A REDE COQUE VIVE E A BUSCA DE NOVOS REGIMES DE VISIBILIDADE E DIZIBILIDADE DOS SUJEITOS PERIFÉRICOS
3.4 O Projeto Coque Vive e o desafio de alterar os regimes de visibilidade
difamatórios da experiência de ser e viver nos espaços periféricos
Falta, contudo, apresentar o terceiro ator coletivo da Rede Coque Vive, o elemento que funcionará como uma espécie de cola, aglutinando o Neimfa e o Mabi a um conjunto outro de jovens que, juntos, vão agregar estratégias comuns de problematização da forma corrente de se pensar a pobreza e os moradores das periferias. Trata-se do Projeto Coque Vive. A origem desse projeto é indissociável do modo como a mídia constrói representações negativas em torno da comunidade do Coque.
Foi justamente em um dos cursos oferecidos pelo Neimfa que se percebeu que discutir essa questão deveria ser uma de suas prioridades. Numa tentativa de incluir os jovens no mercado de trabalho, a instituição propôs um Curso de Atendimento ao Cliente, cujo término contava com um estágio em empresas locais. Foi a partir desse momento que eles perceberam que repercussões objetivas a estigmatização da comunidade poderia gerar:
A primeira dificuldade foi encontrar lugar que a gente pudesse estagiar, porque os locais não queriam receber por a gente ser daqui do Coque. A gente ia dar a
passagem, a gente ia estar no local, estar no serviço, mas mesmo assim alguns locais não queriam receber. Aí, por muito insistir, de lá de cá, conseguiu a Restauração, aí todo mundo foi pra Restauração, todos os alunos, uma turma ia de manhã, outra turma ia de tarde. Aí, lá se dividiu, cada um foi pra uma parte do espaço – pra emergência, arquivo, em dupla. Aí tinha momento que as pessoas, os próprios trabalhadores guardavam as bolsas quando a gente tava, num poderia deixar a gente só, se tinha material, aí num queria deixar a gente só porque a gente era daqui. Foi essas coisas assim que saíram surgindo. Ao se dar conta dos obstáculos que os jovens do Coque sofriam para procurar emprego, principalmente porque não estava em jogo a falta de qualificação, mas, principalmente a estigmatização do bairro, o Neimfa passou a repensar os processos históricos que configuram a vida dos moradores na comunidade, tendo em vista novas formas de “desenvolvimento comunitário” que incluíssem a reativação das “memórias de luta da comunidade”, questionando a perspectiva de restringir a comunidade a uma caracterização de lugar, simultaneamente, carente e violento:
O investimento que o Neimfa fez foi esse, eu acho que é um caminho bom, a gente cuidar da gente mesmo, cuidar da nossa memória, perguntar o que é que a gente é de fato, o que é que a gente tem feito disso. Dizem que o Coque é violento, veiculam uma mensagem muito forte de que na comunidade existem situações de violência e se foca muito nisso. Aí, o que é que a comunidade tá fazendo disso? Eu acho que foi essa estratégia que a gente tentou usar, foi olhar pra a gente mesmo a partir de nossa própria história.
Essa percepção também era compartilhada pelos jovens do Mabi, os quais procuravam, ao seu modo, problematizar as representações que se constroem sobre o Coque. Percepção que levou o grupo da universidade à comunidade.
Como foi relatado inicialmente, o grupo que chegou ao Coque, após o primeiro movimento de produção do jornal experimental, era formado por estudantes universitários, todos inexperientes e, diga-se de passagem, inseguros. Jovens que não tinham muita dimensão das proporções que sua ação poderia tomar. Assim foi, que, sem que planejassem tiveram nascimento enquanto grupo:
À medida que a gente vai indo pra lá, e vai dando o curso, e as coisas vão acontecendo e vai tendo as reuniões, a gente vai contando como foi. Aí sim, tem o nascimento do grupo. Porque nas primeiras reuniões é como se tivesse dentro da barriga, um embrião que vai virar um beber que nasce.
Na fala dos atores percebe-se a existência de um movimento sinérgico atuando mesmo sem uma intencionalidade explicitamente planejada. No começo, houve a parceria dos jovens da universidade, principalmente com Joao Vale, com o Mabi. O foco era a produção do jornal e a captação de recursos para a gravação de um Cd com musicas das bandas locais. Mas, ao mesmo tempo, integrantes-chaves do Mabi também possuíam uma relação estreita com o Neimfa, pois alguns eram ex-alunos do seu curso de formação para atuação como agentes comunitários. Assim, por meio dessa rede concreta de interações ocorreu uma confluência de desejos no sentido de discutir e problematizar, mais amplamente, os processos de estigmatização da comunidade do Coque, dando surgimento à Rede Coque Vive. A questão motriz para a criação da Rede estava diretamente ligada aos regimes de visibilidade e dizibilidade, ou seja, ao que
é que a gente vê, ao que não vê na cidade […], o que é que as pessoas que moram em outros bairros veem e o que é que não veem, o que é que as pessoas que moram aqui no Coque veem, e o que é que elas não conseguem ver também.[...] Qual o Coque que é visto? Qual é o Recife que é visto no resto da cidade? O que é do Coque que se vê.
Assim, a Rede se propunha a “alterar esse jogo de luz, esse jogo de visibilidade, de alguma forma mexer nele”. O estudo que Foucault faz do quadro Las meninas, de Velasquez traz algumas problematizações importantes para a Rede sobre como operar esse jogo de visibilidade ao realizar representações: como fazer com que “o pintor saia de trás da tela” e se apresente nela, mesmo que, apenas por um instante? Como superar a suposta incompatibilidade entre a visibilidade do representante e a do representado? Será que essas duas visibilidades são incompatíveis? E mais do que isso, como fazer dos espectadores parte também do quadro? Como jogar luz no quadro de modo a dar a ver identidades e diferenças? (TERNES, 1998, p. 25-26)
Como fazer isso? A resposta não era fácil, pois os estudantes de jornalismo estavam “acostumados a pensar em comunicação factual”, problematizando, no máximo, “os meios”; raramente o grupo se colocava a questão de comunicar a partir do que se sente; do que se vive, a partir do que se sente; e o que a gente sente era o que a gente se percebia “capaz de ver e de dizer”.
Toda essa problemática não era um terreno dado, óbvio mesmo para os que estavam diretamente envolvidos, no projeto Coque Vive, ou seja, para os estudantes do
curso de jornalismo da universidade. Então, as demandas não eram simples. Mas mesmo assim, os atores da Rede acreditavam na potência que a comunicação possuía para não apenas informar, mas também fazer sentir, afetar, provocar deslocamentos nos processos de dar-a-ver os sujeitos que vivem nos espaços periféricos da cidade. Essa crença os fez se articularem nesse dispositivo formativo chamado Rede Coque Vive.