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O PROJETO DE LEI N O 301-A, DE 2007, E O PROJETO DE LEI N O 4.038, DE 2008

O Projeto de Lei no 301-A, de 2007, define as condutas que configuram crimes de violação do Direito Internacional Humanitário, e infrações referentes a este, assim como estabelece parâmetros para a cooperação judiciária e dá outras providências (CÂMARA DOS DEPUTADOS, 2013).

O autor do respectivo projeto, o deputado federal Dr. Rosinha, apresentou como justificação do anteprojeto o fato de o Brasil estar em débito com a sociedade internacional, em virtude de não participar integralmente da jurisdição do Tribunal Penal Internacional. Tal compromisso consistiria na adaptação da legislação nacional à jurisdição internacional do Tribunal, pois, enquanto isso não ocorrer, o país não terá efetiva participação no TPI, o que, segundo o deputado, representaria um grande retrocesso para o país, visto que o referido órgão significa uma grande conquista da humanidade (CÂMARA DOS DEPUTADOS, 2013).

Na Comissão de Direitos Humanos e Minorias, o projeto obteve voto favorável do Relator, o deputado Pedro Wilson, o qual ressaltou as características de autonomia, complementaridade, e permanência do TPI. Em seu parecer, a Comissão opinou, em 13 de

junho de 2007, unanimemente, pela aprovação do Projeto de Lei nº 301/2007, conforme o parecer do Relator (CÂMARA DOS DEPUTADOS, 2013).

O Projeto de Lei 301/2007 foi distribuído para a Comissão Permanente de Relações Exteriores e de Defesa Nacional por tratar de normas de ordem jurídica internacional e por envolver o direito militar e a legislação de defesa nacional, conforme as alíneas “d” e “i” do inciso XV do artigo 32 do Regimento Interno da Câmara dos Deputados. Em seu voto, o Relator desta Comissão, deputado Claudio Cajado, destacou a imprescritibilidade dos crimes de competência do TPI, tendo em vista que estes atentam contra a humanidade como um todo. Ressaltou, também, a relevância das normas propostas pelo Projeto de Lei 301/2007, pois a jurisdição do TPI possui caráter residual e irretroativo, pelo fato de complementar a jurisdição nacional e de não retroagir para alcançar crimes cometidos antes de sua vigência (CÂMARA DOS DEPUTADOS, 2013).

O parecer da Comissão, em 7 de novembro de 2007, foi unânime pela aprovação, com emendas, do Projeto de Lei nº 301/2007, nos termos do parecer do Relator. As emendas propostas pelo Relator e aprovadas pela Comissão foram, predominantemente, relativas aos crimes de guerra, pois, dentre as cinco emendas, apenas uma referia-se às disposições gerais do Projeto. A primeira emenda acrescentaria um parágrafo único ao artigo 7º (prevendo a possibilidade de os tipos penais previstos neste artigo serem considerados crimes militares, quando incorrerem nas situações previstas no art. 9° ou 10º do Código Penal Militar). Já as outras quatro emendas, referentes aos artigos 12, 13, 20 e 23 do Projeto, seriam concernentes aos crimes de guerra (CÂMARA DOS DEPUTADOS, 2013).

Em suas disposições gerais, o PL 301/2007 determinou que as normativas apresentadas não prejudicam a aplicação do Código Penal Militar, quando os crimes de genocídio, de guerra e os crimes contra a humanidade forem militares ou conexos aos interesses militares da defesa do país; e que os crimes abrangidos pela lei não seriam considerados crimes políticos para efeito de extradição, além de ter destacado a imprescritibilidade destes. Na parte específica dos crimes de genocídio, o projeto de lei, em seu artigo 10, tipificou o genocídio como:

[...] a intenção de destruir, no todo ou em parte, um grupo nacional, étnico, racial ou religioso, praticar:

a) homicídio de membros do grupo;

b) ofensa à integridade física grave de membros do grupo;

c) sujeição do grupo a condições de existência ou a tratamentos cruéis, degradantes ou desumanos, suscetíveis de virem a provocar a sua destruição, total ou parcial; d) transferência forçada de crianças

e) imposição de medidas destinadas a impedir a procriação ou os nascimentos no grupo (CÂMARA DOS DEPUTADOS, 2013).

A proposta do autor do projeto era auferir ao crime de genocídio pena de reclusão de 12 a 30 anos ou, no caso do incitamento, pena de reclusão de 5 a 12 anos; as quais seriam aumentadas de um a dois terços quando o crime for cometido por autoridade ou agente público ou, ainda, mediante concurso de pessoas. O projeto também previu as possibilidades de cooperação com o Tribunal Penal Internacional, as quais foram abordadas do artigo 24 ao artigo 28 (CÂMARA DOS DEPUTADOS, 2013).

O projeto de lei no 4.038, de 2008, foi apensado ao projeto 301/2007 por se tratar de matéria conexa. O referido projeto define o crime de genocídio, os crimes de guerra, os crimes contra a humanidade e os crimes contra a administração da justiça do Tribunal Penal Internacional, além de dispor sobre a cooperação com o TPI, instituir normas processais específicas e outras providências29 (CÂMARA DOS DEPUTADOS, 2013).

Muito embora o crime de genocídio já tenha sido tipificado em lei própria, os crimes contra a humanidade e de guerra ainda não foram previstos na legislação interna, de forma que demandam regulamentação legal. Logo, visando incorporar o Estatuto de Roma ao ordenamento jurídico nacional, e, por conseguinte, dar efetividade ao compromisso internacional assumido pelo país, a Secretaria Especial dos Direitos Humanos da Presidência da Republica instituiu (pela Portaria nº 58, de 10 de maio de 2004) um Grupo de Trabalho, o qual contou com representantes do Ministério Público Militar, do Ministério das Relações Exteriores, do Ministério Público Federal, da Advocacia Geral da União, da Casa Civil, do Senado Federal e do Instituto Brasileiro de Ciências Criminais e que perdurou por quase quatro anos de estudos, resultando no referido Projeto de Lei (CÂMARA DOS DEPUTADOS, 2013).

Dentre as disposições gerais, o projeto apresenta que: não é punível quem age sob coação irresistível; se a tentativa dos crimes de genocídio, contra a humanidade ou dos crimes de guerra apresentar excepcional gravidade (representação de perigo real devido às circunstâncias, à complexidade, aos atos preparatórios, à execução almejada, e aos meios empregados), o juiz poderá aplicar a pena do crime consumado; a redução de pena por arrependimento posterior não é aplicada aos crimes de genocídio, contra a humanidade e de guerra; a obediência hierárquica não isenta o agente de pena, com determinadas ressalvas; os chefes militares, e outros superiores hierárquicos, possuem responsabilidade pelos atos de seus subordinados; os crimes de genocídio, contra a humanidade e de guerra são imprescritíveis e não são passíveis de anistia, graça, indulto, comutação ou liberdade

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provisória; o cargo ou a função pública são irrelevantes à caracterização do crime (não excluem o crime e nem isentam o agente de pena); a extinção da punibilidade ocorre apenas com a morte do agente; a pena privativa de liberdade dos crimes de genocídio, contra a humanidade e de guerra não poderá ser substituída por uma restritiva de direitos, e será cumprida inicialmente em regime fechado, sendo permitida a progressão para o regime semi- aberto, e permitido o livramento condicional desde que cumpridos os requisitos; as determinadas circunstâncias que aumentam a pena serão cabíveis desde que não integrem o tipo penal e na proporção de um terço a dois terços; os crimes de que trata a lei não são considerados crimes políticos para efeito de extradição (CÂMARA DOS DEPUTADOS, 2013).

Em relação à tipificação do genocídio e suas penalidades, o projeto de lei no 4.038 assim dispôs:

Art. 14. Quem, com a intenção de destruir, no todo ou em parte, grupo nacional, étnico, racial ou religioso, como tal:

I - matar membro do grupo:

Pena: reclusão, de vinte a trinta anos;

II - causar lesão grave à integridade física ou mental de membro do grupo: Pena: reclusão, de cinco a quinze anos;

III - submeter intencionalmente o grupo a condições de existência capazes de ocasionar-lhe a destruição física total ou parcial:

Pena: reclusão, de dez a quinze anos;

IV - adotar medidas destinadas a impedir os nascimentos no seio do grupo: Pena: reclusão, de dez a quinze anos;

V - efetuar a transferência forçada de crianças do grupo para outro grupo: Pena: reclusão, de dez a quinze anos.

Art. 15. Associarem-se mais de três pessoas para a prática de genocídio: Pena: reclusão, de cinco a quinze anos.

Art. 16. Incitar, direta e publicamente, à prática de genocídio: Pena: reclusão, de cinco a quinze anos.

§ 1o A pena pelo crime de incitação será a mesma do genocídio, se este se consumar.

§ 2o A pena será de reclusão, de dez a quinze anos, quando a incitação for cometida por meio que facilite sua divulgação (CÂMARA DOS DEPUTADOS, 2013).

O Título III trata dos crimes contra a humanidade e o Título IV trata dos crimes de guerra, os quais não serão descritos neste momento por não estarem vinculados ao objeto deste trabalho.

O Título V, por sua vez, trata dos crimes contra a administração da justiça do Tribunal Penal Internacional, e destaca que a aplicação da legislação nacional aos crimes previstos neste título depende de requisição do TPI. Dentre os crimes em espécie, elencados no respectivo título, estão: falso testemunho ou falsa perícia; uso de prova falsa; corrupção ativa de testemunha, perito, tradutor ou intérprete; obstrução processual; retaliação contra

testemunha, perito, tradutor ou intérprete; dano processual; corrupção ativa de funcionário; retaliação ou ameaça contra funcionário; corrupção passiva. Ademais, o projeto ressalta a inaplicabilidade da suspensão condicional do processo para os crimes de genocídio, contra a humanidade e de guerra (CÂMARA DOS DEPUTADOS, 2013).

No Título VI foram previstas as normas processuais do anteprojeto, destacadas a seguir. Os crimes em questão se fundam em tratado internacional sobre direitos humanos e atentam contra os interesses da União. A ação penal para os crimes previstos nesta lei é pública incondicionada. As normas processuais concernentes à limitação do número de testemunhas e aos prazos não se aplicam aos crimes desta lei, cabendo ao juiz determiná-las de acordo com cada caso. Se o investigado estiver preso, a sentença deverá ser proferida no prazo máximo de dois anos. Nos crimes onde houver concurso de agentes, organização criminosa, quadrilha ou bando, o juiz poderá reduzir a pena, de um terço a dois terços, do agente que colaborar de forma espontânea, a fim de esclarecer as infrações cometidas, os demais autores ou partícipes, assim como a localização de vítimas ainda com vida. Haverá proteção às vítimas, testemunhas e réus colaboradores (CÂMARA DOS DEPUTADOS, 2013).

Por fim, o Título VII apresentou as disposições acerca da cooperação com o Tribunal Penal Internacional, ressaltando que a cooperação com o TPI independe de homologação e compreende a prisão preventiva e entrega de pessoa, a prisão preventiva antecipada e outras formas de limitação de liberdade, assim como outras formas de cooperação. A autoridade designada para prestar a cooperação preservará o sigilo sempre que for necessário. A inexistência de procedimento interno é irrelevante para a realização da cooperação. Se houver concorrência entre o pedido de entrega e um pedido de extradição sobre a mesma pessoa, a requisição de entrega prevalecerá sobre o pedido de extradição. O Supremo Tribunal Federal (STF) poderá expedir mandado de prisão preventiva antecipada, se for requisitada pelo TPI e atendidos os requisitos, bem como poderá relaxá-la se não tiver recebido, no prazo de sessenta dias a contar da data da prisão, a requisição de entrega e os documentos que a instruem. A execução de pena privativa de liberdade em território nacional, imposta pelo TPI, será cumprida em estabelecimento prisional federal. A pena executada em território nacional somente poderá ser alterada pelo TPI. A execução de multa ou perda de bens observará a legislação nacional, sendo os valores arrecadados imediatamente remetidos ao TPI, deduzindo-se as despesas com a arrecadação, administração e remessa (CÂMARA DOS DEPUTADOS, 2013).

Ademais, o projeto previa, ainda, uma nova redação do artigo 7º do Código Penal, o acréscimo do artigo 10-A ao Código Penal Militar, e a revogação da alínea “d” do inciso I do artigo 7º do Código Penal, da lei no 2.889, de 1956, e dos artigos 208, 395, 401, 402 e 406 do Código Penal Militar. Com observância à Constituição Federal, a Lei passará a vigorar na data de sua publicação, conforme o artigo 131 do anteprojeto (CÂMARA DOS DEPUTADOS, 2013).

Na Comissão de Constituição e Justiça e de Cidadania, o Relator, deputado Antonio Carlos Biscaia, em seu voto, destacou que algumas questões constitucionais já foram suscitadas acerca da compatibilidade material do TPI com a nossa Constituição. A primeira indagação foi concernente ao fato de a atuação complementar do Tribunal, após o término dos procedimentos internos, ferir, ou não, a coisa julgada. A segunda disse respeito à possibilidade de, por meio de tratado, o Brasil ampliar o rol dos crimes imprescritíveis previstos no art. 5º, XLII e XLIV, da Constituição Federal. Já a terceira indagação, por sua vez, referiu-se ao fato de que a entrega de um brasileiro nato à jurisdição do TPI poderia ofender a norma constitucional que veda a extradição de nacionais. Por último, questionou-se se a possibilidade de imposição de prisão perpétua pelo Tribunal não conflitaria o artigo 5°, XLVII, alínea “b”, da Constituição (CÂMARA DOS DEPUTADOS, 2013).

De acordo com o entendimento do Relator, todos estes questionamentos foram superados no momento da aprovação do Estatuto de Roma. O artigo 4° da Constituição Federal dispõe que o Estado Brasileiro observa o princípio da prevalência dos direitos humanos e a cooperação entre os povos para o progresso da humanidade; e o artigo 7° do Ato das Disposições Constitucionais Transitórias já havia previsto o compromisso do Brasil em trabalhar para a criação de um Tribunal Internacional dos direitos humanos. Ademais, a Emenda Constitucional n° 45 acrescentou o § 4° ao artigo 5° da Constituição Federal, pelo qual o Estado brasileiro se submete à jurisdição do Tribunal Penal Internacional, além de ter atribuído status constitucional aos tratados e convenções internacionais referentes aos direitos humanos (CÂMARA DOS DEPUTADOS, 2013).

Essa argumentação preliminar serviria para afastar alguns entendimentos que poderiam ser realizados em relação à constitucionalidade de alguns dispositivos dos Projetos de Lei em questão. Destarte, o Relator destacou que se a ampliação do rol dos crimes imprescritíveis não for incompatível com os tratados de direitos humanos assinados pelo Brasil, não é vedada a ampliação deste; e que os crimes de genocídio, crimes de guerra e contra a humanidade, descritos nos projetos, atendem o desejo do Constituinte originário de tornar imprescritíveis as ações de grupos armados, civis ou militares, contra a ordem

constitucional e o Estado Democrático de Direito, conforme o artigo 5°, XLIV, da Constituição. O Relator ressaltou, ainda, que o fato de o crime de genocídio já ter sido tipificado no artigo 208 do Código Penal Militar não impede nova tipificação na legislação comum (CÂMARA DOS DEPUTADOS, 2013).

O Relator dispôs, ainda, que os projetos de lei nº 301/07 e 4.038/08 contêm alguns vícios de injuridicidade. Acerca dos comentários e sugestões de alterações dos Projetos, o Relator dispôs que a pena prevista no artigo 10, § 1°, do PL n.º 301/07 (“Quem, pública e diretamente, incitar o genocídio”) fere os princípios de razoabilidade e proporcionalidade, haja vista ser a mesma pena que o próprio crime de homicídio (previsto no artigo 121 do Código Penal). O Relator argumenta, ainda, que, por mais reprovável que a conduta seja, a incitação do genocídio não possui a mesma gravidade que o homicídio, razão pela qual propôs que a pena aplicada a este caso utilizasse como parâmetro a pena prevista para o crime de racismo. Nesse mesmo sentido, ressaltou que o artigo 2º do PL n.º 4.038/08 quebra a simetria em relação ao tratamento diferenciado entre o crime consumado e o crime tentado e que o artigo 3º é injurídico, pois anula os efeitos do arrependimento posterior (CÂMARA DOS DEPUTADOS, 2013).

Outrossim, o deputado Relator destacou que a Emenda n.º 01 é oportuna, no que diz respeito à definição das situações necessárias para que o crime seja considerado militar. Conforme o parecer do Relator, ambos os Projetos de Lei carecem de técnica legislativa, tendo em vista que utilizam a expressão “e dá outras providências” em suas ementas e o fato de o PL 301/07 não ter indicado a data de início da vigência da nova lei. Não obstante às vicissitudes dos projetos de lei, o voto do Relator foi pela aprovação, com emendas, de ambos os projetos, na forma do substitutivo que anexou ao voto (CÂMARA DOS DEPUTADOS, 2013).

Em 23 de abril de 2009, a Comissão decidiu, unanimemente, pela constitucionalidade, juridicidade, técnica legislativa e pela aprovação do Projeto de Lei nº 301/2007, do de nº 4.038/2008 (apensado), e das Emendas propostas pela Comissão de Relações Exteriores e de Defesa Nacional, com substitutivo, conforme o parecer do Relator. Atualmente, o substitutivo, adotado pela Comissão de Constituição e Justiça e de Cidadania, ao projeto de lei no 301/07 (ao qual foi apensado o projeto de lei no 4.038/08) encontra-se na pauta da Câmara dos deputados, sendo classificado “com urgência” (CÂMARA DOS DEPUTADOS, 2013).

5.4 ANÁLISE SOBRE A APLICAÇÃO DOS MEIOS INTERNACIONAIS DE COIBIÇÃO DE GENOCÍDIO NO DIREITO BRASILEIRO

Tendo em vista os meios internacionais de coibição do crime de genocídio, no que tange ao Estado brasileiro, cabe destacar a relevância de sua participação na Organização das Nações Unidas (ONU), com base no fato de esta ser uma organização inovadora, e que muito contribui, e tem contribuído, para a promoção dos direitos humanos e das relações interestatais pacíficas. Logo, o país, como Estado parte que busca a dignidade da pessoa humana, ratificou diversas convenções acerca dos direitos humanos, especialmente no que concerne ao direito de minorias, de pessoas que possam sofrer algum prejuízo ou preconceito na sociedade.

Ademais, a OEA (Organização dos Estados Americanos) também possui especial importância nesse aspecto, haja vista o seu comprometimento com a defesa dos direitos humanos e o fato de a Declaração Americana dos Direitos e Deveres do Homem ter inspirado a Declaração Universal dos Direitos Humanos, documento este que é tão renomado e aclamado, abrangendo uma série de direitos considerados essenciais ao ser humano. O Brasil como país-membro da organização cumpre o seu papel de reafirmar os direitos já garantidos constitucionalmente e reconhecer a existência de direitos que são intrínsecos à pessoa humana.

O compromisso de cooperação com um tribunal internacional de direitos humanos, que o Estado brasileiro havia previamente expressado no ato das disposições transitórias, se tornou mais concreto com a aprovação nacional do Estatuto de Roma e a submissão à jurisdição do Tribunal Penal Internacional.

A Convenção sobre a Prevenção e Punição do Crime de Genocídio e o Estatuto de Roma constituem os principais instrumentos internacionais de coibição do crime de genocídio ratificados pelo Brasil, os quais foram internalizados no direito brasileiro (passando a compor o ordenamento jurídico nacional, juntamente com a Lei brasileira do Genocídio), com força de norma supralegal, a partir da publicação do Decreto no 30.822, de 6 de maio de 1952, e do Decreto nº 4.388, de 25 de setembro de 2002, respectivamente.

Tendo em vista que a Convenção de 1952 previa a necessidade de adaptação das legislações internas dos Estados que a aderiram, assim como o estabelecimento de sanções penais aos casos considerados puníveis pela Convenção, a Lei nº 2.889 (“Lei do Genocídio”), de 1 de outubro de 1956, veio cumprir a responsabilidade assumida pelo Estado Brasileiro com o Decreto nº 30.822, de 1952.

Posteriormente, em 1969, o Código Penal Militar trouxe em seus artigos 208, 401 e 402, disposições acerca do crime de genocídio, considerado, para efeito da aplicação do CPM, crime militar, situação esta que ainda não havia sido prevista pela Lei do Genocídio.

Todavia, as disposições acerca do crime de genocídio, e demais crimes considerados contra a humanidade, somente ganharam força e sofreram considerável progresso com o Estatuto de Roma, de 1998, o qual instituiu o Tribunal Penal Internacional, que passou a vigorar em 2002.

Em relação ao direito material, cabe destacar que os crimes previstos no Estatuto de Roma são inseridos na legislação dos países conforme o ordenamento jurídico interno destes. No ordenamento brasileiro, o Estatuto foi incorporado com status de norma supralegal por tratar da proteção dos direitos humanos30. Logo, um acusado de crime contra a humanidade (que ainda não possui previsão no Código Penal ou Lei específica), por exemplo, não poderia se escusar da pena, alegando que o fato é atípico, pois no momento em que o Estatuto foi internalizado no direito brasileiro este passa a prevalecer sobre as demais leis, sendo hierarquicamente inferior à Constituição.

Com a internalização do Estatuto de Roma do TPI, as disposições, que antes constituíam tratado, passaram a incorporar o direito nacional. Logo, os crimes que não haviam sido previstos na legislação nacional, mas que foram previstos pelo Estatuto do Tribunal, passaram a incorporar o rol de crimes puníveis pelo direito brasileiro.

Todavia, faz-se necessário a diferenciação em relação ao direito processual, pois, no que concerne aos meios de julgamento dos crimes internacionais, o Tribunal Penal Internacional possui caráter complementar, e não substitutivo. Logo, se o Poder Judiciário Nacional mostrar-se inerte, a jurisdição do TPI para o processamento e julgamento dos acusados poderá ser acionada.

Apesar de a Lei nº 2.889, de 1956, ter representado um marco nacional, no que concerne ao intuito de repúdio, repressão e criminalização do genocídio, atualmente ela apresenta-se incompleta, tendo em vista os inúmeros avanços em estudos sobre o tema e a inovação jurídica trazida pelo Estatuto que criou o Tribunal Penal Internacional.

Com base na ausência de dispositivos legais que atendessem à proposta (e trouxessem maior efetividade) do TPI, dois Projetos de Lei foram elaborados (PL no 301-A,