2.4 Situação problema
3.1.1 Planejamento logístico
3.1.1.1 Projeto da rede logística
Ballou [6] sustenta que o problema de planejamento logístico é um problema de projeto, e que pode ser representado sob a abstração de uma rede de ligações e nós. Nos modelos matemáticos, geralmente problemas de projeto de rede são representados por um grafo (ver seção 3.2.1.1).
Quando a empresa é nova e não existe nenhum sistema logístico ou quando uma nova linha de produtos é inserida no mercado, a necessidade de planejamento de uma rede é óbvia (BALLOU [6]). Para o caso de uma rede já existente, existem alguns fatores que sugerem a necessidade de uma reavaliação de um projeto de rede:
1. Demanda - A dispersão geográfica da demanda influencia a configuração de uma rede de distribuição. Eventuais mudanças desproporcionais entre regiões nos níveis de demanda justificam uma reavaliação de uma rede.
2. Serviço ao cliente - Quando níveis de serviço são alterados em função de forças competitivas ou revisão de políticas faz-se necessária uma reavaliação da rede, uma vez que todo posicionamento logístico pode ser alterado para se adaptar aos novos objetivos.
3. Características de produto - Custos logísticos são sensíveis a aspectos do produto, como valor agregado, peso, perfil de venda, entre outros. Quando muitos produtos de perfis diferentes seguem a mesma estratégia, pode ser coerente um estudo para avaliar a necessidade de segmentações de estratégia.
4. Custos logísticos - Este aspecto é fundamental na determinação da necessidade de replanejamentos em uma rede. A configuração de uma rede é o resultado de inúme- ras compensações entre custos logísticos. Se um determinado custo tem seu patamar alterado, pode ser que a melhor configuração seja diferente da anteriormente iden- tificada.
5. Montagem de preços - Alterações de políticas de preço (exemplo, se uma mercadoria é vendida sem o valor do frete e depois passa a ser vendida com o frete) podem afetar a configuração da rede, uma vez que geralmente empresas planejam seus sistemas logísticos de acordo com os custos sob os quais elas são responsáveis.
Para Ballou [6] e Bowersox e Closs [8], alguns princípios e conceitos devem ser considerados em um projeto de rede logística:
• Custo total e análise de compensações de custos - Para se projetar uma rede logística é essencial considerar as compensações (trade-offs) entre os custos envolvidos. Padrões de custo de várias atividades da empresa podem apresentar características que as põem em conflito entre si. O ideal é que se busque um equi- líbrio otimizado entre eles. Um caso clássico de trade-off de custos diz respeito à determinação do tamanho do lote de ressuprimento de um depósito qualquer (ver BALLOU [6], capítulo 10). Existe o custo de manutenção de estoques que é pro- porcional ao tamanho do lote, ou seja, quanto maior o lote, maior o estoque médio do depósito entre ressuprimentos sucessivos e maior o custo de posse do estoque. Existe também o custo de obtenção do estoque, ou custo do ressuprimento, que é o mesmo independente do tamanho do lote. Logo, para lotes maiores, tem-se um custo unitário de aquisição menor. Os custos apresentam comportamentos confli- tantes: o custo de manutenção aumenta com o tamanho do lote, enquanto o custo de ressuprimento unitário decresce com o tamanho do lote. Este conflito pode ser visto na figura abaixo:
CUSTO MÍNIMO 0 Custo Total Custo de Manutenção TAMANHO DO LOTE (q) q* Custo de Ressuprimento CUSTO TOTAL
Figura 3.4: Compensação de custos relevantes de estoque com o tamanho do lote Fonte: Adaptada de Ballou [6]
• Distribuição diferenciada - Este princípio é fundamentado na segmentação logís- tica. Segundo Ballou [6], nem todos os produtos devem ser oferecidos ao mesmo nível
de serviços ao cliente. Diferentes perfis de venda e diferentes características entre produtos sugerem que múltiplas estratégias de distribuição devem ser adotadas. Este princípio também se aplica à localização de estoques. Wanke [48] e Ballou [6] concordam que estocar todos os produtos em todos os locais, sem analisar as dife- renças entre eles pode acarretar custos de distribuição maiores que os necessários. Por sua vez, Wanke [48] assinala que alguns aspectos favorecem a centralização de estoques em uma rede, como por exemplo, alto valor agregado de produtos, alto grau de obsolescência, acesso à informação em tempo real, baixa previsibilidade de vendas, baixo giro de estoques, entre outros fatores;
• Postergação (adiamento) - O princípio do adiamento (ou postergação) é oposto à antecipação. A lógica de postergar operações reside no argumento de redução dos riscos associados à diferenciação de forma, lugar e tempo dos produtos que ocorrem durante as operações de manufatura e distribuição (PAGH;COOPER [40]). O adiamento da manufatura consiste em deixar o produto em uma forma neutra, uma plataforma para diversas combinações possíveis de forma, até o pedido firme do cliente, quando então o produto é manufaturado de acordo com as especificações exigidas. Na distribuição, o adiamento consiste em se deixar um estoque em uma ou mais instalações estratégicas, para só enviar os produtos aos demais locais no último instante possível, diminuindo, assim, os riscos de encalhes de estoque em várias localidades. Pagh e Cooper [40] elaboraram uma matriz de decisão de estratégias de antecipação/adiamento conjugada às operações de manufatura e distribuição. Eles propõem uma análise de perfil para identificar qual a estratégia mais indicada para cada empresa, levando em conta alguns aspectos determinantes, como características do produto, valor agregado, ciclo de vida, características do mercado e sistema de distribuição e produção da empresa;
• Consolidação - Consiste na criação de grandes embarques a partir de pequenos volumes. Trata-se de uma economia importante que pode ser obtida no transporte. Este conceito é explorado quando existem entregas muito fracionadas partindo de várias origens para um ponto de consumo. Se o total do volume puder ser consoli- dado em um ponto para posterior envio ao local de consumo, podem existir reduções de custos significativas.
Os princípios acima expostos são relevantes na condução de uma análise de projeto de rede. Deve-se ainda definir com clareza quais são os objetivos da análise, fazer um levan-
tamento de dados e definir modelos e ferramentas computacionais para suporte à decisão (BALLOU [6]).