
Sobre o projeto Amparando Filhos: Transformando Realidades com a Comunidade Solidária, iniciado em 2015 pelo juiz de Direito Fernando Chacha na comarca de Serranópolis, estado de Goiás, tem-se que o enfrentamento direto ao trabalho infantil não estaria contemplado. Contudo, pelo potencial nele contido e pelos resultados já obtidos, justifica-se sua inserção no presente trabalho com as pertinentes considerações ao cabo. O objetivo do projeto consiste em proteger e amparar integralmente filhos de mães encarceradas, ancorando-se nas diretrizes contidas nas Regras Mínimas para Mulheres Presas104 (Regras de Bangkok) e nos princípios norteadores do ECA, tais como intervenção precoce, proteção integral e melhor interesse da criança.
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Os Centros de Apoio Operacional foram concebidos, no âmbito dos Ministérios Públicos dos Estados, a partir do previsto no art. 8º, I, da Lei Federal nº 8.625 de 12/02/1993 que explica: Art. 33. Os Centros de Apoio Operacional são órgãos auxiliares da atividade funcional do Ministério Público, competindo-lhes, na forma da Lei Orgânica: I - estimular a integração e o intercâmbio entre órgãos de execução que atuem na mesma área de atividade e que tenham atribuições comuns; II - remeter informações técnico-jurídicas, sem caráter vinculativo, aos órgãos ligados à sua atividade; III - estabelecer intercâmbio permanente com entidades ou órgãos públicos ou privados que atuem em áreas afins, para obtenção de elementos técnicos especializados necessários ao desempenho de suas funções; IV - remeter, anualmente, ao Procurador-Geral de Justiça relatório das atividades do Ministério Público relativas às suas áreas de atribuições; V - exercer outras funções compatíveis com suas finalidades, vedado o exercício de qualquer atividade de órgão de execução, bem como a expedição de atos normativos a estes dirigidos.
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Dados fornecidos pela própria promotora de Justiça em contato telefônico efetuado em 15/8/2016.
104
Disponível em:
<www.cnj.jus.br/files/conteudo/arquivo/2016/03/27fa43cd9998bf5b43aa2cb3e0f53c44.pdf>. Acesso em: 15 ago. 2016.
Na prática, o projeto vem para responder e tentar solucionar, com ações integrais e planejadas, três perguntas: com quem, onde e, fundamentalmente, como ficarão esses filhos até o retorno de suas mães? A metodologia aplicada, por seu turno, consiste em, imediatamente após a ciência da prisão de uma mãe (que pode ocorrer na audiência de custódia105), o magistrado deve proceder à devida articulação de medidas a serem implementadas por ele e pela rede de proteção infanto-juvenil, com vistas ao menor impacto possível da ausência da genitora. Dentre as medidas, incluem-se visitas técnicas na residência do menor, regularização da guarda provisória de seu responsável, promoção do contato humanizado com a mãe reeducanda e a prole em ambiente próprio e não no presídio.
O projeto em tela, que foi implantado em nove cidades goianas106, já colhe resultados. No aspecto material107, com apoio da comunidade local, propiciou a restauração de um imóvel na Comarca de Jataí habitado por filha e mãe da presa em que, antes, ficava inundado por ter o telhado quebrado no único cômodo do imóvel. No plano psicológico, o projeto, que é destinado à criança e ao adolescente filhos de mães encarceradas, propicia um acompanhamento psicossocial pelos órgãos responsáveis (CRAS ou CREAS) e também pela escola.
Sobre a educação dos pequenos, constatou-se que as crianças atendidas pelo projeto melhoraram substancialmente seu desempenho escolar. Por meio de visitas humanizadas108, minimizou-se um pouco o estigma que a prisão estabelece nas pessoas que ali residem, resgatando o sentimento de ressocialização das mães. Outro dado bastante positivo é que, até o término desta pesquisa, dentre todas as mães participantes do projeto que deixaram a prisão, nenhuma reincidiu. Também dentre os filhos de mães presas, não houve ocorrência de ato infracional.
105
Conforme o art. 8º, X, da Resolução CNJ 213/2015.
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Atualizado até dia 16/11/2016: Comarcas que implantaram o Projeto em ordem cronológica: Serranópolis, Jataí, Israelândia, Iporá, Anápolis, Luziânia, São Luis dos Montes Belos, Paraúna, Cachoeira Alta e Goiânia.
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Este é apenas um exemplo de atuação conjunta, a mobilização trazida pelo projeto computa a doação de enxoval para bebês de mulheres grávidas que estavam encarceradas; distribuição de cestas básicas aos filhos que estavam desamparados, garantindo o direito básico à alimentação.
108
Para tais visitas, estipula-se local diverso da prisão, com num centro de referência ou um parque próximos ao presídio, para que seus filhos não se sintam constrangidos com o triste ambiente da prisão. O gestor do projeto atesta que algumas brinquedotecas estão sendo construídas pelas respectivas comunidades, em áreas laterais ao estabelecimento prisional com vistas à referida visita.
Apesar do projeto não ter resultado específico na redução do trabalho infantil109, o potencial das ações que estão sendo desenvolvidas ali deve impactar positivamente na redução do trabalho infantil nos municípios atendidos. Isto porque, conforme se tem constatado, muitos filhos estavam sendo cuidados por vizinhos ou amigos da genitora que, por vezes, também cometiam atos ilícitos e se utilizavam dessas crianças e adolescentes para tráfico e outros delitos. Também as parcerias no âmbito do projeto permitiram o fornecimento de cursos profissionalizantes às reeducandas e aos filhos adolescentes.110
Como se observa, há autoridades públicas preocupadas com o bem-estar de crianças e adolescentes e, com criatividade e sem custos financeiros, têm melhorado, ainda que pontualmente, a vida dos atendidos nos projetos citados.
3.3 ATUAÇÃO DO PROGRAMA INTERNACIONAL PARA A ELIMINAÇÃO DO