A Holanda é uma das nações mais respeitadas da Europa por sua sociedade homogênea e democrática. É também reconhecida a qualidade de vida de sua população, fator pelo qual possuí um dos melhores Índices de Desenvolvimento Humano (IDH) do mundo. Realidade conquistada em um período largo de tem-po, que se estende pelo menos até o século 19, e que constituiu uma forte política de assistência social e direitos considerados essenciais, como educação, saúde e segurança de qualidade, garantidos em nível máximo a seus habitantes.
Esta nação possui valores tradicionais e virtudes civis notórias. Entre os seus valores mais importantes, o trabalho é considerado uma potência que quando feita em conjunto configura aperfeiçoamento e recompensa à coletividade, o que justifica seu rápido desenvolvimento na área da engenharia mesmo antes do movimento moderno e a construção e manutenção de gigantescas estruturas como os diques.
É um país bem peculiar quanto se trata de território, pois cerca de 50% do ter-ritório foi construído através da drenagem de terras, possível com a implantação um audacioso e formidável sistema de diques e barragens a altos custos. Estas áreas que chegam a ficar a 6.76m abaixo do nível do mar são chamadas de pôl-deres e concentram 60% da população holandesa. Feitos que só foram possíveis graças à força de trabalho árduo, esmero na técnica, organização e união social que engloba todas as classes sociais, típicas do povo holandês.
Do ponto de vista da arquitetura e urbanismo, o país é reconhecido por sua paisagem urbana equilibrada, por políticas de arquitetura restritivas e uma práti-ca de controle estético que sempre leva em conta o interesse social1. Suas cidades, em conformação com suas virtudes, são simples sem grandes edifícios suntuosos, reconhecidas por serem confortáveis, contidas, feitas para e por um povo prático.
As regras possibilitam um precioso controle de sua arquitetura e, na opinião de Jo Coenen é um grande valor: “Pensava que a Holanda deveria ter menos regras...
era organizada demais. Mas quando volto à Holanda, reconheço as vantagens
1. GIMENEZ, Luiz Espallargas. O ocidente das cidades. Óculum, Campinas, n. 10-11, FAU PUC-Campinas, jun./nov. 1997.
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da ordenação rígida. A Holanda é um país pequeno. Precisa-se pensar bem an-tes de fazer qualquer intervenção. [...] Visto de longe, somos orgulhosos com o equilíbrio”.2 Mesmo assim o arquiteto considera que sempre existe lugar para novas ideias e conceitos.
O Estado exerce forte no controle sobre as cidades – em Amsterdã, por exem-plo, não existe propriedade privada do solo –, por isso raramente encontram-se empreendimentos de maior porte que tenham sido realizados exclusivamente pelo setor privado.3
Com 395hab./km² de área, a Holanda é um país populoso com quase 17 milhões de habitantes4, o que significa que os holandeses precisam ser criati-vos e cuidadosos para conciliar espaço para casas, infraestrutura e empregos.
Desta forma, os arquitetos holandeses trabalham em diferentes escalas, tentando abranger a arquitetura e urbanismo ao mesmo tempo e ainda tentando cuidar de cada detalhe. Em qualquer cidade há criações arquitetônicas modernas ao lado de prédios históricos, integrando e adaptando as tendências internacionais às características de suas cidades, para planejá-las na sua condição contem-porânea. O velho e o novo existem em harmonia, como se verá também no projeto Céramique. Todas estas qualidades fazem do país o berço de uma ar-quitetura reconhecidamente inovadora, ousada e ao mesmo tempo familiar, que forma um grande time de importantes arquitetos como Jo Coenen, Rem Koohaas, Theo Teeken, Arn Meijs, Harry Gulikers, Wiel Arets, Hubert-Jan Henket, além de escritórios de renome internacional, como MVRDV e Mecanoo.
O projeto Céramique surge dentro desta atmosfera na pequena cidade de Maastricht localizada no sul do país, quase na fronteira da Alemanha e da Bél-gica. É uma das mais antigas cidades holandesas tendo apenas 120.000 ha-bitantes, com uma densidade baixa de 2.025 hab./km².5 Para estabelecer uma comparação, apenas no Bairro da Barra Funda em São Paulo se alcança uma densidade similar, com 2.568hab/km, segundo o IBGE de 2010.6
A cidade tem características marcantes e contrastantes que conformam sua identidade: é tida como jovial e, ao mesmo tempo, com fortes características
me-2. Trecho retirado da entrevista feita pela revista AU com o arquiteto Jo Coenen em 01/02/1998. Disponível também em: www.piniweb.com.br/construcao/noticias/alem-das-fronteiras-84663-1.asp.
3. GIMENEZ, Luiz Espallargas. O ocidente das cidades. Óculum, Campinas, n. 10-11, FAU PUC-Campinas, jun./nov. 1997.
4. Dados estatísticos e quantitativos obtidos no website: www.pt.wikipedia.org/wiki/Pa%C3%ADses_Baixos.
5. Dados obtidos pelo site: www.pt.db-city.com/Holanda--Limburgo--Maastricht. Visitado em 05/10/2012.
6. Dados obtidos no website da Prefeitura de São Paulo, no link: www.prefeitura.sp.gov.br/cidade/secretarias/
subprefeituras/subprefeituras/dados_demograficos/index.php?p=12758
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dievais, sendo a mais visível cidade histórica dos Países Baixos. Diferentemente de muitas cidades holandesas e europeias, Maastricht tem apresentado nas últimas décadas crescimento populacional e no número de oportunidades de empregos graças a numerosas organizações e instituições europeias que se estabeleceram na cidade, por suas qualidades, em especial por ser uma cidade atrativa sob o ponto de vista de sua favorável e crescente posição estratégica.7
A política de planejamento urbano tem se focado nestas qualidades preser-vando, explorando e reforçando-as com o slogan “Uma cidade compacta em uma paisagem espaçosa”8, visando também controlar fortemente o crescimento urbano para preservar da melhor forma possível as charmosas zonas rurais dos arredores. Assim, a expansão da cidade deve ocorrer dentro de suas próprias bordas e, apenas quando isso não for mais possível, começar a olhar para além da cidade, segundo Huun Smeets, chefe do departamento de Planejamento Ur-bano da cidade e do Departamento Imobiliário Municipal.9
A renovação urbana em Maastricht tem se focado nos últimos 30 anos na busca da qualidade, possibilitada pelo alto nível de continuidade tanto na Prefei-tura como nos altos escalões nos serviços públicos municipais. Cada novo projeto tem sido objeto de exigências estritas em matéria de arquitetura e planejamento urbano e cada operação de desenvolvimento urbano é obrigada a acrescentar algo que melhore sua identidade ou posição estratégica da cidade.10
Existiram outras renovações urbanas promovidas pela prefeitura da cidade, onde se destacam Stokstraat nos anos 1960 e Boshstrart nos anos 1980, mas, sem dúvida, Céramique foi a mais importante e marcante.
7. CÜSTERS, John; HUISMAN, Jaap. Cahiers Céramique 1+11: Maastricht Maakt een Stadsdeel. Maastricht Builds a Part of the City. Gemeente Maastricht, 1999, p. 9.
8. CÜSTERS, John; HUISMAN, Jaap. Cahiers Céramique 1+11: Maastricht Maakt een Stadsdeel. Maastricht Builds a Part of the City. Gemeente Maastricht, 1999, p. 10.
9. CÜSTERS, John; HUISMAN, Jaap. Cahiers Céramique 1+11: Maastricht Maakt een Stadsdeel. Maastricht Builds a Part of the City. Gemeente Maastricht, 1999, p. 10.
10. CÜSTERS, John; HUISMAN, Jaap. Cahiers Céramique 1+11: Maastricht Maakt een Stadsdeel. Maastricht Builds a Part of the City. Gemeente Maastricht, 1999, p. 10.
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Antecedentes e problemáticA urbAnA
A cidade de Maastricht foi fundada pelos romanos e configurava-se como uma cidade murada compacta de características medievais. A partir de 1827 começam a aparecer no âmbito urbano traços industriais e em 1850 é fundada a Société Céramique (indústria cerâmica) que, com a queda das muralhas em 1870, obteve uma faixa de terra nas margens do Rio Maas e aonde após uma série de aquisições chegou a 23 hectares. Após quase 120 anos esta área já fazia parte do perímetro urbano, porém se configurava com uma grande ilha murada sem urbanização.11
Localizado no centro expandido de Maastricht, o antigo complexo fabril Sphinx-Céramique estava urbanisticamente margeado ao norte pelo rio Maas, cercado pelo centro histórico e por bairros de diferentes épocas e estilos ar-quitetônicos. Entre eles estão os bairros Wyck com características medievais e o bairro Randwyck com centro renovado bem ao estilo anos 1980 e a antiga ci-dade medieval. Assim, o complexo formava uma ilha “vazia” que interrompia a conexão entre os bairros.
Com a progressiva desativação da fábrica, em 1987 o terreno de posse par-ticular foi oferecido à prefeitura, que viu na aquisição da gleba uma grande opor-tunidade para controlar o desenvolvimento desta faixa da cidade através de um desenho urbano e arquitetônico de grande qualidade que abrigasse usos múlti-plos e funcionasse como uma extensão do centro histórico. Como este não tinha mais espaço para crescer, o desenvolvimento controlado para o outro lado do rio deveria gerar um processo de revitalização da ocupação central.
Como a Câmara Municipal não podia arcar sozinha com este investimento, surgiu a necessidade de um parceiro financeiro. Foi o início de uma Parceria Pú-blico-Privado (PPP) entre a prefeitura e ABP (Algemeen Burgerlijk Pensioenfonds), o maior fundo de pensão da Holanda e grande investidor do mercado imobiliário holandês. Justamente neste momento a ABP estava procurando uma maneira de investir progressivamente no setor imobiliário em algumas das melhores regiões da Holanda. Rapidamente os setores público e privado fecharam o acordo de parceria que naquela época ainda era pouco comum inclusive na Holanda.
11. GIMENEZ, Luiz Espallargas. O ocidente das cidades. Óculum, Campinas, n. 10-11, FAU PUC-Campinas,
jun./nov. 1997. Imagem 64 - Vista aérea da antiga fábrica em 1988.
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A partir da assinatura da intenção de compra, o proprietário privado da an-tiga fábrica deu um prazo limite de apenas nove meses para fechar o negócio, período onde o município e a ABP tiveram que organizar todos os aspectos da venda, do financiamento e dos procedimentos para o novo empreendimento (dos estudos de demanda e levantamento de custos até o projeto urbano). Foi quan-do se deu a contratação quan-do arquiteto e professor Jo Coenen, que se tornou o responsável pelo desenvolvimento do plano urbano, projetado em 1987. Numa posterior revisão do plano foram incluídos os edifícios que deveriam ser preser-vados.12
A contratação de Jo Coenen, que nesta época morava na cidade de Eind-hoven, ocorreu, entre outros motivos, graças à execução recente de projeto de sua autoria para uma nova área do Hospital Universitário de Maastricht. A edificação chamou atenção por seu desenho marcante, alto nível de flexibilidade e grande preocupação com o entorno, qualidades muito procuradas pelos investidores e pela cidade. No entanto, Coenen acredita que um detalhe foi determinante para sua escolha: o fato de ele ter nascido e crescido em Maastricht e, por conhecer a cidade a fundo, tornaria o processo mais fácil do que trazer outro arquiteto de fora.13
Neste curto período do tempo de nove meses todas as negociações e acordos foram feitos de forma muito sigilosa entre a prefeitura e a ABP para evitar o incre-mento dos preços do terreno e do entorno imediato, medida que visava preservar a população moradora no local, evitando a gentrificação. Segundo Jo Coenen, por esse motivo a execução do plano urbano ocorreu sem a execução prévia de sondagem do terreno ou qualquer outro levantamento que pudesse chamar a atenção da população.14 Ele continua: “Eu não sabia nem que a fortificação es-tava lá, pois as pessoas haviam construído por cima. Só descobri depois que uma parte da fábrica ficava dentro da antiga fortificação da cidade”.15
Segundo Huub Smeets, todo este processo só foi possível pois ocorreu em um momento histórico muito específico onde houve a convergência de diversos fa-tores: a cidade queria que fosse desenvolvido um novo uso ao local; a ABP estava procurando por uma progressiva e nova forma de investimento; e o governo que-ria encorajar a parceque-ria público-privado. Além disso, todos os envolvidos foram
12. CÜSTERS, John; HUISMAN, Jaap. Cahiers Céramique 1+11: Maastricht Maakt een Stadsdeel. Maastricht Builds a Part of the City. Gemeente Maastricht, 1999, p. 12.
13. Dados obtidos em entrevista realizada com Jo Coenen pela autora em Maastricht, em 12/04/2013.
14. Dados obtidos em entrevista realizada com Jo Coenen pela autora em Maastricht, em 12/04/2013.
15. Dados obtidos em entrevista realizada com Jo Coenen pela autora em Maastricht, em 12/04/2013.
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notavelmente capazes de trabalhar uns com os outros.16
Jo Coenen acredita que ainda seja possível desenvolver grandes projetos ur-banos como este uma vez que os arquitetos ainda são totalmente capacitados e desejam as melhorias urbanas. Porém, como esta decisão não faz parte apenas do campo da arquitetura, ele considera difícil, não só por causa da crise que as-sola a Europa nos últimos anos, mas pelo fato de uma empreitada como esta ser intrinsicamente laboriosa e depender da extrema dedicação e organização políti-ca e administrativa. Segundo ele, é necessário muita dedipolíti-cação, flexibilidade, honestidade e rapidez para achar soluções de um dia para outro. “Você precisa ser também um pouco gênio”.17
16. CÜSTERS, John; HUISMAN, Jaap. Cahiers Céramique 1+11: Maastricht Maakt een Stadsdeel. Maastricht Builds a Part of the City. Gemeente Maastricht, 1999, p. 14.
17. Dados obtidos em entrevista realizada com Jo Coenen pela autora em Maastricht, em 12/04/2013.
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processo de projeto e construção
Neste contexto, o principal objetivo do plano de urbanização do antigo terre-no Sphinx-Céramique era reconciliar este território com as diferentes característi-cas de cada parte do entorno considerando sua morfologia, usos e identidades específicas, ligar ao centro histórico o novo bairro através de pontes novas e existentes por cima do rio Maas, e conectar o viário interrompido garantindo con-tinuidade morfológica e assim uma expansão harmônica da cidade. Criando no antigo terreno da Société Céramique, diretamente oposto ao centro histórico me-dieval e às margens do rio Maas, um novo bairro com 23 hectares ou 230.000m² (dez vezes maior que a intervenção em St. Jean). A ambição de Coenen e demais envolvidos era a criação de um bairro coeso com o entorno e com ele próprio.18
Após a aprovação do plano urbano – que se desenvolveu através de muitas negociações entre os investidores público e privado – e sua divulgação, ficou acordado que Jo Coenen também seria o coordenador e supervisor dos projetos de arquitetura dos demais edifícios e de sua interface com o plano urbano já desenvolvido.
Desta forma, para os demais edifícios foram convidados os arquitetos locais de destaque – Arn Meijs, Bob van Reeth, Escritório Boosten, Bruno Albert, Harry Gulikers, Hubert-Jan Henket, Theo Teeken e Wiel Arets – e renomados arquitetos estrangeiros: Álvaro Siza, de Portugal; Aldo Rossi, da Itália; Aurelio Galfetti, Luigi Snozzi e Mario Botta, da região do Ticino, na Suíça italiana; Josep Maria Mar-torell, Oriol Bohigas e David Mackay, do escritório MBM de Barcelona, Espanha.
Coenen optou por arquitetos estrangeiros de “países latinos”, com arquitetos de temperamento mais quente, para contrabalançar o temperamento nórdico dos arquitetos locais.19 Além disso, a opção de mesclar escritórios holandeses e inter-nacionais teve como objetivo produzir um espaço urbano rico em trocas profis-sionais e que traduzisse as diferentes experiências de cada integrante da equipe.
Segundo Jo Coenen:
18. GIMENEZ, Luiz Espallargas. O ocidente das cidades. Óculum, Campinas, n. 10-11, FAU PUC-Campinas, jun./nov. 1997.
19. Depoimento de Jo Coenen a Abilio Guerra, durante a 3ª Bienal Internacional de Arquitetura de São Paulo, em 1997, quando o projeto Céramique foi apresentado em sala especial.
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“Nos projetos incorporados em outras cidades, trabalho com equipes que reúnem um estrangeiro e um escritório local. Além de conseguir a melhor qualidade possível, essa prática melhora a arquitetura na região, porque os estrangeiros têm um papel exemplar e motivador. [...]. Em projetos como o Céramique, em Maastricht, não quero seguidores que produzem cópias. Quero trabalhar com inventores das ideias, direto da fonte. A participação de arquitetos estrangeiros é boa, enquanto os tecidos locais e sociais do trabalho e da moradia são costurados nos projetos”.20
E, para executar monumental tarefa, o arquiteto e agora coordenador Jo Coenen consolidou seu escritório para Maastricht, onde está até hoje. Nascido e ainda morador de Maastricht, a cidade foi a sede de seu primeiro escritório, que hoje tem filiais em Amsterdam, Bern na Suíça, na cidade italiana de Milão e em Berlim.
Conforme eram finalizados, os projetos dos edifícios eram apresentados a uma comissão gerencial de Céramique e posteriormente ao Comitê Municipal de Edificações. Na Holanda cada cidade tem um Comitê Municipal de Edificações, organizado com uma equipe de 3 a 5 arquitetos que avalia a estética do projeto antes de serem concedidas as licenças de planejamento ou construções.21
O PrOgrama
O programa foi elaborado antes e no decorrer no projeto, enquanto foi re-alizada uma série de estudos de demanda de mercado e potencial do terreno.
O resultado do processo foi a construção de 1.600 unidades residenciais, 70.000 m² de terrenos voltados par escritório e instituições, 5.000 m² para lojas, restaurantes e serviços, 20.000 m² para hotéis, 20.000 m² de funções culturais e/
ou públicas e 4.400 vagas de estacionamento subterrâneo.
As unidades habitacionais eram principalmente voltadas para “os setores com maior poder aquisitivo”22, sendo que dos 1.600 apartamentos não mais do que 90 são voltados para a baixa renda. Neste contexto é importante lembrar que neste país a diferença entre as classes sociais na Holanda é brutalmente menor
20. Trechos retirados da entrevista feita pela revista AU com o arquiteto Jo Coenen em 01/02/1998.
21. SLANGEN, Joop; COENEN, Jo. O terreno Céramique em Maastricht. Óculum, Campinas, n. 10-11, FAU PUC-Campinas, jun./nov. 1997, p. 63.
22. CÜSTERS, John; HUISMAN, Jaap. Cahiers Céramique 1+11: Maastricht Maakt een Stadsdeel. Maastricht Builds a Part of the City. Gemeente Maastricht, 1999, p. 25.
Página seguinte:
Imagem 66 - Croqui para conjunto residencial na praça norte de Céramique, na busca de conceitos inovadores.
Imagem 65 - Equipe de arquitetos, liderados por Jo Coenen.
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do que no Brasil, assim como a diferença de renda. A opção por esta modalidade se dá por dois motivos principais: para ser mais rentável aos investidores privados e para prover uma demanda que ainda não havia sido atendida em Maastricht.
Focados neste novo mercado e para atender as ambições desta nova área foi investido na contratação de um time de importantes arquitetos, em espaços multifuncionais, espaços públicos de alta qualidade numa localização bastante exclusiva, um programa inédito em Maastricht, que até os anos 1980 se focava na construção de habitações de baixa renda, em especial no centro da cidade.
Considerando o processo de envelhecimento da população em andamento, a ênfase do plano Céramique desde o começo era voltado para as pessoas mais velhas com maio poder aquisitivo, que não encontrava no centro habitações adequadas.23 Com o passar do tempo este bairro se tornou também atrativos para os mais novos, tendo muito de suas residências compradas por jovens casais com dupla-renda. Ou seja, as pessoas estavam pagando mais para morar em um bairro com mais qualidades e atrativos.
Os apartamentos são tradicionais no seu layout e na maioria apresentam dois dormitórios, sem muitas inovações. Apesar de novos conceitos de moradias terem sido propostos pelos arquitetos, eles foram vetados pelos investidores, que preferiram um produto mais voltado para o mercado.
Outro importante elemento base para Céramique foi a criação dos espaços de escritórios voltados para o setor de serviços, nicho de mercado pouco repre-sentativo na época. Hoje este setor é um dos principais focos da política econômi-ca da cidade, crescente com a expansão do MECC (The Maastricht Exhibition
& Congress Centre), a proximidade com Liège e sua conexão com o TVG, a presença da universidade e com o fomento de filiais de instituições europeias na cidade.
A cidade e a ABP concordaram que o programa voltado para os edifícios cor-porativos envolveria certo nível de exclusividade, o que significa que a cidade não poderia construir novos centros de negócios com área maior de 500m² sem antes consultar a ABP, condição imposta devido ao risco que era investir neste nicho na época do projeto.
O terceiro principal atrativo do programa são os 20.000m² de funções públi-cas, onde se destacam o Bonnefanten Museum na borda sul e ao norte o Centre
23. Nas habitações Jo Coenen também preservou muito das tradições dos cidadãos de Maastricht, como os pequenos jardins privados na frente dos apartamentos térreos, voltados para o interior das quadras, elemento muito comum também no centro antigo.
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Céramique, que abriga a biblioteca e arquivos municipais, o Centro de Jornal-ismo Europeu e a Câmara Municipal. O complexo Centre Céramique recebe 600.000 visitantes ao ano. A borda Norte se transformou num polo cultural que recebeu também a importante companhia de teatro Vervolg, instalada do antigo
Céramique, que abriga a biblioteca e arquivos municipais, o Centro de Jornal-ismo Europeu e a Câmara Municipal. O complexo Centre Céramique recebe 600.000 visitantes ao ano. A borda Norte se transformou num polo cultural que recebeu também a importante companhia de teatro Vervolg, instalada do antigo